O INCÔMODO ESTÁ NOS CORPOS FEMININOS, NÃO NOS MASCULINOS

Erotismo e censura em Santa Catarina

Por que o erotismo, com seu inevitável cunho sexual, incomodou tanto a prefeita de Santa Catarina? O que significa recalcar a sexualidade não apenas em um psiquismo individual, mas em uma cidade inteira?

Em maio de 2025, a prefeita de Balneário Camboriú, Juliana Pavan, publicou um decreto que proibiu o uso de espaços públicos municipais para eventos com conteúdo “sexual, erótico, sensual ou similar”, ainda que restritos a maiores de idade. A medida atingiu diretamente 1º Festival Burlesco da cidade, selecionado por edital oferecido pela própria prefeitura e programado para ocorrer no Teatro Municipal Bruno Nitz. 

Se o objetivo da censura é silenciar os que incomodam, é preciso perguntar: por que o erotismo, com seu inevitável cunho sexual, incomodou tanto a prefeita? Ou ainda: o que significa recalcar a sexualidade não apenas em um psiquismo individual, mas em uma cidade inteira? Perguntas estranhas quando falamos de um destino de verão conhecido como a terra do “whey protein, das putas e do tadalafila”, na provocação do humorista Afonso Padilha. A piada, aliás, foi suficiente para que a Câmara de Vereadores debatesse se ele deveria ou não pedir desculpas à cidade, prova de como a sexualidade é assunto sensível na terra do whey protein, das putas e do tadalafila. 

Enquanto o Ministério Público acionava judicialmente a prefeita, a organização do Festival Burlesco não se rendeu. Buscou espaço alternativo e fez um preview para mostrar à cidade do que se tratava. Resolvi conferir. E, depois de assistir a artistas homens fazendo malabares e a artistas mulheres com mais roupa do que as da praia, perguntei a mim mesmo: afinal, o que exatamente se proíbe quando se proíbe que esse festival aconteça no teatro municipal? 

De Itajaí, a coirmã de Balneário, veio outro relato: uma servidora pública foi obrigada a retirar a palavra machismo do título de uma palestra que faria em uma capacitação do Agosto Lilás. A justificativa: a palavra era descabida porque remetia ao feminismo. Como se não bastasse, a prefeitura pediu que o horário da palestra fosse alterado das 13h para às 14h, porque o número 13 não era bem-visto na cidade. A “quinta série” que comanda a nossa extrema direita segue ditando as regras, até em agenda de capacitação. 

Em um estado que nos últimos anos liderou o ranking de prefeitos cassados por corrupção, as administrações de Balneário Camboriú e Itajaí parecem mais preocupadas em omitir o par machismo-feminismo – como se isso não estivesse gritando todos os dias por aí – e em silenciar o debate sobre sexualidade, seja na esfera pública (com o Festival Burlesco), seja na esfera privada (com o show de Afonso Padilha). 

Crédito: Cia.etc.

Desde Freud a psicanálise sustenta que o trabalho com a cultura e com a arte é sublimatório. A sublimação é o efeito de pulsões agressivas e sexuais transmutadas em outras coisas. Afastar a sexualidade artística é, portanto, aproximar-se de sua forma mais bruta e agressiva. Ao censurar o Burlesco por seu caráter artístico-sexual, a prefeita contribui para inflar uma sexualidade primitiva, sempre propensa a silenciar e a se tornar dogmática. Recalcando-se as sexualidades artísticas, fortalecem-se as sexualidades duras, estanques e unívocas – expressões da adequação social e sexual ao patriarcado mais vulgar. 

Mais que isso: a censura da prefeita reforça a velha tese de que o erotismo é um desvio moral da feminilidade. Afinal, do que vi no preview, o incômodo estava nos corpos femininos, não nos masculinos. Em Gramáticas do Erotismo, Joel Birman lembra que a prostituta, a infanticida, a ninfomaníaca e a histérica eram as quatro figuras de desvio moral feminino produzidas pelo discurso médico do período vitoriano. A histeria, neurose que fundou a psicanálise, foi resultado de uma sexualidade rígida e compulsória imposta pelo patriarcado do século XIX. Freud constatou o sofrimento psíquico causado pela oposição inflexível entre maternidade e desejo: uma maternidade compulsória que não deixava espaço para o livre exercício do prazer feminino. 

Dias atrás, uma deputada federal catarinense usou o próprio bebê de colo para obstruir os trabalhos da Câmara dos Deputados, a pretexto da anistia aos crimes do ex-presidente que foi o mito recente do estado. Eis o retrato do bolsonarismo: no espaço público, espera-se que a mulher encarne a maternidade, já que, enquanto mãe, deve ser destituída de seu erotismo. O mesmo não vale para o erotismo masculino, cuja potência desejante é celebrada, inclusive nos palanques. A aliança entre Bolsonaro, o autoproclamado “imbrochável”, e um Lula que também precisou exibir suas conquistas viris ao lado de Janja, mostra como a política brasileira naturaliza a ostentação da virilidade. A repressão em Balneário Camboriú, portanto, não é neutra, mas seletiva: interdita o erotismo feminino e legitima, por contraste, o masculino. 

E podia ser pior: Juliana Pavan foi a alternativa contra o bolsonarismo no segundo turno das eleições municipais. Daí a atualidade da questão de La Boétie, em seu  Discurso da Servidão Voluntária: “Gostaria de entender como pode ser que tantos homens, tantos burgos, tantas cidades, tantas nações suportem às vezes um tirano que tem apenas o poderio que lhes dão.” 

 

Paulo Ferrareze Filho é psicanalista, pesquisador e professor (IP/USP e UNISUL). 

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