Esquerda não é sinônimo de comunismo - Le Monde Diplomatique

OPINIÃO

Esquerda não é sinônimo de comunismo

por Paulo Galvão
13 de dezembro de 2021
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O comportamento do presidente Jair Bolsonaro e seus seguidores assemelha-se ao que observamos na Teoria da Securitização, desenvolvida pela Escola de Copenhagen, em que temas que não deveriam constar na pauta de segurança nacional são incluídos deliberadamente com fins escusos

O título deste artigo parece óbvio para quem tem um mínimo de discernimento, um pouco de conhecimento histórico e uma boa compreensão da realidade atual, mas em tempos de pós-verdade, em que fatos são sobrepujados por crenças, e em que imperam o negacionismo e as fake news, tal debate nos parece não apenas necessário, mas urgente.

Jair Bolsonaro não perde uma chance de vincular os partidos e movimentos de esquerda ao comunismo. Em visita ao Maranhão, em outubro de 2020, o presidente da República disse que “nós vamos, num curto espaço de tempo, mandar embora o comunismo do Brasil”, como se tal regime alguma vez tivesse sido implementado no país. Em setembro de 2021, no discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU, o presidente da República afirmou que, quando assumiu o governo, “estávamos à beira do socialismo”. Não há dúvidas de que essa retórica atinge uma parte da sociedade. Nos recentes atos pró-Bolsonaro em diversas regiões do país, não faltaram gritos e cartazes nesta direção: “Presidente Bolsonaro, eu te autorizo. Nos livre do comunismo”, escreveu um apoiador, em São Paulo. Sobraram, também, mensagens como “Fora comunismo”, “Comunismo não” e “Vai para Cuba”.

O modus operandi é o mesmo de tempos atrás. Por meio de narrativa fantasiosa, incutir em parcela da população o receio da adoção de um sistema que já se mostrou, segundo relata Anthony Giddens, “inaceitavelmente autoritário” e “economicamente ineficaz”. A estratégia falhou em 1937, com o Plano Cohen, mas obteve sucesso em 1964, quando a “ameaça comunista” por parte do então presidente João Goulart levou mais de um milhão de pessoas às ruas, em São Paulo e no Rio de Janeiro, na histórica Marcha da Família com Deus pela Liberdade. A manifestação, na capital paulista, ocorreu em 19 de março, menos de uma semana depois do comício da Central do Brasil, quando João Goulart anunciou algumas medidas que integravam as Reformas de Base, entre elas a desapropriação de terras próximas a eixos rodoviários e leitos de ferrovias, e a encampação de cinco refinarias de petróleo particulares. A partir daquele momento, segundo Jango, tais instalações passavam “a pertencer ao patrimônio nacional”. No discurso, Jango citou “uma ordem social imperfeita, injusta e desumana” e reforçou seu lema de governo: “progresso com justiça, e desenvolvimento com igualdade”.

Numa conjuntura mundial extremamente polarizada pela Guerra Fria, tal discurso foi a peça que faltava para o golpe civil militar. Duas semanas depois, o general Mourão, não o Hamilton, mas o Olympio, colocava suas tropas na rua, em Juiz de Fora, dando início aos 21 anos de ditadura militar no país. Coincidência ou não, o mesmo Olympio Mourão Filho fora o responsável por forjar a ameaça comunista em 1937, com o Plano Cohen.

comunismo
Correio da Manhã de 1 de outubro de 1937, anunciando a “apreensão” do Plano Cohen pelo Estado-Maior do Exército. (Imagem: Memorial da Democracia)

Os tempos, hoje, são outros, a Guerra Fria ficou para trás, a China já abandonou a ideia de comunismo há algumas décadas, mas a retórica bolsonarista permanece. Em certa medida, tal comportamento por parte do presidente Jair Bolsonaro e seus seguidores assemelha-se ao que observamos na Teoria da Securitização, desenvolvida pela Escola de Copenhagen, em que temas que não deveriam constar na pauta de segurança nacional são incluídos deliberadamente com fins escusos. Segundo Buzan, Waever e Wilde, trata-se de um processo em que, por meio de atos de fala, o agente securitizador “utiliza o argumento da urgência de uma ameaça existencial para desrespeitar procedimentos e regras seguidas em situação de normalidade”. Cria-se uma ameaça inexistente para justificar medidas de exceção. Isso é um perigo! Em discurso inflamado durante as comemorações do 7 de Setembro, em São Paulo, após afirmar que nosso sistema eleitoral “não oferece segurança” e tecer duras críticas ao STF, chamando o ministro Alexandre de Moraes de “canalha”, Bolsonaro disse que “se alguém quiser jogar fora dessas quatro linhas (da Constituição), nós mostraremos que poderemos fazer também”.

Diante de tais ameaças, não nos cabe o silêncio. Não há dúvidas de que essa retórica fantasiosa atinge parcela significativa da sociedade. Quem pensa diferente é chamado de “esquerdopata”, como se o viés ideológico à esquerda fosse uma doença. Norberto Bobbio nos lembra que, historicamente, o ideal que mais diferencia a esquerda não é a busca por um Estado maior nem mesmo qualquer pauta de costumes, mas um “profundo sentimento de insatisfação e de sofrimento perante as iniquidades das sociedades contemporâneas”. O próprio Bobbio, em seu “Direita e Esquerda – razões e significados de uma distinção política”, recorre ao “princípio de retificação”, de Louis Dumont, para expor a forma distinta como a esquerda e a direita enxergam as enormes diferenças sociais de nosso tempo. Tal teoria parte do pressuposto de que essas desigualdades são injustificáveis, portanto, “devem ser reduzidas ou abolidas”. No entanto, de acordo com Dumont, para a direita, tal situação é considerada “natural, sacra, inevitável e inviolável”.

Não nos surpreende, portanto, o fato de o conservadorismo ser um atributo vinculado à direita, enquanto a esquerda, historicamente, clama por mudança. Não se trata aqui de demonizar o capital. Para Bobbio, há, inclusive, “uma esquerda no interior do horizonte capitalista”. A própria “The Economist”, em editorial por ocasião dos 175 anos de fundação, pregou um “renascimento liberal”. Segundo a publicação, já passou da hora de “os liberais tomarem o lado dos necessitados contra os mais ricos”. O ex-ministro da Fazenda Delfim Netto dizia que era necessário esperar o bolo crescer para depois dividi-lo. Décadas se passaram, alguns bolos já saíram do forno, mas a maioria da população brasileira ainda não sentiu nem o cheiro.

A responsabilidade social exigida para o desempenho do trabalho jornalístico em um país tão desigual como o Brasil não nos permite fugir desta triste realidade. Nosso “lugar de fala”, mais do que nunca, tem de ser a Constituição. No inciso III do artigo 3º da Carta Magna está escrito que, entre os objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil estão “erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais”. Não me consta que tenham sido comunistas que elaboraram tais leis. Em sua “Oração aos Moços”, talvez inspirado por Aristóteles, Ruy Barbosa lembrava a necessidade de tratar de forma desigual os desiguais. Não há outra saída. Mãos à obra!

 

Paulo Galvão é jornalista, mestre em Relações Internacionais, licenciado em História, apresentador do CBN Madrugada

 



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