Era uma vez em Atenas - Le Monde Diplomatique

GRÉCIA

Era uma vez em Atenas

por Panagiotis Grigoriou
1 de fevereiro de 2013
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Frequentemente, o universo dos gregos se resume hoje a um aprisionamento em um presente implacável. “Vivemos o presente, sem projetos a longo prazo”, ouve-se todos os dias. O horizonte, o tempo projetado – esperado, poderíamos dizer –, parece parar em uma sociedade a quem a crise despojou, inclusive, do seu futuroPanagiotis Grigoriou

Fumaça

Fim de 2012. Em volta de uma mesa, num café do centro da cidade, aposentados, trabalhadores e desempregados evocam a votação que preocupa a todos: quem vai conseguir se manter daqui a alguns dias em seu prédio. Será preciso encher os tanques com combustível? Devem colocar em funcionamento o aquecimento coletivo? Essas são as questões do momento em Atenas, onde a democracia palpita menos a respeito dos debates sobre a dívida do que sobre a questão do frio – que voltou – e do preço do combustível – cujo valor praticamente triplicou desde 2010.

Na entrada de um prédio, um desentendimento, o segundo do dia. Christos, o novo inquilino do segundo andar, fora de si, empurra seu vizinho de piso contra uma parede: “Você sabe muito bem que eu não tenho mais nenhum centavo. Se você ou os outros decidirem encher os tanques este ano, vão pagar os custos sozinhos!”.

Ninguém ignora que neste inverno todos vão tremer nos apartamentos atenienses. Os que ainda têm meios investem. Mudança de civilização: passam para o aquecimento a lenha. Este fim de ano acaba literalmente em fumaça, com nossas florestas. E quando falta lenha, queima-se o resto. Foi assim que os atenienses descobriram recentemente que os compensados de madeira que vendem a eles – supostamente compostos de serragem – continham às vezes toda uma variedade de substâncias nocivas vindas da compactação dos detritos, até mesmo de lixos orgânicos vindos de hospitais.

A cidade afunda numa fumaça permanente. E os cidadãos lamentam o fato de abrir as janelas, mesmo que por pouco tempo: a fumaça se infiltra rapidamente nos apartamentos, cobrindo as paredes, o chão e as fossas nasais. “Vocês viram essa nuvem?”, perguntam alguns. “É o retorno ao tempo de nossos avós…” Os mais antigos se lembram da época em que todo estudante tomava o caminho da escola com a pasta em uma mão e um toco debaixo do braço. A contribuição “de aquecimento” generalizada tinha terminado nos anos 1970. Algumas crianças que até então cantavam nas ruas ou diante das lojas, na véspera de Natal e do Ano-Novo, para receber algumas moedas, o fazem agora para comprar o combustível que vai permitir evitar o fechamento de sua escola, privada de aquecimento neste inverno.

Em dezembro, três jovens irmãos pereceram em um incêndio que destruiu a casa de seus avós. A origem da tragédia: o aquecimento a lenha, recentemente instalado.

Educação

Tradicionalmente, os gregos não raspam o prato. Uma descoberta que os recém-chegados faziam rapidamente: estimando não ser educado terminar as generosas porções servidas, eles se viam resservidos, tão copiosamente quanto na primeira vez. No restaurante, o costume era pedir uma última série de pratos no momento em que cada um se sentia satisfeito. Pouco importava se apenas beliscavam algumas migalhas, deixando para trás “uma bela mesa grega de fim de refeição”. Mesmo a etiqueta se adaptou à crise: os gregos agora pedem pouco. E aprenderam a raspar o prato.

Trem

O trem está lotado, como é comum nos dois últimos anos. Os passageiros se amontoam nos corredores, entre os vagões. Ir ao bar ou ao banheiro requer prática em acrobacia e a maior diplomacia. “Logo viajaremos como nos trens indianos”, grita uma mulher que não consegue chegar ao banheiro. Ao que outra voz acrescenta: “E, além disso, a companhia ferroviária será chinesa!”.

Entre a capital e a Tessália, reservando com duas ou três semanas de antecedência, uma passagem de ida e volta custa 22 euros. Para fazer o mesmo trajeto de 700 quilômetros de carro, é preciso contar 1,70 euros por litro de gasolina, mais 20 euros de pedágio. E 60 euros para a viagem de ônibus. Suporta-se, então, o desconforto, sem, no entanto, se abster de repreender o controlador:

– Por que não acrescentam vagões suplementares? Vocês gostam de nos transportar como gado? Estamos pagando! Não é o caso da metade das pessoas neste vagão, veja bem!

– Não podemos aumentar os trens por razões técnicas. Em certos locais, a infraestrutura não suporta… Tudo bem, somos pagos, mas estamos nos esforçando e lutando contra a privatização da nossa companhia. É para sua segurança, sabe… E, além do mais, o que nos pagam…

Apertados na extremidade do vagão, dois jovens, claramente estudantes, leem atentamente o Rizospastis, o jornal do Partido Comunista Grego. O trem para em Tebas; outro jovem vem ocupar um lugar ao lado deles. A discussão não demora a estourar, viva, mas sem ultrapassar os limites:

– Vocês estão enganados! Eu sou patriota, não tenho dinheiro e, talvez como vocês, estou desempregado. Nós também nos preocupamos com o povo e com os pobres, pois fazemos parte deste grupo, vocês não têm o monopólio dos proletários. E não me digam que sou fascista, esse discurso já cansou… Os ricos nos esmagam e reduzem nossa pátria à escravidão: pelo menos com isso nós concordamos, não?

– É você que está enganado. Imagina coisas sobre o Aurora Dourada [partido político neonazista]. Essas pessoas defendem os monopólios e os “poderosos”, como você diz. Só que você não vê. Ainda não…

Colheitas

Em Atenas, apenas os meteorologistas ainda falam (às vezes!) de dias bonitos. As recentes tempestades derrubaram as azeitonas e as frutas cítricas das árvores plantadas nos espaços públicos, ao longo das ruas, nos parques e nas praças. Normalmente, essas árvores são responsabilidade da prefeitura, e são os serviços públicos que garantem a manutenção. Só que, nos últimos dois anos, seus frutos são colhidos pelas pessoas do bairro, que têm necessidade. Daí a raiva e a frustração que provocam agora também as tempestades, que estragam os frutos antes da hora.

Natal

Enquanto as lojas da cidade exibem mercadorias de Natal, um banco ousa uma promoção publicitária, evidentemente culturalmente obsoleta. Diante de suas agências, os passantes percebem uma contradição: “Olha, notas de 100 euros na foto! Não vejo uma de verdade há dois anos… Eles não estão bem: não apenas nos roubam, como ainda por cima zombam de nós”.

Espaço

As saídas e os deslocamentos no interior do país são menos frequentes que antes da crise: o turismo doméstico afundou. Segundo as estatísticas oficiais, os cinco primeiros meses de 2012 foram marcados por uma diminuição de 42% da frequentação dos pontos turísticos gregos pelos gregos. Nas praias, os isopores estão de volta. A imprensa se entusiasma com “esse retorno inesperado da simplicidade e da convivialidade frugal”.

As ruas se tornaram calmas. Desemprego, diminuição dos salários, aumento dos impostos, do preço dos combustíveis e dos impostos sobre os veículos: desde 2010, 600 mil carros desapareceram de circulação.1 Os proprietários devolveram suas placas às autoridades, imobilizando os automóveis por tempo indeterminado. Não é mais raro ver pessoas pedirem 1 litro de combustível ao frentista, apenas o necessário para ir a um casamento ou a um encontro de família importante. As rodovias estão frequentemente vazias, assim como as estradas departamentais, enquanto nas cidades, principalmente em Atenas, os engarrafamentos desapareceram. E os automobilistas que ainda usam seus veículos passaram a adotar, na maioria das vezes, uma conduta mais calma e principalmente mais lenta. Disso decorre um espantoso silêncio.

Tempo

Frequentemente, o universo dos gregos se resume hoje a um aprisionamento em um presente implacável. “Vivemos o presente, sem projetos a longo prazo”, ouve-se todos os dias. O horizonte, o tempo projetado – esperado, poderíamos dizer –, parece parar em uma sociedade a quem a crise despojou, inclusive, do seu futuro.

À redução das viagens sucedeu a das saídas. Depois a dos encontros, das trocas e – paradoxalmente, dadas as nossas condições de vida – das atividades militantes, sindicais ou políticas. Ocupados e preocupados com a sobrevivência cotidiana, não temos mais a coragem de refazer o mundo nem de ocupar as praças do centro da cidade. E, depois, como fazer quando não conseguimos nem mesmo comprar um bilhete de metrô?

Thanos conta: “Ao procurar trabalho, notei que muitos colegas e amigos, ainda empregados, começaram a me evitar. Primeiro por medo que eu pedisse dinheiro emprestado. Depois, talvez, porque eles mesmos se encontram atolados em situações delicadas: diminuição dos salários, dívidas e também a depressão que ronda”. Regra geral, depois de dois anos do memorando,2 os salários diminuíram em 45%. E não acabou. O que explica talvez que, a despeito das lendas, a crise não seja necessariamente um grande momento de solidariedade.

Assim, recuperar o tempo passa, por vezes, por meios radicais. “A Grécia tinha até recentemente um índice de suicídio muito baixo com relação aos outros países europeus”, explicava recentemente Aris Violatzis, psicólogo da associação Klimaka, responsável pela linha telefônica de prevenção dos suicídios. “Atualmente, é o país do mundo que conhece o maior aumento. […] O suicídio é um fenômeno complexo cujas causas não podem se resumir à crise econômica. Mas o ambiente no qual vivemos tem influência sobre nosso estado psíquico. Das pessoas que ligam para nós, 75% têm problemas econômicos e estão desesperadas: elas possuem dívidas, estão desempregadas ou perderam a casa.”3 Desde 2010, cerca de 3 mil suicídios estariam diretamente ligados a esse tipo de situação.

BOX

De mal a pior

1967-1974 – Ditadura dos coronéis

1981 – Adesão à Comunidade Econômica Europeia

2001 – Entrada na zona do euro

Novembro de 2004 – Atenas admite ter triturado suas contas para dar a ilusão de respeitar os critérios de Maastricht.

Outubro de 2009 – George Papandreou, do Movimento Socialista Pan-Helênico (Pasok), chega ao poder. Ele aumenta a previsão do déficit público de 6% para 12,7% do PIB.

Dezembro de 2009 – As agências de classificação de risco degradam a nota de crédito a longo prazo de Atenas. As taxas de juros dos empréstimos gregos sobem rapidamente.

Março de 2010 – Primeiro programa de austeridade.

Abril de 2010 – A Grécia pede a ajuda do FMI e da União Europeia.

Maio de 2010 – Primeiro plano de “salvação”, com um valor de 110 bilhões de euros em três anos. Criação do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (Fesf), destinado a ajudar os países da zona do euro em dificuldade.

Junho e julho de 2010 – Novo plano de austeridade para o período entre 2011-2016 e novo plano de “salvação”, com um valor de 109 bilhões de euros, acompanhado de uma redução de 20% da dívida grega.

Outubro e novembro de 2011 – Novo plano de “salvação” prevendo a recapitalização do setor bancário grego (106 bilhões de euros) e uma redução de 50% das dívidas detidas pelos estabelecimentos bancários. Papandreou propõe submeter esse programa a um plebiscito. Sob pressão da França e da Alemanha, ele renuncia e se demite no dia 9 de novembro. Papademos, antigo vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE), lhe sucede na cabeça de uma coalizão aliando o Pasok, a direita (Nova Democracia, ND) e a extrema direita.

Fevereiro de 2012 – Novo plano de “salvação”, com um valor de 130 bilhões de euros, acompanhado de uma redução de 53,5% das dívidas detidas por agentes privados.

Maio e junho de 2012 -.Eleições legislativas antecipadas que não permitem conquistar uma bancada majoritária. Entrada do partido neonazista Chryssi Avgui (Aurora Dourada) no Parlamento (quase 7% dos votos). ND leva a segunda colocação. Antonis Samaras se torna primeiro-ministro, principalmente graças a uma aliança com o Pasok.

Novembro de 2012. – Depósito de uma nova ajuda de 34,4 bilhões de euros, condicionada a uma série de medidas de austeridade que atingem 9,4 bilhões de euros somente para o ano de 2013.

Panagiotis Grigoriou é antropólogo e historiador, é autor do blog Greek Crisis (www.greek-crisis.gr) e do ensaio Le cheval des Troïkans [O cavalo dos troicanos], Fayard, Paris, fev. 2013.



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