Entre o amor e o conservadorismo: Arthur Simon fala sobre sua estreia na literatura
Em Lana, como eu odeio esses caras!, autor acompanha duas adolescentes em uma história de descoberta, suspense e memória.

Arthur Simon estreia na literatura com Lana, como eu odeio esses caras! (Casa de Astérion, 326 páginas), romance que combina descoberta da sexualidade, suspense sobrenatural e crítica ao conservadorismo. Ambientada em 2008, a história acompanha Jéssica, uma adolescente que deixa Florianópolis para viver em uma pequena cidade do interior de Santa Catarina, onde conhece Lana, sua vizinha, e começa a descobrir sentimentos que ainda não sabe nomear.
Em Hortênsias, cidade fictícia marcada pela colonização alemã, a aproximação entre as duas garotas se desenvolve em meio a uma atmosfera de desconfiança e intolerância. Enquanto Jéssica enfrenta o processo de compreender sua bissexualidade e o medo da rejeição, a descoberta de antigos diários revela uma história de amor proibido durante o Estado Novo e conduz as personagens a uma investigação sobre uma organização secreta ligada ao nazismo e ao integralismo. Entre referências a Orkut, MSN, Britney Spears e Friends, o romance alterna passado e presente e incorpora diários, bilhetes, posts de internet e artigos de jornal para construir uma narrativa que une memória, identidade, desejo e enfrentamento do conservadorismo.
Aos 32 anos, Arthur Simon nasceu em Florianópolis. Formado em Direito, é servidor público e atua como Analista Judiciário no Tribunal Regional do Trabalho da 12ª Região. A escrita ganhou espaço em sua trajetória a partir de 2023, quando iniciou uma especialização em Escrita Criativa pela PUCRS, concluída em 2024. Desde 2025, cursa Letras na UFSC. Em 2024, recebeu menção honrosa no 4º Prêmio Literário Máquina de Contos pelo conto O presente de Marta. A ideia de Lana, como eu odeio esses caras! nasceu de uma imagem recorrente de duas meninas em uma floresta, ponto de partida para o romance que marca sua estreia.
Na entrevista abaixo, Arthur Simon fala sobre a origem da obra, a construção das personagens e suas referências literárias.
Em Lana, como eu odeio esses caras! você aborda temas como a descoberta da bissexualidade na adolescência, o conservadorismo em Santa Catarina e o nazismo na História do nosso país. Por que escolher esses temas?
Toda história que conto nasce de uma cena que me persegue. Essa imagem aparece tantas vezes para mim, cada vez com mais força, até que eu sei que eu não vou conseguir fazer mais nada enquanto não descobrir o que ela quer me dizer. Nesse caso, do meu primeiro livro, eu via duas meninas juntas em uma floresta. Era isso que eu tinha, apenas.
Então, quando comecei a investigar, mentalmente, quem elas eram, onde viviam, quais seus dramas pessoais… as lacunas se completavam de forma quase metafísica, talvez por aquilo que muitos autores chamam de “a musa”.
Independentemente de como – se há alguma magia ou não na criação dessa arte – as histórias nascem por meio do autor. Então, nada mais natural que os temas do romance também serem os temas que mais assolam o escritor.
O meu interesse pelo conservadorismo no Sul do Brasil (revelado de forma incontornável e cada vez mais grave depois das eleições de 2018, em especial aqui no meu estado de Santa Catarina) e questões da sexualidade, dois temas que me compõem e que se relacionam, não poderiam ficar de fora.
Como foi o processo de escrita do livro? Seu processo teve muitos cortes (260 para 200 páginas). O que foi a maior “vítima” nessa poda, e o que você ganhou em força com ela?
Eu digo que foi o meu livro que me escolheu: como eu disse, eu tinha uma cena muito viva na cabeça, que me atormentava, o que só parou de acontecer quando eu parei e a escrevi.
Eu utilizei a pós-graduação em Escrita Criativa na PUCRS (todos os professores e exercícios) para entender melhor que tipo de escrita eu queria escrever. Foi onde experimentei vozes narrativas diferentes e linhas temporais diversas, mas o núcleo duro (a tal imagem que mencionei – duas meninas em perigo, correndo e se abraçando em uma floresta) nunca mudou. Depois de terminada a pós-graduação, eu contratei a Andrezza Postay para avaliar a estrutura da história e, com isso pronto, passei seis meses escrevendo todos os dias. Foi como nasceu o manuscrito de 260 páginas do Word. Depois, deixei o texto descansando e trabalhei muito na reescrita e nos cortes necessários. E mandei para a leitura crítica. O ponto final veio depois de mais reescrita e mais cortes, culminando em um original de 200 páginas de Word e um ano de trabalho intenso no texto. Em termos de ganho… bem, acho que foi o ritmo. Eu queria um page-turner, com muitos acontecimentos e cenários divertidos, mas com rapidez. Os cortes vieram para auxiliar nisso.
O que esse livro representa na sua trajetória como escritor?
Eu acho que esse vai ser o livro mais importante que eu vou escrever, não só porque ele marca minha estreia na literatura (e, portanto, a minha consolidação – ao menos dentro de mim mesmo – como escritor), mas também pelo que ele é.
É o livro que eu gostaria de ter lido (e, melhor ainda, escrito) quando mais jovem. Mas eu ainda não acreditava no meu potencial como artista (e, para ser sincero, eu não tinha ainda as ferramentas necessárias) e, por isso, ele nunca foi escrito na “época certa”.
Então, não tenho dúvida de que esse livro me transformou. Escrevê-lo foi um modo de fazer justiça para o meu eu mais novo: finco com os dois pés a aceitação do espectro volante da minha sexualidade ao mesmo tempo em que me dá clareza sobre o que me emociona na vida – a arte, sobretudo a literatura.
Se o livro desafia as caixinhas de gênero, o que você acha que o rótulo YA pode esconder ou subestimar na sua obra, que trata de nazismo no Brasil e tem estrutura híbrida?
No meu caso, definir e tratar de gênero é uma das coisas mais difíceis na literatura… ao mesmo tempo que se trata de algo inevitável (pois, de uma forma ou de outra, o mercado vai tentar rotular aquele projeto), tem muitas obras que são maiores do que as caixinhas que existem.
Eu gosto de brincar com os gêneros, misturando-os e criando algo novo. Apesar de ele ser orgulhosamente Young Adult, um gênero que sinto ter pouco espaço no nosso país, eu o vejo muito mais extrapolando as fronteiras dos gêneros e as embaralhando: tem um pouco de aventura, de terror, de romance, de História, de hibridismo de forma e assim vai.
Inclusive, acredito ter criado um livro que pode parecer “inofensivo” (enquanto literatura de entretenimento para pessoas mais jovens), mas quanto mais se analisa, mais se encontra (de segredos históricos muito poucos tratados no Brasil, que parece se esquecer ter tido partidos nazistas, até mesmo a realidade de violência cotidiana que outcasts vivem).
Como você traduziu a estética das suas influências (Brontë, Salinger) para a realidade de uma cidade catarinense em 2008?
Na literatura, posso dizer que cresci com a minha mãe lendo Harry Potter para mim. Anos mais tarde, eu fui me apaixonar por livros como O Morro dos Ventos Uivantes, da Emily Brontë; O Apanhador no Campo de Centeio, do J. D. Salinger e, mais recentemente, Os Sete Maridos de Evelyn Hugo, de Taylor Jenkins Reid.
Essas histórias têm em comum uma sensação de us against the world (algo como: “nós contra o mundo”) e uma captura bastante específica do seu tempo. São nuances que me inspiram muito, claro, mas a qualidade estética delas soa ainda mais importante para mim: a técnica narrativa focada em cenas. Esse tipo de contação de história é muito explorada pela literatura norte-americana e inglesa, dando essa aura cinematográfica à narrativa, e, por isso, me conecto tanto a elas. No Brasil, quem faz isso melhor, na minha opinião, é a Carol Bensimon. Sou muito fã de sua prosa.
Eu acredito muito no poder de uma boa cena. Que pareça real, seja hiperestésica, dramática e com tensão. Gosto de histórias com diálogos ágeis, com muita pista-e-recompensa. Por isso, exploro tanto esse lado.
Como você faz para alcançar essa qualidade cinematográfica da prosa? Isso não se afasta, por vezes, da literatura “per se”?
Meu estilo de escrita é extremamente visual, frequentemente descrito como cinematográfico e hiperestésico (palavra usada pelo próprio Assis Brasil), porque é importante, para mim, construir esse “filme mental” na cabeça do leitor. Para isso, devo ser preciso nas palavras usadas e certeiro nas imagens que invoco.
Eu aposto na agilidade do texto e na tensão das ações, com muito foco na escrita de cenas.
A estrutura do meu livro é híbrida, contendo posts no Reddit, narração tradicional, bilhetes, artigos que integram o texto e até mesmo um diário (inteiramente transcrito) que foi encontrado pela protagonista e passa a integrar e desvelar importantes pedaços da história. Assim, apesar de enganar bem como um livro linear, na verdade, ele quase segue um modelo de “história dentro da história”, sem nunca deixar de apelar para as imagens.
Então, não, acho que não se afasta da literatura “per se”, muito pelo contrário, quando bem usada acaba por criar uma literatura muito interessante, easy going.
Além da técnica, o que mudou na sua mentalidade com o estudo da Escrita Criativa que te fez levar a ficção a sério?
Sem contar a escrita em outros gêneros, já que trabalho com o Direito, e mesmo antes disso a escrita já era dos meus fortes. Se for sincero, escrevo pedaços de ficção desde (muito) criança, mas por muitos anos eu fingia que isso não era para mim. E, como acredito que o estudo é a chave de (quase) tudo, foi só depois de começar a estudar a Escrita, em 2022, que considero que realmente comecei a escrever (ficção).
Durante a caminhada que antecede a escrita, você já chega com a cena definida ou é nela que descobre novas surpresas para a trama?
O meu principal ritual de preparação para a escrita é, antes de sentar para digitar, caminhar por pelo menos meia hora. Em cada segundo dessa caminhada eu penso no capítulo que vou escrever em seguida. Gosto de sentir que as histórias estão sendo conjuradas do meu cérebro e habitando o meu entorno, como se eu estivesse caminhando por essas memórias e imagens que não são minhas. E, então, sento e digito.
Se em casa, gosto de estar sozinho e em silêncio. Mas não me importo de escrever em público, muito pelo contrário, eu amo. Inclusive, boa parte do meu romance foi escrito numa cafeteria aqui perto de casa. Além disso, não posso estar com pendências urgentes no trabalho. E, de preferência, eu “limpo” minha agenda pelas próximas horas.
As metas de escrita vêm apenas quando estou na fase hardcore de escrita do romance, aí eu me coloco metas de escrever um capítulo por dia.
Quais são os seus projetos atuais de escrita? O que vem por aí?
Estou focado na escrita do meu segundo romance. O tema… bem… sabe quando a gente sente que virou adulto? Lá, naquele momento exato, quando notamos que alguma coisa dentro de nós mudou para sempre… pois é, no meu novo romance estou tentando capturar a brevidade e imensidão desse momento. É a história de Vicente, um rapaz de 23 anos, recém-enlutado pela mãe, que se isola do mundo e, enquanto tenta achar o rumo da vida, se envolve em uma conturbada relação com Angie, uma norte-americana de espírito livre.
Veriana Ribeiro é jornalista e escritora acreana com mais de 15 anos de experiência na área da comunicação, formada pela Universidade Federal do Acre (UFAC) e mestre em Meios e Processos Audiovisuais pela Universidade de São Paulo (USP). Publicou o livro Coletânea dos Amores Partidos (autopublicação, 2021) e participou da coletânea Antes que eu me esqueça \ 50 autoras lésbicas e bissexuais hoje (Quintal Edições, 2021), além de escrever projetos literários independentes como zines e newsletters.

