ROMANCE DE FORMAÇÃO

Entre a perda e a terra: o rito de passagem em ‘Terrapreta’

No romance de estreia de Rita Carelli, o luto de uma adolescente paulistana se transforma em travessia corporal, afetiva e política ao entrar em contato com a cosmovisão indígena do Alto Xingu

Para teóricos como Julia Kristeva e Donald Winnicott, a mãe não é apenas figura afetiva, mas a referência inicial que estrutura a experiência e a relação com o mundo. Quando essa base se perde, o que resta dentro de seres que ainda não assimilaram outras referências de mundo?

Em Terrapreta, Rita Carelli constrói um romance de formação que se dá menos pela integração do sujeito ao mundo e muito mais pela perda progressiva de sua centralidade. A narrativa acompanha Ana, adolescente criada em São Paulo que, após a morte súbita da mãe, passa a viver temporariamente em uma aldeia indígena do Alto Xingu, onde o pai conduz pesquisas arqueológicas. O deslocamento geográfico – da metrópole à floresta – é também um deslocamento existencial: Ana atravessa o luto, a puberdade e o desejo em um território cujos códigos simbólicos, afetivos e temporais desafiam a lógica urbana e individualista que organizava sua experiência de vida até então.

Publicado pela Editora 34, Terrapreta marca a estreia de Rita Carelli no romance adulto. Escritora, atriz e diretora, nascida em São Paulo, Carelli, que também atua como organizadora de livros de Ailton Krenak, traz para a ficção uma escrita atravessada por suas próprias experiências pessoais, pela escuta e por um compromisso ético com as cosmologias indígenas. Na criação da narrativa, a autora debruçou-se sobre o seu próprio diário, escrito quando tinha 19 anos em uma viagem ao Xingu, e as informações culturais, arqueológicas e sociais foram checadas por especialistas da área.

Crédito: Divulgação/Editora 34

Terra Preta de Índio

Em entrevista ao Le Monde Diplomatique Brasil, Carelli afirma que Terrapreta não pretende explicar o Xingu ao leitor, mas narrar um encontro entre cosmologias. Essa escolha ética estrutura o livro. A aldeia não surge como espaço idealizado, mas como um território regido por normas próprias, com hierarquias, interditos e rituais que Ana observa sem jamais dominar completamente. Seu processo de amadurecimento se dá justamente nessa posição instável: aprender a viver sem ocupar o centro da cena.

O romance se aproxima da tradição do romance de formação (do alemão, Bildungsroman), que acompanha o crescimento de um personagem jovem e transforma a experiência – perdas, deslocamentos, descobertas – em aprendizado. Em Terrapreta, no entanto, a autora tensiona esse modelo clássico. O amadurecimento de Ana não resulta na afirmação de uma identidade estável nem na integração harmoniosa com o mundo. Ao contrário, crescer aqui significa perder centralidade e aceitar o não saber. A formação se dá menos como conquista do “eu” e mais como abertura para outras formas de existência.

“Ana se sentia surpreendentemente livre em seu ‘não lugar”

Terrapreta

Kassuri, jovem indígena que atravessa um ritual de iniciação feminina, funciona como espelho invertido da trajetória de Ana. Esse ritual trata-se de um período de isolamento e resguardo, no qual a jovem é temporariamente retirada da vida cotidiana para aprender, com as mulheres mais velhas, os conhecimentos e cuidados associados à passagem para a vida adulta. Enquanto a protagonista urbana atravessa a puberdade e o luto sem ritos claros ou marcos compartilhados, Kassuri vive uma experiência rigorosamente codificada, em que o corpo é preparado para sua reinscrição no coletivo.

Na entrevista, Rita Carelli afirma sentir uma “carência de rituais nas sociedades ocidentais”, especialmente para lidar com transformações fundamentais como a morte, o crescimento e o próprio corpo. Terrapreta dialoga diretamente com essa lacuna: ao colocar em cena ritos de passagem, o romance evidencia tanto a potência simbólica dessas práticas quanto as tensões e limites que elas comportam, sem necessariamente idealizá-las.

A escolha de Terrapreta como livro do mês de janeiro da Amora Livros reforça a potência contemporânea da obra. A curadoria aposta em obras que valorizem a mediação crítica e interpretem as experiências e perspectivas femininas. Coerente com a proposta do clube de leitura, o texto é acessível e fácil de ser lido dentro do período de um mês.  

Terrapreta foi vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2022 como Melhor Romance de Estreia e se afirma como uma obra que amplia as possibilidades do romance brasileiro contemporâneo. Ao recusar respostas fáceis e narrar o amadurecimento como travessia incerta entre corpo, território e memória, Rita Carelli oferece ao leitor não um mapa fechado do Brasil, mas a experiência – mais fértil e mais instável – de aprender a caminhar em solo vivo.

Beatriz La Corte é parte da equipe do Le Monde Diplomatique Brasil.

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