Floresta no chão, dinheiro pelo ralo
As consequências econômicas da destruição florestal e a contribuição de quem protege os territórios que regulam a produção, a energia e a vida brasileira
Uma família pode viver a milhares de quilômetros da Amazônia e pagar parte da conta de sua destruição. Isso acontece porque o custo aparece quando a perda de floresta compromete a geração de energia, prejudica a produção agrícola e acrescenta despesas à economia. As decisões sobre o uso da terra, embora frequentemente discutidas como assuntos restritos ao campo socioambiental, também interferem diretamente nas vivências cotidianas, seja no campo ou na cidade.1

Recompor a cobertura florestal da Amazônia perdida desde 1985 poderia gerar benefícios de até US$ 920 milhões por ano para os consumidores brasileiros de eletricidade. Essa estimativa, apresentada em 2026 por pesquisadores da Rede de Pesquisa em Produtividade & Sustentabilidade (Rede PP&S), considera famílias, comércio e indústria.2
Ao relacionar desmatamento, chuvas, geração de energia e preços, o estudo identifica uma despesa que costuma escapar à discussão sobre o custo de vida. Isto é, parte do que se paga pela eletricidade depende das condições ambientais de territórios distantes dos centros de consumo. Nesse sentido, a conservação desses lugares tem, portanto, consequências econômicas para quem nunca visitou a Amazônia e talvez conheça pouco sobre as populações que vivem nela.
O mecanismo começa na circulação da água, aqui simplificada pelo seguinte ciclo: vegetação libera umidade para a atmosfera, transportada pelos ventos para regiões onde abastece rios, reservatórios e lavouras; nesse cenário, a perda de cobertura florestal impactaria diretamente no ciclo de chuvas, afinal, à medida que se perde vegetação, altera-se o volume de umidade, desregulando-se, assim, as chuvas e impactando todo o resto, por consequência.
Uma pesquisa publicada na Nature Communications em 2025, com dados de 29 áreas da Amazônia Legal entre 1985 e 2020, atribuiu ao desmatamento aproximadamente 74% da redução das chuvas na estação seca observada nas áreas estudadas.3 Para o sistema elétrico, menos água pode significar maior necessidade de recorrer a termelétricas e aumento dos custos de geração. Os efeitos econômicos são distintos; na simulação da Rede PP&S, os consumidores perdem com preços maiores, enquanto geradores térmicos podem se beneficiar do aumento de suas vendas.
Na agricultura, a relação entre abertura de terras e geração de riqueza também encontra limites na disponibilidade de chuva. Outro estudo, publicado na mesma revista em 2021, comparou cenários até 2050 e calculou que reduzir o desmatamento poderia evitar perdas agrícolas equivalentes a até US$ 1 bilhão por ano no sul da Amazônia brasileira.4
A análise considerou os efeitos sobre a produtividade da soja e das pastagens, apontando que a expansão da área cultivada pode ser acompanhada pela deterioração das condições necessárias para produzir. Para o consumidor, perdas de safra e custos adicionais de produção representam uma fonte de pressão sobre os preços.5 Sua intensidade varia conforme o produto, o mercado e outros fatores, como câmbio, combustíveis e exportações.
Atualmente, consolidou-se que uma parcela relevante da vegetação nativa, que participa tanto da equação dos preços do consumo de energia quanto do preço de itens de alimentação, está em terras indígenas. Segundo a Coleção 10 do MapBiomas, esses territórios ocupam 13% do Brasil e concentravam, em 2024, 20% de toda a vegetação nativa do país.6
Dentro de seus limites, a cobertura nativa correspondia a 99% da área. Estes números dão dimensão nacional a um trabalho realizado localmente, por meio de conhecimentos, práticas de manejo e formas de organização territorial. A contribuição de ribeirinhos, quilombolas, extrativistas e outras comunidades tradicionais ocorre em diferentes biomas e sob condições próprias. A manutenção da vegetação nesses espaços produz benefícios que alcançam outros setores e regiões, embora esse trabalho raramente seja associado, no debate cotidiano, à produção de alimentos ou ao funcionamento das hidrelétricas.
As comunidades possuem suas próprias instituições e maneiras de decidir sobre o território. Destaca-se como exemplo, entre os povos indígenas, os Instrumentos de Gestão Ambiental e Territorial de Terras Indígenas, conhecidos como IGATIs, que registram processos coletivos de identificação de necessidades e definição de prioridades para proteção, conservação e uso dos recursos.7
Sua elaboração envolve escolhas sobre produção, recuperação ambiental e continuidade dos modos de vida.8 Essa autonomia precisa ser considerada no desenho das políticas públicas, inclusive das iniciativas de conservação. Pesquisas sobre parques nacionais brasileiros documentam situações em que medidas de proteção ambiental resultaram na retirada de comunidades de seus territórios. A experiência mostra a importância de assegurar sua participação desde a definição dos objetivos até a execução das ações.
A execução dos planos de gestão exige recursos para transporte, equipamentos, vigilância territorial e prevenção de incêndios. A continuidade desse financiamento permite sustentar um trabalho cujos benefícios alcançam uma sociedade muito mais ampla do que o conjunto de pessoas que o realiza.
O desempenho das instituições públicas também faz parte dessa conta, como se pode analisar em retrospecto ao histórico recente das políticas no campo socioambiental brasileiro. Durante o governo Jair Bolsonaro, a alta do desmatamento, que vinha de anos anteriores, se acentuou. A taxa do Prodes (Monitoramento do Desmatamento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), chegou a 13.038 km² desmatados na Amazônia Legal em 2021, 73% acima de 2018.9
Em auditoria divulgada naquele ano, o Tribunal de Contas da União identificou redução da capacidade de fiscalização do Ibama, diminuição da aplicação de sanções e manifestações de autoridades do alto escalão que desqualificavam a atuação dos órgãos ambientais.10 Os registros ajudam a compreender as condições institucionais em que ocorreu o avanço das derrubadas.11 A série passou posteriormente a apresentar queda, veja-se: em 2025, durante o governo Lula, a taxa consolidada foi de 5.731 km².
Os benefícios econômicos da floresta dependem, portanto, também da capacidade de sustentar essa redução ao longo do tempo. Boa parte do valor econômico da conservação aparece nas despesas que ela ajuda a evitar, o que torna menos visível o trabalho necessário para manter uma floresta, enquanto os custos de sua destruição se espalham pela produção, pelo abastecimento e pelo consumo.
Financiar a gestão dos territórios, assegurar direitos às comunidades e manter instituições capazes de fiscalizar são decisões que participam da formação desses custos. A responsabilidade é compartilhada, com atribuições distintas para governos, empresas e sociedade. Para as famílias, interessa o resultado acumulado dessas escolhas, a possibilidade de produzir alimentos e energia com menor exposição à perda de chuvas e de produtividade. Uma parcela do dinheiro que o brasileiro tenta economizar no fim do mês depende, então, da continuidade de um trabalho realizado muito longe de sua casa.
Marcello Amorim Vieira é doutorando e mestre no Programa de Pós-graduação em Sociologia e Direito da Universidade Federal Fluminense (PPGSD-UFF). Advogado, historiador e consultor em políticas públicas e Direito Socioambiental.
Notas de Rodapé
1 ARAUJO, Rafael; COSTA, Francisco; HECTOR, Vinícius; SANT’ANNA, Marcelo. Powerful forests:
the welfare implications of deforestation for the power sector.SocArXiv, 2026b. Working paper; e LEITEFILHO, Argemiro Teixeira et al. Deforestation reduces rainfall and agricultural revenues in the Brazilian Amazon. Nature Communications, v. 12, art. 2591, 2021. DOI: 10.1038/s41467-021-22840-7.
2 HADDAD, Caroline. Conta de luz, alimentos e desmatamento: o que você precisa saber antes de votar. Greenpeace Brasil, [S. l.], 11 set. 2026.
3 FRANCO, Marco A. et al. How climate change and deforestation interact in the transformation of the Amazon rainforest. Nature Communications, v. 16, art. 7944, 2025. DOI: 10.1038/s41467 -025-63156-0.
4 LEITE-FILHO, Argemiro Teixeira et al. Deforestation reduces rainfall and agricultural revenues in the Brazilian Amazon. Nature Communications, [S. l.], v. 12, art. 2591, 2021. DOI: 10.1038/s41467 -021-22840-7.
5 INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Preços na indústria sobem 1,48% em dezembro e fecham 2024 com alta de 9,42%. Agência de Notícias IBGE, 4 fev. 2025.
6 MAPBIOMAS. Destaques do mapeamento anual de cobertura e uso da terra no Brasil: Coleção 10. MapBiomas, 2025.
7 MACIEL, Ney José Brito. Instrumentos de gestão territorial e ambiental: a experiência do Projeto GATI
em terras indígenas. [s.d.].
8 VIEIRA, M. A. “O que permanece no debate de uma política de governo não implementada integralmente?”’ 17/03/2024 118 f. Mestrado em Sociologia e Direito. Universidade Federal Fluminense, Niterói Biblioteca Depositária: PPGSD.
9 INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS ESPACIAIS. Sistema do INPE aponta 5.731 km² de desmatamento na Amazônia em 2025. Inpe, 18 ago. 2026.
10 TCU, 2022. Controle do desmatamento ilegal. Relatório de fiscalizações em políticas e programas de governo. Reproduz os dados do Inpe e contextualiza a intensificação do desmatamento entre 2019 e 2021; e TCU, 2021. Aumento do desmatamento e redução na aplicação de sanções administrativas, 23 jul. 2021. Divulgação oficial dos achados da auditoria.
11 BITTENCOURT, A. R.; VIEIRA, M. A. “Passando a boiada, mudando todo o regramento e simplificando normas”: um olhar sobre o projeto de simplificação de normas infralegais e exposição a risco ambiental no governo Bolsonaro, à luz da criminologia verde. Editora Bordô-Grená, 2024.

