RESENHA

Esquecemos os nomes dos pássaros, de Sarah Munck Vieira

Neste seu segundo livro, a autora captura a atenção para verdadeiros manifestos de alteridades ao desnudar sofrimentos de seres vulneráveis, carregando materialidades que nos fazem pensar em quais futuros possíveis poderemos legitimamente nos ancorar e habitar, não mais só como vítimas

Ao ler Esquecemos os nomes dos pássaros, vi o esplendor de uma poeta que se firma como uma das vozes mais belas e cortantes da nossa atual literatura, impactada que fui pelo ávido campo de percepções criativas da Sarah Munck Vieira.

Neste seu segundo livro, a autora captura a atenção para verdadeiros manifestos de alteridades ao desnudar sofrimentos de seres vulneráveis, carregando materialidades que nos fazem pensar em quais futuros possíveis poderemos legitimamente nos ancorar e habitar, não mais só como vítimas. Com seu jeito único de amarrar fios de memórias aos sons e ao absurdo do cotidiano, especialmente quando alguma violência brutal insiste em destruir a vida de mais uma mulher, ela vem enfrentando as tempestades com consciência histórico-social-política em riste, mostrando os dribles no jogo como caminhos para novas correntezas em nossas existências.

Crédito: Divulgação

Inteira, Sarah deixa-se doer ao passo que se conecta com a dor dos outros; acolhe os seres que vislumbrou no caos com olhos de mãe, pega-os no colo e os embala no berço de um poema, mesmo que o colchão seja de cimento e cinza, lama, fosso. E assim vamos vendo que, com elevada capacidade imaginativa e imagética, sua inventividade cria uma obra embebida por uma admirável viscosidade estética.

Como pássaros libertos, Munck sabe o que quer dizer, e move palavras sob muitos “eus” e o impacto do torque, em um texto carnal, intenso e inacabado, típico da sua poesia livre. Na trilha da sinalização de Maya Angelou, Sarah se levanta e transforma colapsos, ataques, traumas e perdas do nosso tempo em arte, guiada por um coração que percebe, porque segue sendo necessário escrever o pássaro.

 

Gisela Bester é poeta, Mestra em estudos de gênero e feminismos e Doutora com estágio pós-doutoral em Direito pela UFSC, Universidad Complutense de Madrid e Universidade de Lisboa. Autora de Pinte-me de Azul! (Mondru, 2023) e de Sorrir, esse sacrifício (TAUP, 2024).

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