Entre a narrativa colonial e a cartografia ancestral - Le Monde

COMUNIDADES ANCESTRAIS AFRICANAS

Entre a narrativa colonial e a cartografia da ancestralidade

por Camillo César Alvarenga
4 de outubro de 2021
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Enquanto Fernando Pessoa configura um universo mítico e a narrativa de supremacia ocidental na representação de um império ibérico internacional português colonizando a visão de mundo num quadro antinegro, Mateus Aleluia cartografa lugares existenciais para a subjetividade e sensibilidade africana em diáspora filosófica e ritual

“Amigo, minha mãe é feita

no Lobanekun Filho e nossa Roça

é depois do Viva Deus.”

Quando em junho, foi sacado no templo de Orumilá em Ilê Ifé, o Odu Ose Okanran, estávamos na primeira Osupa – lua, em iorubá – do ano novo nagô. Nesse Odu respondem Orí, Ifá, Xangô, Ogun, Egbé.

Anseio ancestral se levanta mais uma vez contra desconcertos históricos e abre caminhos para dinamizar as lutas por direitos e garantias fundamentais das populações de matriz africana na região do Recôncavo baiano. Ante as ameaças e violações aos direitos humanos e territoriais que colocam em risco os cultos e práticas rituais da cultura africana no Brasil, apresentam-se complexas questões sob o prisma do patrimônio material e imaterial para os povos de terreiros, sujeitos políticos de direitos e agentes do sagrado dos territórios de comunidades tradicionalmente ocupados.

Em função da paisagem construída pelo processo de formação e expansão da máquina-de-guerra colonial, que tratora a realidade, os conflitos entre corpos, exércitos e imaginários, expressões de potências e discursos que expressam pontos de vista de um sujeito histórico que “canta a sua aldeia”, à existência de um solo natal e natural, mítico e ancestral, terras postas entre Brasil e Portugal, África, Europa e América pré-colombiana.

Essa experiência, por parte de comunidades tradicionais e, em especial, dos povos de terreiros[1], de compor um mundo com seus dons mágico-espirituais, os deuses-ancestrais e dobras tempo-espaciais a recompor em si e por meio de seus parentescos, a questão da terra através dos sentidos atribuídos à natureza, desde o legado da invasão de terras ameríndias e da escravização de africanos à exclusão e falta de garantias fundamentais para a execução de direitos como o uso da terra.

Por meio de um conteúdo místico que, em disputas incessantes e ininterruptas, são exemplificados tanto pelo músico e compositor baiano Mateus Aleluia – nos atravessamentos ancestrais entre África e Cachoeira – quanto pelo poeta Fernando Pessoa – e as conexões imperialistas e coloniais de Portugal. Reconhecemos cada vez mais aspectos supremacistas do Ocidente, nos fazendo entender a centralidade da ancestralidade no pensamento que emerge com referente à cultura e ritualística africana, e que quando aberta ou finda a disputa na temporada de caça, o velho caçador ainda encontra os vestígios na terra dos caminhos percorridos pelos ancestrais – “onde dançou vondunsi”.

Enquanto Pessoa configura um universo mítico e a narrativa de supremacia ocidental[2] na representação de um império ibérico internacional português colonizando a visão de mundo num quadro antinegro, Mateus Aleluia cartografa lugares existenciais para a subjetividade e sensibilidade africana em diáspora filosófica e ritual, a partir dos extratos mnemônicos como na obra OrikiYabá, onde o autor retrata e descreve, ilumina e alude a formação do candomblé da Barroquinha.

A supremacia branca configura um universo ideológico e alienante, a narrativa da supremacia ocidental atua na representação de um império internacional colonial que captura a visão de mundo num quadro antinegro, negando-lhe direitos inscritos numa cartografia de territórios, regiões de materialidades existenciais para a expressão da subjetividade africana em diáspora, ritualmente articuladas a partir dos extratos do sangue e da memória de povos e nações africanas que indicam à formação das redes de sociabilidade dos africanos e seus descendentes por meio dos candomblés na região do recôncavo baiano e de todo o entorno da Baía de Todos os Santos, desdobrando daí o olhar para os processos de surgimento de algumas das mais antigas e importantes casas de candomblé do estado em sua gênese e genealogia dos antepassados.

Terreiro Ilê Axé Icimimó localizado em Cachoeira, na região do recôncavo baiano (Foto: Setur/BA)
O projeto “Patrimônio Sagrado do Recôncavo”

Os terreiros de candomblé centenários das cidades de Cachoeira e São Félix articularam-se em torno do projeto “Patrimônio Sagrado do Recôncavo”, contemplado pela lei Aldir Blanc – produto da pressão dos movimentos ligados a cultura, arte e identidade no Brasil. São eles: Asepò Eran Opé Olúwa – Viva Deus (1911); Humpame Ayono Huntológi (1952); Ilê Axé Itaylê (1935); Ilê Axé Ogunjá (1982); Inzo Nkosi Mukumbi Dendezeiro (1960); Ogodô Dey (1946); Aganju Didê – Ici Mimó (1917); Loba´ Nekun – Casa de Oração (1914); Lobanekun Filho (1962); e Raiz de Ayrá (1917). Importante frisar que a Associação Amigos de São Jerônimo, “entidade legal” do Ilê Axé Ici Mimó, na figura de Pai Duda de Candola, babalorixá da casa que, foi eleita como representante do coletivo junto aos outros nove terreiros.

A iniciativa permite o acesso ao financiamento público para artistas e para a cultura de forma desburocratizada. É importante frisar que antes essa população não conseguia cumprir as exigências da burocracia para acessar os recursos de políticas públicas por razão de direito repartido entre comunidades, grupos e populações etnicamente diversificadas.

No entanto, como no caso em questão das comunidades tradicionais e, em nosso caso, dos povos de terreiros, populações africanas, afro-indígenas, quilombolas têm em geral seus sentidos telúricos desviados por um verniz colonial que reveste sob o símbolo de patrimônio aquilo que é prática cotidiana da oralidade entre gerações, aquele bem que é segredo sagrado da memória transmitido no olhar entre uma geração e outra numa mesma cozinha. Salvaguardar o bem sob o efeito do título de patrimônio imaterial do estado da Bahia desde 2014, e nem realizar, nem operacionalizar os planos de salvaguarda das comunidades não se compara com séculos de salvaguarda cotidiana realizada desde muito antes do Estado propor ou oferecer alguma de política pública à preservação e à representação de uma organização da sociedade civil.

No caso do projeto em questão, estão incluídos ações como os 10 Planos de Salvaguarda, realizados pela antropóloga Andrea Lima Duarte Coutinho; o Levantamento Planialtimétrico, realizado pelo arquiteto e representante do Terreiro Viva Deus, Ramon Trigo; o site produzido pelo fotógrafo Tacun Lecy do Terreiro Raiz de Ayrá; os 10 videodocumentários  que já foram realizados pela jornalista Juliana Dias do Ilé Axé Ogunjá; e o livro “Vozes Sagradas”, coordenado pelo poeta, pesquisador e gestor cultural, João Vanderley de Moraes Filho, representante do Humpame Ayono Huntológi.

Pai Duda de Candola, filho de seu finado Candola, foi iniciado em 1997 e confirmado como Ogan do Xangô da casa – Xângo Aganju Ominazon Didê – e consagrado para Oyá com Xangô, o ogan teve sua iniciação determinada aos pés do akôkô. Seu Candola, o pai de Duda, tocava o terreiro Ici Mimó com a ajuda e apoio de Ogan Dezinho nos rituais seja, na casa de Exú ou com os demais orixás, bem como nas diversas matanças rituais necessárias ao equilíbrio da energia espiritual da casa e de seus membros.

Segundo consta no Sistema de Informação do Patrimônio Artístico e Cultural (Sipac) o terreiro possui o registro de tombamento como patrimônio imaterial, ao mesmo tempo em que já foi também tombado emergencialmente pelo Iphan. No entanto, o mesmo vem sofrendo seguidamente uma série de ataques e invasões em suas terras que se encontram em litígio judicial numa ação que corre em segredo de justiça, contra uma empresa que reivindica uma parte das suas terras.

O Direito, a Cultura e o Ancestral

O cenário e os caminhos apresentam as “vozes sagradas” atravessando como espectros os panoramas político, jurídico e institucional. Todo um território-rede de conexões cósmicas e cosmológicas, históricas e culturais, religiosas e rituais, técnicas e mitos, narrativas e relações de participações entre frequências, singularidades e parentescos se refletem por meio de relações políticas com o Estado e a sociedade civil organizada.

A existência da rede-território de parentescos entre os terreiros, nações e entidades – entre caboclos, voduns, orixás e nkises – apresenta diversos pontos de vista postos entre as múltiplas visões de patrimônio pelo Estado e pelas próprias comunidades tradicionais, expressos sob as formas e entre legados, conflitos e resistências. Os campos do direito e da cultura não são esferas independentes e, por conseguinte, se articulam exatamente no ponto em que convergem para a questão fundiária e, consequentemente, sua demarcação e em articulação enquanto um dos dispositivos primordiais na luta pelo processo de retomada de terras quando e no que toca as questões das comunidades tradicionais.

O universo jurídico se sobrepõe à dimensão cultural em camadas justapostas por portarias, decretos, processos, laudos, planos, projetos, demais burocracias, entre outros gatilhos que disparam a validade e a legitimidade forjadora de uma consciência ecopolítica e sociocosmlógica, que compreende a linguagem da natureza, da cultura, do cosmo e rituais ligados a territorialidade.

Camillo César Alvarenga é antropólogo e especialista em Estudos Étnicos e Africanos com pesquisas sobre transformações cosmológicas e ontológicas ameríndias e africanas no Recôncavo da Bahia. e-mail:guajajaranago@gmail.com

 

[1] Leiam-se nagôs, jejes, ketus, ijexás, kikongos, angolas, cambindas, bakongos, entre tantas outras nações africanas que compõem as famílias de santo, bem como caboclos destes mesmos africanos e ameríndios tupinambás, aymorés, kirimurês, cariris, entre outros povos indígenas que ocupavam a Baía de Todos os Santos desde 1500.

[2] Ver Mar Português, em Mensagem.



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