“Eu tinha a impressão de estar sozinha” - Le Monde Diplomatique

O LEVANTE FRANCÊS

“Eu tinha a impressão de estar sozinha”

por Pierre Souchon
3 de janeiro de 2019
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O movimento dos “coletes amarelos” recusa qualquer forma de organização, disseram. Na verdade, diversas tentativas ocorreram. Mas para se organizar é necessário um conhecimento amplamente perdido, por causa da falta de militantes que fazem trabalho de base no campo

Empurram a porta: a reunião semanal dos “coletes amarelos” começa. Ao longo da noite, cerca de 150 pessoas pegam o microfone: aqueles que se encontram nas ruas porque não conseguem mais pagar aluguel, aqueles que dependem dos restaurantes comunitários… Suas feridas e suas raivas, por muito tempo privadas – “noites a gritar na frente da televisão” –, atravessaram de repente os limites do espaço público. Elas têm um alvo: Emmanuel Macron, ministros vagos, deputados obscuros e outros eleitos de todas as correntes – “os políticos”, misturados em um ódio plebiscitário. Na discussão caótica, tudo leva a eles: os fins de mês “que começam no dia 10”, as costas quebradas, as aposentadorias de miséria, o valor dos aluguéis, os hospitais sem funcionários… Uma palavra de ordem conquista a adesão das vozes: “Macron, demissão!”. Alegre, um dos participantes pergunta: “Quem é contra?”. Uma cinquentona levanta timidamente a mão.

“– Vamos, minha senhora, nos diga o porquê.

– Pode ficar tranquilo, eu o detesto, senão não estaria há três semanas nas rotatórias. Mas me pergunto: se ele sair, quem entrará em seu lugar?”

Uma algazarra se inicia. O debate quase nunca toca nas responsabilidades do setor privado, para o qual a classe política é a fachada perfeita. Aqui, ninguém fala de propriedade privada dos meios de produção, e menos ainda de capitalismo: o quadro econômico é aceito tal qual, ainda que seja necessário corrigir seus excessos. Que os empresários ganhem menos, que seus funcionários vivam decentemente: uma “economia moral”,1 de certa forma.

Os jornalistas da BFM TV puxam discretamente um dos diretores da tribuna para uma entrevista filmada. Algumas pessoas percebem e, em vez de expulsarem a BFM TV, é o diretor que é expulso aos berros: “Não queremos um porta-voz!”. A reunião se encerra brutalmente. “O mais difícil é conseguir se organizar”, esbraveja Rémi,2 deixando a tribuna. “Nisso a gente está errando: discutimos, não decidimos nada, e a cada vez tem menos gente…”

“– Vamos falar amanhã no comitê restrito – tranquiliza-o Jean-Claude.”

Os diretores da noite tinham, no entanto, tomado o cuidado de deixar claro que não eram representantes nem eleitos, que não impunham nada e que todos podiam tomar seu lugar. “É verdade”, reconhece Rémi, “mas o comitê restrito somos obrigados a fazer, senão não avançamos…”

Em La Poterie, todas as saídas de rotatória estão enfeitadas com braseiros e cabanas – amarelas. “Que maluquice é essa?” Kátia mostra os vasos sanitários brancos novos, reinando nas estradas. “É um gabinete ministerial!”, responde sua amiga Liliane, e uma explosão de gargalhada atiça as chamas do churrasco. Ainda que os eleitos sejam unanimemente enviados ao banheiro, as divisões políticas são claras: o cruzamento é a tal ponto dividido ideologicamente que uma cuidadora de maternal dá uma volta incitando as pessoas a “conversar entre si”. Nem vale a pena: a saída sul, dita “selva de Calais”, acolhe todo mudo, incluindo os estrangeiros. No norte, “Notre-Dame-des-Landes”, paira uma aura inquietante: diversos sem-teto escolheram se instalar ali – um domicílio imponente, inclusive. Essas quase casas contrastam com a saída oeste: na área do “senhor e senhora todo mundo”, só tem um pequeno fogo em uma lata que se guarda depois de varrerem o chão. Por outro lado, a “velha França” instalou no lado leste um som que toca Eddy Mitchell e, para o jantar, diversos aposentados fazem marinar sob uma tenda as especialidades locais, como o porco e as castanhas… “Não fazemos política” é uma ladainha repetida ainda mais por ser o único meio de preservar a unidade do movimento: caso contrário, a ágora que constitui cada rotatória se transformaria imediatamente num ringue de boxe.

Nesse fórum de discussões permanente, a ausência de militantes é impactante. Diversas teses conspiratórias circulam e suscitam debates apaixonados: aqui todo mundo odeia as mídias tradicionais, acusadas de “mentir” e de “manipular”. A informação é permanentemente acessada via redes sociais. É por essa via que a extrema direita, que não tem nenhum local efetivo, compensa sua ausência no terreno. A esquerda sindical e política é invisível. Mas ela se emprega em outros canais para divulgar seus temas, no Facebook e no Telegram. No entanto, o movimento operário, ou o que resta dele, mobiliza regularmente, em diversas cidades da Ardèche, diversas centenas de pessoas, que se manifestam ao chamado de confederações ou dos partidos nacionais. Na maioria dos pontos de bloqueio, nenhum se dispôs a se deslocar: os “coletes amarelos” seriam “fascistas”, “manipulados” e rejeitariam as forças organizadas.

A única intervenção de um responsável local consistiu em trazer uma pilha de flyers e de fichas de adesão cantando louvores sobre sua organização: ele foi muito mal recebido. E quando um aderente propôs que, “em vez de evangelizar as massas, devia-se começar por fornecer um equipamento de som”, a recepção também não foi muito calorosa. Ao final de quatro semanas de conflito e de diversas reuniões, “nenhuma posição inicial” tinha sido adotada pelas instâncias sindicais locais sobre o movimento dos “coletes amarelos”. Iam então convocar uma nova reunião para decidir sobre o destino do equipamento de som… Também é verdade que, em Huveaune, alguns militantes se investiram, criando “três comissões: ações, reivindicações, organização”. Fomos convidados a participar de uma delas. Mas, na rotatória, todo mundo, ou quase, ignorava sua existência…

Nesse contexto, a decisão dos sindicatos do transporte rodoviário de anular a greve programada para o sábado 9 de dezembro, em um momento em que uma nova manifestação dos “coletes amarelos” em Paris suscitaria, em grandes linhas, sinais de pânico,3 foi recebida como uma confirmação: “Eles poderiam nos dar uma ajuda”, grita Sylvette. “Eles ganharam graças a nós, e nós vamos nos dar mal! Todos bandidos!” Avalanche de aplausos. Hostis, realmente? Os “coletes amarelos” teriam ficado felizes de romper seu isolamento, conscientes de que a chegada dos sindicatos reforçaria todos os combates em andamento… Com o tempo passando, a repressão aumentando, a questão da organização se torna central, até mesmo obsessiva: como se organizar? Contra os delatores? Pelas ações? Como se decide? Nos bloqueios? Entre rotatórias? De cidade a cidade? Longe de recusar a organização, todo mundo procura um meio de fazê-lo, tateando. “É curioso”, nota Dominique, uma militante associativa como que perdida em um bloqueio. “Eles não parecem conhecer as assembleias gerais, as ordens do dia, as inscrições para falar, os resumos das decisões e uma coisa bem besta: o mandato imperativo e revogável…”

Contratar fura-greves, desta vez, não serviria de nada: a academia de polícia não ensina a
dar banho em idosos

 

Curioso, de fato. Mas em nenhum momento Dominique pensou em dividir seus conhecimentos com os que se vestem de amarelo. Produto da longa história do movimento operário, essa cultura política levou tempo para ser inventada. Abandonados por aqueles e aquelas que poderiam lhes fornecer esses instrumentos, os “coletes amarelos” foram obrigados a recomeçar tudo do zero. E, em uma luta como essa, cada dia conta… Divulgadas com entusiasmo por diversos responsáveis políticos, as referências à Revolução Francesa são onipresentes na mobilização: guilhotinas construídas nas rotatórias com manequim com cabeça cortada, Brigitte Macron apelidada de Maria Antonieta, até mesmo a circulação do “caderno de reclamações” cuidadosamente preenchido pelos manifestantes… e fornecido pelos municípios, que prometem “passar adiante”.

No entanto, naquela época, os camponeses lutavam conjuntamente com os burgueses revolucionários das cidades. Se estes hoje não respondem ao chamado, percebem-se outros ausentes importantes: 1830, 1848, a Comuna, 1917, 1936, 1944… O movimento operário está esquecido. Apenas Maio de 68 é evocado de vez em quando, pois alguns de seus protagonistas estão presentes nas estradas bloqueadas. Da história operária fez-se pouco caso. De suas organizações múltiplas, que diziam respeito a todos os aspectos da vida social, também. Assim, diversos agentes desse movimento que se reivindica “apolítico” e “sem porta-voz” entreveem como única saída… apresentar uma candidatura nas eleições europeias. Os partidos de massa tendo desaparecido há muito tempo, todas as formações agora se confundem no mesmo opróbio eleitoreiro, mas acabam por imitá-lo, já que nenhum outro modelo está disponível. Consequência: os estudantes secundaristas de La Villéon recusaram que os “coletes amarelos” se juntassem ao bloqueio do seu estabelecimento, por rejeitarem “qualquer recuperação política”…

Gaëlle, Ludovic e Lucie se encontram uma semana depois para a reunião semanal de Branceilles. O público é menos numeroso. Na abertura, os diretores enumeram as quatro ações previstas para o fim de semana. Apenas os pontos e os horários dos encontros são dados: “Faremos uma surpresa!”. Um operário protesta: “Mas digam para a gente o que vai acontecer! Vocês decidiram tudo e nós vamos ficar sabendo na última hora? Somos todos ‘coletes amarelos’!”. A presença de policiais infiltrados é invocada para explicar a confidencialidade – o “comitê restrito”, não. O operário se irrita: “Na semana passada discutimos por horas e não decidimos nada, e agora discutimos cinco minutos e já está tudo decidido!”. Jean-Claude e Rémi se preocupam. Eles prometem “melhorar a organização” na próxima vez.

A troca acaba acontecendo. Uma criatividade extraordinária entra em ação: iniciativas práticas, artísticas, recusa em aceitar qualquer convocação das autoridades sem que seja filmado… A sociabilidade, principalmente, volta fortalecida: “Antes eu tinha a impressão de estar sozinha”, lembra-se Lucie. “Sozinha na merda, não tinha coragem de falar com ninguém, me isolava, tinha vergonha. Olha! Viu quantos amigos tenho agora?” Ludovic pega sua filha no colo. “Tenho 46 anos, nunca tinha lido um livro na vida. Sabe o que estou fazendo há dois dias, ou melhor, nas noites quando voltamos da rotatória?” Lucie sorri: “Ele lê a Constituição”.

 

*Pierre Souchon é jornalista.

 



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