EUA e Inglaterra, It's over baby! - Le Monde Diplomatique

POLÍTICA BILATERAL

EUA e Inglaterra, It’s over baby!

por Jean-Claude Sergeant
1 de setembro de 2010
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Tentando quebrar com o estrito vínculo gerado durante as gestões Blair e George W. Bush, estadunidenses e britânicos reavaliam posicionamentos. Apesar de manterem forte cooperação em vários setores, Barack Obama e David Cameron estão mais distantes e a tendência é que os britânicos se aproximem mais da EuropaJean-Claude Sergeant

As novas prioridades estratégicas do presidente estadunidense, Barack Obama, e a vontade do novo primeiro-ministro britânico, David Cameron, de distanciar-se do vínculo osmótico que havia caracterizado a relação entre Blair e George W. Bush, forçam uma reavaliação das relações entre os dois países.  

  

A “relação especial”, que designa mais especificamente as parcerias dos dois países em matéria de defesa, de segurança e inteligência, desenvolve-se num contexto mais amplo, ao mesmo tempo econômico e cultural.  

  

Tradicionalmente, o Reino Unido é o destino predileto dos investimentos diretos estrangeiros (IDE) estadunidenses. Esses últimos somaram cerca de US$ 400 bilhões em 2007. Em 2008, 621 dos 1.744 projetos de IDE aprovados pelo Reino Unido tiveram por origem os Estados Unidos1. O montante dos investimentos diretos britânicos nos Estados Unidos é também muito expressivo, uma vez que o mercado estadunidense constitui o destino principal das exportações britânicas, no valor total de 35 bilhões de libras esterlinas, às quais se acrescenta um montante equivalente, referente às transferências de serviços rumo aos Estados Unidos. Foi alegando a similitude entre o ciclo econômico estadunidense e o britânico que Gordon Brown, então ministro britânico das Finanças, havia adiado, indefinidamente, o ingresso do Reino Unido na zona do euro. 

  

Um parceiro privilegiado dos Estados Unidos, porém consciente da desigualdade de status entre os membros do casal, o Reino Unido mantém no território do seu aliado transatlântico uma delegação diplomática de 417 pessoas, das quais 248 em Washington2. Essa forte presença diplomática explica-se pela importância dos Estados Unidos na orientação estratégica britânica, e também pela densidade dos centros de decisão secundários estadunidenses – “think tanks” e grupos de pressão – junto aos quais os britânicos tentam fazer com que os seus interesses prevaleçam.  

  

É precisamente em nome da influência que eles afirmam poder exercer sobre os tomadores de decisões estadunidenses, que os dirigentes britânicos justificam seu apreço à relação assimétrica que os vincula aos Estados Unidos, a qual eles consideram indispensável para legitimar seu status de grande potência. 

De fato, funcionários do Ministério da Defesa (MoD) e militares britânicos são tradicionalmente integrados aos centros de decisão do establishment militar estadunidense. Em 2005, representantes do MoD foram associados pela primeira vez à preparação da Quadrennial Defense Review – Revisão Quadrienal da Defesa – dos Estados Unidos, enquanto outros foram enviados para integrar o estado-maior das Forças navais estadunidenses em Norfolk (Virgínia).  

  

A importância do contingente britânico presente no Afeganistão – cerca de 10.000 homens e mulheres – facilitou a nomeação de um general britânico ao posto de adjunto ao comandante chefe da Força Internacional de Assistência à Segurança (FIAS). Se a cooperação no nível operacional é evidente, é possível, entretanto, questionar a capacidade dos britânicos de influírem nas opções de Washington em matéria de política internacional. Tony Blair havia pressionado George W. Bush para que ele tentasse obter o aval das Nações Unidas antes de lançar a intervenção militar no Iraque, em vão. O mesmo ocorreu com os seus esforços visando convencer seu homólogo estadunidense a facilitar a resolução do problema palestino, e ainda a aceitar ratificar o Protocolo de Kyoto. 

  

Com a ascensão de Barack Obama à presidência dos Estados Unidos os britânicos se conscientizaram de que o novo inquilino da Casa Branca não atribuía nenhuma importância particular a essa relação supostamente privilegiada. Barack Obama afirmou-se como “a Pacific President”, o que significa “que coloca a região da Ásia-Pacífico no cerne das suas preocupações”.  

  

Enfraquecimento 

Livre da ameaça soviética, a Europa deixa de ser um eixo prioritário na reflexão estratégica dos estadunidenses. Certos aspectos anedóticos – mas que não deixam de ser simbólicos – vieram confirmar essa nova relação com os britânicos: a restituição do busto de Churchill que decorava o escritório oval no tempo de Bush, e que Barack Obama apressou-se a mandar encaminhar para a Embaixada britânica; ou ainda, a reunião-relâmpago – de quinze minutos – concedida a Gordon Brown pelo presidente estadunidense durante a Assembleia-Geral das Nações Unidas em setembro de 2009. Ao que tudo indica, a nova equipe no poder em Washington considera a relação bilateral com os britânicos como uma entre outras, sem impregná-la do sentimentalismo que ela suscitava por parte dos dirigentes marcados pela recordação da Segunda Guerra Mundial. 

  

Além disso, essa relação tem sido periodicamente fragilizada por inevitáveis tensões, como a provocada pela liberação, por razões de saúde, em agosto de 2009, do líbio reconhecido como culpado do atentado de Lockerbie (1988). Por mais que Gordon Brown argumentasse que a decisão dependia exclusivamente da autoridade do ministro da Justiça escocês, alguns comentaristas não excluíram que a perspectiva de contratos garantindo abastecimentos em hidrocarbonetos líbios, poderia ter influído na liberação de Al-Megrahi, cuja chegada triunfal a Trípoli provocou indignação e sofrimento nos Estados Unidos. Um editorialista do Daily Telegraph resumiu o caso nos seguintes termos: “Nossa relação especial com os Estados Unidos encontra-se hoje fragilizada pela liberação de Megrahi e pela recusa do governo em denunciá-la3”. 

  

Em dezembro de 2009, a prisão nos Estados Unidos de um jovem nigeriano que planejava explodir um voo com destino a Detroit havia reforçado as dúvidas dos estadunidenses em relação à eficiência do controle pelas autoridades britânicas das células jihadistas ativas na Inglaterra. O autor do atentado fracassado teria sido doutrinado no decorrer da sua estada em Londres, entre 2005 e 2008. “O nível de ativismo de Al Qaeda na Grã-Bretanha está se tornando um real problema”, confidenciou um alto responsável do Departamento de Estado4. 

  

Informação 

  

A parceria nos trabalhos de inteligência está no cerne da “relação especial” desde o acordo de 1947 que implantou o sistema de vigilância das comunicações eletromagnéticas batizado de Sigint (Signals Intelligence), ao qual se juntaram a Austrália, o Canadá e a Nova Zelândia. O Reino Unido também participa de maneira eficiente na captação e na análise das informações de inteligência no Afeganistão e nas regiões onde, em decorrência do seu passado colonial, os britânicos são tradicionalmente melhor implantados do que os estadunidenses. Mas enquanto as agências de inteligência britânicas mostram ter um bom entrosamento com as suas homólogas estadunidenses, “elas se revelam mais reservadas a respeito dos métodos empregados pelos seus colegas5”. 

  

O outro pilar da relação especial é constituído pelo setor industrial da defesa. No Livro Branco de 20036, uma diretriz estabelecia explicitamente que o Reino Unido não poderia se envolver numa operação militar de grande vulto, a não ser ao lado dos estadunidenses, princípio esse que implicava uma coordenação perfeita em matéria de gestão operacional, além de uma total interoperabilidade entre os equipamentos. Em outros termos, a lógica mandaria que as Forças Britânicas fossem dotadas de equipamentos estadunidenses. Obviamente, esse não é o caso, considerando o peso da indústria da defesa no Reino Unido. Mas os principais industriais americanos implantaram filiais em território britânico: Boeing, Raytheon, General Dynamics, Northrop Grumman e Lockheed Martin e suas vendas representaram 27% do gasto militar inglês em 2005. Essa última administra, em parceria e a serviço do MoD, o Atomic Weapons Establishment (AWE) onde foram desenvolvidas as cabeças nucleares que equipam os mísseis D5 – os quais são também construídos nos Estados Unidos pela Lockheed Martin. Esses, por sua vez, equipam os quatro submarinos nucleares lançadores de engenhos bélicos (SNLE) da força de dissuasão estratégica britânica. 

  

A dependência do Reino Unido para com os Estados Unidos em matéria de dissuasão é bem conhecida. O Acordo de Defesa Mútua7 assinado em 1958 abriu o caminho para a concepção, o desenvolvimento e a fabricação das cabeças nucleares britânicas montadas nos mísseis mar-solo Polaris, e também nos mísseis Trident que os Estados Unidos consentiram vender ao Reino Unido em 1982. A manutenção dos mísseis é efetuada na base de Kings Bay, na Geórgia, e os submarinos britânicos efetuam seus tiros de treinamento na área de testes da Marinha americana ao largo da orla da Flórida. 

  

Setor militar 

  

A Força nuclear oceânica, oficialmente destinada a integrar o potencial defensivo da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), é considerada pelos dirigentes britânicos como a pedra angular de uma defesa autônoma. 

  

Embora os dois países cooperem ativamente em matéria de equipamentos militares – 22 projetos vêm sendo desenvolvidos em parceria bilateral e a empresa britânica BAE Systems é o oitavo fornecedor mais importante do Pentágono –, essa situação pode vir a ser fonte de frustração. O Reino Unido segue aguardando até hoje a transmissão dos códigos-fontes que lhe permitiriam adaptar às necessidades operacionais da Royal Air Force e da Royal Navy os aviões F-35 (Joint Strike Fighter) que foram comprados pelo MoD. Esse tipo de transferência permanece subordinado a uma ratificação pelo Senado dos Estados Unidos do tratado de cooperação (US-UK Defense Trade Co-operation Treaty) assinado por Tony Blair e George W. Bush em 2007.  

  

Se o Reino Unido não admite participar de uma operação externa de grande vulto sem que ela seja realizada ao lado dos estadunidenses, os Estados Unidos também precisam dos britânicos para compensar uma eventual ausência de legitimidade internacional. Esse foi o caso por ocasião da intervenção no Iraque, por exemplo.  

  

No Afeganistão, onde Washington dirige a coalizão integrada por cerca de quarenta países, o contingente britânico, concentrado na província de Helmand, enfrentou tantas dificuldades que foi forçado a recorrer ao auxílio das tropas estadunidenses para manter o controle da cidade de Musa Qala, até ser substituído por elas em definitivo, no início do mês de junho de 2010.  

  

Segundo a revista semanal The Economist, “Esta guerra [no Afeganistão] é essencialmente uma questão que diz respeito aos Estados Unidos, na qual os britânicos desempenham apenas um papel secundário8”. A decisão tomada por David Cameron e Barack Obama, por ocasião da Cúpula de Toronto, de substituir as tropas britânicas que atuam no setor de Sangin, no norte da província de Helmand, onde 20.000 militares estadunidenses tomarão o seu lugar, só pode confirmar esta avaliação. 

  

Barack Obama já anunciou, no final de 2009, que a retirada das tropas estadunidenses poderia começar em julho de 2011. Já a linha oficial do Reino Unido consistia em condicionar a retirada do contingente à capacidade das forças nacionais afegãs de garantirem a segurança da população. Essa posição foi confirmada na Câmara dos Comuns, o Parlamento britânico, pelo novo primeiro-ministro, David Cameron, em 21 de junho, após o anúncio da morte do 300º militar britânico no Afeganistão. Interrogado por um jornalista da Sky News por ocasião da Cúpula do G8 em Toronto, Cameron salientou – antes de reunir-se com Barack Obama – que ele esperava que a maior parte do contingente britânico estivesse de volta daqui até 2015, ou seja, antes das próximas eleições britânicas. 

  

O próprio Liam Fox – novo secretário britânico da Defesa – mostrava-se cético em relação à possibilidade de transformar o Afeganistão num país democrático, um objetivo muito diferente daquele inicial, que consistia em expulsar os Talibãs do poder e retirar da Al Qaeda todos os seus santuários afegãos. Numa entrevista concedida ao Times, Liam Fox declarou: “Nós não estamos no Afeganistão para promover a política educativa de um Estado medieval e caindo aos pedaços. Nós estamos lá para proteger a população britânica e os nossos interesses pelo mundo afora9”. 

  

Para Eric Edelman, um antigo alto responsável no Ministério da Defesa em Washington, o desaparecimento da geração que havia aderido ao conceito de “relação especial” definido por Churchill conduz a nova elite britânica a voltar-se para o lado da Europa10.  

  

Segundo Michael Clarke, o diretor do centro de reflexão estratégica RUSI (Royal United Services Institute), a melhor maneira de servir aos interesses do Reino Unido junto aos dirigentes estadunidenses, e mais particularmente os do Congresso e das agências governamentais, consiste para os dirigentes britânicos em serem considerados como os catalisadores da mudança na Europa, começando com as questões de defesa e de segurança11.  

  

Distância 

  

Quando Cameron declarou, em setembro de 2006, que as relações de um futuro governo conservador com o aliado estadunidense seriam “sólidas”, sem serem “servis” (slavish), ele pretendia distanciar-se do modelo fusionista característico da relação Blair-Bush. Gordon Brown também fizera questão de tomar distância em relação ao dirigente estadunidense. Os observadores apontaram que David Cameron não tinha ido buscar em Washington o apoio presidencial às vésperas das eleições de maio de 2010, o que Tony Blair não se furtara a fazer antes daquelas de 1997.  

  

A maré negra provocada pela explosão de uma plataforma explorada pela companhia britânica BP foi qualificada por Barack Obama de “11 de setembro ecológico”. Pressionado a agir pela opinião pública, o presidente dos Estados Unidos atacou com virulência a companhia, cujo diretor-geral foi convocado para fornecer explicações perante uma comissão da Câmara dos Representantes. Referindo-se de maneira sistemática à “British Petroleum”, nome que a companhia havia oficialmente abandonado em 2000 em proveito das duas letras “BP”, Obama e seus colaboradores deixaram alguns britânicos melindrados: estariam eles sugerindo que a nacionalidade da companhia tinha alguma relação de causa a efeito com a irresponsabilidade dos encarregados da manutenção da plataforma? Estariam eles repercutindo uma pulsão anglofóbica que, no caso, não levava em conta o fato de que 40% do capital da BP eram propriedade de fundos de pensão estadunidenses? 

  

Em 10 de junho, o prefeito de Londres, Boris Johnson, nascido em Nova York, declarou em entrevista à BBC: “Eu considero que a retórica antibritânica que parece emanar dos Estados Unidos carrega algo preocupante”. “Quando uma grande companhia britânica é constantemente desbancada na mídia internacional, eu creio que isso se torna um verdadeiro problema para o nosso país”.  

  

O desmoronamento da cotação da BP, que perdeu metade do seu valor em doze semanas, e as repercussões desta derrocada sobre o nível das aposentadorias complementares pagas pelos fundos de pensão britânicos (todos são detentores de carteiras de ações na Bolsa de Londres) são expressão concreta desse problema. Uma manchete do Daily Telegraph resumiu a situação: “Obama agarra os aposentados britânicos pela garganta” (10 de junho de 2010). Foi necessária uma conversa por telefone do presidente dos Estados Unidos com David Cameron durante o fim de semana que precedeu a cúpula do G20 para apaziguar as relações. 

  

Foi por ocasião da Cúpula de Toronto que apareceram outras divergências, relativas à condução da política econômica. Para os estadunidenses a prioridade era de não comprometer o começo da recuperação econômica, faltando poucos meses para as eleições de meados de mandato. Para os europeus, e particularmente os britânicos, a meta era reduzir seu déficit orçamentário, além do nível da sua dívida nacional. Nenhum dos interlocutores arredou pé das suas posições. Mas isso não impediu David Cameron, de volta à Câmara dos Comuns, de prosseguir seu programa de saneamento das finanças públicas valendo-se das decisões do G20. Esse programa reduzirá 20% dos orçamentos alocados aos diferentes ministérios. Sem dúvida, o da defesa será um pouco mais poupado, mas essa amputação pesará na avaliação por Washington da especificidade do vínculo com o Reino Unido. 

  

Douglas Hurd, ministro das Relações Exteriores no governo de John Major (1990-1997), já havia comentado, tempos atrás, que: “A sobrevivência e o desenvolvimento da parceria [com os estadunidenses] dependem da utilidade da Grã-Bretanha na sua qualidade de aliada dos Estados Unidos. Em relação a esse ponto, nós alimentamos falsas ideias por conta da cortesia dos estadunidenses que parecem atribuir uma grande importância a essa parceria, ao passo que na verdade, isso não é o caso12”. 

Jean-Claude Sergeant é professor emérito na Universidade da Sorbonne Nouvelle (Paris 3).



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