Entre terras raras e dados: a disputa pela soberania tecnológica do Brasil
O que as eleições presidenciais de 2026 nos revelam sobre a capacidade soberana brasileira
O Brasil está entrando no segundo turno das eleições de 2026 diante de uma situação sem precedentes: pela primeira vez na história da democracia brasileira, temos uma eleição com uma diferença muito mínima entre os dois principais candidatos, com um pouco mais de 2 milhões de votos de diferença entre Flávio Bolsonaro e Lula. Enquanto essas eleições tão singulares acontecem em território nacional, no tabuleiro geopolítico, o Brasil se encontra no meio de uma disputa internacional em que minerais críticos, sistemas de pagamento, dados e tecnologia são os instrumentos de poder geopolítico. E o resultado dessas eleições impactará diretamente a ordem internacional.

O papel dos EUA na disputa eleitoral brasileira é tema de discussão desde as eleições presidenciais de 2022, porém, a atenção à iminência de intervenção americana nas eleições chegou em nível crítico, como alertado inclusive pela ABIN, a Agência Brasileira de Inteligência. Indo no contra senso comum, o relatório não aponta possibilidade de fraude nas urnas, nem afirma que os sistemas eletrônicos de votação estejam ameaçados – mas designa as pressões econômicas, sanções e medidas diplomáticas recentes como elementos da construção da narrativa capaz de repercutir no debate político interno durante a campanha, culminando, mais uma vez, em resultado favorável ao candidato pró-americano. São as operações psicológicas, ou cognitivas, que estivemos alertando desde o ano passado.
Nesse sentido, as perguntas de sempre ganham nova relevância perante a situação extraordinária: até que ponto o Brasil consegue escolher seu próprio caminho enquanto depende de outros países para tecnologia, processamento de minerais, infraestrutura financeira e conhecimento? E como a interferência americana no Brasil, que já está em curso, afeta o país, e qual a relevância dessas eleições nesse processo?
A corrida pelos recursos críticos: o problema do hardware
O mundo todo vive uma corrida frenética para explorar recursos valiosos, e parte desse tesouro está enterrado no Brasil. São os chamados “minerais estratégicos” ou “críticos”, recursos de disponibilidade limitada que são essenciais para a indústria nacional e internacional. Há também a expressão “terras raras”, um apelido para um subgrupo desses elementos cruciais: trata-se de 17 metais, cuja principal aplicação é na fabricação de superímãs resistentes à desmagnetização. Esses ímãs, por sua vez, são usados em drones, turbinas eólicas, carros elétricos e muitas outras tecnologias.
Nos últimos anos, a exploração dos minerais críticos e das terras raras se tornou um campo de batalha geopolítico e industrial. Grandes potências, principalmente os EUA e China, buscam assegurar o controle sobre a indústria desses insumos para suas respectivas indústrias de tecnologia, defesa e energia. Para isso, porém, precisam se voltar para outros países, costurando acordos de exploração nos locais que detêm grandes reservas minerais. E aqui, é impossível não nos lembrarmos da guerra fria, travada agora entre os velhos norte-americanos e os chineses, ao invés dos russos
Nesse cenário, para os EUA, assegurar os mercados internacionais em terras raras já se configura como prioridade estratégica, como designado pelo Departamento de Estado dos EUA.
E, é nesse contexto que o Brasil se destaca como personagem central. O Brasil é o segundo maior detentor de terras raras do mundo, ficando atrás apenas da China. Ele também já está no mesmo continente que os EUA, bem no seu “quintal” – e agora só resta aos norte-americanos a abertura para que possam efetivamente controlar a extração desses minerais. Esse processo já está em curso, visto que, apesar das reservas, a exploração de terras raras no Brasil é minúscula: atualmente, só uma empresa extrai comercialmente os minerais no Brasil, a Serra Verde, que opera em Goiás, que inclusive já foi comprada pela mineradora americana USA Rare Earth por US$ 2,8 bilhões, em setembro desse ano.
Nosso mercado se acomoda em sua posição histórica de fornecedor de commodities, vendendo a matéria-prima bruta para poderes externos, sem produzir artefatos de alto valor agregado ou desenvolver tecnologias de forma competitiva. Nesse viés, a situação com as terras raras demonstra que o problema não é simplesmente possuir ou não possuir o recurso, mas romper com o velho arranjo colonial, repaginado agora para o século XXI.
O Brasil tem potencial geológico relevante, mas ainda apresenta dependência em etapas tecnológicas posteriores, especialmente refino, ímãs permanentes e aplicações de maior valor agregado. A própria ANM (Agência Nacional de Mineração) destaca que a criticidade está frequentemente na dependência da cadeia de processamento, e não na inexistência do minério. Mas nem tudo está perdido: o país conta com o CEITEC (Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada), que atua no desenvolvimento de semicondutores e representa um potencial de desenvolvimento tecnológico nacional que poderia ser fortalecido. Para a transição, no entanto, de país exportador de commodities para desenvolvedor de tecnologias, a decisão política precisa ser tomada, e as urnas são, atualmente, o passo mais importante rumo à essa decisão.
O Brasil como líder em software e finanças
O Pix, contraditoriamente, demonstra que o Brasil consegue construir infraestrutura própria no nível de desenvolvimento de sistemas – ou, de maneira mais ampla “Software”. O BIS (Bank for International Settlements), instituição financeira internacional pertencente a bancos centrais que promove a cooperação monetária e financeira global), por exemplo, trata o Pix como um caso relevante de infraestrutura pública de pagamentos, destacando justamente o papel do Banco Central como provedor da infraestrutura e formulador das regras. Enquanto nas terras raras o Brasil corre o risco de ser apenas fornecedor, através do Pix, mostra que pode ser produtor de infraestrutura – infraestrutura essa que é frequentemente atacada.
Por exemplo, em junho de 2026, o USTR (United States Trade Representatives) dos Estados Unidos determinou que determinadas políticas brasileiras relacionadas a comércio digital e serviços de pagamentos eletrônicos, entre outros temas, eram consideradas “prejudiciais aos interesses comerciais americanos e poderiam justificar medidas sob a Section 301”. Foram as sanções que inauguraram a preocupação válida, por parte da ABIN, da intervenção posterior nas eleições. E esse momento posterior chegou agora em outubro de 2026.
Essa contradição entre as dimensões industriais em Hardware e Software mostra que a riqueza de um país não reside apenas na riqueza enterrada, mas também na capacidade de transformar esses recursos em tecnologia; e de coordenar, de forma soberana, as infraestruturas que sustentam essa transformação. É justamente essa dimensão multidimensional da soberania que o Índice de Soberania Digital (DSI) procura evidenciar, ao considerar diferentes camadas da capacidade tecnológica de um país.
Nesse índice, o Brasil ocupa a 51ª posição entre 102 países, com 57,8 pontos em uma escala de 0 a 100. Na América Latina, fica abaixo de Uruguai (68,8) e Chile (64,1), apresenta a mesma pontuação geral da Argentina (57,8), supera Colômbia (51,6) e México (46,9). Sua capacidade de atuação, que reúne Cognição e Governança, alcança 62,5 pontos, enquanto sua capacidade infraestrutural, composta por Hardware e Software, fica em 53,1. O desempenho mais baixo em Hardware, de 43,8 pontos, ajuda a compreender esse desequilíbrio: o país dispõe de capacidades de conhecimento e coordenação que encontram limites na base material necessária para sustentar sua autonomia tecnológica.
Juntos, Hardware e Software indicam no DSI as capacidades industriais de um país. No Hardware, como já designamos aqui, o Brasil possui reservas estratégicas de minerais críticos e terras raras, mas ainda enfrenta dificuldades para convertê-los em componentes e tecnologias de maior valor agregado, uma contradição que também se manifesta na trajetória da CEITEC. Em contrapartida, no Software e nas infraestruturas digitais de liquidação de transações, o Pix demonstra que é possível construir sistemas nacionais capazes de reduzir a dependência de plataformas e intermediários estrangeiros.
Capacidades de atuação ambiciosa, e o Brasil da dependência econômica à dependência tecnológica
Para além das dimensões de Hardware e Software, o DSI mensura também as capacidades nacionais em Cognição e Governança – juntas são o que é chamado na pesquisa de capacidade de atuação.
Na dimensão da Cognição, a existência do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) revela que o Brasil compreende que soberania também depende da capacidade de produzir conhecimento, formar profissionais e definir quais tecnologias o país pretende desenvolver. Simultaneamente, na dimensão da Governança, instrumentos como a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) e a atuação da ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados) mostram que o país também entende que controlar os dados e estabelecer regras para seu uso, é parte fundamental da soberania digital.
A baixa capacidade infraestrutural e relativa alta capacidade de atuação mensuradas no DSI revelam o paradoxo brasileiro: o país possui recursos, infraestrutura, qualificação e capacidade institucional relevantes, mas ainda não superou as relações de dependência que limitam sua capacidade de transformar essas potencialidades em autonomia tecnológica efetiva.
Esse paradoxo é uma constante na história brasileira, marcada pela herança colonial e por um processo de desenvolvimento tardio e dependente. Celso Furtado já argumentava que a superação do colonialismo formal não significa, necessariamente, a superação da dependência: o subdesenvolvimento não é uma etapa pela qual todos os países precisam passar até alcançar o desenvolvimento, mas uma condição histórica produzida pela própria expansão desigual dos mercados e pela inserção periférica de determinadas economias na divisão internacional do trabalho.
Nessa relação entre centro e periferia, os países centrais concentram os benefícios do progresso técnico e preservam maior capacidade de decisão, enquanto as economias periféricas permanecem vulneráveis à dependência externa. Um país pode possuir bandeira, eleições, Constituição, presidente, Exército e território e, ainda assim, dispor de limitada autonomia econômica e tecnológica.
A diferença entre a colônia do nosso passado e a dependência como resultado desse processo colonial (se não, se formos mais graves, uma colônia no século XXI) está na forma assumida pelo poder: no colonialismo clássico, o centro controlava diretamente o território; na dependência econômica de hoje, condicionam-se a estrutura produtiva e a inserção internacional; e, finalmente, no tardio colonialismo digital, essa assimetria se desloca para o controle das infraestruturas, dos dados, das plataformas e das tecnologias das quais a sociedade depende. E para Furtado, a inovação técnica é importante fonte de poder social e de capacidade de decisão nas relações entre os Estados.
O papel eleitoral nesse processo
Diante desses fatos, o segundo turno das eleições presidenciais de 2026, coloca diante do Brasil o questionamento de que tipo de soberania o país quer exercer em um mundo em que tecnologia, minerais e infraestrutura se tornaram instrumentos de poder?
As propostas e a agenda política do candidato Flávio Bolsonaro representam um risco enorme à soberania digital brasileira. Embora seu plano reconheça que o Brasil possui minerais críticos, energia e capital humano capazes de sustentar uma indústria tecnológica própria, sua proposta para as terras raras enfatiza a construção de parcerias de longo prazo com os Estados Unidos e a transformação do Brasil em alternativa à China no fornecimento desses recursos.
A escolha política e industrial, portanto, não é a de simplesmente possuir recursos ou estabelecer relações estratégicas, mas decidir qual posição o Brasil ocupará na cadeia de produção tecnológica. Se será capaz de utilizar suas vantagens materiais para construir capacidades próprias, ou se permanecerá como fornecedor estratégico de commodities para tecnologias desenvolvidas e controladas por outros centros de poder.
O plano de governo de Flávio diz explicitamente que quer agregar valor no Brasil; verticalizar a cadeia; atrair capital estrangeiro; atrair tecnologia estrangeira e desenvolver processamento de minerais críticos no país – sem a CEITEC, que planeja extinguir em seu mandato. A indústria ficará, se eleito, na mão dos Estados Unidos.
O problema não está necessariamente em atrair capital estrangeiro. O problema é descobrir quem terá o controle da cadeia depois que esse capital entrar – principalmente quando o plano de Flávio não prevê medidas de transferência tecnológica. Voltemos ao exemplo da Serra Verde: o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) abriu, em maio de 2026, investigação sobre a operação envolvendo a Serra Verde e a USA Rare Earth, designando que operação envolve uma cadeia que vai da mineração à fabricação de ímãs, com operações que começam no Brasil e terminam nos EUA, na França e no Reino Unido. Mais importante: a Serra Verde firmou acordo de fornecimento de 15 anos para 100% da produção da Fase I, destinado a uma empresa capitalizada por agências do governo americano e capital privado. Ou seja, em toda a cadeia industrial, da extração da riqueza até o desenvolvimento e venda da tecnologia, o Brasil cuida só de desenterrar e entregar seus insumos para os EUA e a Europa.
Se o Brasil possui o recurso, mas o financiamento, a tecnologia, as etapas industriais estratégicas e o lucro da venda estão conectados a empresas estrangeiras, onde está o centro de decisão da cadeia? Flávio Bolsonaro encontrou-se com Trump na Casa Branca, em maio, e discutiu, entre outros temas, tarifas e minerais críticos, indicando seu interesse na manutenção status quo industrial brasileiro: grande vendedor de commodities.
E em termos de Software, onde somos protagonistas, Flávio defendeu em julho perante o USTR (United States Trade Representative) que o Pix não fosse integrado a sistemas internacionais de pagamentos considerados “não ocidentais”, ou seja, impossibilitando a liquidação de débitos em moedas locais sem que passem pelo dólar, encarecendo o comércio entre o Brasil e países que não os EUA. Em pleno ano eleitoral, o senador e candidato à Presidência esteve seis vezes nos Estados Unidos, e a frequência das viagens ocorre em meio a acusações de interferência do governo de Donald Trump no processo político brasileiro.
Essa disputa também influencia diretamente a vida do cidadão brasileiro. Os tesouros das terras raras estão presentes em celulares, veículos elétricos, turbinas, equipamentos médicos, sistemas de defesa e diversas outras tecnologias que estruturam a vida contemporânea. Por isso, soberania tecnológica não pode ser interpretada como uma questão restrita à diplomacia ou à indústria pesada, mas envolve questões muito mais próximas do cotidiano: onde nossos dados são armazenados, quem controla as infraestruturas de nuvem, quem desenvolve os chips e os algoritmos que utilizamos, quem produz os modelos de inteligência artificial e quais tecnologias estão efetivamente disponíveis para empresas e instituições brasileiras.
Quanto maior a dependência dessas estruturas estrangeiras, maior a exposição do país a decisões econômicas, comerciais e políticas tomadas fora de seu território. E a disputa central reside no ator que controla as etapas que transformam esses recursos em tecnologia e poder.
Grandes potências perseguem seus interesses. Os Estados Unidos o fazem, a China o faz, e o Brasil também precisa fazê-lo. A questão central, portanto, não é escolher entre Washington e Pequim, mas saber se o Brasil terá capacidade para escolher.
Ter terras raras não basta se outros controlam seu processamento, possuir dados não basta se outros controlam as infraestruturas que os armazenam, desenvolver políticas de inteligência artificial não basta se os modelos, chips e computação necessários continuam vindo de fora. Soberania tecnológica não significa isolamento, nem rejeição ao capital ou à cooperação internacional. Significa ter capacidade suficiente para negociar, produzir, regular e decidir.
O verdadeiro teste para o Brasil nessas eleições é o de escolher entre dois projetos de país. Se aceitará ser quintal estratégico para os projetos tecnológicos dos outros, ou se tornará sujeito de sua indústria tecnológica.
Letícia Teixeira é pesquisadora PIBIC e graduanda de Relações Internacionais pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), estagiária no departamento de relações internacionais e institucionais da UFRRJ e membra do Fórum para Tecnologia Estratégica do BRICS+.
Isabela Rocha-Dashicheva é mestre e doutoranda em Ciência Política pelo Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (IPOL UnB), coordena o Grupo de Trabalho Estratégia, Dados e Soberania do Grupo de Estudos e Pesquisas em Segurança Internacional do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (GEPSI IREL UnB) e preside o Fórum para Tecnologia Estratégica dos BRICS+, visando o desenvolvimento de infraestrutura tecnológica íntegra e soberana no Brasil, no Sul Global, nos países BRICS+, e no mundo.

