ENTREVISTA

“Em algumas oportunidades, a ideia nasce no caos”

Entre poesia e prosa, obra publicada pela editora Cancioneiro tensiona forma e narrativa no debate da literatura brasileira contemporânea

Fragmentos de um céu submerso foi lançado em 2025, destacando temas em alta no mercado editorial brasileiro: a memória e o retorno à terra natal, com especial atenção à identidade de seus autores e autoras. Adriano Versiani, escritor independente, não apenas se identificou com o processo em curso na literatura atual, como também percebeu um desenvolvimento em sua escrita ficcional por meio da nostalgia e da imersão nos elementos acima mencionados.

Em paralelo ao mundo literário, o autor possui textos acadêmicos alinhados a seus interesses na arte: a localidade, a memória e a identidade, em uma abordagem interdisciplinar. Seus artigos sobre Adélia Prado e a dissertação sobre o cangaço em Glauber Rocha demonstram o interesse por temáticas que irão se desdobrar em Fragmentos de um céu submerso.

Adriano Versiani é advogado e mestre em História pela UFMA. Natural do noroeste de Minas Gerais, reside atualmente em São Luís (MA). Fragmentos de um céu submerso é seu primeiro livro.

Fragmentos de um céu submerso
Crédito: Divulgação/Editora Cancioneiro

Para uma parte da crítica literária, o regionalismo – termo que pode conter em si um tom pejorativo a depender das discussões entre autores e mercado editorial –, ou seja, o trabalho do autor com sua terra de origem tem perdido força se compararmos com a prosa e poesia de décadas atrás, em particular com o romance de 30. Sua obra se encontra entre esses dois gêneros literários, com forte vínculo com a sua terra natal. Você definiria a sua obra dentro de “regionalismo”? Acredita que a temática tem sido trabalhada na literatura brasileira contemporânea?

De fato, algumas vezes o termo é usado para diminuir o alcance de uma obra, como se o enraizamento fosse uma limitação e não uma condição de universalidade. Particularmente, nunca tive interesse em representar a região, mas deixar que a terra fale por meio da linguagem. O chão, a memória, as casas, os silêncios, tudo isso atravessa o texto porque me atravessa antes. Se há algo de “regional” no livro, é nesse sentido quase ontológico.

E veja que interessante. Hoje moro em São Luis (MA) e foi a partir daqui que decidi publicar o livro. Apesar da inquestionável abordagem identitária sertaneja, há muito do Maranhão também.

Sobre o segundo ponto da pergunta, a impressão que tenho é de que a literatura brasileira contemporânea ainda trabalha “regionalismos”. As obras de Socorro Acioli e Itamar Vieira Junior (sem qualquer pretensão de caracterizá-los), por exemplo, também trabalham temas regionais. Hoje, talvez, a região, para além de um projeto estético, se revela uma inevitabilidade do corpo que escreve.

Os temas de seu livro abordam questões existenciais, relacionamentos em geral, além da memória e da identidade. Comente um pouco a respeito da construção temática. Já tinha em mente abordá-los?

Os temas não foram escolhidos de forma programática. Eles se impuseram. A memória, a identidade, os vínculos, tudo isso já estava em estado de latência antes mesmo da escrita. O livro foi uma espécie de escuta interna.

Ao menos na minha forma de criação, a poesia não se impõe, ela surge, às vezes em forma de tema a ser abordado, em outras por palavra específica e em algumas pelo ritmo.

A toda evidência existe uma união temática. Acredito que é mais devido ao surgimento da poesia, evidentemente como parte do meu consciente e inconsciente, do que uma escolha.

Como foi o processo da escrita de Fragmentos de um céu submerso?

A escrita do livro foi descontínua. Não houve um projeto linear.

Muitos textos nasceram de imagens, ritmos e palavras muito específicas:  uma porta, um chão, uma árvore, uma voz, um cotidiano, um grito e foram se desdobrando. Depois, com o tempo, percebi que esses fragmentos conversavam entre si.

Como foi meu primeiro livro, tem poesias muito antigas e outras atuais. Algumas que “descansaram” por certo tempo, outras surgiram depois, já na fase atual.

Preciso dizer também que meu processo de criação não é tão homogêneo. Em algumas oportunidades a ideia nasce no caos. Houve dia em que estava em São Luís, na fila da padaria e a poesia me surgiu. Aí então, preciso parar, anotar pelo menos a imagem principal para depois lapidar. Por muito tempo não me levei a sério devido a esse processo caótico. Só consegui lançar o livro quando aprendi a me respeitar, seja por meio de terapia, conversas, escuta interna ou pelas influências de autores que admiro.

É possível perceber um percurso dentro da sua trajetória artística e acadêmica: a adoção do social dentro do texto, com ênfase no conteúdo em específico, seja em sua dissertação sobre Glauber Rocha e o fenômeno do cangaço no objeto estético e histórico, ou em seu mais novo livro, abordando temas como a família em determinadas regiões (Nordeste e Sudeste) e as experiências dos indivíduos nelas, a geografia em si, com metáforas e analogias, para não dizer uma inquietude filosófica. Todos esses elementos estão dentro do autor, portanto. Você considera que há uma divisão entre o pesquisador e o escritor de ficção?

De fato, não vejo uma divisão tão rígida entre o pesquisador e o escritor. O que existe, talvez, sejam modos diferentes de lidar com a mesma inquietação.

Nasci em Unaí, cidade situada na região noroeste de Minas Gerais, onde o cangaço também foi realidade. Em minha infância ouvi muitas histórias e estórias a respeito desses movimentos, especialmente a partir de minha bisavó Joviana Alves Gonçalves. Elas me habitam desde essa época. Lembro-me de ela me deitar no colo e contar histórias, acariciando meus cabelos. Quando acabava, eu pedia que contasse mais, e ela dizia: “Meu filho, acabou”. E eu respondia: “Inventa uma, vó”.

Na pesquisa, há um esforço de sistematização e de construção de sentido a partir de um objeto. Na literatura, esse movimento é mais livre, mais aberto à ambiguidade. Mas a origem é a mesma: uma tentativa de captar o mundo, o transcendente e a experiência humana.

Por que a escolha do formato híbrido entre os textos de Fragmentos de um céu submerso?

No final do livro, fica mais fácil notar a decisão de colocar os contos em contraste com os poemas. Os versos podem ser inseridos em uma “narrativa”, em conjunto com as histórias de Adélia Prado, em “Falsa biografia de Lampião” e na de uma senhora cuja data de nascimento remonta aos anos 1940. Em ambas, o pertencimento às tradições da região é enfatizado, além do sentimento de solidão, mesmo quando as personagens estão junto de outras. Em seus poemas, esses aspectos também se fazem presentes. Você considera que o leitor pode sentir que se trata de uma mesma história?

A escolha do formato híbrido não foi exatamente uma decisão inicial. Os temas pediam formas diferentes. Em determinado momento, percebi que os poemas e os contos não estavam em oposição, apesar de tencionarem entre si.

Acho muito válida a anotação que você propõe, como qualquer outra que o leitor capta no livro, Uma das minhas maiores alegrias é vislumbrar essas interpretações do leitor, até mesmo quando não coincidem com o que eu havia imaginado. É saboroso acessar interpretações diversas a respeito de algo que escrevi.

Nesse sentido, a ideia de que o leitor pode sentir uma unidade narrativa me interessa muito. Não porque exista (ou não) uma história linear, mas porque há uma atmosfera, um campo sensível que atravessa tudo.

Em termos pessoais e profissionais, o que esse livro significou para você?

O livro é, para mim, uma espécie de retorno. Não no sentido de voltar a um lugar específico, mas de reconhecer aquilo que sempre esteve presente.

Ele também marca um momento de maturação, no qual a escrita deixa de ser apenas exercício e passa a ser necessidade. Há ali um compromisso maior comigo, com minha identidade, com os que me cercam.

Profissionalmente, pode significar abertura de caminhos. Mas, pessoalmente, ele organiza algo que antes estava disperso. Algo que só consegui racionalizar porque condensei no livro.

Quais são suas principais influências artísticas e literárias?

Há autores que trabalham essa relação entre memória, tempo e linguagem de maneira muito forte e isso me atravessa. Mas também há influências que vêm da oralidade, das histórias contadas, das vivências familiares e de amigos.

Há autores que me influenciaram demais durante a vida, como por exemplo João Cabral de Melo Neto, Manoel de Barros, Leonardo Froes, Adélia Prado. Quando conheci João Cabral, fui tombado, impactado de maneira arrebatadora. Poesias completas (de João Cabral) é um dos meus livros de cabeceira.

Há romances que também contribuíram e contribuem para minha formação humanística, além de muita influência de literaturas místicas, religiosas. O arrebatamento transcendental é algo que me interessa demais.

Preciso citar também autores contemporâneos, que adoro. Quando li o último livro lançado por Jefferson Tenório (De onde eles vêm), fui muito tocado. Quando terminei, cheguei a chorar e sentir no corpo o impacto da obra. Ganhei de aniversário de um amigo poeta maranhense. Aquele espaço criado por Jeferson é diverso do meu, mas me atingiu na ponta da alma. Eis uma das maiores belezas da literatura, que, acredito, será sempre universal, ainda que saia de nossas entranhas, de nossos universos particulares.

Algum projeto em mente? Novo livro, novidades que chegaram sobre suas publicações

Penso em lançar outro livro, mas meu processo de maturação é lento, caótico e híbrido. Nem sempre é uma escolha.

 

Lorraine Ramos Assis é redatora, pesquisadora e crítica literária. Publicou em diversas revistas e jornais nacionais e estrangeiros, como Jornal Cândido, Revista Cult, Relevo, Granuja (México) e Incomunidade (Portugal). É mestranda em Ciência da Literatura na UFRJ.

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