Em Maví, Marco Lucchesi faz de sua poesia uma busca pelo outro

RESENHA

Em Maví, Marco Lucchesi faz de sua poesia uma busca pelo outro

por André Rosa
23 de novembro de 2022
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Confira resenha do mais recente livro do poeta carioca Marco Lucchesi, Maví, lançado este ano pela Editora Penalux

Autor de quase trinta livros, o poeta carioca Marco Lucchesi construiu a sua obra sobre um ponto de diálogo permanente. Seus versos são atravessados por um vendaval de encontros e influências vindas de várias partes do mundo, translado possível graças ao seu domínio sobre mais de vinte idiomas, num trajeto que vai de Bizâncio à Bulgária, da Turquia à Espanha, da Itália à Síria, ombreando ocidente e oriente num só corpo comum.

Em Maví (Editora Penalux, 2022), seu mais recente livro de poemas, esse leque se estende desde “as bodas místicas / em mar de asfalto” de São Paulo até as “águas turvas do Ganges”, na Índia. São versos que eliminam a distância física entre os países e a simbólica entre as culturas, entre os homens. Sem dúvida, algo curioso quando constatamos que são poemas escritos no decorrer de um longo período de pandemia, que, por razões sanitárias, separou pessoas que dividiram os mesmos espaços. Contra os muros, contra a distância que separa, Lucchesi introduz a primeira parte de seu livro com um verso do poeta hindu Manglesh Dabral: “De muito longe, é possível tocar”.

Dividido em duas partes, “Toque” e “Centro”, o livro se compõe de dezoito poemas permeados por sentimentos como a solidão, a ausência, a inquietude e por uma interminável busca do eu, tanto do corpo físico (“Não deixo de buscar o corpo que encontrei”) quanto da alma em alteridade (“Eu me lancei no espelho atrás de ti”). Nesta epopeia do espírito, em que eu-lírico da poesia lucchesiana busca reconhecer no outro a si próprio (“filhos do plural”), a sua busca é profundamente pessoal, como nos versos de chamamento que rompem a escuridão à procura do poeta: “Ouço uma voz fatal / na escuridão: / Marco, Marco, / por que te persegues?”.

Imagem: Divulgação

A palavra “Maví”, que em turco significa “azul”, traz em sua sonoridade o sentido ambíguo dos versos de Lucchesi, pois também soa como “ma vie”, do francês “minha vida”. Na poesia, o azul é um símbolo quase cabalístico, como no signo erótico dos primeiros versos do Poema Sujo, de Ferreira Gullar, ou sob o tema do soneto L’Azur, de Baudelaire. Azul foi o período de luto de Pablo Picasso, que se traduziu em cor dominante numa série de quadros. Azul também são os signos aos quais o poeta Marco Lucchesi se consagra em seu poema “São Paulo”. A escolha pelo azul talvez se justifique pela totalidade, por ser essa a mais profunda das cores, onde o olhar mergulha sem encontrar qualquer obstáculo, perdendo-se no infinito, como escreveu o filósofo Jean Chevalier.

Em sua busca pelo outro, que é também uma busca por si mesmo, Lucchesi é trezentos, como foi também um outro poeta querido da língua brasileira. Em seus poemas brilham uma constelação de autores, leituras solitárias e solidárias que se incorporam à pluralidade que há de salvar o Brasil, como sintetizou em seu manifesto ensaístico Cultura da paz (2020).

Em Maví, Lucchesi escreve sob a pena de Ghalib e sob o signo de Shah Hussain, poetas do detalhe. Em meio às “sonâmbulas praias feridas pelo vento”, que poderiam ser na Moçambique de Mia Couto ou nas praias antigas de Icaraí, o poeta se deixa envolver pelo fluxo incessante de referências como Don Giovanni, de Mozart, no pêndulo ocidental, ora pelo ciclo hinduísta formado por Samsara, Ganges, a “miragem” nos “dispersos areais” do deserto, o Atlas, ou mesmo o mantra hinduísta e budista “OṂ”, sílaba sagrada do épico Mahabharata que fecha o poema “Adeus”.

Poeta do diálogo, desde sempre em Lucchesi tudo é exílio – as referências cosmopolitas que o cercam e o formaram, a visão de mundo aberta à compreensão do olhar e da língua do outro, a literatura universal goetheana como missão de paz entre os povos. Que a sua afeição ao mundo o conduza ao exílio, não é por desterro: pelo contrário, a sua pátria é o mundo; e a sua escrita, que já se expressou em tantos idiomas distintos, é a sua morada.

 

André Rosa é mestrando em literatura comparada pelo PPGCL-UFRJ/Capes e tradutor.



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