A SABEDORIA DOS CIPÓS

Filosofia, fuga e liberdade em Dénètem Touam Bona e novas tecnologias de Marronagem

Ao ler a obra de Dénètem, Sabedoria dos Cipós, torna-se quase impossível não pensar em territórios brasileiros, urbanos e não urbanos, em que descendentes de negros e indígenas se encontram, seja para festejar, morar ou exercer suas religiosidades

O escritor, filósofo e curador afro-europeu Dénètem Touam Bona, (1973), fronteiriço de mãe francesa e pai africano, escritor de a Sabedoria dos Cipós parte em boa medida das teorias e reflexões de Edouard  ,[1] filósofo e poeta Martinicano e elabora novos conceitos para tratar de identidade, poética e sistemas políticos, entendidos como cosmopoéticas e cosmopolíticas. Um dos conceitos que embasam seu trabalho, por exemplo, é o da marronagem – técnica de fuga de pessoas escravizadas para evasão do sistema escravocrata e colonial.

A marronagem, é um conceito filosófico e político, um movimento, ato mobilizador de insurreição e rebeldia; funciona quase como uma ação direta do corpo e da mente, permitindo movimentações, vazamentos e extrapolações do lugar de onde se está e não se quer estar. Diferente do que muitos podem pensar, o ato de fuga da marronagem não está necessariamente relacionado à covardia e ao medo, mas a uma estratégia de existência tão perspicaz e válida quanto outras entendidas com maior ou menor movimentação e demonstração de força.

“A marronagem começa em terras africanas: é transatlântica desde o início. Mas é, obviamente, nas Américas – tornadas o coração do sistema escravagista – que essa forma de vida e resistência conhecerá seu auge, até se tornar matriz de verdadeiras sociedades marronas.” – Dénètem Touam Bona, A sabedoria dos cipós, 2025, Editora Ubu.

Esse movimento designa o ato de escapar das dominações coloniais, sociológicas, econômicas e simbólicas, inventando outras formas de viver após a fuga bem-sucedida. Depois do chamado derramamento, momento em que escapam e se organizam, a marronagem torna-se uma organização comunitária que escapa/derrama, e os que as constituem são chamados marrons.

Marrons, segundo Roger Bastide em   (1967, Éditions L’Harmattan), tem origem no termo espanhol cimarrón, referindo-se a animais domésticos que se tornam selvagens – um movimento contrário ao que pensamos enquanto sociedade, sob um viés positivista dos processos históricos e dos projetos civilizatórios. Para o momento contemporâneo podemos pensar nesses derramamentos como indivíduos ou coletividades que já nasceram na “civilização” e vão caminhando para o contrário, para uma descivilização como uma forma de sobrevivência e autonomia, e fora das lógicas que já lhes parecem insustentáveis para se viver.

Ao ler a obra de Dénètem, torna-se quase impossível não pensar em territórios brasileiros, urbanos e não urbanos, em que descendentes de negros e indígenas se encontram, seja para festejar, morar ou exercer suas religiosidades. Quilombos, favelas, alagados, aldeias e terreiros são apenas os mais comuns – ou, pelo menos, os mais conhecidos. Esses espaços criam comunidades, redes de apoio mútuo, com a construção de acordos sociais coletivos  refazendo diretamente as políticas sociais e culturais.

Cada aldeia, urbana ou não urbana, produz aquilo que necessita para a própria vida; cada quilombo tem uma organização específica, baseada em suas demandas; os terreiros são espaços políticos e culturais, que têm em seu cerne uma religiosidade – logo, um modo de vida e produção simbólica – resistente. Mesmo a favela mais próxima de você carrega em si a marronagem conceituada e desenvolvida por Dénètem – e novamente, não no sentido de fuga que é seu entendimento mais comum de escape e ausência pelo medo, mas da fuga que tem como resultado uma forte presença, apesar das intempéries do contexto. Isso resulta no derramamento de outras formas de existir e estar no mundo: uma liberdade gerada pelo assentamento da coletividade que, mesmo longe de ser perfeita e segura – como vimos no último mês, no caso da chacina do Rio de Janeiro[2] –  ainda assim, resistem e sobrevivem por meio de suas próprias organizações.

Outra ideia trazida pelo autor já no título Sabedoria dos Cipós, é a figura de Cipós,  que como a vegetação se entrelaçam, e são flexíveis na própria constituição e sobrevivência, crescem de forma “desordenada”, contornam possíveis obstáculos, são desviantes e se recusam a ser domesticados.

“Por meio do entrelaçamento dos cipós, portanto, trata-se também de pensar o emaranhado das agências: a “intra-ação”dos humanos e de outros seres vivos, dos meios de vida, dos artefatos, das imagens etc”  – Dénètem Touam Bona, A sabedoria dos cipós, 2025, Editora Ubu.

Nos movimentos e comunidades indígenas, aldeados ou em retomada, os chamados povos isolados são um grande respiro. Os “não contactados”, são povos que não tiveram contato com os “brancos” ou a “sociedade branca”, o que não quer dizer que, mesmo não tendo contato, não sofram diretamente com esse mundo exterior em seus territórios e culturas, tendo suas vidas afetadas pela sociedade da qual eles mesmos se negam a fazer parte, mais conscientes do que inconscientemente. Indígenas isolados significam a conservação de um universo inteiro, onde o convívio com a natureza, a prática de idiomas, ou seja, uma outra mentalidade, a cultura e os saberes da floresta, e tudo o que de melhor vem com a sua resistência incluindo a preservação ambiental de seus territórios, se mantêm.

Esse pensamento sobre fugas e derramamentos também se manifesta em movimentos reversos, voltados a um possível retorno “decivilizatório”. É o caso de projetos territoriais e de comunidades quilombolas que buscam certo isolamento – um derramamento que nasce do desejo de autonomia e aponta para a construção de maior autossuficiência, não apenas alimentar, mas também prática, manufatureira e tecnológica.

No Brasil, nota-se um movimento crescente de quilombos que fazem seus próprios mapeamentos, individuais ou em rede, unindo em um único mapa quilombos de vários estados do país, além de desenvolverem tecnologias para aplicativos, seja de conversas instantâneas, organização de trabalho, softwares, programas de edição de documentos etc.

Crédito: Fundação Caixa Geral de Depósitos

Um desses casos é o Quilombo Tainã, localizado na cidade de Campinas – SP, que em seu manifesto intitulado: FUTURO, inicia com a frase:
“De ponta a ponta somos nós por nós e ponto. Nem .com, nem .gov, nem .org!”
Nos dando o tom e os propósitos de um Quilombo que existe a muitas décadas, uma ocupação cujo o terreno foi mudando durante anos até conseguir se estabelecer, hoje alocado em um antigo clube de piscinas.  Na última semana, estive no Quilombo Tainã, mencionado em Sabedoria dos Cipós, de Dénètem, e pude vivenciar e observar práticas culturais, além de conhecer os espaços desse lugar que abriga baobás – reais e virtuais.

Além da cozinha, biblioteca, estúdio de música, marcenaria, quartos coletivos, banheiros, salas para diversos usos, instrumentos musicais variados, plantas e sementes raras e muitos outros espaços que miram na interdependência e autonomia solidária, duas coisas me chamaram muito a atenção nesse quilombo, primeiro a sua  roça computadorizada, que tem um placa low tech[3] feita especificamente para o quilombo, a placa funciona com medição de umidade do solo e que através de uma programação mede a quantidade de água que deve ser regada e quando deve ser regada, além de armazenar água o suficiente para longos períodos.

Além disso, o quilombo Tainã possui um Data center,[4] com o nome de Mucua que permite que ainda que as redes e a internet do “mundo” caiam o quilombo permaneça conectado, mas não apenas para ver os resquícios das redes sociais ou sites aleatórios – isso também se for o caso e a vontade – mas, mais do que isso, permite a contínua conexão entre os territórios Quilombolas mapeados e o armazenamento de sua memória material e imaterial através do seus sistema independente de acervo e dados. Um caminhar para uma autonomia tecnológica e de comunicação. O Tainã através do seu projeto Rota dos Baobás tem um mapeamento comunitário e horizontal de quilombos, com os quais já estabeleceram contato, tem também um projeto de guarda e digitalização de acervos o Baobáxia, que está na primeira fase de implantação e que disponibiliza de forma online e offline arquivos de áudio e vídeo, desenvolvido pela rede Mocambo.

A rede Mocambo funciona na Mucua, nome da semente do baobá, árvore que pode viver milhares de anos, com uma estimativa média entre 2 mil e 6 mil anos e que carrega consigo informações biológicas, territoriais e culturais milenares, a árvore é também o símbolo de uma prática de comunicação, da oralidade, pois é nesta em volta dela que ocorre a tradição de contar histórias complementar a cultura de oralidade. A semente Mucua além de guardar informações ancestrais é uma promessa de futuro longínquo.

Esse é um dos exemplos mobilizações de territórios e coletividades em busca de liberdade e autonomia, a negação de uma sociedade com resquícios coloniais vigentes, um movimento da Marronagem como estratégia digna que encontramos na obra e que o autor denomina como cosmopoética e cosmopolítica.

Uma filosofia de liberdade que é tanto política quanto estética e simbólica em que resta a nós, que em alguma medida discordamos de políticas colônias e genocidas, ler os últimos ensaios de Dénètem, e aguardar sua falas a respeito do livro, cuja produção nos enche de ideias e esperanças, e também nos informar e tomar o conhecimento dessas novas formas de organização social, colaborar e compartilhar sempre que possível, pois a cada quilombo, terreiro e aldeia aumentam os espaços territoriais de coletividades que são proponentes, que podem cada vez mais se ampliar territorialmente, ocupando cada vez mais espaços e quem sabe tornar o intervalos físico entre si cada vez menores instaurando mais alternativas e realidades.
O escritor Dénètem está em visita ao Brasil, e participou da FLUP – Festa Literária das Periferias – no Rio e Janeiro, visitou o Museu das Favelas em São Paulo, e participará  da programação pós FLUP, no dia 27 de Novembro, no Instituto Tomie Ohtake, onde acontecerá uma conversa entre o autor e a curadoria do instituto a respeito de seu livro A Sabedoria do Cipós (ubu, 2025). O livro desenvolve relações com a obra de filósofos e pensadores, entre eles, Donna Haraway, Anna Lowenhaupt, Ailton Krenak, David Kopenawa e Édouard Glissant, cujo o trabalho é ponto de partida para exposição A Terra, O Fogo, A Água E Os Ventos – Por Um Museu Da Errância Com Édouard Glissant, que está em cartaz no instituto Tomie Ohtake ocupando parte das salas expositivas até o final de Janeiro.

Lahayda Mamani Poma é indigena Aymara, Curadora no Instituto Tomie Ohtake e pesquisa acervo e imagem para Instituto Moreira Salles. Graduada em Arquitetura e Urbanismo pela FAU USP, com Mestrado integrado em Programas Emergentes, foi premiada pelo IAB-SP e SESC – SP –  escreve sobre arte e cultura.

[1] Edouard Glissant, Poeta e escritor Martinicano, nasceu em uma cidade rural da Martinica, em 1928, viveu uma vida errante, sobre diversas paisagens. E refletiu sobre Paisagens, línguas e culturas. se doutorou em Letras, foi um profícuo estudioso das teorias negras, além de produtor de conceitos como Opacidade, Transparência, arquipélago, entre outros ponto de reflexão para artistas e teóricos.

[2] Do dia 28 até a tarde do dia 29 de outubro desse ano, ocorreu um massacre no Rio de Janeiro, que resultou até onde se sabe em 121 mortes. as imagens produzidas pelos próprios moradores causam um extremo  mal estar, além de provarem a perversidade acometida pelo estado, revelam a proximidade e as relações entre os mortos e os vivos produtores das imagens, relações essas entre sujeitos que parecem contar apenas com si mesmos para se manterem na vida, pela busca por justiça e lembrança na morte.

[3] Low Tech: Tecnologia simples de baixo custo e acessível

[4] Para os leigos em tecnologia como eu: Data center são estruturas físicas centrais e focais que abrigam os servidores, mantém redes, aplicativo e sistemas operacionais, além de serem responsáveis pelo armazenamento e pela distribuição de dados.

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