Estamos Ficando Caretas? - Le Monde Diplomatique

PELA EQUIPE DE REDAÇÃO

Estamos Ficando Caretas?

por Entrevista com Lobão
1 de dezembro de 2010
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João Luiz Woerdenbag Filho, o Lobão, recebeu a equipe do Le Monde Diplomatique Brasil em seu estúdio para uma entrevista polêmica, na qual falou de política, cultura pop, direito autoral, da apatia dos brasileiros diante dos problemas do país e sobre o que acredita ser um processo de caretização nacionalistaEntrevista com Lobão

LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL – Como você vê o cenário atual da música pop brasileira, principalmente depois do VMB (Vídeo Music Brasil, da MTV) deste ano?

LOBÃO – Olha, o que eu acho mais grave no Brasil é o culturalismo nacionaloide que existe. Esses Restart da vida, isso sempre existiu, é Menudo, é uma febre da adolescência pré-menstrual. O problema são esses grupos de chorinho fake, esse universitário brega. Isso é um retrocesso. O Brasil, nestes últimos anos, ficou mais burro, mais sectário. No índice de confiança da Fundação Getulio Vargas, em primeiro lugar, está o exército e, em segundo, as igrejas! Isso é um processo de caretização nacionalista no qual a juventude meio chapa branca entra numa de reinvenção regressiva, achando que os anos dourados foram aqueles não vividos por ela. Isso é a pior coisa para um processo de evolução cultural, artística, social.

Você tem isso em várias áreas. No sertanejo universitário, no chorinho universitário e até no samba-rock universitário com o Jorge Ben. Se eu fosse acadêmico, gostaria de ser sociólogo para pesquisar o porquê da nossa culpa católica, de um país eminentemente católico e culpado, uma intelectualidade francófila, né? O nosso ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fala francês no Parlamento de Paris, mas não vai dizer: “God save America”. Não sei por que cargas d’água esse antiamericanismo, é uma coisa estúpida. Por que a gente deveria setorizar as nossas críticas? Eu acho que a cultura americana, no seu bojo, é maravilhosa. Ela é uma síntese de toda a cultura do mundo. Mesmo o reduto americano sendo muito nacionalista, tem uma parte que não é retrógrada – a que pisou na Lua, que fez o jazz, que inventou o rock’n’roll, que criou Martin Luther King. Tudo isso é justamente a alma americana, e por que não achar legal?

DIPLOMATIQUE – E como você vê a cultura dos “de baixo” no Brasil?

LOBÃO – É horrível. Você vai à Bahia e vê as piores manifestações culturais, aquele cheiro de mijo, aquele axé horroroso. Não vejo no Brasil atual nada muito elegante a não ser coisas estereotipadas, como aquele Antonio Nóbrega, que eu acho um horror, e o Ariano Suassuna, que é um nazistoide! Ele escreve bem pra caramba, mas seu corolário estético e ideológico não pode ser mais fascista, mais nacionalista. O pensamento brasileiro é completamente errado. Por exemplo, um sujeito critica o fluxo de cultura atual, diz que somos colonizados pelo império americano, que o Michael Jackson vem aqui e dissemina uma cultura degenerada etc… Mas em 1690, quando o Maurício de Nassau veio aqui, ele não inventou de botar uma colônia holandesa? Teve colônia francesa, portuguesa, teve colônia africana trazida pelos escravos. Misturou tudo, e esse processo sempre foi um caos. Por que, então, você vai criticar aquela imposição, vamos dizer assim, colonizadora? Nós somos um país colonizado eternamente e, inclusive, nos vangloriamos de parte desse passado. Quero saber qual é a arbitrariedade, qual é a melhor colonização? Quem vai dizer que aquela é a melhor, qual é permitida?

Eu acho que os intelectuais brasileiros estão lambendo o saco do Chico Buarque, que é uma quimera. Chico Buarque é um menino que não entende nada da vida, ele goza com o pau dos outros, tem inveja de pobre. Pode ter talento, mas ele pensa errado, e não me interessa por que pensa errado. Eu não me interesso por Ariano Suassuna. Eu posso, no máximo, ter uma admiração artística, mas não posso me identificar com Antônio Conselheiro. E é de maneira esquizofrênica que nos identificamos com Antônio Conselheiro. Você vê o José Celso Martinez Corrêa fazer uma ode a Antônio Conselheiro em uma peça de seis horas, como se fosse o nosso herói, ao mesmo tempo baseado no Euclides da Cunha, que era um frenólogo que media a capacidade pela orelha, pelo cérebro, e aí tem essas dicotomias. Os sertões, de Euclides da Cunha, é um corolário de preconceitos e é horrível, e as pessoas têm isso como um mártir. Agora querem censurar Monteiro Lobato porque chamaram a Tia Anastácia de macaca, de carvão. Você pode com um país desse?

DIPLOMATIQUE – Você acompanhou essa consulta pública que o Ministério da Cultura abriu para discutir o direito autoral?

LOBÃO – Isso não tem a menor credibilidade. Aquilo é uma raposa no galinheiro, tudo é uma panela do Gilberto Gil, que acabou com a cultura. Em 2002 estávamos lançando a revista Outra Coisa, a cena independente estava crescendo, tinha uns 50 mil festivais. Essa era a tendência natural do povo brasileiro. Aí chegam eles, revivendo o pagode, o axé, injetando dinheiro e exportando aquele carnaval micareta para todo o Brasil. Isso fez do Brasil uma caricatura que ele vendeu, como no Ano do Brasil na França, exportando o que há de pior na Bahia. O que as pessoas acham? Pitoresco? Conheço uma croata que sempre vem ao Brasil, e quando o Gil foi empossado, ela disse: “Mas ele é um herói”. É um herói, mas dos anos 1960.

Por que você tem que voltar a ser neolítico? Eu já não sou mais. Como é que eu vou voltar? Já ouvi Led Zeppelin, Beatles… vou voltar a tocar aquelas coisas medíocres? Eu não sou aquilo. E aí vem aquela coisa do nacionalismo/raiz. Mas o ser humano não é movido a clorofila, tem sangue, não tem raiz, tem pé, e os mais assanhadinhos têm até asa. Essa onda de nacionalismo e conservadorismo em todo o mundo é da pior espécie e move todas as guerras. Um país que tem as forças armadas e a religião como seus esteios morais não tem muito futuro.

DIPLOMATIQUE – Você vendeu CD em bancas de jornal. O que acha dessas novidades tecnológicas, como baixar música na internet?

LOBÃO – Sério, isso daí é uma discussão no vazio, né? Eu fiz a venda em banca porque, na época, o CD virgem custava dois centavos. Quando eu terminei, estava custando R$ 3. Na época da ditadura, todos os LPs, até os anos 1980, tinham um selo dizendo “disco é cultura”. Tendo aquele selo, automaticamente você tinha 23%, 25% de desconto do ICMF. Aí você ficava equivalente à indústria editorial, que tem essa isenção até hoje. Foi por isso que eu fiz essa parada. E agora, por que tem que ficar contra o ministro da Cultura? Porque naquela época a indústria fonográfica era a terceira mais lucrativa do mundo, só perdia para o tráfico de drogas e de armas. Então tinha mais de 2.000% de lucro, e eles não deram a menor bola para aquilo, pararam de carimbar o disco da cultura. Driblei as gravadoras justamente porque migrei para o núcleo editorial e lancei o CD com isenção daqueles impostos. Olha só o disparate: a revista Outra Coisa custava R$ 9,90 na banca, enquanto um CD normal variava de R$ 38 a R$ 40 na loja.

A sensação que eu tenho é que a sociedade brasileira ou fica calada ou até aplaude. Somos um país com uma carga de impostos imoral. Olha só o que a gente tem em volta, educação, cultura. Estamos com uma lei para criminalizar o jabá, aí o Gil assume: “Mas jabá é coisa nossa, jabá é jeito bem-vindo do brasileiro fazer”. Porra! Não dá! Eu tenho inveja e adoraria ter nascido com um bandolim debaixo do braço e surfar nas águas da tradição de uma maneira genuína. Seria o melhor para mim. Mas é que eu não tenho compatibilidade, eu discordo, e o que é pior, acho culturalmente desprezível.

Cito Edgar Morin, filósofo francês que diz: “É uma questão de imprinting cultural”. Eu luto contra um imprinting. O problema não é você imitar fulano ou sicrano. É você imitar. A minha crítica é imitar, o brasileiro imita o tempo todo e continua um ser vulgar e, o que é pior, vaidoso. Acho que Bahia e Rio de Janeiro são os lugares mais geonarcísicos que eu conheço. Você não tem evolução, porque a satisfação é plena.

DIPLOMATIQUE – Publicamos recentemente uma matéria sobre tecnobrega no Pará. Eles ganham dinheiro com as festas de aparelhagem, fazem acordos com camelôs para vender CD. Um sistema próprio deles. O que você acha?

LOBÃO – Quando a lei vigente caduca, ela é corrompida. O problema é que a lei era para ter sido reeditada há mais de 30 anos. Essa coisa de numeração dos discos [para evitar cópias falsificadas e garantir o recolhimento dos direitos autorais] já vem de 1970. A gente passava na casa do Chico Buarque, nos anos 1980, o tempo todo. Todo mundo reunido. Era eu, Chico, Caetano, Gil, Renato Russo, Roberto Carlos, Cazuza, Paralamas, Elba Ramalho, dupla sertaneja. Passamos dois anos pensando, para você ver a gravidade que era aquilo. Aí, quando chega na hora, neguinho dá uma de João-sem-braço. Então a gente não tem consistência para levar a cabo nenhum tipo de condução de estratégia. A Beth Carvalho falava: “Artista brasileiro só se encontra em duas possibilidades: no aeroporto ou em premiação”. Você não tem como articular. Eu vivenciei isso amargamente.

As pessoas têm de entender que a censura maior está sendo agora, porque com o tempo de censura nós tivemos nomes que se sobressaíram, mesmo de classe média, Chico Buarque, Caetano, Gil, Edu Lobo, todos venceram a tal da censura, enquanto que agora não tem ninguém de valor conseguindo entrar no mercado.

DIPLOMATIQUE – É uma censura do mercado, não é?

LOBÃO – Mas não é a questão da censura do mercado, porque isso não é constituição de concorrência de mercado, isso é um problema ético. Se você cobra o jabá e favorece pessoas, você não está sendo mercadológico. Você está fazendo uma ciranda arbitrária. As pessoas têm de entender que isso aí é bandidagem e está acabando com a cultura brasileira, porque os caras mais legais desistiram de tocar no rádio. E o que é pior, você pega uma banda como Restart, que está tocando, vem um cara e diz assim: “Ó, vem cá”. E traveste os caras, que dizem amém e fazem aquela merda.

Não existe nada que não seja inofensivo na cultura brasileira. É só você olhar as novelas, o que acontece no rádio, o que as pessoas aplaudem, o que as pessoas ouvem. Tudo é de leve. Chega a ser cínico, você não vai acreditar que tem um tiroteio no Rio de Janeiro e as pessoas estão ouvindo “O Barquinho” com cadáveres do lado. Esse é o Rio de Janeiro. Isso me dá raiva porque aí você vai para a praia e tem gente que está aplaudindo o pôr do sol, todo mundo com biriba, fumando maconha, com tiro saindo pela cabeça. É barra pesada. Agora as pessoas revertem isso numa poesia, e tudo é azul. E não é.

DIPLOMATIQUE – Você acha que os Racionais MC’s jogam a real?

LOBÃO – Não. Os Racionais são mais racistas que a gente. Conheci o mestre deles, um amor de pessoa, mas ouvi coisas do tipo: “Ó, vai falando para os seus pupilos, não aperto a mão, entendeu?”. Não aperta mão de branco. Não pode ser assim. Eu não acho que seja assim, nem o Martin Luther King achava. Para você curar um racismo, você não tem de adotar outra postura mais racista. Para a gente começar um novo paradigma, tem de ter a generosidade de zerar tudo. Se a gente fizer e equiparar com coisas erradas para empatar, isso nunca vai acontecer. Os Racionais, que eu admirava muito em 1998, foram ficando muito autossuficientes e começaram a praticar as mesmas atrocidades de que eles são vítimas. Aí zera tudo, não acontece nada e eles voltam para o gueto, como voltaram, e estão lá falando do gueto para o gueto, regurgitando conceitos que talvez nem eles acreditem mais.

DIPLOMATIQUE – Você lançou recentemente a sua autobiografia. Por que fazer um livro?

LOBÃO – É só olhar para a minha cara, né? Eu tenho 53 anos e acho que sou a pessoa que tem mais histórias para contar, e tenho mesmo, é só você olhar no livro. Acho que o tema é importantíssimo por vários motivos. Agora, o mais interessante e lúdico é justamente que eu venho de uma família de direita, o meu pai era meio nazista, a minha mãe era da Arena. O que foi interessante ver, nos anos 1960, é que toda hora a direita estava com a esquerda. Por exemplo, a minha mãe era fã do Médici. Ela ficava emocionada, com os olhos azuis dele, ela chorava. Aí via o Chico Buarque na televisão, aqueles olhos verdes. Por isso eu começo o livro falando assim: mamãe era fã de ambos, a ponto de não distinguir onde começava um e terminava o outro.

Eu vivi na época em que imputaram na gente a Moral e Cívica, uma coisa execrável, militarista. E qual era o ídolo das duas professoras octogenárias que eu tive em Moral e Cívica? Chico Buarque de Holanda. Elas eram curadoras de um festival do colégio onde eu estudei com o Zé Renato e o Cláudio Lucci. Todos eram os novos Chico Buarque de Holanda. A gente queria fazer rock, mas nunca consegui classificar uma música minha. Eu vi a passeata contra a guitarra elétrica. Gilberto Gil, Caetano, Chico, Beth Carvalho, Paulinho da Viola, Egberto Gismonti, Edu Lobo, Elis Regina, todo mundo. Você quer uma coisa mais retrógrada? Eu começava a pensar assim: se tem um cara como o Chico, que escreve “Essa moça tá diferente, já não me conhece mais, está pra lá de pra frente, está me passando pra trás”, é isso mesmo, então fica pra trás, rapaz. Eu fui ver o Bye Bye Brasil, em 1978, e tinha um curta do Chico, no qual ele pleiteava de uma maneira muito séria o romantismo: cadê as serenatas ao luar, cadê as serenatas e os sobrados? Desgraçado. Eu chorava porque a minha namorada morava no 16o andar. Como é que vou fazer serenata?

A cultura brasileira tende a se autossacralizar, se tornar uma língua morta. Eu adoro choro. Se você vai ouvir um choro, é inevitável se transportar para o século XIX, para o sobrado. Você não vai conseguir ouvir o choro e ir para uma estrada. Você vai ouvindo América, folk, Bob Dylan. E a bossa nova? A bossa nova é um fenômeno brasileiro que pegou o jazz complexo e o transformou em vulgar. Eu não consigo dissociar “Garota de Ipanema” de uma loja de departamentos ou um elevador. Onde mais eu posso ouvir “O Barquinho”? Comprando uma meia ou num elevador, eu não vou estar numa sala de concerto ouvindo “O Barquinho”. E as pessoas não entendem isso.



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