Em tempos de ódio e negacionismo rir é um ato de resistência

Luto

Em tempos de ódio e negacionismo rir é um ato de resistência

por Rachel Gouveia Passos
5 de maio de 2021
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O falecimento de Paulo Gustavo, ator e comediante, que se foi no último dia 04 de maio, representa essa negação do direito ao riso

Vivemos um período de intensa aridez em nosso país e rir tornou-se um ato de resistência. A aniquilação dos afetos, dos abraços e das confraternizações não são apenas provocados pelo distanciamento social que o cuidado em saúde demanda para enfrentarmos o “não tão novo” coronavírus. A estratégia adotada pelo governo federal segue reafirmando a destruição da população pelo discurso e atos negacionistas, e, como consequência, estamos perdendo a possibilidade de rir.

Ao negar a experiência da alegria e sua manifestação pelo ato de rir temos a propagação da desesperança e da tristeza, o que acarreta uma paralisação para mudarmos o presente e planejarmos o futuro. A comédia cumpre um papel fundamental em uma realidade dura e perversa, possibilitando que o real possa ser visto por um outro ângulo. E aqui não trazemos o cômico como oposição ao trágico, como trabalha o professor Henrique Bezerra de Souza em seu artigo “Pelo direito de rir: uma análise do local da comédia nas teorias teatrais”, mas como um “alívio do espírito” e, dessa forma, não sermos tomados pela tragédia que, inclusive, está colocada como permanente para todos nós.

O cômico possui seu lugar político e pode produzir inquietações e problematizações importantes. Entretanto, sinalizamos a magnitude do riso do banal ou melhor o “riso pelo riso”.  A intensificação das tragédias traz para a cena diária a dor, a angústia e a tristeza como permanentes, nos distanciando da esperança, da alegria e dos afetos como possibilidades concretas. E isso é uma estratégia política e econômica de aniquilação da existência que não é nova, mas que ganha contornos próprios em tempos pandêmicos.

Ilustração Petit Abel – Reprodução/Instagram

No livro “E eu não sou uma mulher?”[1], a autora narra algumas das experiências traumáticas de mulheres e homens negros que estiveram a bordo de navios negreiros e que ali vivenciaram as primeiras etapas de um processo de destruição da dignidade humana. Para produzir aniquilamento subjetivo na população negra os escravizadores adotavam técnicas de tortura e diversos castigos, além de um discurso desumanizador. “Um escravizado poderia ser severamente espancado por cantar uma música triste”, demonstrando que a castração dos sentimentos faz parte da estratégia de dominação.[2]

Ao retomarmos as táticas adotadas pelos escravizadores identificamos o quanto que o silenciamento e a aniquilação subjetiva são fundamentais para a perpetuação de discursos de ódio que desumanizam o outro. Esse ódio que expropria a existência segue reafirmando a morte – subjetiva e física – como única possibilidade.

A materialização disso no atual cenário está expressa pela morte por Covid-19 de mais de 400 mil brasileiros, demonstrando que quando esse discurso ocupa a cena principal vemos repercussões avassaladoras de silenciamento. Mas não são apenas os mortos que calam. A expropriação contínua está perpetuando a falta de tempo para elaborarmos as perdas e os lutos que cada vez mais são impedidos em nome da produtividade. Com isso, também nos negam a possibilidade de sair da tragédia e de vivenciar a comédia, não nos deixando folga alguma para desfrutar o “riso pelo riso”.

Estão matando diariamente a comédia e tirando o direito ao riso. Não nos falta apenas pão, vacina e emprego. Estão matando diariamente a comédia e tirando o direito ao riso. O falecimento de Paulo Gustavo, ator e comediante, que se foi no último dia 04 de maio, representa essa negação do direito ao riso. Arrancar a comédia de um povo marcado pelo silenciamento, pela dor e de poucas possibilidades nos mostra o quanto o discurso de ódio e negacionista precisa ser barrado. Ou esperaremos até as últimas consequências?

Rachel Gouveia Passos é assistente social. Professora adjunta da Universidade Federal do Rio de Janeiro, colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Política Social da Universidade Federal Fluminense, autora e organizadora de algumas obras sobre saúde mental e as relações de gênero, raça e classe.

[1] bell hooks. E eu não sou uma mulher? Mulheres negras e feminismo. Editora Rosa dos Tempos, Rio de Janeiro, 2019.

[2] p. 43



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