Ernesto Laclau, inspirador do Podemos - Le Monde Diplomatique

COMO UNIR LUTAS DISPERSAS

Ernesto Laclau, inspirador do Podemos

por Razmig Keucheyan|Renaud Lambert
3 de setembro de 2015
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Contra a corrupção, os ditames da burocracia europeia e os grandes projetos inúteis: a multiplicidade das mobilizações contrasta com o sentimento de impotência política. Como juntar batalhas particulares em uma luta coletiva? Cultivando uma forma renovada de populismo, sugere o intelectual argentino Ernesto LaclauRazmig Keucheyan|Renaud Lambert

Por que eles conseguiram e nós não? Desde o surgimento do Podemos na Espanha, o tema ronda a esquerda radical. Ao serem questionados sobre isso, os dirigentes da jovem formação espanhola explicam de bom grado as razões da escolha de um populismo assumido, alimentado pelos trabalhos do intelectual argentino Ernesto Laclau (1935-2014) – ex-estudante de Oxford e professor de Teoria Política na Universidade Britânica de Essex, entre 1973 e 1997. Essa opção facilitou uma singular oportunidade: a capacidade de se apropriar da natureza proteiforme das reivindicações ligadas ao movimento do 15-M (15 de maio, essa imensa mobilização popular que começou em 2011) para recuperar a noção de interesse geral. A iniciativa, contudo, vem acompanhada de diversos questionamentos.

Em 1985, Laclau publicou Hégémonie et stratégie socialiste,1 em coautoria com a filósofa belga Chantal Mouffe, sua esposa. O ensaio – cuja erudição explicita um saber universitário muitas vezes indigesto – nasceu de uma constatação: os “fracassos” da experiência soviética e a emergência de novos movimentos sociais (feminismo, lutas de minorias étnicas, nacionais e sexuais, oposição à energia nuclear etc.) teriam agravado as crises da esquerda. Superá-las implicaria resolver, enfim, um debate que se desenrola há mais de um século: as “categorias do marxismo” são realmente aplicáveis às sociedades contemporâneas?

Não, respondem diretamente os autores. Se a organização da sociedade e as lutas que ocorrem atualmente dependessem efetivamente de dados puramente sociológicos, argumentam a filósofa e seu marido, “não haveria lugar para a política como atividade autônoma”. Apesar de sua infinita diversidade (e divisões sobre essa questão), o marxismo teria como marca comum em todas as suas vertentes o “‘essencialismo de classe’, segundo o qual as identidades políticas dependem da posição dos agentes sociais nas relações de produção”, resume Mouffe em um livro de diálogos (publicado em 2015) com o secretário político do Podemos, Iñigo Errejón.2

Para os dois autores, as classes não existem para além de uma “luta” que as opõe. “Estereotipada”, a fórmula seria ainda “quase esvaziada de seu sentido”.3 As identidades políticas não decorreriam de relações econômicas e sociais concretas, e sim unicamente de construções forjadas pelos “discursos”. Sobre o peso dos meios de comunicação na produção desses discursos, contudo, os autores não dizem nada. Apesar de desenvolverem uma reflexão sobre o papel político determinante dos meios de comunicação de massa nas democracias, Laclau e Mouffe evocam o tema apenas para marcar sua capacidade de “abalar profundamente as identidades tradicionais” e construir a “democratização cultural”.

Com a noção de classe esvaziada e a centralização do discurso no jogo político, o campo estaria livre para a estratégia que desenha Laclau em seu segundo livro, La Raison populiste [A razão populista], publicado em 2005.

Segundo o intelectual argentino, o populismo corresponde a uma configuração especial das sociedades. Em tempos normais, os diferentes setores sociais interagiriam com o Estado para reivindicar especificidades de suas categorias: professores se manifestariam por salas de aula com menos estudantes, pequenos artesãos pediriam a diminuição de sua carga fiscal, ecologistas se concentrariam na luta contra a mudança climática, enquanto surgiriam movimentos que sugeririam começar por mudanças na Constituição etc. Laclau fala da “lógica da diferença”.

 

UM PRODUTO DO PERONISMO

Quando o poder se recusa a (ou não pode) dar respostas a essas interpelações variadas – sem necessariamente haver ligação umas com as outras –, o que acontece é “o estabelecimento de uma série de relações de equivalência entre elas”. As diferenças entre esses movimentos tornam-se menos marcadas e logo aparece uma palavra de ordem capaz de encarnar, ao mesmo tempo, o conjunto dos protestos. Quando o Terceiro Estado irrompeu no cenário político da Revolução Francesa, por exemplo, ele não reivindicou apenas um lugar na ordem existente; ele abalou a própria noção de Estado ao mesmo tempo que se apresentou como um verdadeiro depositário de legitimidade nacional. Na perspectiva de Laclau, o Terceiro Estado falaria em nome de toda a sociedade, e não apenas daqueles que representava diretamente.

Sem hesitar ao sugerirem que dão continuidade à reflexão do intelectual sardo Antonio Gramsci4 com “conclusões às quais ele teria chegado se estivesse vivo até agora [sic]”,5 Laclau e Mouffe pontuam: “Essa relação, pela qual certa particularidade assume a representação de uma universalidade incomensurável, é o que chamamos de relação hegemônica”. O fenômeno transformaria, de uma hora para outra, a “plebe” (uma população fragmentada) em “povo”: um “nós” que encontraria a unidade na luta que opõe os setores contra o poder estabelecido, “eles”.

Como todos os intelectuais, Laclau é produto de uma história: antes de qualquer outra, a Argentina, e particularmente o peronismo, fenômeno político considerado um exemplo clássico de populismo ao qual se referem, com a mesma facilidade, dirigentes de esquerda e neoliberais.6 Próximo a Jorge Abelardo Ramos, uma figura do peronismo progressista, o jovem Laclau militava no seio da esquerda revolucionária nacional. Algumas décadas depois, apoiou ativamente os governos, também progressistas, de Néstor Kirchner (2003-2007) e depois os da esposa deste, Cristina (no poder desde 2007).

Laclau também sofreu influência dos pensadores pós-estruturalistas franceses. “Era a época em que autores como Michel Foucault, Jacques Lacan e Jacques Derrida se tornaram importantes”, conta Mouffe em diálogo com Errejón. “Esses trabalhos nos ofereceram ferramentas teóricas que permitiram […] elaborar uma concepção do mundo social como espaço discursivo, produto de articulações políticas contingentes, não necessárias, que puderam se apresentar de outra forma.”

Ao insistir na “não fixidade” como “condição de toda identidade social”, ambos os autores se propõem a superar um dos obstáculos dessa corrente de pensamento. Levada ao extremo, a lógica que visa “desconstruir” as identidades poderia conduzir a um impasse: a ação política se tornaria problemática porque implicaria forjar categorias gerais a priori incompatíveis com o respeito pela diversidade de temas. “Nossa contribuição é unir o pós-estruturalismo e o pensamento de Gramsci. Reconhecer a existência da diversidade de lutas não é suficiente, seria preciso tentar uni-las. […] Avançamos na ideia de que, para poder agir politicamente, seria preciso articular essas diferentes lutas e criar vontades coletivas”, continua Mouffe em seu diálogo com Errejón. Em outros termos, o mecanismo de equivalência permitiria superar a oposição entre identidade e universal.

Trinta anos depois, o secretário político do Podemos conclui que o interesse do livro mudou: se por um lado convida a esquerda a “renunciar ao discurso universal”, seu interesse residiria menos na crítica do essencialismo que na crítica, implícita, de um “pós-modernismo estéril” – segundo o qual tudo é válido porque existem tantas realidades quanto indivíduos. “O espírito da época evoluiu a tal ponto que atualmente o livro permite, na perspectiva oposta, defender a ideia de que o interesse geral existe sim, apesar das dispersões e fragmentações da sociedade”.7

Para funcionar, essa “superação populista” das diferenças exigiria de um lado um chefe, um “líder”, capaz de encarnar cada uma das reivindicações; e, de outro, a disponibilidade de “significantes vazios”, símbolos, linguagens ou outros elementos que pudessem ser apropriados com sentidos diversos. Laclau admite sobre si mesmo: o populismo implica certo grau de indeterminação ou de fluidez política. A emergência do “povo” adquire aqui uma dimensão miraculosa. E precária: pela construção, os momentos de equivalência (a convergência temporária de diversos particularismos) estão destinados a desaparecer.

Da mesma forma, a heterogeneidade do mundo desenhado por Laclau não lhe permite identificar aquilo contra o que “o povo” se organizaria. Falar em la casta (a casta), como faz o Podemos, permitirá realmente distinguir a responsabilidade dos diferentes setores que a compõem na crise espanhola? A indeterminação do termo se coloca como um obstáculo à análise das alianças táticas com algumas de suas frações. Como constatou o Podemos durante as eleições municipais de maio,8 a questão é relevante, a não ser na hipótese de o movimento tornar-se imediatamente majoritário.

No entanto, a injunção de Laclau em rejeitar qualquer forma de jacobinismo reflete também o esforço de uma parte da esquerda de reabilitar a ideia de um socialismo livre da herança da experiência soviética. Os autores de Hégémonie et stratégie socialiste denunciam o leninismo – apesar de sensíveis à importância do combate político – como intrinsecamente autoritário e responsável por um “empobrecimento considerável do campo da diversidade marxiana”. Resumir a luta social a duas forças entre as quais uma sai vitoriosa sobre a outra consistiria, para eles, uma “tentativa totalitária” de deixar passar por alto o caráter constitutivo dos antagonismos na sociedade e de “negar a pluralidade para restaurar a unidade”. Dessa forma, “a tarefa da esquerda não pode ser renunciar à ideologia liberal-democrática [a da defesa e da satisfação dos direitos individuais], mas, ao contrário, aprofundá-la e estendê-la na direção de uma democracia radical e plural”. Certos socialistas consideram que a democracia não é o meio, e sim o resultado. Para Laclau, é o contrário: a democracia é o ponto de partida da estratégia socialista.

Permanece a questão do ponto de chegada. Laclau se mostra pouco eloquente sobre a etapa que se segue à vitória – eleitoral, por exemplo. Apesar de sua derrota ser evocada, o sistema capitalista não é objeto de uma análise profunda, assim como sua capacidade de contaminar todas as esferas da vida social. Difícil imaginar as alternativas vislumbradas por Laclau. Sem as ferramentas de análise de classe, os projetos que visam construir “outro mundo” permanecem vagos. Crítico dessa perspectiva, o cientista político britânico Andrew Gamble vai mais longe: “Retira-se a noção de classes, e o socialismo se funde com o liberalismo”.9

Se por um lado Laclau descreve habilmente esses momentos de efervescência política em que um líder é capaz de mobilizar setores importantes de uma população, por outro abandona a questão da inscrição da emancipação no tempo e nas instituições democráticas novas. Ou quais organizações colocariam em prática as transformações sociais implicadas em satisfazer as reivindicações de redes de equivalência? Que alianças momentâneas deveriam ser reativadas? Experiências de partidos “populistas” demonstram que, ao escamotear qualquer interferência entre “líder” e “povo”, essas formações facilitam os desvios mais aventureiros.

FLUIDEZ PROGRAMÁTICA

Uma reflexão sobre as instituições permitiria igualmente constatar que algumas formas de “populismo” eficazes na América Latina – onde as instituições da democracia representativa são recentes, e os Estados, pouco construídos – não seriam necessariamente eficazes também em países de tradições democráticas mais antigas.

Na Espanha, a aposta de Podemos consiste, sem dúvida, em conservar essa fluidez programática. Professores de Ciência Política, os dirigentes da formação analisaram o impacto do desenvolvimento da sociedade espanhola desde meados da década de 1980. Inúmeros filhos de operários chegaram à universidade e já não se identificam com a origem social de seus pais, apesar de a geração mais nova viver pior que a anterior. A constatação dessa já conhecida confusão de classe sem dúvida conduziu o Podemos a privilegiar a construção do referencial “povo” antes de quaisquer outros, mesmo que esses outros pudessem ser mais justos de um ponto de vista sociológico.

Uma vez o “povo” constituído, contudo, como organizar as prioridades de forma a contemplar as reivindicações às vezes contraditórias dos professores, artesãos e ecologistas citados anteriormente? A decisão (questionada) do partido de apoiar o plano de “auxílio” à Grécia, formulado no dia 13 de julho último,10 teria sido possível com um projeto ideológico mais sólido?

Em um momento em que o movimento operário está fragilizado e a maior parte dos movimentos sociais está recuada, Laclau dotou o Podemos de ferramentas retóricas que encontraram eco na sociedade espanhola. Mas os dirigentes do jovem partido não estão equivocados ao sublinhar que o sucesso da agrupação se explica principalmente pela singularidade do contexto em que se inscrevem: o de um fracasso econômico somado a uma crise política; o da emergência do movimento potente do 15-M. Sem dúvida, é sobre esse aspecto – o contexto – que deveriam se debruçar todos aqueles que quiserem seguir os passos do Podemos.

*Razmig Keucheyan é conferencista de Sociologia da Universidade Paris-Sorbonne e Renaud Lambert é jornalista.



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