DEMOCRACIA NÃO É CONCURSO DE SANTOS

Exército do Lula: da mobilização digital à consciência crítica

A mobilização digital permite que cidadãos comuns participem da disputa pública, compartilhem argumentos, defendam conquistas sociais e façam circular informações que dificilmente encontrariam espaço nos grandes veículos de comunicação 

A política descobriu nas redes sociais um novo território de disputa. Já não basta ocupar praças, sindicatos, igrejas, universidades e ruas. É preciso recorrer também aos celulares, computadores e plataformas digitais, onde milhões de pessoas recebem informações, formam opiniões, manifestam sentimentos e, não raro, são capturadas pela desinformação. 

Nesse cenário, merece reconhecimento a iniciativa do chamado Exército do Lula, mobilização digital coordenada pelo deputado federal André Janones (Rede-MG). Sua importância não deve ser subestimada. Em um país no qual a extrema direita aprendeu a explorar com extraordinária eficiência os mecanismos das redes digitais, organizar uma militância capaz de disputar narrativas, responder a ataques, desmontar notícias falsas e defender um projeto político constitui um imperativo democrático. 

Lula e Janones falam com o maior exército democrático do mundo. Crédito: Ricardo Stuckert/Lula Oficial/Flickr

Há, nessa iniciativa, pelo menos quatro méritos. O primeiro, compreender que a comunicação deixou de ser uma atividade acessória da política. É parte constitutiva dela. Durante muito tempo, setores progressistas confiaram excessivamente na comunicação institucional, nos pronunciamentos oficiais e na cobertura da imprensa. Enquanto isso, seus adversários construíam redes capilares de disseminação de mensagens, exploravam emoções, criavam palavras de ordem e ocupavam o cotidiano das pessoas. 

O segundo mérito é democratizar a participação política. Nem todos podem comparecer a uma manifestação, frequentar reuniões partidárias ou integrar organizações sociais. Mas milhões de pessoas dispõem de um celular. A mobilização digital permite que cidadãos comuns participem da disputa pública, compartilhem argumentos, defendam conquistas sociais e façam circular informações que dificilmente encontrariam espaço nos grandes veículos de comunicação. 

O terceiro é a rapidez. Diante de uma mentira viralizada, o tempo de resposta é decisivo. Uma rede organizada pode identificar uma falsidade, localizar sua origem, apresentar informações corretas e impedir que a desinformação se consolide como verdade. Pode também dar visibilidade a iniciativas governamentais que beneficiam a população, mas nem sempre são devidamente conhecidas. 

O quarto mérito é romper o monopólio da palavra. A política não pode ser privilégio de quem dispõe de dinheiro para comprar espaços publicitários ou controla grandes empresas de comunicação. A multiplicação de vozes é, em princípio, uma conquista democrática. 

Entretanto, uma questão merece ser colocada: mobilizar pelas redes é suficiente? Compartilhar uma mensagem significa necessariamente compreender o seu conteúdo? Defender um governo equivale a desenvolver consciência política? É aqui que a experiência do Exército do Lula poderia ganhar uma dimensão ainda mais fecunda ao incorporar os princípios da educação popular de Paulo Freire. 

Este pedagogo e patrono da educação brasileira – abominado pelos bolsonaristas – nos deixou a lição de que não basta transmitir informações para produzir conhecimento. A educação não consiste em depositar conteúdos na cabeça dos educandos, como se fossem recipientes vazios. É preciso despertar a capacidade de perguntar, interpretar, relacionar fatos, identificar interesses e compreender as contradições da realidade. Aplicada à comunicação digital, essa concepção faz uma diferença enorme. 

Uma militância que apenas recebe mensagens e as reproduz, pode ser numerosa e eficiente, mas continua dependente de quem produz e distribui os conteúdos. Seus integrantes atuam como multiplicadores, não necessariamente como sujeitos conscientes da realidade que pretendem transformar. 

A proposta freireana permitiria dar um salto qualitativo: fazer de cada participante não apenas um divulgador de mensagens, mas também um educador popular, um protagonista, capaz de dialogar com outras pessoas e ajudá-las a compreender a realidade brasileira. 

Como fazer isso concretamente? Respondo com seis propostas. Primeira: substituir a mensagem pronta pela pergunta provocadora. Em vez de simplesmente distribuir um cartão do Bolsa Família, por exemplo, propor uma reflexão: por que, em um país que está entre as maiores economias do mundo, milhões de famílias ainda necessitam de transferência de renda para sobreviver? Qual é a relação entre concentração de riqueza, desemprego, salário e fome? 

Em vez de apenas divulgar números sobre a redução do desemprego, perguntar: por que tantos trabalhadores continuam a viver de trabalhos precários? O que significa emprego sem segurança econômica? A informação é indispensável, mas a pergunta abre caminho para o conhecimento. Interpelar faz raciocinar. 

Segunda proposta: criar pequenos círculos digitais de cultura. Paulo Freire desenvolveu sua metodologia valorizando a realidade concreta dos educandos. O Exército do Lula poderia estimular grupos de discussão sobre temas do cotidiano: preço dos alimentos, transporte público, moradia, saúde, educação, violência, feminicídio, homofobia, emprego e desigualdade. Cada grupo poderia escolher um problema, compartilhar experiências, consultar dados confiáveis e discutir suas causas históricas, econômicas e políticas. 

O importante é não oferecer respostas previamente determinadas, mas construir coletivamente a compreensão dos problemas. 

Terceira: ensinar a ler criticamente as notícias. A extrema direita não inventou a mentira na política, mas aperfeiçoou sua disseminação em escala industrial. Combater as fake news exige mais do que apresentar desmentidos. É preciso formar pessoas capazes de verificar a origem de uma informação, identificar manipulações de imagens, reconhecer interesses econômicos e políticos por trás de determinadas narrativas e distinguir opinião de fato. Uma atividade semanal poderia apresentar duas notícias sobre o mesmo acontecimento, provenientes de fontes diferentes, e convidar os participantes a investigar o que cada uma destaca, omite ou distorce. 

A meta seria desenvolver autonomia intelectual, não dependência de uma central de checagem. 

Quarta proposta: relacionar a realidade local às grandes questões nacionais. A educação popular começa pela vida concreta das pessoas. Aqui e agora. Parte-se da vida do educando. Quem mora na periferia de uma grande cidade tem problemas específicos. Quem vive no campo enfrenta outros desafios. Trabalhadores, estudantes, mulheres, aposentados e pequenos empreendedores possuem experiências distintas. 

A comunicação digital poderia acolher essas vozes e fazer delas matéria-prima para a reflexão coletiva. Por que falta médico no posto de saúde do bairro? Por que o ônibus demora? Por que o alimento está caro? Quem decide o orçamento municipal? Como funcionam os impostos? Quem se beneficia da atual política econômica? 

Não encontrou um candidato perfeito. Nem esperava encontrar. Democracia não é concurso de santos. É escolha entre alternativas concretas, com virtudes, limitações, promessas, riscos e contradições. 

Na véspera do segundo turno, sentou diante da TV. Observou os dois candidatos. Ouviu novamente as promessas. Algumas lhe pareciam convincentes; outras, frágeis. Releu trechos dos programas oficiais. 

Finalmente decidiu por Lula. Não porque tivesse deixado de reconhecer os problemas do candidato escolhido. Não porque tivesse passado a concordar com tudo o que ele defende. E tampouco porque considera o adversário incapaz de representar parte do eleitorado. 

Decidiu por Lula porque depois de comparar propostas e trajetórias, entendeu que havia um conjunto de compromissos que, para ele, deveria pesar mais na escolha. 

Seu voto não nasceu da paixão. Nasceu da dúvida. 

Talvez essa seja uma das coisas mais importantes de uma eleição: o eleitor não precisar transformar seu voto em profissão de fé. Pode votar com esperança, mas também com memória; com convicção, mas também com espírito crítico. 

Quando apertou 13 nas teclas da urna, sabia que não estava escolhendo um santo, um salvador ou um avatar. Optou por um presidente experiente e confiável. 

Justamente por isso, decidiu que seu voto deveria ser dado não ao candidato que lhe prometesse o paraíso, mas àquela cuja proposta de país, depois de examinada com o máximo de cuidado possível, lhe parecesse mais compatível com o futuro que desejava para o Brasil. 

  

Frei Betto é escritor, autor do romance sobre a Amazônia “Tom vermelho do verde” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

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