Objeções à Slavoj Žižek | Era uma vez em Hollywood...

Sopa de Wuhan

Era uma vez em Hollywood…

por Cristiano Capovilla
20 de abril de 2020
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A constatação a que chega Žižek é que a queda da China nos obrigará a “reinventar o comunismo baseado na confiança nas pessoas e na ciência”

Acabo de ler o texto do “filósofo pop” Slavoj Žižek sobre a epidemia do coronavírus: “El coronavírus es un golpe al capitalismo a lo Kill Bill…”, publicado numa coletânea denominada Sopa de Wuhan (2020). Antes de qualquer coisa, chama atenção a imagem de capa da coletânea, desenhos que lembram uma colônia de morcegos. Ao juntar a imagem com a palavra sopa, retomamos uma das primeiras fake news do início desta pandemia, a de que o vírus teria iniciado sua trajetória entre os humanos através dos hábitos alimentares dos chineses de Wuhan. Essa desinformação, já devidamente desmentida pela OMS, mostra o quanto o eurocentrismo é forte para qualificar o desigual, o outro. Não deixa de ser aterrador que se faça a sugestão de diferenças entre civilizados e bárbaros mesmo nas dimensões socioculturais da alimentação.

A inusitada capa da coletânea dialoga com o conteúdo do texto do filósofo Esloveno. Desde o início, Žižek não esconde sua torcida pelo debacle do comunismo chinês a partir da pandemia. Especula que, assim como ocorreu com a antiga URSS, a Covid-19 seria uma espécie de “usina de Chernobyl” do século XXI. Não deixa de ser interessante observar que foi exatamente esse argumento que o deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do presidente Bolsonaro, utilizou para atacar a China.

A constatação a que chega Žižek é que a queda da China nos obrigará a “reinventar o comunismo baseado na confiança nas pessoas e na ciência” (2020, p.22). O vírus, tal qual no filme “Kill Bill 2”, do diretor norte-americano Quentin Tarantino, teria aplicado um mortal golpe de kung-fu não só contra a China, mas “contra o sistema capitalista global” (2020, p.23). Seguindo o roteiro hollywoodiano, podemos ficar na nossa quarentena esperando, conversando e observando ambos caírem mortos depois de certo tempo.

Animismo capitalista ou natural?

Mas de onde vem essa crença na morte inevitável da China comunista e do sistema capitalista? Advém da convicção de que a “catástrofe” do vírus levará a humanidade a “repensar as características básicas da sociedade” (2020, p. 24). A “catástrofe” natural é exatamente a causa exógena que logrará construir “algum tipo eficiente de coordenação global” (2020, p. 25) oposta ao atual sistema político e econômico. Uma espécie de rebelião causada pelas forças naturais, das quais as “secas, ondas de calor, tormentas massivas” (2020, p.25) também fazem parte.

Žižek imagina que o vírus produziu uma igualdade de contaminação entre as nações, classes e indivíduos: “Todos estamos no mesmo bote” (2002, p.25), sentencia. Essa isonomia da pandemia será o móbile para uma “urgente reorganização da economia global” (2020, p.27) para além dos mercados. Será, pois, através de um agente externo, o vírus Sars-CoV-2, que teremos, enfim, uma causa eficiente para nos conduzir a esse novo sistema mais solidário, uma espécie de ONU comunitarista, que imporá aos Estados-nação os ajustes necessários à transformação social dos novos tempos. Será um sistema híbrido entre liberalismo e comunismo, uma conjunção entre as liberdades individuais e a necessidade de mudanças radicais no capitalismo global, vaticina. Com essa formulação, fico a me perguntar: será Žižek o herdeiro do que no passado recente se chamava de marxismo ocidental?

Longe dos sonhos e dos filmes de Hollywood, a verdade é que essa igualdade da contaminação é puramente abstrata, uma vez que na realidade objetiva ela ocorre dentro de um quadro de profunda desigualdade econômica entre as nações e as classes sociais. Os dados de Nova Iorque mostram que os negros, latinos e pobres são os que mais morrem de Covid-19. A contaminação, longe de ser um grande equalizador das diferenças econômicas e sociais, expõe as deformações profundas do nosso sistema de acumulação e carência, revelando o caráter eurocêntrico, classista e racista das visões igualitaristas acerca da disseminação da pandemia.

Ora, na medida em que Žižek aplica em suas análises uma regra externa, única e universal para avaliar a pandemia global, nada mais faz que obter uma visão política, econômica e social distorcida, escondendo com o véu da ignorância a heterogeneidade entre as nações e, dentro destas, as assimetrias entre as classes sociais. Fica evidente que não há um direito natural no vírus, uma espécie de justiça intrínseca ao ambiente natural, que viria de fora do sistema social para nos julgar, nos punir e, principalmente, para ser o redentor das mazelas legadas por nossas relações e modos de produção da vida coletiva.

Se na alienação capitalista as relações sociais se transformam em forças naturais e as naturais em viventes, então também não devemos converter concepções humanas como igualdade e justiça em forças naturais, pois são condições políticas e sociais, estando, portanto, submetidas à história e não à física ou a biologia. Não há porque trocar uma metafísica pela outra. Nenhuma das duas resolve a questão.

Diagnóstico objetivo da conjuntura

Em minha opinião a questão de fundo é: que transformações deverão sofrer o Estado-nação em uma sociedade sob pandemia? Essa resposta só poderá ser dada na práxis da luta política e institucional. O Estado liberal tem se mostrado frágil para enfrentar o desafio que ameaça as nações. Sem instrumentos de ação, sem planejamento e com os mercados em frangalhos, o liberalismo é posto em xeque perante as comunidades nacionais. Tais insuficiências são realçadas no contraste com o comunismo chinês e sua “nova economia do projetamento”.

Do final de fevereiro, quando o filósofo esloveno escreveu o artigo, até a metade de abril, quando estou respondendo, a China passou de principal vítima de uma doença natural exógena para a mais importante protagonista social e politica na luta contra o novo vírus. Exatamente por não levar isso em consideração, o prognóstico de Žižek sobre a China não resistiu dois meses, evidenciando que se tratava mais de um desejo subjetivo do autor do que propriamente de uma reflexão séria e comprometida com a realidade.

Já os EUA, justamente os heróis dos filmes de Hollywood, aqueles que salvavam o mundo das “catástrofes naturais”, são os que mais sofrem os efeitos da pandemia, não apenas por ação do vírus em si, mas por decisões políticas e ideológicas equivocadas. O drama dos EUA expõe ao mundo que o american way of life é a lei da selva, onde apenas os mais fortes sobrevivem. Talvez fosse melhor para Žižek, ao se referir à pandemia do coronavírus, que resgatasse outro filme de Tarantino: “Era uma vez em… Hollywood”.

Ao contrário do que afirma Žižek, o vírus fez o Estado-nação chinês responder de forma inédita e surpreendente a essa nova ameaça. Ele fez e está fazendo a diferença na vitória da sociedade sobre o temor natural, apresentando-se em condições de propor uma ofensiva. O que o mundo devia se questionar é por que EUA e Europa estão de joelhos perante a covid-19 e a China comunista está a vencê-lo? Talvez a resposta esteja dentro e não fora das relações histórico-sociais.

Referências
ŽiŽek, Slavoj. El coronavirus es un golpe al capitalismo a lo Kill Bill… (27 de febrero). In: Sopa de Wuhan. Pensamiento contemporaneo em tiempos de pandemias. Pablo Amadeo (Org.) La Plata: Editorial ASPO (Aislamiento Social Preventivo y Obligatorio), 2020.
A tradução de trechos do artigo é de minha responsabilidade.

Cristiano Capovilla é professor de Filosofia da UFMA e Diretor da Fundação Maurício Grabois – MA.



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