ENTREVISTA

Escritora e roteirista Andrea Jundi compartilha sobre o processo de escrita do seu primeiro romance, ‘O Menino e o livreiro’

Autora traz sua experiência no audiovisual para narrar a história sensível de um menino que encontra refúgio em uma livraria

A roteirista e escritora Andrea Jundi estreia na literatura com O menino e o livreiro (Editora E-Galáxia), um romance sensível que trata de abandono, afeto e reconstrução a partir da trajetória de Carlos, um menino de dez anos. Com mais de 20 anos de atuação no audiovisual, Andrea traz para a literatura sua habilidade em criar personagens complexos e cenas vívidas.

Crédito: Divulgação

Na trama, Carlos enfrenta o abandono familiar e o cotidiano de um lar temporário, mas encontra refúgio na amizade com Romeo, um velho livreiro, e seu assistente Pietro. A relação entre eles, permeada pelo amor aos livros, se torna o eixo central da história, revelando a força das relações humanas e o poder transformador do afeto. Alternando narrativas entre Carlos e outros personagens do seu entorno, como o irmão João e a amiga Joana, a autora aposta numa abordagem mais esperançosa para temas dolorosos.

Formada em Comunicação pela FAAP e com passagens por produtoras como O2 Filmes, Conspiração e Mixer, Andrea Jundi construiu sua carreira como assistente de direção e roteirista. Estudou criação de roteiro em Londres e, desde 2022, vive em Lisboa, onde se dedicou à escrita de seu primeiro romance. Com olhar apurado e linguagem acessível, ela alia sua experiência no cinema ao desejo de contar histórias que emocionem e inspirem.

Crédito: arquivo pessoal

De onde veio a inspiração inicial para escrever O Menino e o Livreiro e o que a motivou a transformar essa ideia em um livro?

Eu sempre fui muito apaixonada pelas diferentes formas de contar uma história. Trabalho com audiovisual há mais de 20 anos vendo as histórias serem criadas, personagens reais cheias de camadas ou ficcionais que imitam a vida. Além disso, penso de forma muito imagética. Pequenas cenas se formam na minha cabeça, às vezes movidas por algum acontecimento do cotidiano, às vezes sem qualquer relação.

A história de O Menino e o Livreiro surgiu de uma cena desse menino franzino e ágil percorrendo aos pulos pelas barracas de uma feira, passando por baixo de bancadas e desviando de caixotes e baldes. Eu queria saber quem era esse menino de olhos brilhantes que não me saía da cabeça e porque ele corria tanto. No final a cena não ficou no livro, porque o personagem do menino, o Carlos, me apresentou outra forma de se expressar. Mas foi a história dele que me motivou a escrever e meu envolvimento com os personagens que foram surgindo e que o próprio Carlos me apresentou, que fizeram com que eu quisesse mesmo que virasse um livro.

Como foi sua rotina e o processo criativo durante a escrita de O Menino e o Livreiro, e quanto tempo levou desde o início até finalizar o livro?

O processo de escrita para mim é uma completa imersão. Eu consigo escrever em média 4 horas por dia com foco total, depois disso o rendimento cai muito e já não vale o esforço. No dia seguinte eu releio o que escrevi no dia anterior antes de seguir adiante. Muitas vezes apago bastante e reescrevo. Outras sou menos dura comigo, deixo como está e sigo.

Tem um processo de entrega mesmo, mas para mim também, um trabalho constante de manter a voz impostora quieta e confiar que eu consigo. Muitas vezes quando não é um dia de muita disposição ou quando algo da vida me toma a cabeça, sei que vou render menos naquele dia, mas ainda assim procuro ter a disciplina de sentar e escrever, mesmo que apague tudo no dia seguinte. O trabalho de escrita exige muita disciplina.

Eu havia começado a escrever O Menino e o Livreiro há mais de dez anos. Na época eu trabalhava com cinema e emendava um projeto no outro. Por isso, acabei engavetando o livro, mas sabia que ia voltar para ele assim que conseguisse, em outra fase. Peguei nele de novo no final de 2022 e quando reli o que havia escrito, descartei tudo. Percebi que naquela altura, há dez anos, eu não estava mesmo pronta. Comecei do zero a escrita, mas parte da história já estava na minha cabeça há muitos anos, então fluiu bem na maior parte do tempo. Escrevendo sem parar, praticamente todos os dias, levei um pouco menos de um ano para sentir que tinha terminado.

Quais são os principais temas abordados em “O Menino e o Livreiro”?

Abandono, amizade, amor, pequenas belezas da vida e encontrar seu lugar no mundo apesar do mundo te mostrar tantas vezes que não há lugar para você. O personagem principal, Carlos, é filho de um pai que o abandonou e de uma mulher/mãe que sucumbe à soma de sofrimentos causados por um sistema que não olha pelas mulheres. É sobre os que partem, mas especialmente sobre os que escolhem ficar. É sobre uma energia de vida que impulsiona o menino o fazendo acreditar que sempre é possível começar de novo.

Por que abordar questões como abandono parental, maternidade solo e a negligência do Estado?

No Brasil, mais de 5 milhões de crianças não têm pai na certidão de nascimento. E outros tantos só tem o nome do pai na certidão, mas não os tem na vida real. Milhares de casas são lideradas apenas por mulheres, mas numa sociedade que não olha para elas com o respeito e cuidado necessários. Na ponta final, quem sofre de muitos tipos de abandonos, são as crianças. O Estado vira a cara para essas crianças toda vez que não cuida de suas mães, toda vez que não responsabiliza os homens pelos seus atos, toda vez que cerceia a liberdade às mulheres sobre seus próprios corpos e que as pune por crimes cometidos pelos homens.

Ainda assim, sou uma otimista incorrigível e acredito que sempre há pessoas que podem fazer a diferença na vida dos outros e dar novos significados às relações. Que podem mostrar um caminho que seja menos doloroso e mais afetuoso. Existem várias formas de falar de temas doloridos e todos são igualmente necessários. Em O Menino e o Livreiro escolhi falar através das lentes do acolhimento, da chance, do recomeço.

Na sua visão, qual é a principal mensagem de O Menino e o Livreiro sobre as relações humanas e a importância dos vínculos afetivos?

Acho que a mensagem central do livro é que, sozinho ninguém consegue. E que quem escolhe ficar ganha muito mais através das relações humanas que se desenvolvem. Falar sobre as relações e de como as pessoas precisam mesmo umas das outras para viver é um tema que me inspira. Os sentimentos que elas trazem, e como cada uma lida com as belezas e durezas que a vida apresentou.

O que significou para você concretizar a escrita de O Menino e o Livreiro e de que forma esse processo impactou sua própria trajetória pessoal?

Esse livro representa para mim a realização de um projeto idealizado por muitos anos e a oportunidade de fazer essa história que eu amo, chegar em outras pessoas. Colocar essa história no papel e ao longo da escrita descobrir mais profundamente os personagens, trabalhar seus sentimentos e confrontar em mim meus próprios sentimentos com certeza me transformou.

Colocar uma história no mundo, para mim, é uma forma de habitar a alma de quem me lê, pelo menos enquanto ela estiver com meu livro em mãos. Então, que seja bonito.

Embora este seja seu primeiro romance, de que forma sua experiência profissional – principalmente como roteirista – e suas vivências anteriores contribuíram para a construção de O Menino e o Livreiro?

Esse é meu primeiro romance, mas trago comigo uma outra bagagem muito valiosa. Minha profissão me levou a conhecer diversas realidades completamente diferentes da minha e que me inspiram todos os dias. Nosso país é enorme e a riqueza de culturas e diversidade tem uma força que me impulsiona. A realidade dos personagens de O Menino e o Livreiro são um reflexo dessas vivências que tive como espectadora através de trabalhos realizados no audiovisual.

Quais referências moldaram sua sensibilidade artística, e como essas influências ajudaram a formar o estilo presente em O Menino e o Livreiro?

Minha principal influência artística é o cinema, com certeza. Amo em especial filmes feitos sobre gente, sobre a simplicidade e crueza das vidas reais, sendo elas ficção ou documentários.

Minhas principais influências literárias eu não sei dizer exatamente porque sou leitora voraz desde que me lembro por gente e tenho uma leitura bem diversa. Um dos livros que mais me encantou no passado foi Cem Anos de Solidão, do Gabriel Garcia Marques, mas atualmente as escritoras que mais me encantam são Chimamanda Ngozi, Carla Madeira, Socorro Acioli, Eliane Alves Cruz, Rute Simões Ribeiro, Elena Ferrante, entre tantas outras mulheres contemporâneas que escrevem de forma tão límpida sobre suas personagens. E apesar de estar mais focada na leitura de mulheres, gosto muito da escrita do Jefferson Tenório e do Valter Hugo Mãe. Não consigo ver uma influência direta de nenhuma obra em específico, mas com certeza de uma junção de referências que me atraem nas leituras ao longo da vida.

Como você descreveria seu estilo de escrita e que escolhas estruturais guiaram a construção de O Menino e o Livreiro?

A estrutura é clássica, mas gosto de uma escrita descompromissada, simples e direta. Amo metáforas porque vejo a vida assim todos os dias. Minha cabeça funciona de forma imagética e em construções de metáforas constantes que não consigo controlar.

A escrita para mim tem que ser fluida, é o que na minha opinião conecta o leitor à história. Mas também porque quero que qualquer pessoa se sinta capaz de ler minhas histórias, sem precisar ser um grande intelectual ou um leitor costumaz. Desejo que meu livro desperte nas pessoas a vontade de continuar lendo mais e mais livros.

Você escreve desde quando? Como começou a escrever?

Eu escrevo desde criança. Primeiro em formato de diário como tantas outras crianças. Depois um pouco mais velha, usava a escrita como desabafo para organizar os pensamentos de uma cabeça confusa de adolescente. Já adulta inserida no mercado de trabalho, apesar de não ter ido trabalhar como roteirista já de início, fiz inúmeros cursos de roteiro e sempre mantive a escrita muito viva em mim. Há uns quinze anos comecei a estudar escrita literária e a me arriscar em escrever histórias com a profundidade que a literatura permite, mas sempre para mim mesma.

Quando me mudei para Lisboa em 2022, eu quis mudar o foco profissional também. Foi um momento importante que eu já planejava há muito tempo. Estar inserida em uma nova rotina absolutamente diferente da que eu tinha no Brasil, me permitiu essa mudança profissional. Trabalhar com audiovisual é um dos meus grandes prazeres, mas é um trabalho que consome todo seu tempo e energia. Demanda muito para dar conta de tudo, ainda mais com dois filhos pequenos. Com os filhos estudando em período integral e a vida mais calma daqui eu me organizei para me dedicar integralmente ao livro e finalmente realizar esse projeto que dormia e acordava na minha cabeça há anos. Migrei também para o departamento de roteiros no audiovisual para que a escrita esteja em todas as áreas da minha vida e eu me cerque apenas de coisas que amo profundamente.

Quais são os seus projetos atuais de escrita? O que vem por aí?

Comecei a escrever um novo romance e espero lançar em 2026. Dessa vez as protagonistas serão duas mulheres, mãe e filha. Estou puxando o fio condutor aos pouquinhos e descobrindo para onde elas me levam. Por enquanto só sei que vai ser bonito.

 

Veriana Ribeiro é jornalista e escritora acreana com mais de 15 anos de experiência na área da comunicação, formada pela Universidade Federal do Acre (UFAC) e mestre em Meios e Processos Audiovisuais pela Universidade de São Paulo (USP). Publicou o livro Coletânea dos Amores Partidos (autopublicação, 2021) e participou da coletânea Antes que eu me esqueça \ 50 autoras lésbicas e bissexuais hoje (Quintal Edições, 2021), além de escrever projetos literários independentes como zines e newsletters.

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