Expurgo no Reino Unido - Le Monde Diplomatique

A ESTRATÉGIA DE KEIR STARMER, O NOVO LÍDER DO PARTIDO TRABALHISTA

Expurgo no Reino Unido

Edição 162 | Reino Unido
por Owen Hatherley
28 de dezembro de 2020
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O ex-líder do Partido Trabalhista britânico Jeremy Corbyn acaba de anunciar o lançamento do Projeto pela Paz e a Justiça, maneira de seguir sua luta contra as desigualdades e o imperialismo. A iniciativa vai se beneficiar do desvio direitista do seu sucessor no LabourKeir Starmer, eleito para reconciliar um partido dividido, mas que se empenha em calar a ala esquerda 

Você deve achar que sou muito ingênuo, canta Edwyn Collins na abertura do álbum favorito do líder trabalhista britânico Keir StarmerYou Can’t Hide Your Love Forever [Você não pode esconder seu amor para sempre]. A verdade é que só vejo o que quero ver. O ano de 2020, em que Starmer teve sucesso não apenas em assumir a chefia do Partido Trabalhista, mas também em realizar um expurgo interno que não poupou seus próprios apoiadores, foi um caso clássico de obtenção de benefícios por meio de uma postura de ingenuidade falsa. 

As propostas de Starmer durante sua campanha de candidatura à direção do partido pareciam quase boas demais para serem verdade: elas atendiam a todas as demandas da base após sair de um traumatismo coletivo. A maioria dos membros tinha apoiado Jeremy Corbyn e sofrido as múltiplas reviravoltas que pontuaram seu mandato, desde sua rápida derrota apertada na eleição geral de junho de 2017 até o desastre humilhante de dezembro de 2019, quando ele foi alvo de uma campanha conservadora repercutida na imprensa por desertores do Partido Trabalhista. Para membros e ativistas testados por essa experiência, Starmer trouxe uma plataforma de dez promessas que retomavam os fundamentos do socialismo à la Corbynrenacionalização do transporte ferroviário e dos serviços outrora públicos, um New Green Deal, abolição das matrículas nas universidades, controle dos aluguéis e um ambicioso programa de moradia social… Tudo carregado por uma personalidade mais suave: não mais um anti-imperialista convicto, mas uma figura eminente da boa sociedade, o fundador de um escritório de advocacia especializado na defesa dos direitos humanos, ex-procurador-geral com título conferido pela rainha. Essa síntese providencial parecia em condições de reunificar o partido e engatar a máquina para vencer nas eleições seguintes. 

Starmer não teve dificuldade alguma para ultrapassar suas duas rivais, uma das quais, Rebecca Long-Bailey, representava a ala mais à esquerda do partido, e a outra, Lisa Nandy, sua ala (cada vez mais) à direita. Nas eleições internas de abril de 2020, ele conquistou cerca de metade dos votos obtidos por seu antecessor nas votações de 2015 e 2016. Pesospesados do corbynismo haviam se mobilizado para sua candidatura, como Laura Parker, fundadora da Momentum, a corrente pró-Corbyn do Partido Trabalhista. Nove meses depois, porém, essa síntese promissora já está em ruínas. 

A crise ressurgiu, mais aguda do que nunca. Levando em consideração as acusações de antissemitismo contra seu predecessor, Starmer chegou a ponto de proibir Corbyn de exercer seu mandato de deputado no Parlamento; o secretário-geral do partido, David Evans, impede qualquer discussão sobre essa evicção nas células locais; e o programa que levou a liderança atual ao poder foi esmagado. As dez promessas que anunciavam um novo amanhecer para o Partido Trabalhista foram apagadas de seu site.  

(Wikimedia)
Uma firmeza de conveniência

Desde o início não havia nenhuma dúvida de que a estratégia de Starmer incluía elementos de oportunismo e manipulação. Durante um comício em Liverpool, cidade mais à esquerda do país, ele proclamou, por exemplo, que durante a campanha não falaria mais ao Suno tabloide reacionário do magnata Rupert Murdoch – uma resolução muito aplaudida pela base, que boicotava o jornal desde sua cobertura tendenciosa do drama de Hillsborough, em 1989.1 Assim que foi eleito, ele se apressou em conceder-lhe uma entrevista. 

Em seu primeiro vídeo de campanha, lançado logo após a terrível derrota eleitoral de dezembro de 2019, Starmer foi retratado como um arauto das lutas das décadas de 1980 e 1990 – período em que a maior parte da esquerda envelhecida do partido começou sua jornada política. As mobilizações de que participou, como a greve anti-Murdoch dos impressores de Wapping (1986) ou o processo movido pelo McDonalds contra dois ativistas da causa animal (nos anos 1990), foram documentadas por imagens granuladas de arquivo. Mas, a partir de 2003, mais nada. Nem uma única imagem, em particular, para o período pós2008, quando Starmer tirou sua túnica de advogado engajado na defesa de causas nobres para vestir a toga de prestígio do diretor do Ministério Público da Inglaterra e do País de Gales (director of Public Prosecutions). Nesse posto, o filho da classe trabalhadora – seu pai era maquinista; sua mãe, enfermeira – alinhou-se à ordem dominante, com posições muitas vezes duras e raramente progressistas. De certa maneira, os poucos meses que ele acaba de passar à frente do Partido Trabalhista reproduzem, de forma acelerada, o processo de mutação ou adaptação realizado após sua nomeação como procurador, sob a autoridade do primeiro-ministro trabalhista Gordon Brown. 

Ele foi eleito deputado pela primeira vez em 2015, em um distrito eleitoral de Londres tradicionalmente trabalhista, antes de se tornar um ano depois ministro do Brexit no gabinete paralelo do Partido Trabalhista – um partido cujos membros queriam que o Reino Unido permanecesse na União Europeia, mas do qual muitos eleitores estavam inclinados pela saída, como as eleições de 2019 demonstraram.2 Em parte por causa de sua própria posição sobre o assunto, o Partido Trabalhista engajou-se nessa eleição exigindo um segundo referendo, reivindicação morna e desconjuntada que não despertou o entusiasmo dos eleitores e que Starmer se apressou em enterrar assim que chegou à chefia do partido. Ele sabia quão caro o rótulo de pró-europeu poderia custar politicamente e se livrou dele com a mesma determinação que em 2008 convenceu a opinião pública de que não seria um promotor humanista  acusação infame em um país cujos tabloides consideram o próprio conceito de direitos humanos um absurdo. 

O escândalo do antissemitismo que – segundo a imprensa hostil a ele – teria favorecido Corbyn quando ele liderava o partido3 desempenhou apenas um papel menor na campanha interna de Starmer. Diante de perguntas e acusações, especialmente do Jewish Labour Movement (Movimento Trabalhista Judaico), suas concorrentes, Long-Bailey e Nandy, tomaram, para surpresa de todos, a iniciativa de se declararem sionistas, o que o Starmer se recusou a fazer. No entanto, uma vez eleito, ele dedicou sua primeira declaração pública  uma mensagem de vídeo bizarramente gravada na frente de um guarda-roupa e mostrando-o com feições vermelhas e em pânico  a apenas dois tópicos: a Covid-19 e a mácula do antissemitismotemas que definem a essência de seu mandato até hoje. Do lado da Covid, ele manteve a política inicial que consiste em não criticar o governo por sua gestão desastrosa da pandemia. De vez em quando, ele se permite uma declaração em tom sentencioso e gerencial para alertar as autoridades. 

Em um contexto em que a oposição à política de Boris Johnson é colocada fora de ação, os ataques contra a esquerda ganham ainda mais relevo. Long-Bailey foi o primeiro alvo. Em junho de 2020, ela renunciou ao cargo de ministra da Educação no gabinete paralelo do Partido Trabalhista após ter compartilhado no Twitter uma entrevista com a atriz Maxine Peake que associava a técnica policial norte-americana do joelho no pescoço a uma especialidade do Exército israelense  uma acusação plausível, mas não comprovada, que ocupou meia linha em uma entrevista dedicada em grande parte ao seu apoio ao Partido Trabalhista. Denunciando uma teoria da conspiração antissemita, Starmer decidiu de imediato punir sua ex-rival, que, no entanto, dispunha-se a se retratar publicamente. Toda a esquerda trabalhista de repente se viu alvo de suspeitas. O chefe do Partido Trabalhista também prometeu destituir do cargo qualquer pessoa acusada de antissemitismo, independentemente do fundamento da incriminação. Essa regra, no entanto, não se aplicava a outros aliados dele, como Rachel Reeves, que professou sua admiração pela ex-parlamentar pró-nazista Nancy Astor, ou Steve Reed, que, em julho de 2020, no Twitter, chamou um empresário judeu de marionetista que manipulava o governo conservador. Após a renúncia de Long-Bailey, comunicações internas revelaram que o conflito dela com Starmer era motivado em grande parte pela sustentação que recebia, já que se considerava que ela era excessivamente apoiada pelos sindicatos de professores, então em total oposição a um plano de reabertura das escolas.  

Em outubro, deu-se então a escalada dos acontecimentos, com a suspensão de Corbyn, pronunciada após a apresentação de um relatório da Comissão para a Igualdade e os Direitos Humanos (EHRC) sobre o antissemitismo dentro do partido, que se seguiu a outro relatório interno, divulgado para a imprensa, que a liderança corbynista havia pedido para submeter à apreciação da EHRC. O último documento continha trechos de e-mails e trocas de mensagens por WhatsApp indicando que vários líderes trabalhistas conhecidos por serem intransigentes com o antissemitismo na verdade não tinham respondido a diversas reclamações sobre o tema. O relatório da EHRC corroborou esses elementos e questionou a direção em três pontos: sua passividade em face das propostas consideradas antissemitas do ex-prefeito de Londres Ken Livingstone e de um obscuro vereador de Lancashire; suas intervenções para bloquear procedimentos internos (uma relacionada a comentários deixados na página de Corbyn no Facebook sobre caricaturas antissemitas, a outra destinada a acelerar a exclusão de Livingstone); sua incapacidade de formar adequadamente os quadros do partido para lidar com casos de antissemitismo. Essas queixas suscitaram poucas objeções no partido, inclusive em sua ala esquerda. Apesar de sua dureza para com a gestão, a EHRC se absteve de retransmitir as acusações ultrajantes propagadas pela imprensa, muito feliz em explorar essa crise para decidir o destino para Corbyn, equiparando-o a uma ameaça existencial para os judeus  o editorialista conservador Simon Heffer chegou a acusá-lo de querer reabrir Auschwitz (LBC, jul. 2019).  

Corbyn acolheu o relatório da EHRC, observando, sem surpresa, mas de uma forma que não deixou de ser inábil, que o problema tinha sido consideravelmente exagerado pela mídia, bem como por seus opositores dentro e fora do partido – uma declaração que Starmer dificilmente poderia contestar, a menos que concluísse que havia servido em um gabinete paralelo dirigido por um antissemita; mesmo assim, ele a usou como pretexto para suspender o antecessor de sua qualidade de membro do Partido Trabalhista. 

As razões para essa suspensão ainda permanecem obscuras. Corbyn foi punido por minimizar fatos de antissemitismo ou por ter desacreditado o partido, de acordo com a fórmula deliberadamente vaga utilizada por Evans? Um painel de membros do Comitê Executivo Nacional (NEC), representativo de todas as tendências do partido, decidiu por unanimidade devolver a Corbyn sua ficha de membro, mas Starmer ainda se recusa a deixá-lo assumir assento como deputado trabalhista. Dezenas de grupos filiados ao Partido Trabalhista – incluindo sindicatos e movimentos de juventude – mostraram seu apoio ao ex-líder do partido; Evanspor sua vez, anunciou sua intenção de suspendê-los, antes de indicar que a questão não estava aberta para debate, levando uma parte dos membros do NEC a entrar em greve. 

A espiral é infernal. Demorou apenas alguns meses para que vários sindicatos cogitassem se desfiliar do Partido Trabalhista, ao passo que tinham levado anos para chegar a esse extremo sob o mandato de Tony Blair. Dada a aprovação geral recebida pelo relatório da EHRC, a questão não é saber se há um problema de antissemitismo dentro do Partido Trabalhista, e sim se a abordagem que consiste em rotular como antissemita qualquer crítica ao expurgo em curso facilita ou complica adoção das recomendações desse relatório. 

Quais seriam as condições hoje para reunificar o partido? Um relatório interno sobre o desastre eleitoral de 2019, o Labour Together [Partido Trabalhista Unido], sugere várias pistas. Embora concordem que a confusa demanda por um segundo referendo do Brexit constitui, de longe, a principal causa da derrota, seus autores defendem que a crise seja remediada por meio de mais profissionalismo e “patriotismopara apaziguar a direita, mas também por meio de mais apoio às lutas sociais e mais audácia programática, para não condenar ao ostracismo os jovens socialistas do Momentum. A liderança do partido, no entanto, parece ter interpretado mal essas propostas aparentemente equilibradas: para todas as questões relativas à ordem e à segurança, ela continua a submeter-se ao Partido Conservador, enquanto, no plano social e econômico, persiste em se prender a posições centristas, personificadas pela inexpressiva Anneliese Dodds, chanceler do Tesouro (ministra das Finanças) no gabinete paralelo. Dada a política orçamentária do governo Johnson, marcada pelo aumento dos gastos públicos e do salário mínimo, as nuances entre trabalhistas e conservadores estão se tornando cada vez mais difíceis de discernir. 

Foi essa recusa em adotar uma linha um pouco progressista que causou grandes agitações após a chegada de Starmer. O novo chefe do Partido Trabalhista ficou de início marcado por seus comentários desdenhosos sobre o movimento Black Lives Matter [Vidas Negras Importam]reduzindo-o a uma peripécia, antes de se opor às denúncias de violência policial nos Estados Unidos: Como diretor do Ministério Público, trabalhei por cinco anos com forças policiais na Inglaterra e no País de Gales, contribuindo para levar milhares de pessoas à justiça. Todos, portanto, podem ver que meu apoio às forças policiais é muito, muito forte, como evidenciado pelas ações que tive a oportunidade de realizar com elas.4 As tensões aumentaram quando um grupo de socialistas integrado ao gabinete paralelo de Starmer foi forçado a renunciar por votar contra dois projetos de lei do governo Johnson que buscavam garantir a impunidade para militares e oficiais de inteligência caso cometessem atos criminosos no decurso de suas operações. A linha oficial do Partido Trabalhista era de se abster, não de votar contra – uma posição surpreendente para um partido liderado por um antigo grande advogado dos direitos humanos. 

No plano econômico, os trabalhistas podem argumentar que as tímidas medidas sociais consentidas pelo chanceler do Tesouro, Rishi Sunak, são o produto das amáveis pressões exercidas por Dodds. Mas se é isso o melhor que o partido tem a oferecer aos apoiadores de Corbyn em troca de uma ração adicional de humilhação pública, pode não ser suficiente. 

Até agora, Starmer se limitou a desempenhar o papel de um auxiliar muito moderadamente crítico do governo. No plano interno, sua ação resulta em dificultar a atuação de ativistas de porta em porta, desencorajando os militantes mais devotados, e afastar-se dos sindicatos. Mas o propósito dessas negações permanece misterioso, sobretudo vindo de um líder tão indefinível politicamente. O defensor dos direitos humanos que se recusa a votar contra a absolvição dada aos crimes de guerra, o pró-europeu que se tornou um forte apoiador do Brexit, o candidato sindical que organiza expurgos em seu partido: ainda que essas metamorfoses pareçam produzir poucos resultados nas pesquisas, elas foram aplaudidas com fervor pela imprensa. A verdadeira ingenuidade de Starmer não seria a de acreditar que essa bênção será suficiente para içá-lo ao poder? 

 

*Owen Hatherley é autor de Red MetropolisSocialism and the Government of London [Metrópole vermelha: socialismo e o governo de Londres], Repeater Books, 2020. 

 

1 Ler Quentin Guillon, “À Liverpool, le football comme creuset de l’identité” [Em Liverpool, o futebol como cadinho de identidade], Le Monde Diplomatique, nov. 2020. 

2 Ler Chris Bickerton, “Pourquoi le Labour a perdu” [Por que o Partido Trabalhista perdeu], Le Monde Diplomatique, fev. 2020. 

3 Ler Daniel Finn, “Anti-semitismthe Lethal Weapon” [Antissemitismo, a arma mortal], Le Monde Diplomatique, jun. 2019. 

4 Citado por Elliot Chappell, “Starmer says he regrets calling Black Lives Matter movement a ‘moment’” [Starmer diz que lamenta ter chamado o movimento Black Lives Matter de um “momento], LabourList, 2 jul. 2020. Disponível em: https://labourlist.org. 

 

 



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