Eu, negro - Le Monde Diplomatique

120 anos depois da lei

Eu, negro

por Nei Lopes
4 de maio de 2009
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Nós somos aqueles para quem, fora do entretenimento, não há salvação! E, mesmo nos palcos e nas arenas esportivas, cada vez somos menos do que já que fomos. Mesmo assim, com a força dos Ancestrais e dos Orixás, falamos, cantamos e escrevemos, denunciando o racismo deste país tão simpático quanto mentiroso

Hoje não, que as possibilidades ainda são menores, mas, no meu tempo de garoto, o discurso mais comum de pai para o filho negro era este: “Você tem que estudar, pra ser o melhor. Nós temos que ser sempre os primeiros, pra podermos, aí sim, chegar em quarto, quinto lugar”.

Traduzido em bom português, esse discurso neurótico e estressante pretendia dizer que nós, pretos ou mulatos, para atingir nossos objetivos, tínhamos sempre que despender o triplo do esforço feito pelos não-negros neste país estranho. Um país que apenas nos aturava, com extrema má vontade. Porque, desde pelo menos 1888, o que sua sociedade abrangente mais desejava era se ver livre de nós, nos ver pelas costas.

Hoje, não! O país já tem maturidade para discutir a outrora incômoda “questão negra” sem perder as estribeiras. E ninguém precisa se exacerbar porque, mesmo os “negros que não conhecem seu lugar”, mais dia menos dia, acabam, por sua ingenuidade e seu despreparo, caindo numa esparrela, escorregando numa casca de banana e justificando aquele dito popular da “entrada” e da “saída”.
Somos ingênuos e despreparados, sim! Ingênuos porque ainda acreditamos que o Brasil é uma democracia racial e que a total “mestiçagem”, tanto em termos biológico quanto culturais, vai ser o nosso final feliz. E despreparados porque não estudamos nos mesmos colégios onde estudaram os filhos dos banqueiros, dos grandes empresários, dos chefes políticos, dos militares de altas patentes etc. E, assim, não podemos usufruir das redes relacionais que possibilitam e facilitam os bons negócios, os bons contratos, os bons patrocínios; nem jogar o alegre jogo do poder.

Nós somos aqueles para quem, fora do entretenimento, não há salvação! E, mesmo nos palcos e nas arenas esportivas, cada vez somos menos do que já que fomos.

Quem, por exemplo, for estudar a história da música brasileira vai verificar que, quando essa atividade não conferia mérito, os artífices da música e até mesmo os professores, no Brasil, eram predominantemente negros. Isso pode ser comprovado desde o século 17, com os mineiros Lobo de Mesquita, Marcos Coelho Neto ou Francisco Gomes da Rocha, passando pelos séculos seguintes, com os cariocas Henrique de Mesquita, Callado, Anacleto de Medeiros, Irineu de Almeida, Paulino do Sacramento, Pixinguinha etc., e chegando aos grandes músicos que, às centenas, formataram a moderna música popular brasileira na primeira metade do século 20. Hoje, os músicos brasileiros de orquestra, formados, com domínio de teoria e técnica, participando do mercado de trabalho nos melhores palcos e nos mais prestigiados estúdios de gravação, são, em sua acachapante maioria, aqueles que freqüentaram boas escolas particulares e têm recursos para comprar bons instrumentos. E, aí, cadê os negros?

O mesmo se deu no teatro e se dá na televisão – que insiste num padrão ‘hollywoodiano’, mas anterior à conquista dos direitos civis por nossos irmãos afro-norteamericanos –, da mesma forma que ocorre com a capoeira, a qual, depois de descriminalizada e elevada à condição de desporto, passou a formar e graduar, majoritariamente, mestres não-negros, com tempo e recursos para se dedicarem integralmente ao esporte e, aí, consolidarem suas academias e sua posição.

No meu caso, sou hoje, aos 66 anos de idade, autor de uma obra literária de 21 títulos publicados em livros, entre ensaios, contos, poemas, três dicionários e uma enciclopédia, num período de 26 anos, tendo ainda mais três obras no prelo, entre as quais um Dicionário da Antiguidade Africana, devidamente avalizado pelo africanista e acadêmico Alberto da Costa e Silva. No entanto, trabalhando também na área da música popular, como compositor e eventualmente intérprete, e sendo oriundo do universo das escolas de samba, tenho este lado de minha atividade profissional sempre mais destacado pela mídia hegemônica no país. Vai daí que, mesmo sendo um artista razoavelmente reconhecido, a parte mais requintada, digamos assim, de minha obra – aquela em que atuo como letrista de músicos consagrados, como, por exemplo, o celebrado maestro Moacyr Santos ou o incensado violonista Guinga –, não podendo ser desqualificada, é quase sempre ocultada, encoberta.

Muitas vezes, porém, tentativas de desqualificação também tentam me desestabilizar. Assim foi em 2003, quando, no lançamento de um dos meus livros sobre samba, o crítico de uma revista supostamente elegante editada em São Paulo tentou desqualificar meu trabalho, sob o discutível argumento de que eu sambava bem, mas não pensava com a mesma desenvoltura. Num outro momento, uma prestigiada figura do meio acadêmico, num texto publicado em livro, procurava menosprezar o meu Dicionário Banto do Brasil, de 1988. Só que, logo depois, o enorme acervo de propostas etimológicas para vocábulos brasileiros comprovados ou supostamente oriundos de línguas da África banta (bantu) que eu apresentara em minha obra era acolhido pelo portentoso Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, publicado pela Editora Objetiva em 2001.

Outras vezes, a quase desqualificação é involuntária e vem num convite delicado. Como no ano passado, quando a mesma ABL dos estimados professores Houaiss e Da Costa e Silva, por uma de suas assessorias, me convidou para uma fala em um evento na Semana da Consciência Negra. Peito inflado de orgulho, eu já me preparava para adentrar pela primeira vez a casa de Machado de Assis quando tudo se esclareceu: “O senhor poderia trazer consigo uma turma da sua escola de samba?”.

Mas para que não se veja neste meu depoimento (pediram-me um texto em tom confessional) nenhum tipo de lamúria, peço licença para narrar um fato engraçado. Foi há uns poucos anos, quando um fotógrafo, cujo nome sinceramente não me lembro, aprovava um projeto que culminou na exposição, num espaço privilegiado, de uma vasta galeria de retratos de personagens da vida carioca. Homem do samba e figura tida, então, como um dos bons representantes da cidade onde nasci, fui chamado a integrar a mostra. Como personagem.

No dia da foto, lá estava eu no estúdio, blusão ingenuamente estampado, calça branca, bonezinho idem, todo frajola. Mesmo porque sempre achei que o homem é também o que veste e, naquela circunstância, eu não podia estar de gravata Hermès nem de terno Armani. E o artista fez questão de que minha expressão estivesse sempre bem “pra cima”, bem alegre, como convinha a um carioca sambista, embora já autor de uma boa meia dúzia de livros e participante freqüente de mesas de discussão sobre racismo e outras bossas.

Aos olhos da mídia, “militante negro”, para ter credibilidade, tem que ser carrancudo. Ou o leitor acreditaria no discurso de um rapper sorridente, declamando suave e cheio de simpatia?

Então, sambista como queriam, caprichei no sorriso. Esquecendo que, no lado esquerdo dele, havia uma falha lamentável, causada por um molar cariado que insistira em se partir, semanas antes, e que eu não tivera ainda tempo nem dinheiro para reparar. Aí, o fotógrafo, como se dizia na época – que as gírias e os ditos populares quase nunca têm a permanência dos retratos – deitou e rolou. E, na foto, em tamanho de pôster, sobressaía meu sorriso, tão espontâneo quanto estigmatizante, já que eternizava aquela minha falha temporária e ocasional, meses depois corrigida.

Pois é isso! É dura a vida de um cidadão afro-brasileiro… Principalmente quando ele, recusando o lugar subalterno que a sociedade abrangente lhe reservou, fala, canta e escreve, denunciando o racismo deste país tão simpático quanto hipócrita e mentiroso. Aí, o coitado do negro, mesmo não tendo a pele tão escura a ponto de ser irremediavelmente marcado como um NEGRO, e não podendo ser calado nem imobilizado, porque tem a força de seus Ancestrais e Orixás africanos, acaba sendo acusado de segregacionista, desagregador, racista; um mau elemento, desestabilizador da harmonia reinante entre as raças neste país abençoado.

 

*Nei Lopes é escritor e compositor. Autor, entre outras obras, de O racismo explicado a meus filhos (Agir, 2007), Dicionário Literário afro-brasileiro (Pallas, 2007) e Vinte contos e uns trocados (Record, 2006).



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