Experiências do pensar - Le Monde Diplomatique

Filosofia

Experiências do pensar

por Adauto Novaes
9 de setembro de 2009
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O pensamento é hoje uma referência apagada para as ações humanas. A distância entre as ambições e as realizações da ciência e as ambições da filosofia chegou hoje ao seu ponto máximo. Há um domínio tecnocientífico do mundo do qual não se consegue escapar

A experiência do pensamento é o terceiro ciclo de conferências da série sobre as mutações. Os dois anteriores Mutações – novas configurações do mundo e Mutações – a condição humana, acabam de ser publicados.

Partimos da idéia de que a revolução tecnocientífica é feita no vazio do pensamento, ou seja, há uma prevalência dos fatos sobre as idéias. O pensamento é hoje uma referência apagada para as ações humanas.

A distância entre as ambições e as realizações da ciência e as ambições da filosofia chegou hoje ao seu ponto máximo, como observa o filósofo Jacques Bouveresse. Há um domínio tecnocientífico do mundo do qual nem mesmo o pensamento consegue escapar.

A ciência renunciou a especular sobre os mecanismos internos “responsáveis pelo surgimento e sucessão dos fenômenos que observamos para concentrar-se exclusivamente na tarefa de descrever, medir, calcular e predizer os efeitos”.

Não se trata de desqualificar a ciência-saber, que pensa e que construiu até hoje toda nossa história. Tentemos entender a passagem para a ciência-poder, ou seja, a instrumentalização da ciência e da técnica.

O ciclo Experiência do pensamento está estruturado em três eixos centrais que discutem a experiência teorética, isto é, o estado da filosofia e da ciência hoje, a experiência poética e a experiência do pensamento do prático, que se concentra na análise da ética e da política. A experiência prática é a que nos afeta de maneira mais visível.Como nos diz um dos conferencistas, o filósofo Francis Wolff, o que é claro é que nada está claro hoje em matéria de política: “Há duas ou três décadas, não há mais horizonte claro daquilo que seria seu fim, o fim último da vida política”.

Lemos nos Esboços de ensaios de Robert Musil que nosso tempo só acredita nos fatos. “Sua representação da realidade – diz ele – só reconhece aquilo que é, por assim dizer, realmente real. Assistimos aí ao desenvolvimento de uma ideologia não oficial…

A filosofia está ligeiramente (!) atrasada em relação aos fatos, o que a induziu a pensar que o espírito voltado para os fatos seria antifilosófico; na realidade, não ter filosofia é a filosofia que convém ao nosso tempo”.

O que Musil quer dizer é que todos os sistemas filosóficos dos tempos modernos podem ser vistos como potentes construções lógicas construídas sobre uma base de experiência muito frágil. Mais: quando se quer construir um novo sistema, uma autêntica visão do mundo, é preciso antes de tudo estar disposto a ver o mundo, conhecer os fatos. Esta é a razão pela qual o conceito de experiência do pensamento foi escolhido para dar seqüência ao tema das mutações.

Nossa proposta é voltar às coisas, quer se trate de objetos sensoriais ou objetos de ciência, para fugir de um mundo e de um tempo do pensamento de sobrevôo. A experiência do pensamento não se pretende uma filosofia dos fatos, mas uma “filosofia especulativa estimulada pelo desenvolvimento das ciências dos fatos”.

Notamos que uma das causas da dificuldade para o exercício do pensamento consiste no predomínio da medida, isto é, a tecnicização ou a experiência matemática do real: tudo passa a ser calculado “cientificamente”.

O pensamento operatório, como nos lembra Merleau-Ponty, torna-se uma espécie de artificialismo absoluto, essência do mundo contemporâneo, que se contenta com a evidência imediata do real. Na era da velocidade dos fatos, aquilo que precisa ser pensado afasta-se do homem e o simples fato de ser afetado pelo objeto imediato “isola o homem daquilo que lhe diz respeito”.

Novo paradoxo

Paul Valéry não cessou de refletir sobre as contradições entre as transformações reais e a impotência do pensamento diante do grande número de invenções técnicas: “Introduzimos poderes, inventamos meios, criamos hábitos inteiramente diferentes e imprevistos. Anulamos valores, dissociamos idéias, arruinamos sentimentos que pareciam inquebrantáveis por ter resistido a vinte séculos de vicissitudes. Para exprimir um tão novo estado de coisas temos apenas noções imemoriais”.

Conceitos “imemoriais” não bastam para interpretar um mundo inteiramente outro. O que está em causa não são as teorias apenas, mas as próprias manifestações da vida. O que mais impressiona e que torna as coisas mais difíceis ainda é este novo paradoxo: uma mutação – fruto do pensamento – produzida pelo domínio absoluto da tecnociência só é possível se o pensamento for abolido.

É certo que a ciência nada pode sem o pensamento, como alerta Heidegger. Mas, a relação entre ciência e pensamento “só é autêntica e fecunda quando o abismo que separa as ciências e o pensamento tornou-se visível e quando se torna evidente que não se pode fazer nenhuma ponte sobre esse abismo. Não há ponte que conduza as ciências em direção ao pensamento; existe apenas o salto. E lá, para onde o salto nos leva, não é a outra margem, mas uma região inteiramente nova”- que oferece mais questões do que respostas.

As mutações são incontornáveis e, com elas, entre perdas e ganhos, temos o que o romancista Robert Musil definiu como a “destronização da ideocracia”.

“Se Arnheim tivesse podido ver alguns anos à sua frente, teria visto em 1920, anos de moral cristã, milh&o
tilde;es de mortos de uma terrível guerra e uma floresta alemã de poemas bradando sobre o pudor feminino. Nada disso conseguiu adiar uma só hora o fato de um dia as saias e cabelos das mulheres começarem a encurtar; e teria visto as jovens européias despindo-se de proibições milenares como bananas que se vão descascando, nuas”.

Ora, o que Musil quer é evidenciar a impotência de uma civilização morta diante de uma nova ordem comandada por “alfaiates, moda e acaso”. É “como taparmos um buraco vazio com uma cúpula vazia: o vazio superior apenas aumenta o vazio vulgar, e, assim, nada é mais natural do que, a uma época de culto à personalidade, suceder outra que não dê valor algum à responsabilidade e à grandeza”.

Jacques Bouveresse amplia as idéias de Musil com um comentário mais radical: acrescentemos, propõe ele, uma “democracia das idéias”, entre as quais, principalmente as de natureza científica, nenhuma está autorizada a impor às outras sua superioridade, sua autoridade, sua lei. Vivemos, pois, a indefinição: nem a “ideocracia”, nem o predomínio dos fatos que acabam gerando a gigantesca superfície dos modismos.

Até bem pouco tempo havia um entendimento mais ou menos comum quando se falava em espaço, tempo, natureza, trabalho, percepção, olhar, arte, política etc. Hoje, muitos destas noções perderam o sentido preciso. Abstratas, elas são indispensáveis à inteligência, mas o problema surge quando elas vêm à expressão comunicar-se com o mundo e orientar nossas ações. Os resultados de sua aplicação podem ser avaliados naquilo que é hoje a “civilização ocidental”.

Os princípios eram bons? Não se pode afirmar com certeza que eram ruins. Mas como explicar que em tempos terríveis como os
nossos “fazem-se as piores casas e os piores poemas seguindo princípios tão belos quanto os dos melhores tempos”, como observa Musil? Por que os belos princípios produziram tais poemas? Há problema nos fundamentos das noções ou de sua aplicação apenas?

Se as incertezas nos deixam hoje à deriva, sabemos pelo menos que podemos pensar uma pluralidade de expressões, produtos do espírito mais fecundos do que aqueles que resultam de métodos sistemáticos e dogmáticos. As incertezas nos relembram mais uma vez que nunca há pensamento acabado, o pensado jamais é pensado o suficiente e que é preciso voltar sempre aos mesmos conceitos e dar a eles outras formas, pequenos renascimentos.

Valéry, em consonância com Musil, escreve em seu Prefácio às Cartas persas:“Uma sociedade eleva-se da brutalidade à ordem. Como a barbárie é a era dos fatos (…) a ordem exige a ação de presença de coisas ausentes, e resulta do equilíbrio dos instintos pelos ideais”. Valéry esclarece que a “era dos fatos” corresponde ao domínio dos “fatos científicos” e que os “ideais” correspondem às “coisas vagas”: a teoria, a metafísica, as metáforas, as artes, os mitos, enfim, tudo o que se dá lá onde a liberdade do espírito torna-se possível.

Sem as “coisas vagas”, os fatos estarão sempre submetidos às normas do conhecimento científico. A proposta de Valéry: tudo o que é historicamente um fato pode ser “desobjetivado”, reconstruído, retomado a partir do acúmulo de sentidos que cada fato histórico contém, pedindo, então, para vir à expressão, experiência temporal indeterminada e obscura, não reificada ainda. Essa é uma das maneiras de retomada do passado; a experiência individual, que é modelada pela estrutura cultural e política, alarga-se, inscrevendo-se em uma “vasta rede de sentidos”.

 

*Adauto Novaes, ex-jornalista e professor, foi, durante vinte anos, diretor do Centro de Estudos e Pesquisas da Fundação Nacional de Artes. Atualmente é diretor da Artepensamento.



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