Estado de mal-estar social
Com o fim da utopia da globalização, uma deterioração política e institucional vem ganhando tração nas sociedades liberais, expressa no crescimento da extrema-direita e no que se convencionou classificar de “crise da democracia”. Mas esse mal-estar político é tradução de outro, mais profundo: o mal-estar social
Entender por que, no Ocidente, tanta gente se volta contra as instituições exige mais do que as variáveis de curto prazo mobilizadas pelas análises de conjuntura. A decadência política vivida pelas democracias ocidentais revela um problema estrutural, somatizado no avanço da onda reacionária saudosista do que houve de pior no século passado. Em outras palavras, o fascismo não é a doença, mas o sintoma.
Sintoma
Pelas livrarias e análises políticas dominantes, é fácil constatar que o grande tema vigente é a “crise da democracia”. Diversos livros sobre o assunto saíram nos últimos anos, a partir das vitórias da extrema direita mundo afora. Cenário em que avançam déspotas nada esclarecidos amparados pela erosão severa da confiança nas instituições.
Nos EUA, a confiança no governo desabou de 73%, em 1958, auge do capitalismo regulado, para 17%, em 2025, menor patamar em quase 70 anos. A insatisfação com o funcionamento da democracia atinge 62% dos estadunidenses[1]. O Latinobarómetro (2024), por sua vez, registra que apenas 28% se dizem satisfeitos com a democracia, e só 25% a consideram segura[2].
Dados do BTI (2026)[3], na mesma linha, indicam algo ainda mais alarmante: 45% dos brasileiros apoiariam um golpe militar para deter a alta criminalidade, e 49% o fariam em caso de corrupção generalizada. Na Europa, uma em cada quatro pessoas vota, hoje, em partidos de extrema direita[4]. O Reagrupamento Nacional (RN) francês saltou de 19% (2022) para 37% (2024), tornando-se a maior bancada da Assembleia Nacional. A Alternativa para a Alemanha (AfD) passou de 10% (2021) para 21% (2025), se tornando a segunda força política do país. O Partido Liberdade austríaco (FPÖ) foi de 16% (2019) para 29% (2024). O Chega português saltou de 7% (2022) para 18% (2024). O Fratelli d’Italia foi de 4% (2018) para 26% (2022). Os números seguem padrão semelhante em diversos outros países e a extrema-direita já integra coalizões de governo na Itália, Croácia, República Tcheca, Finlândia, Suécia, e lideram pesquisas na Áustria, Bélgica, França, Alemanha e Reino Unido.
O perfil etário dessa radicalização é claro: jovens, principalmente do sexo masculino. Outrora mais alinhados a partidos progressistas, agora eles se alinham às fileiras da extrema direita. Na França, 33% dos eleitores de 18 a 24 anos votaram no RN, em 2024. Na Alemanha, a AfD foi o segundo partido mais popular entre a mesma faixa, em 2025. A extrema direita não se mostra, portanto, um refúgio de conservadores saudosistas de um passado superado, mas expressão crítica de uma geração que jamais conheceu a segurança social e que enfrenta um horizonte de precariedade permanente.
O que está por trás disso? E em que medida a democracia liberal, sob o neoliberalismo, é capaz de garantir uma arquitetura política resiliente aos expedientes autoritários que ora avançam? E, não menos importante: como essa arquitetura atende às disposições necessárias ao regime democrático – que presume acesso popular ao poder?
O problema chama a atenção para a definição de democracia, categoria que aparece no debate ocidental sob viés normativo. Tomada de modo a-histórico, ela se torna categoria vazia, recurso retórico que reduz o debate a dimensões institucionais apenas funcionais à sustentação de um sistema de acumulação de riqueza e exclusão sistemática das massas em relação à política.
Se nosso problema aqui aponta para a democracia enquanto categoria, também demanda uma análise sobre a ideia de “crise”, um desvio em um sistema outrora funcional. Por isso, outra
pergunta se impõe, sintetizando as anteriores: a democracia liberal funciona? A pergunta se desdobra em outra, caso a resposta seja afirmativa: funciona para quem?
Há diversas crises acometendo a civilização, mas todas, em maior ou menor medida, parecem se reportar a uma crise sistêmica: a da sociedade neoliberal. E a democracia liberal é o modelo político que legitima o modo de produção e distribuição de riqueza dominante, marcado por tantas contradições. Nesse sentido, é preciso entender seus limites não apenas históricos, mas ontológicos, o que enseja a hipótese de que a democracia liberal é o enquadramento político de um sistema social não apenas em crise, mas fadado à crise: o neoliberalismo.
Diagnóstico
O neoliberalismo tem raízes no questionamento do liberalismo clássico, então baseado na ideia de uma disposição natural à autorregulação da atividade econômica. Com a empiria fornecida pelas primeiras crises do capitalismo, principalmente após 1929 e as soluções keynesianas, alguns autores liberais entenderam que a economia não podia prescindir do papel do Estado. A questão passava a ser que papel o Estado desempenharia.
- Hayek, cânone neoliberal, afirma que o papel do Estado deveria restringir-se a assegurar o quadro institucional/jurídico fiador da ordem de mercado – o rule of law –, a fim de proteger a propriedade, fazer cumprir os contratos e prover bens públicos estritamente necessários que a iniciativa privada não pode fornecer – notadamente a segurança, naquilo que se apelidou de Estado “guarda noturno”, ou “Estado mínimo”. Quanto à democracia, Hayek foi claro em tomá-la como instrumento, mas não finalidade. Seria o método para limitar o poder, mas não um meio de realização para o consenso popular, entendimento revelador da tensão incontornável entre a defesa intransigente da propriedade e qualquer horizonte de justiça social – tratada como ameaça à ordem espontânea do mercado, o bem maior na cosmovisão neoliberal.
Ao alicerçar a liberdade individual sobre a propriedade, Hayek esvazia a democracia de substância, reduzindo-a a mero procedimento instrumental para deter a maior ameaça – o planejamento estatal, que via como tendência totalitária. Não surpreende, portanto, que, em plena ditadura Pinochet, tenha declarado com desconcertante franqueza preferir “um ditador liberal a um governo democrático sem liberalismo”[5]. Franqueza sintomática da hierarquia neoliberal de valores e compromissos que enquadra a soberania popular como obstáculo à realização das forças do mercado.
A consequência desse conjunto de ideias, implementado a partir do final da década de 1970, é o declínio sensível do bem-estar social entre as sociedades capitalistas. Após o ciclo virtuoso do pós-Guerra, engendrado pela aceleração da economia americana e pela necessidade de competir com a URSS, as políticas neoliberais passaram a ser adotadas no lastro da decadência do planejamento soviético e sob medida para recompor as margens de lucro, que haviam esbarrado na tendência de queda identificada por Marx como uma das “leis” do capital.
O avanço da extrema direita, conquistando segmentos em todos os estratos sociais, é sintoma, portanto, do quadro neoliberal, bem como de contradições históricas profundas legadas pela doença crônica da modernidade, o colonialismo, gêmeo siamês do liberalismo.
Doença
“Da colonização à civilização a distância é infinita; […] de todas as expedições coloniais acumuladas, de todos os estatutos coloniais elaborados, de todas as circulares ministeriais despachadas, não sobraria um único valor humano.”
– Aimé Césaire.[6]
O estabelecimento da democracia liberal como modelo consiste no marco contraditório central da dialética colonial. Ato contínuo, o próprio conceito de “civilização”, longe de ser natural, precisa ser historicizado. Em O processo civilizador[7], Norbert Elias afirma que “se examinarmos o que realmente constitui a função geral do conceito de civilização, e que qualidade comum leva todas essas várias atitudes e atividades humanas a serem descritas como civilizadas, partimos de uma descoberta muito simples: este conceito expressa a consciência que o Ocidente tem de si mesmo. […] Ele resume tudo em que a sociedade ocidental dos últimos dois ou três séculos se julga superior a sociedades mais antigas ou a sociedades contemporâneas ‘mais primitivas’. Com essa palavra, a sociedade ocidental procura descrever o que lhe constitui o caráter especial e aquilo de que se orgulha: o nível de sua tecnologia, a natureza de suas maneiras, o desenvolvimento de sua cultura científica ou visão do mundo, e muito mais” (Elias, 1994, p. 23).
Seguindo esse pavio, em Cultura e Imperialismo[8], Edward Said (2011) chama a atenção para as representações negativas de povos não europeus como verdadeiros “espantalhos” na literatura ocidental, que representa os sujeitos periféricos à Europa como “corruptos”, “violentos” etc., dimensão colonial que hoje se expressa em amplitude ainda maior nos filmes, séries, jogos e outras formas de difusão cultural.

Em perspectiva econômica, o colonialismo deve ser lido como a espinha dorsal da acumulação primitiva de capital. Segundo Eric Williams, na clássica tese sobre a relação entre capitalismo e escravidão (2020, p. 63)[9], “os escravos eram a energia deste mundo ocidental”. A relação entre a formação da modernidade, com sua matriz liberal e humanística, e o brutal sistema colonial marca, portanto, a dialética que está na raiz do sistema internacional moderno. Diversos autores da vanguarda do Iluminismo eram notórios defensores da escravidão. Como atesta Williams, “o tráfico negreiro não era uma atividade da escória da sociedade inglesa – sua principal administradora. Os comerciantes mais ativos nesse negócio eram homens respeitáveis, pais de família e excelentes cidadãos que ocupavam altos cargos na Inglaterra”[10]. Daí, acentua-se a contradição flagrante da modernidade: a articulação entre os valores liberais e a violência colonial, razão pela qual a democracia liberal tolera tão naturalmente a miséria e outras expressões da desigualdade congênitas sob o capitalismo.
Os direitos humanos e a arquitetura filosófica moderna consideram a humanidade segundo um viés eurocêntrico, e foi essa a ideologia que legitimou a barbárie colonial, e que, ainda hoje, estrutura as relações centro-periferia no sistema internacional. Disso resulta que a experiência da democracia contemporânea está limitada por desigualdades estruturais. Segundo Losurdo (2020, p. 20)[11]: “[…] a democracia não pode ser definida independentemente dos excluídos; o despotismo exercido sobre os bárbaros, obrigados à obediência absoluta própria dos escravos e às infâmias da expansão e do domínio colonial, lança uma luz inquietante sobre os Estados liberais, e não só no que respeita à sua política internacional. Esta não é um elemento estranho da estrutura político-social interna. […] Na tradição liberal a teorização ou celebração da liberdade avança a par e passo com a enunciação de cláusulas de exclusão, pelo que a liberdade em última análise acaba por se configurar como privilégio. […] o triunfo do liberalismo coincide com a vitória da expansão colonial, na qual, para falar como Tocqueville, ‘a raça europeia’ submete ‘ao seu império ou influência todas as outras raças’ […].”
Cloroquina
O quadro acima revela um sistema sub-reptício aos valores modernos, ou o custo dessa modernidade. Hoje, esse custo se acentua sob o neoliberalismo, que, longe de significar uma virada de chave na história do capitalismo, trata-se de um recrudescimento de suas tendências após a superação das contingências impostas pelo século XX. É nesse sentido que o “fim da História” se enuncia em princípios da década de 1990. Encerrada essa utopia, que discuti melhor no texto Além do fim da história, e com o avanço das tensões sociais que se acumulam no recorte das políticas neoliberais, o remédio sugerido pelos economistas que dominam o debate público – criteriosamente selecionados por meios de comunicação que representam a concentração do capital – é o conjunto de medidas conhecidas sob a ideia de “austeridade fiscal”. Segundo o enquadramento neoliberal a que se reportam essas análises, os problemas sociais são fruto da ineficiência do Estado, que deveria ser substituído tanto quanto possível pela iniciativa privada.
Mas a receita não para em pé à luz dos fatos. Em A Ordem do Capital (2024)[12], Clara Mattei demonstra como os economistas têm se esforçado para apresentar as medidas de austeridade como ciência. Segundo a autora, essas políticas podem ser analisadas sob a forma de uma “tríade”: austeridade fiscal, através de cortes de gastos sociais, taxação regressiva, impostos sobre consumo, corte de impostos para ricos (corporativos, sobre patrimônio); austeridade monetária, via independência dos bancos centrais e aumento das taxas de juros; e austeridade industrial, por meio de ataques a sindicatos, privatização, desregulamentação do trabalho e arrocho salarial. Os resultados são uma classe trabalhadora mais disciplinada, menos capaz de realizar greves e questionar seus patrões.
O indicador mais contundente do desastre promovido por esse conjunto de políticas (ao qual pertence, por exemplo, o Teto de Gastos aprovado durante o governo Temer) é a desigualdade de renda. Nos EUA, a fatia da renda nacional apropriada pelo 1% mais rico saiu de 10%, em fins da década de 1970, para 20% em 2022. Até mesmo países como a Suécia, paradigmáticos do bem-estar social, viram a concentração de renda saltar 40% no recorte de quatro décadas. A taxa de sindicalização, também, nos países da OCDE caiu de 35% para 15% no mesmo recorte, sinalizando a degradação da proteção trabalhista sob intensa desregulamentação.
E o impacto disso tudo sobre os salários é direto. Nos EUA, o salário médio real no setor de produção e serviços está praticamente no mesmo nível desde 1973, enquanto a produtividade mais do que dobrou. Na Europa, a estagnação salarial aponta que, entre 1995 e 2022, os salários reais cresceram em média 0,8%, enquanto o PIB per capita cresceu 1,3%.
A crise habitacional é uma das consequências mais devastadoras desse quadro. O acesso à moradia, que nos trinta anos gloriosos do welfare state era garantido por políticas de habitação social e crédito subsidiado, tornou-se motivo de sofrimento entre os europeus. Entre 2010 e 2025, os preços dos imóveis na União Europeia subiram mais de 60%, enquanto a renda cresceu menos de 15% no mesmo período. O estoque de habitação social encolheu em quase todos os países desde 1980, ao mesmo tempo em que a população de rua vem aumentando consideravelmente.
E com relação à saúde, relatórios da OCDE indicam que, hoje, a expectativa de vida dos 10% mais pobres é dez anos menor que a dos 10% mais ricos.
É nessa terra arrasada que a extrema direita avança, capitalizando ressentimentos produzidos pela precarização social e sindical que vêm destruindo a confiança na política e a percepção de classe, substituída pela ideologia do “empreendedorismo”. Se a consciência de classe está em crise entre os trabalhadores, entre a burguesia não há dúvidas sobre o que está acontecendo, como revela o sincericídio do bilionário Warren Buffett: “Existe, sim, uma luta de classes, mas é a minha classe – a classe dos ricos – que está travando essa guerra, e nós estamos vencendo.”[13]
Horizonte
Do pântano neoliberal rastejam os discursos antissistema, antipolítica etc., mobilizando a insatisfação generalizada com instituições incapazes de oferecer saídas concretas para o mal-estar contemporâneo. A maioria da população, que trabalha cada vez mais sob condições cada vez piores, sente que o sistema não funciona a seu favor, mas para uma minoria que drena as energias nacionais – quiçá globais – para sustentar um padrão de vida principesco que remonta aos excessos caricatos do Antigo Regime.
Nesse contexto, o sintoma não deveria surpreender. A democracia liberal sempre teve limites explícitos enquanto ordem política do capital. A novidade é que estamos nos aproximando perigosamente deles. Hoje, quarenta anos após a queda da URSS, comemorada no Ocidente como uma “vitória da democracia”, fica patente o esgotamento do modelo baseado na privatização do acesso ao poder.
À guisa de conclusão, impõe-se a questão: dado o limite liberal à democracia, que democracia seremos capazes de produzir sob os destroços do neoliberalismo? Problema essencialmente econômico, mas que passa por enfrentamentos políticos tão difíceis quanto urgentes, no sentido de construir um horizonte de bem-estar social como única fronteira realmente capaz de deter a barbárie.
João Rafael Morais é doutor em Ciência Política, historiador e professor do Instituto de Estudos Estratégicos da UFF.
Referências
Eurostat — Housing in Europe, 2025 edition.
https://ec.europa.eu/eurostat/web/interactive-publications/housing-2025
Economic Policy Institute — The Productivity–Pay Gap.
https://www.epi.org/productivity-pay-gap/
International IDEA — The Global State of Democracy 2025.
https://www.idea.int/publications/catalogue/global-state-of-democracy-2025-democracy-on-the-move
OECD — How’s Life? 2024.
https://www.oecd.org/en/publications/2024/11/how-s-life-2024_bdcf2f9f.html
World Inequality Database (WID) — séries históricas de participação do 1% mais rico
https://wid.world/
[1] Pew Research Center — Public Trust in Government: 1958–2025.
https://www.pewresearch.org/politics/2025/12/04/public-trust-in-government-1958-2025/
[2] Latinobarómetro — Informe 2024.
https://www.latinobarometro.org/latinobarometro-2024
[3] BTI, Country Report – Bertelsmann Stiftung, 2026.
[4] The Guardian — Nearly a quarter of voters in Europe now back far-right parties (junho/2026)
https://www.theguardian.com/politics/2026/jun/24/nearly-quarter-votes-europe-now-cast-far-right-parties
[5] HAYEK, Friedrich A. Entrevista concedida a Renée Sallas. El Mercurio, Santiago, 12 abr. 1981.
Friedrich Hayek y sus dos visitas a Chile
[6] CÉSAIRE, Aimé. Discurso sobre o colonialismo. Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1978.
[7] ELIAS, Norbert. O processo civilizador: uma história dos costumes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994. v. 1.
[8] SAID, Edward. Cultura e imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
[9] WILLIAMS, Eric. Capitalismo e escravidão. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.
[10] ibidem, p. 77, 85.
[11] LOSURDO, Domenico. Contra-história do liberalismo. São Paulo: Ideias & Letras, 2020. p. 20.
[12] MATTEI, Clara. A ordem do capital: como os economistas inventaram a austeridade e pavimentaram o caminho para o fascismo. São Paulo: Boitempo, 2024.
[13] BUFFETT, Warren. Entrevista concedida à CNN, 25 maio 2005. http://www.cnn.com/2005/US/05/10/buffett/index.html

