“Escrever aos 40+ é um ato político”, afirma Ana Paula Couto, em entrevista exclusiva
Autora fala sobre maturidade, desejo feminino e o protagonismo das mulheres 40+ na literatura
A escritora fluminense Ana Paula Couto afirma que publicar depois dos 50 é mais do que uma conquista pessoal: é um gesto de enfrentamento ao apagamento feminino. Professora de inglês por mais de duas décadas, ela estreou na literatura na maturidade e hoje entende sua trajetória como parte de um movimento maior de mulheres que se autorizam a recomeçar e a ocupar espaços historicamente negados.
Na entrevista especial de 8M, Ana reflete sobre o preconceito que ainda recai sobre o chick-lit, questiona as hierarquias literárias que desvalorizam narrativas centradas na experiência feminina e fala abertamente sobre menopausa, sexualidade, culpa, autonomia emocional e reinvenção profissional. Para a autora, escrever sobre mulheres maduras é romper com o imaginário que insiste em associar protagonismo à juventude.
Autora de Amor de Manjericão (2022), romance que apresenta Amanda, uma protagonista 40+ atravessando divórcio, maternidade e redescoberta afetiva, Ana deu continuidade à história em Amor de Alecrim (2025). No novo livro, Amanda chega aos 50 anos enfrentando crise conjugal, aposentadoria, menopausa e o reencontro com paixões do passado. A narrativa mistura humor, lirismo e crítica social para discutir etarismo e invisibilidade feminina na maturidade, reafirmando que mulheres mais velhas também são centro de desejo, conflito e transformação.
Nascida e residente em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, a autora iniciou sua trajetória literária com participações em antologias durante a pandemia e consolidou sua carreira com romances voltados à experiência da mulher 40+. Participante de bienais, festivais e coletivos de escritoras, ela defende a literatura como espaço de troca entre mulheres e deixa um recado direto: é preciso ler mais mulheres e abrir espaço para que elas contem suas próprias histórias, em qualquer idade.

Confira a entrevista completa abaixo:
Você publicou seu primeiro romance depois dos 40. Em que momento percebeu que escrever, nessa fase da vida, não era apenas um projeto pessoal, mas também um gesto político?
Comecei a escrever pura e simplesmente por uma necessidade pessoal. Eu precisava compartilhar sentimentos, colocá-los no papel e pôr em campo a escritora que sempre existiu, mas não se mostrava. A questão de publicar, no meu caso aos 53 anos, veio me fazer crer na possibilidade real de fazer algo novo e de me reinventar em uma outra etapa da minha vida. A consciência de que escrever na maturidade é um ato político surgiu agora com a publicação do meu segundo romance Amor de Alecrim, que foi lançado em 2025. Até então, eu considerava minha jornada literária somente como uma realização pessoal e profissional. Hoje, percebo que me lançar como autora pós 50 não ajuda só a mim, mas incentiva outras mulheres a ganharem o seu espaço, se sentirem capazes de fazer algo e até mudar de carreira em qualquer idade. Dar notoriedade ao trabalho de mulheres maduras é enfrentar o apagamento feminino que acontece na sociedade quando começamos a envelhecer.
Amor de Manjericão apresenta uma protagonista 40+ atravessando divórcio, desejo, maternidade e reinvenção. Por que essas histórias ainda são tão pouco visíveis na literatura pop?
Na verdade, eu não acredito que essas histórias ainda são pouco vistas. Vejo um movimento de valorização que estou gostando. No passado sim o Chick-lit era considerado literatura de mulherzinha com seus assuntos fúteis e voláteis, o que não eram. Se a mulher não era tratada com respeito, por que seus assuntos seriam importantes? Quem se interessaria por uma literatura que abordasse os conflitos cotidianos de uma mulher? Essa desvalorização estava muito ligada ao machismo e ao patriarcado. Estamos, a meu ver, em passos lentos, modificando essa realidade. Percebo que as mulheres de hoje querem se ver refletidas nas histórias que contamos, como acontece em Amor de Manjericão, que traz uma protagonista 40+, e em Amor de Alecrim, que continua a história de Amanda, agora aos 50. O movimento está aí, em circulação: mulheres de todas as idades estão se vendo na literatura e estão gostando – assim como eu estou amando escrever para elas.
Existe uma expectativa social de que mulheres maduras escrevam sobre determinados temas ou de determinada forma. Você sentiu esse enquadramento ao assumir o chick-lit como linguagem?
De forma alguma. As mulheres podem escrever sobre tudo! Nunca nem pensei sobre isso. Me sinto livre. Me lancei no chick-lit sem sequer me enquadrar, pois nem sabia que estava escrevendo esse subgênero de romance. Depois que lancei Amor de Manjericão, analisando a obra, percebi que tratava-se de um romance chick-lit e fiquei muito feliz! Mas tenho outras vertentes como autora, escrevo contos, crônicas e poemas. Não me vejo lacrada numa caixa com um rótulo.
O humor e a leveza são marcas do livro, mas os temas são densos: etarismo, sexualidade, solidão, autonomia. Falar de assuntos sérios em tom leve também pode ser uma forma de resistência?
Eu não diria resistência, mas sim sobrevivência. Quando os personagens passam por algo denso, que precisa ser contado, misturar uma pitada de humor, às vezes sarcasmo, faz com que o leitor se aproprie da dor, mas também sorria. A irreverência traz a pausa, a trégua, para que os personagens, assim como os leitores, sobrevivam ao caos, à desordem e ao sofrimento. O tom leve e a leitura fluida fazem com que a história vá sendo contada, que o recado vá sendo dado, que a emoção brote, mas que todos sobrevivam se emocionando, refletindo e também se divertindo.
A escrita surgiu para você quase como um processo terapêutico durante a pandemia. Em que momento essa escrita íntima se transformou em uma decisão de carreira?
Eu tinha o esboço do Amor de Manjericão que, na verdade, começou como um conto sugerido na terapia. Eu precisava escrever sobre alguns assuntos que me assombravam. De um conto surgiram capítulos, vários, pois essa história queria ser contada. Foi mais forte que eu. Guardei esse material, afinal eu não era escritora. Na pandemia, com a necessidade de preencher o tempo, conheci pessoas e comecei a escrever contos e crônicas que foram publicados em antologias. Foi aí que percebi como era prazeroso o processo de criação. Percebi que eu sempre fora escritora desde a minha adolescência, mas eu não me via assim. Demorou, mas através do autoconhecimento redescobri a paixão pela escrita. Busquei, então, o rascunho do meu primeiro romance e comecei a lapidá-lo com o objetivo de publicá-lo. Foi a partir daí que virei a chave e me posicionei como autora.
Após 26 anos como professora de inglês, você passou a ser reconhecida publicamente como escritora. O que muda, internamente e socialmente, quando uma mulher se autoriza a começar algo novo depois dos 40?
Tudo muda. O jeito que você se olha muda, como as pessoas te olham muda. Para mim ser reconhecida como escritora trouxe um profundo sentimento de realização pessoal. Foi um reencontro comigo mesma, com aquela menina adolescente que não sabia que rumo tomar e guardava seus manuscritos na gaveta. Foi um despertar, um sopro de vida, a constatação de que podemos mudar em qualquer época de nossas vidas, seja de carreira, de relacionamento, de sonho, enfim, estamos vivas após os 40!
A sequência Amor de Alecrim avança para temas como menopausa, crise conjugal e independência emocional. Por que falar dessas experiências femininas ainda provoca tanto desconforto?
O desconforto sempre foi companheiro das mulheres e suas queixas e dores constantemente colocadas de lado. O discurso que mulher é mais forte do que o homem para dor, que consegue fazer mil coisas ao mesmo tempo, que dá conta de tudo foi enfiado na nossa goela abaixo por anos. Assuntos pertinentes e inevitáveis às mulheres como a menopausa e o prazer feminino eram tabus. E quebrar um ciclo, um padrão, leva tempo. Por tanto tempo a mulher foi oprimida e aprendeu que sofrer faz parte da natureza feminina, do envelhecer e que nada podia ser feito. Sacudir esses modelos de comportamento pré-existentes é desconfortável, mas precisamos falar de menopausa, envelhecimento, sexualidade, independência emocional e muito mais. A mulher precisa ser vista, acolhida, precisa saber que não precisa sofrer sozinha, calada e resignada.
A protagonista ganhou o nome a partir da sugestão de uma leitora. Como a escuta do público feminino influencia sua escrita e reforça a ideia de literatura como espaço de troca entre mulheres?
Isso de fato aconteceu! A sugestão de nomear a personagem veio por meio de uma leitora e o nome da personagem em si, a Amanda, surgiu em homenagem a uma outra leitora que tem o mesmo nome e me relatou que parecia que tínhamos sentado em um café, conversado e que eu saí dali e escrevi a sua história. Fiquei tão feliz em saber que eu estava conseguindo falar sobre coisas comuns, que acontecem mesmo com as mulheres. Você não precisa criar algo inusitado ou extraordinário, até pode se assim o quiser, mas o que cria um elo forte com o leitor é o fato corriqueiro, ordinário, mas não menos importante. O que é comum nos une, nos emociona e nos espelha. Eu escuto sempre as minhas leitoras! Em Amor de Alecrim há várias sugestões, referências e personagens criados por sugestões dos leitores primeiros de Amor de Manjericão, tanto que dediquei o livro a elas. Sou muito grata por essa troca!
Você afirma que suas histórias fluem como uma conversa entre mulheres. Que tipo de conversa a cultura ainda tenta silenciar quando mulheres maduras falam de desejo e prazer?
Quando falamos de desejo e prazer femininos e o silêncio acerca desse assunto, estamos falando de anos de machismo estrutural. Desde novinhas as meninas brincam de boneca e são ensinadas a se sentarem de perna fechada. Mais velhas se acostumam a usar roupas que evidenciem suas curvas, são estimuladas a estarem sempre belas fazendo unha, sobrancelha, depilação, hidratação, tintura, academia… é um cansaço de exigências! Um verdadeiro massacre para agradar aos homens. Estimula-se a competição feminina. Um horror! Quando a sociedade vê a mulher como um objeto a serviço do homem, seus anseios, desejo e prazer são colocados de lado. Isso é para todas as mulheres, mas ao passo que envelhecemos a régua fica mais alta. A mulher não agrada mais e muito menos é vista como alguém que ainda tem tesão e vontade de viver. Por isso precisamos falar, colocar a boca no trombone e mostrar que as mulheres mais velhas estão cheias de si, cheias de desejo, cheias de vida!
O rótulo chick-lit ainda carrega preconceitos, sobretudo quando associado a mulheres mais velhas. Por que valorizar esse gênero também é questionar hierarquias literárias e de gênero?
Simplesmente porque estamos aqui, vivíssimas, como já falei antes. As protagonistas mais velhas têm um legado, uma vivência única e podem ensinar muito. Mas, para além da ideia de que a maturidade traz sabedoria, há muito mais a ser mostrado por essa mulher vivida. Precisa-se enxergá-la como ela é, como um todo. Respeitar a sua história e a sua trajetória é quebrar esse conceito irreal da eterna juventude e beleza. Tratar sobre assuntos que as mulheres reais vivem, e colocá-los nas narrativas literárias, é imprescindível para quebrarmos tabus e nos libertarmos das camisas de forças que nos são impostas todos os dias.
Participar de bienais, festivais e coletivos de escritoras mudou sua percepção sobre o lugar das mulheres 40+ no mercado editorial brasileiro?
Ainda bem que surgiu esse assunto! Gosto de salientar a importância dos coletivos de escritoras! Foi através deles que comecei a minha carreira. Timidamente participava de desafios de escrita, trocava informações, conhecia pessoas e, quando, percebi, estava no meio onde sempre quis estar. Há muita gente boa no mercado editorial brasileiro. Muitas autoras independentes talentosíssimas de todas as idades. É incrível perceber como produzem essas mulheres! Leiam mais mulheres, para ontem!
Para outras mulheres que desejam escrever – ou se reinventar – depois dos 40, mas ainda sentem medo ou culpa, que mensagem você deixaria?
O medo e a culpa parecem ser a sina das mulheres. Fardo dessa sociedade patriarcal, esses sentimentos nos acompanham e, volta e meia, tentam nos sabotar. A tal sensação de insuficiência sempre ali batendo à porta. Eu diria para calar esse medo e essa culpa. Não se cobre perfeição, não queira dar conta de tudo e muito menos agradar a todos! É missão impossível, dessas que nem Tom Cruise resolve! Abrace sua vulnerabilidade, questione esse patriarcado sufocante e se liberte. Comece pelo simples. Mudanças começam com um primeiro degrau. Ninguém chega ao topo sem passar pela base. Um passinho de cada vez, uma respiração no meio do processo para oxigenar e clarear a mente e muita, muita generosidade consigo mesma! Você pode, você consegue, você realiza! Firma no mantra e vai!
Marcela Güther é jornalista, gestora de comunicação e especialista em relacionamento com a mídia e influência na editora orlando e na com.tato, empresa especializada em comunicação para editoras e autores independentes. Com mais de 10 anos de experiência no setor de comunicação, atua também como mediadora de clubes e mesas literárias, combinando paixão por leitura com expertise em comunicação e curadoria de conteúdo literário.


Como leitora de Amor de Manjericão e Amor de Alecrim gostaria de parabenizar a autora, Ana Couto pela sua sensibilidade e cuidado em expressar temas tão importantes e fundamentais em seus livros de forma leve e aí mesmo tempo madura . Parabéns também a reportagem que mostrou um pouco mais o universo da autora de maneira preciosa e detalhista.