LITERATURA

Entre a memória do sertão e a resistência coletiva, Francisco Leite Duarte transforma a seca de 1932 em fábula política.

Obra une regionalismo e realismo mágico para discutir desigualdade, abuso de poder e a força dos que se recusam a se curvar

Em O Sibito Baleado (Faria e Silva, 2026), o escritor, jurista e auditor-fiscal aposentado Francisco Leite Duarte revisita o sertão paraibano de sua infância e transforma a seca de 1932, em cenário para uma narrativa sobre autoritarismo, desigualdade, manipulação da verdade e resistência coletiva.

Ambientada no alto sertão da Paraíba, durante a histórica seca de 1932, a narrativa se desenvolve em uma estrutura espelhada que entrelaça o plano humano e o dos pássaros. Enquanto as pessoas sofrem com a fome e a opressão política na terra, as aves da região, cansadas de pagar um imposto abusivo em sementes estipulado pelo tirano Guiratinga para poderem beber água, decidem organizar uma revolução.

O líder desse levante é Fubica, um sibito (cambacica) de perna e asa quebradas que foi resgatado pelo menino Binga e pelo fazendeiro Pedro Bicudo, protagonistas da parte humana do romance. Magro, franzino e audacioso, características que dão origem à expressão popular nordestina que intitula o livro, Fubica vê seu discurso, feito inicialmente para impressionar uma pretendente, transformar-se em um exército revolucionário que sela pactos históricos para derrubar a tirania vigente.

Nascido na zona rural de Uiraúna, no alto sertão da Paraíba, Francisco Leite Duarte é filho de agricultores analfabetos e percorreu quilômetros a pé durante a infância para estudar. Formado em Direito pela UFPB, com mestrado em Direito Econômico e doutorado em Direitos Humanos e Desenvolvimento, atuou por mais de 30 anos como auditor-fiscal da Receita Federal. Atualmente, é advogado tributarista, professor da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) e colunista do Portal MaisPB. Na entrevista abaixo, Francisco Leite Duarte fala sobre as origens de O Sibito Baleado, o processo de construção da narrativa e a escolha pelo realismo mágico regionalista.

Crédito: Divulgação

Quais são os principais temas e questões que atravessam O Sibito Baleado?

O livro se constrói como uma fábula política e social ambientada no sertão nordestino em 1932, estabelecendo um paralelo entre o mundo humano e o avicular para discutir a realidade da região, por isso é frequentemente comparado a uma espécie de A Revolução dos Bichos do Agreste. Nessa chave, a narrativa expõe as dinâmicas de abuso de poder, opressão e as artimanhas usadas pelas figuras dominantes para sabotar levantes populares, ao mesmo tempo em que mostra homens e bichos unindo forças numa revolução conjunta contra essa opressão. A obra debate como a justiça social pode parecer utópica ou inalcançável, mas reforça que a persistência nessa luta é indispensável para a sobrevivência, e soma a isso uma camada de pós-verdade: o enredo aborda boatos, mentiras e estratégias de desinformação (fake news) como ferramentas de sabotagem e controle político.

Essa trama se desenrola sobre o pano de fundo da seca, da fome e da dura realidade geográfica do sertão, dialogando com o romance regionalista de 1930, mas inovando ao introduzir elementos de realismo mágico, lirismo e uma conexão mística entre humanos e natureza. Por fim, o livro também é atravessado por amor, desejo de liberdade e escapismo: a faísca da liderança revolucionária do protagonista, o passarinho Fubica, nasce do desejo de conquistar o amor, enquanto o menino Binga encarna a fantasia de fuga ao sonhar em se transformar em pássaro para voar e escapar da realidade brutal do solo firme.

O que levou você a escolher esses temas e de que forma sua trajetória pessoal influenciou essa escolha?

Em O Sibito Baleado, a escolha de fundir o regionalismo nordestino ao realismo mágico nasce de razões que conectam minha própria origem à necessidade de renovação literária e denúncia sociopolítica. Nasci e vivi até os 18 anos na zona rural do alto sertão da Paraíba, filho de agricultores analfabetos, e utilizei a literatura para registrar a vivência e a alma do povo sertanejo, pois sou um sertanejo da gema. O livro dialoga com clássicos regionalistas como Vidas Secas e A Bagaceira, mas rompe com o tom puramente documental e pessimista daquela época: introduzi o realismo mágico para criar uma fábula em que homens e bichos se unem não para fugir, mas para lutar contra a tirania, o desmando, a injustiça e as mentiras dos poderosos. A trama aborda ainda temas universais e contemporâneos, como o abuso de poder, a opressão, a retenção de recursos básicos (água e comida) pelo tirano Guiratinga e a disseminação de fake news.

Ao transformar a menor ave da região, o sibito Fubica, no líder de uma revolução contra a tirania, construí o que Santiago Nazarian definiu como uma “Revolução dos Bichos do Agreste”, uma metáfora da resistência e da força da coletividade. O próprio título resgata uma expressão tipicamente nordestina, “sibito baleado”, usada para descrever alguém muito magro, mas extremamente ativo e inquieto, reforçando o orgulho linguístico e a inventividade do Nordeste. No fim, o romance mostra que a luta pela justiça é indispensável, mesmo quando parece inalcançável.

Como foi o processo de transformar a ideia inicial em um romance e quanto tempo levou até chegar à versão final da obra?

Eu havia escrito um conto fantástico com esse título (O sibito baleado) e publicado no facebook. A escritora Samara Nunes, uma escritora talentosíssima, descobriu esse conto e teceu muitos elogios, dando a autoestima ao escritor incipiente.

Embora já seja um homem longevo, sou um escritor que começou a publicar somente em 2019, um livro de memórias chamado Os longos olhos da espera (gratuito na Amazon), uma chave importante para se ler O sibito baleado.

A partir disso, fui, paulatinamente, acrescentando camadas àquele conto, até se tornar o que é hoje, um romance. Houve muitas paradas, afinal eu, desde os meus 18 anos, sempre trabalhei 3 expedientes. Minha literatura surge assim, entrecortada, pausada, construída nos tempos de repouso.

Quais reflexões sobre poder, resistência, coletividade e justiça social você espera provocar nos leitores por meio de O Sibito Baleado?

O romance utiliza a alegoria e o realismo mágico para transmitir lições profundas sobre sociedade, poder e a natureza humana. As principais mensagens passadas pela obra são:

A força da união coletiva: A narrativa prova que a opressão de um tirano poderoso só pode ser vencida quando a comunidade (homens, animais e flora) se une por um objetivo comum.

Resistência contra o abuso de poder: O livro denuncia como tiranos utilizam o controle de recursos vitais (como água e comida) e a disseminação de mentiras para dominar os mais fracos.

A coragem não depende do tamanho: Através do sibito Fubica, a menor ave do agreste que lidera a revolta, a obra mostra que o tamanho físico ou a vulnerabilidade inicial não limitam a capacidade de liderança e transformação social.

Esperança e renovação diante da escassez: Mesmo no cenário árido e sofrido do sertão, a fábula reforça que a solidariedade e a busca por justiça social mantêm a dignidade do povo viva.

O que O Sibito Baleado representa na sua trajetória como escritor e na relação com suas próprias origens?

Os Longos Olhos da Espera, livro gratuito na Amazon, é a chave para entender O Sibito Baleado, juntos marcam minha jornada de reconexão com as origens e de maturidade literária. O primeiro olha para trás de forma documental, como a literatura regionalista de 30, registrando minha infância humilde no sítio, na zona rural do alto sertão paraibano, e os sacrifícios que fiz para estudar; o segundo projeta essa mesma realidade em forma de mito, transformando a dor e a privação em resistência lúdica, em que o sertão ganha universalidade pelo realismo mágico. Na nova obra dou um troco poético a essa realidade, projetando o menino que andava no breu do sertão para estudar na cidade no pequeno pássaro sibito, miúdo e vulnerável, mas capaz de desafiar os tiranos. Ao publicar as memórias, validei a história dos meus pais agricultores; ao lançar a fábula do sibito, busquei provar que o sertão e a linguagem nordestina merecem lugar na literatura contemporânea de alta complexidade.

Como sua trajetória de escrita e os livros que publicou anteriormente contribuíram para a construção de O Sibito Baleado?

Desde os meus 18 anos escrevi poesias, tendo uma dificuldade gigantesca em construir textos longos em prosa; minha primeira tentativa, mal feita, foi inspirada em O Escaravelho do Diabo, livro que encontrei na casa de uma vizinha em Sousa, PB, onde eu costumava assistir televisão, já que em minha casa não havia TV. Para cursar o primário, eu saía a pé da zona rural para a cidade e muitas vezes tentava morar na própria cidade, ficando de casa em casa de pessoas conhecidas ou desconhecidas, tendo morado em mais de oito casas nesse período em Uiraúna. Em 2018 comecei a publicar no Facebook pequenas crônicas sobre minha infância e as dificuldades enfrentadas, material que em 2019 resultou no livro de memórias Os Longos Olhos da Espera, fundamental para que minha escrita se tornasse viva, fluida e segura; logo depois vieram a coletânea de contos Crimes de Agosto, os romances A Vovó É Louca e O Pequeno Davi, dois livros de crônicas e agora O Sibito Baleado. Digo com segurança que O Sibito Baleado é a culminância dos livros produzidos antes, pois deixa o tom meramente documental de Os Longos Olhos da Espera, consolida o realismo mágico já presente em O Pequeno Davi e imprime uma nova camada à literatura regionalista dos anos 30, dando ao sertanejo o espírito de luta, e não a simples passividade ou fuga daquela literatura.

Como você define o gênero literário de O Sibito Baleado e quais características desse gênero estão mais presentes na obra?

Considerando o conjunto da nossa obra, o gênero predominante é a ficção narrativa contemporânea, com forte inclinação para o realismo mágico e a literatura regionalista: somos essencialmente um hibridista literário, que transita entre a memória real e o fantástico para discutir a condição humana. Essa identidade se apoia em dois pilares ficcionais. O primeiro é o realismo mágico e a fabulação, marca mais forte de nossas narrativas, que insere o extraordinário e o poético no cotidiano para criar metáforas sociais; O Sibito Baleado é o ápice dessa vertente, fundindo elementos da seca nordestina a uma fábula alegórica em que animais ganham voz e lideram revoluções, enquanto O Pequeno Davi, nosso romance de estreia, mescla mundos fantásticos com drama, horror e sensibilidade. O segundo é o regionalismo nordestino moderno, herdeiro da tradição do Romance de 30, de Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos, mas renovado pela ambientação no sertão da Paraíba, pelo uso de expressões típicas e pelo retrato da luta contra a opressão e a escassez.

Quando nos afastamos da ficção pura, voltamos para a literatura de memória e a crônica do cotidiano, focando no íntimo e no social através do registro histórico e afetivo. Os Longos Olhos da Espera pertence ao gênero memorialista, da autobiografia, enquanto os contos e crônicas, como Crimes de Agosto, pertencem à narrativa curta, explorando a prosa poética, o cotidiano e as complexidades das relações humanas.

O que influenciou a escolha pelo realismo mágico regionalista em sua escrita?

Não sei ao certo as razões dessa configuração estilística. Talvez o fato de ter ouvido muitas vezes papai contando seus “causos” sentado em uma rede nas noites de debulha de feijão, ou quando ouvia as leituras de cordel, tenham me conduzido para o realismo mágico regionalista. Sei também que fiquei fascinado quando li Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Marques.

Enfim, uma mistura de fatores, mas a minha origem sertaneja é o que mais pesou.

Como disse, desde muito jovem, escrevi poesias, mas nunca as publiquei. Meu primeiro livro é de prosa, os longos olhos de espera, escrito em 2019.

Enfim, nosso gênero pode ser resumido como um realismo mágico regionalista, onde o cenário geográfico e as dores reais do Nordeste servem de palco para histórias fantásticas de superação e justiça social.

Quais referências contribuíram para a construção da sua trajetória literária?

A revolução dos bichos, O quinze, Vidas secas, A bagaceira, o cordel que papai comprava na feira livre de Uiraúna, o realismo mágico latino-americano, Mia Couto e, naturalmente, nosso conterrâneo Ariano Suassuna.

Como você definiria seu estilo de escrita e de que maneira ele se manifesta na construção de O Sibito Baleado?

O estilo de O Sibito Baleado é marcado pela prosa poética, pela audácia linguística e pelo hibridismo cultural, fundindo o lirismo regional ao absurdo do realismo fantástico numa narrativa visceral, estruturada como fábula política de resistência. O texto transborda o vocabulário, as expressões típicas e a oralidade do sertão da Paraíba, a começar pelo próprio termo “sibito baleado”, herdeiro dessa tradição linguística nordestina; mesmo ao retratar a miséria da seca e a crueldade da fome, a escrita mantém cadência elevada, suavizando a aspereza da realidade através de metáforas sensoriais sobre a fauna e a flora do agreste. A isso soma se um tom de sátira e ironia política, humorístico e afiado, usado para caricaturar o abuso de poder e traçar paralelos entre os tiranos humanos e as dinâmicas sociais da região.

Já a estrutura da obra conecta o microcosmo do sertão a temas universais de poder e sobrevivência por meio de um paralelismo antropomórfico, em que o mundo humano e o mundo avicular se entrelaçam continuamente e as ações das aves mimetizam e desafiam as estruturas sociais impostas pelos homens. Essa alegoria fabular, próxima da dinâmica de A Revolução dos Bichos, de George Orwell, acompanha a ascensão do sibito Fubica, que parte da vulnerabilidade de ser a menor ave do agreste até se tornar o líder militar e político que comanda a Serra do Desterro rumo à tomada de Uiraúna. O enredo é amarrado por um conflito dual: de um lado, a seca de 1932 somada à opressão do tirano Guiratinga, que retém água e alimentos; de outro, o instinto de sobrevivência coletiva que impulsiona a revolta.

Quais são seus próximos projetos na literatura e o que você pretende publicar daqui para frente?

Um romance, que já está em fase adiantada. Se chamará o Demônio de Laplace. Publicar alguns livros de crônicas, faltando apenas selecioná-las. Coragem para publicar um livro de poesias. Tenho muitas, mas nem sei por que elas ainda estão guardadas.

 

Veriana Ribeiro é jornalista e escritora acreana com mais de 15 anos de experiência na área da comunicação, formada pela Universidade Federal do Acre (UFAC) e mestre em Meios e Processos Audiovisuais pela Universidade de São Paulo (USP). Publicou o livro Coletânea dos Amores Partidos (autopublicação, 2021) e participou da coletânea Antes que eu me esqueça \ 50 autoras lésbicas e bissexuais hoje (Quintal Edições, 2021), além de escrever projetos literários independentes como zines e newsletters.

Leia mais sobre o tema: