RESENHA

Fantasia distópica Verty Society é extensão lógica e dolorosa de onde já estamos

Livro aborda uma Terra futurista onde a paz de seus habitantes é garantida por meio da supressão da liberdade. Mais do que uma obra de ficção, é um libelo contra homofobia e a repressão institucionalizada

Homem gay vivendo no Brasil, país em que mais se mata LGBTQIA+ no mundo há 17 anos ocupando o topo da lista, senti a urgência de denunciar um mundo onde o diferente é punido, especialmente por influências religiosas e políticas. Isso me levou a escrever a saga Verty Society, obra de fantasia distópica que se passa em uma Terra futurista, onde a paz de seus habitantes é garantida por meio da supressão da liberdade, utilizando a religião e o autoritarismo como formas de controle. O primeiro volume da série, intitulado Verty Society – Era Traidário, foca em sete personagens principais, todos eles diversos, que sofrem consequências físicas e emocionais por não se adequarem às normas vigentes da sociedade e às Escrituras Sagradas do deus Eros, de acordo com o Rei X (governante absoluto do planeta). 

Embora trate de uma Terra que não existe (ainda), fruto da minha imaginação, Verty é real em termos de probabilidade não somente para o Brasil, mas de forma globalizada. Criei a extensão lógica e dolorosa de onde já estamos; um espelho da realidade de muitos – corpos excluídos, identidades negadas e vozes silenciadas. Nesse sentido, além de um exercício estético, o livro é um desabafo, um modo que encontrei de expurgar sentimentos de minha alma, denunciando o mundo onde já vivemos e buscando gerar reflexão para as atitudes que devem ser tomadas com o objetivo de evitar um futuro distópico. 

A trama do primeiro tomo do livro se desenrola em boa parte dentro de um quarto branco. No cômodo, os personagens principais Shell; Oswald Schmidt, Carlitos Pimentel; Amanda McCarter; Tulio Zigman; Chen Tóngqíng; Joseph Rossi e Sofie de Montmorency participam de um ritual sádico ministrado por Hera, um ser meio cobra, meio humana, com sete cabeças femininas. Em meio a tarefas, que exigem deles, sobretudo, autocontrole, buscam descobrir onde se encontram e as razões de estarem ali, e porque estão sendo punidos por serem pecadores. 

O caminho que leva os personagens principais até o quarto branco, construo por meio da apresentação e aprofundamento da história de vida de cada um deles, todos estudantes da Academia de Belas Artes de Genova, em capítulos que entremeiam o enredo principal. Nestes capítulos, mostro a origem dos prisioneiros do quarto e porque eles são tão importantes ao Rei X (vilão maior da trama e um reflexo de líderes atuais que influenciam nossa sociedade), principal liderança de Verty, responsável por colocá-los naquela situação. 

Capa da primeira edição da saga. Livro "Verty Society: Era Traidário". Existem várias pessoas na frente usando roupas chiques: ternos, vestidos longos, coroas.
Crédito: Divulgação

Por se tratar de uma obra complexa, onde um mundo novo é apresentado, inicialmente exibindo um mundo perfeito, recorro a uma parte introdutória e a um glossário para tornar a trama mais acessível ao leitor, divulgando as nuances de evolução dessa nova sociedade. No primeiro explico, por exemplo, como Verty se originou, com base em acontecimentos históricos. Com o intuito de findar a Terceira Guerra Mundial (que teve nas redes sociais o principal causador de discórdia e estopim) e salvar a humanidade de seu próprio declínio, o deus Eros enviou ao planeta, em 2099, o meteorito Eros 433 (meteoro esse real que circunda atualmente a Terra). O fragmento do corpo celeste, que extinguiu grande parte da humanidade, marcou o início de uma nova era capitaneada pelo Rei X, salvador da Terra e servo de Eros. 

No glossário, apresento as principais características de Verty, como o fato de que seus habitantes não nascem mais de forma natural, mas são concebidos por meio de um útero fecundador externo, controlado por uma inteligência artificial. Aponto também que a única filosofia de vida e religião aceita na ex-Terra é a do deus Eros. Destaco ainda que o teletransporte e a telepatia se tornaram ações corriqueiras, e que a alimentação se dá por meio de pílulas que contêm todos os nutrientes necessários à sobrevivência. Evidencio, além disso, a alteração da temporalidade — com uma nova forma de contar as horas e os dias —, a mudança na estrutura facial e corporal dos humanos, que confere aos habitantes de Verty um aspecto alienígena, e o aumento da longevidade, decorrente de uma transformação na estrutura do DNA. 

Espelho do nosso tempo, Verty Society explora alguns temas que me são bem caros, entre os quais a sexualidade e a religião. Munidos de orientações sexuais e identidades de gênero diversas, os protagonistas da trama enfrentam obstáculos quase intransponíveis para expressá-las de forma genuína. A raiz para tal interdição está nas Escrituras Sagradas de Eros e os mandamentos religioso da única fé que pode ser professada na ex-Terra e que fornece as bases para os códigos de conduta social em Verty. 

Aficionado por formas de arte que não só a literatura, dotei os protagonistas do livro de algum talento artístico (pintura, cinema, moda, dança, fotografia, música) e o próprio e controverso Rei X, um líder tradicional que segue as Escrituras Sagradas de Eros, mas ao mesmo tempo ostenta a moda e o luxo como valores fundamentais a serem seguidos por seus súditos. Fiz do local que estudam para o desenvolvimento de suas aptidões, a Academia de Belas Artes de Gênova, um ponto estratégico para o desenvolvimento da trama, afinal é lá que se conhecem e se tornam amigos e é lá também a moradia oficial do palacete do Rei X e a família galaxial. À medida que fui dominando a história que queria contar e me aprofundando nas personagens que criei, percebi não só a trama como o livro em si deveria extrapolar o limite da literatura. 

Dessa forma, atrelei à obra um projeto multiartístico chamado Galeria Verty. Nesse espaço virtual, 18 artistas de diferentes nacionalidades (brasileira, venezuelana, britânica, russa, ucraniana, francesa, italiana, vietnamita e sul-coreana) e representantes da diversidade e da inclusão, expõem fotografias, pinturas, música, ilustrações, entre outras formas artísticas inspiradas na trama. Assim como o livro, a galeria dialoga com temas como liberdade, diversidade e inclusão. Desse modo, os artistas participantes, representam a diversidade: de gênero, inclusão, orientação sexual, etnia, entre outras. 

Na obra, confronto questões do passado, presente e futuro, que se moldam a narrativa. Faço um resgate a importantes líderes de nossa história, tanto os bons quanto os maus, e incremento a história com outros elementos de mitologia e filosofia, além da religião.  

Como ávido leitor, não poderia deixar de citar grandes nomes da literatura que me influenciaram na escrita de minha obra como Henry Thoreau, Ursula K. Le Guin, George Orwel, Byung-Chul Han, Oscar Wilde, Yuval Harrari e os filósofos Zygmunt Bauman, Sigmund Freud, Friedrich Nietzche, Arthur Schopenhauer, Tomás de Aquino, Santo Agostinho, Aristóteles e Platão. 

Em suma, Verty Society é uma obra que entrego ao mundo como um manifesto em prol da diversidade e da inclusão. Não foi feita para agradar, mas para abrir frestas e servir de alerta, a fim de que essa distopia não se concretize nem nos leve rumo a um futuro mais caótico.  

 

Fénelon Tartari é publicitário, escritor, amante das artes e explorador nato. 

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