Formações e deformações do desejo
Podemos e devemos observar o desejo individual, mas não nos esqueçamos: o desejo comum também é importante, sobretudo nestes tempos de enrijecimento político-ideológico
I
Há muitos equívocos em torno da palavra desejo (e muitos desejos também). Eva foi castigada pela vontade de conhecer os segredos do bem e do mal; sobre ela caíram as hostilidades contra a serpente, as dores no parto e a culpa perene. Supostamente antes, Lilith foi desterrada por não obedecer a Adão: sendo feita do mesmo barro que ele, preferiu fugir do paraíso a ser submissa e, por isso, ganhou a fama de mãe dos demônios. Pandora cedeu à vontade de saber e, ao abrir a jarra recebida por Zeus, foi culpada pela criação dos sofrimentos do mundo. Essas três personagens encarnam uma mentira tão antiga quanto perigosa: desejar é mal e gera consequências terríveis. E não é por acaso que sejam mulheres a compor essa síntese: as narrativas que elas encenam foram criadas e transmitidas maioritariamente por homens, o que situa a violência contra as mulheres no núcleo da cultura ocidental.
Outro nome que me vem à cabeça é o de Midas: o rei da Frígia cuidou de Sileno, figura querida de Dionísio, motivo por que o deus do vinho ofereceu-lhe uma graça. Midas, sempre ganancioso, pediu que tudo o que ele tocasse se transformasse em ouro. O desejo foi atendido. Mas o que ele não calculou é que a vida se tornaria inviável, já que estava condenado a não tocar mais nada, transformando a própria filha em ouro. Por falar em reis, é inevitável lembrar que Páris, filho de Príamo, começou a guerra de Tróia quando visitou Esparta e se apaixonou por Helena, esposa de Menelau, o chefe máximo do reino. Usando de suas prerrogativas reais e masculinas, o troiano sequestrou a mulher e com esse gesto fundou uma das inimizades mais antigas da história ocidental.
Em todos esses exemplos (Grimal, 1993 [1965]), a força desejante aparece como a causa do mal e supõe a existência de um objeto, de um alvo da vontade. Mas, ao contrário de Eva, Lilith e Pandora, os homens acima agenciam o próprio desejo como ambição, ou seja, através do sentido de posse material e sexual: tanto o ouro quanto a mulher são objetos de acúmulo, são capitais manuseáveis para jogar o jogo do poder.
II
Ao lado do privilégio de ter nascido homem, a minha infância não foi menos mitológica: como qualquer pessoa, fui atravessado por muitos desejos cuja realização me trouxe consequências piores que a morte – mas não a morte. O início da sexualidade, o sadismo infantil e a vontade de ver constituíram a minha coleção de pecados.
Pouca novidade há aqui: a palavra em questão vem do latim desiderare – desejar é estar desconectado do sideral, com o todo cósmico; é o contrário de considerare (estar com o sideral). Essa premissa etimológica – a falta – é a base dos equívocos e preconceitos que o lugar comum associa à ideia de desejar. Contudo, a Psicanálise foi certeira ao propor outra possibilidade epistêmica: “Em Freud, o desejo (Wunsch) é, antes de mais nada, o desejo inconsciente (…). [É] no sonho que reside a definição freudiana do desejo: o sonho é a realização de um desejo recalcado e a fantasia é a realização alucinatória do desejo em si” (Roudinesco e Plon, 1998: 147).

Ao convocar o inconsciente em A interpretação dos sonhos, Freud (2019 [1900]) pensou o impulso desejante não somente como ambição, atração sexual ou vontade, mas sim como uma busca pela satisfação original que pulsa antes da consciência – hipótese que, mais adiante, Lacan (1998 [1958]) desenvolveria como o desejo do desejo. Assim, um processo de análise nos ajuda em dois sentidos: mitigar as neuroses fundadas sobre o desejo original e, num segundo plano, entender que esse desejo nunca poderá ser atualizado, cabendo, portanto, a aceitação da falta como elemento constitutivo da subjetividade humana ou, como também afirmou Lacan (1998), a aceitação da falta-a-ser.
Obviamente, essas e outras teorias não sustentam nem justificam as intransigências e o caos produzidos pelas tensões entre desejo e poder. Os problemas desse binômio não são da ordem da falta, mas sim da perversidade, de uma ontologia completamente fundada na dominação econômica, histórica, simbólica, social e de gênero (Bourdieu, 2002 [1998]) que, por norma, recai sobre mulheres, pessoas pretas, pessoas LGTBQIA+, imigrantes, indígenas, quilombolas etc.
III
O capitalismo ancora o desejo na individualidade – produtos exclusivos, protagonismo e experiência são alguns dos engodos usados para aumentar o lucro. Mas, outra vez, o discurso neoliberal mente: não pode existir um produto exclusivo num sistema que depende da produção em massa para acumular capital; não há espaço de personagem principal para todas as pessoas, porque, em teoria, há poucas “vagas” para isso; as experiências pessoais têm a sua importância, mas não colocam o sujeito no centro do mundo (salvo nos casos de transtorno da personalidade narcisista).
Ao enfatizar o indivíduo, o que a máquina econômica faz é criar hostilidade entre as pessoas e, assim, minar o nosso ímpeto coletivo. O pronome “nosso/nossa” é muito importante e tem sido apagado em detrimento do suposto êxito pessoal. Contudo, a realidade é outra: as maiores vitórias alcançadas ao longo da história foram coletivas (abolição da escravatura, direitos das mulheres, direitos das comunidades LGBTQIA+, dos indígenas e quilombolas, por exemplo). Podemos e devemos observar o desejo individual, mas não nos esqueçamos: o desejo comum também é importante, sobretudo nestes tempos de enrijecimento político-ideológico. O outro precisa ser complementar, e não especular.
Eva e Pandora nos lembram que existe o direito de saber, cuja possibilidade deve ser aberta e acessível sempre. Lilith evoca a urgência da insubmissão, que também precisa ser recuperada como parte do nosso anseio coletivo. Midas e Páris representam o lado negativo do desejo: a possessividade, a manipulação, o acúmulo inconsequente, a mão que, quando toca, aprisiona, petrifica e mata.
Paulo Geovane e Silva é escritor, poeta, tradutor e psicanalista. Tem doutorado em Literatura de Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra (2023) e mestrado em Literatura Brasileira e Comparada pela mesma instituição. Publicou os poemários Caída (Letramento, 2018) e O homem à espera de si mesmo (Mosaico, 2021), além de contos, crônicas e ensaios em revistas brasileiras. Reside em Madri.
Referências
BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Trad. Maria Helena Kühner. 2ª ed. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil: 2002 [1998].
FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo, Companhia das Letras: 2019 [1900].
LACAN, Jacques. “A direção do tratamento e os princípios de seu poder”. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998 [1958].
GRIMAL, Pierre. Dicionário de mitologia. Trad. Victor Jabouille. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil: 1993 [1965].
ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. São Paulo, Zahar: 1998.


O desejo comum, o superego e o vizinho…mas o ego é do marido