Funesta rivalidade entre a Al-Qaeda e a Organização do Estado Islâmico - Le Monde Diplomatique

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Funesta rivalidade entre a Al-Qaeda e a Organização do Estado Islâmico

por Julien Vercueil
4 de fevereiro de 2015
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A reivindicação do massacre na Charlie Hebdo pela facção da Al-Qaeda na Península Arábica recoloca em primeiro plano um movimento afastado da mídia pelos sucessos militares da Organização do Estado Islâmico. Entretanto, com as mesmas aspirações e agindo com igual crueldade, os dois grupos têm estratégias diferentesJulien Vercueil


Quando, em 1989, Osama bin Laden e Abu Musab al-Zarqawi se encontraram nas montanhas afegãs onde tinham ido combater o inimigo soviético, eles com certeza não alimentavam dúvidas sobre o papel que desempenhariam na extensão do islã radical. O saudita se via como líder revelado de um futuro islã planetário; o jordaniano aspirava a introduzir a regra salafista no coração do Oriente Médio, a fim de substituir o reino hachemita que ele execrava. Esses dois projetos milenaristas, um evanescente e profético, o outro preciso e concreto, anunciavam os percursos dos dois homens, assim como o da Al-Qaeda e o da Organização do Estado Islâmico (OEI).

À frente do Jama’at al-Tawhid wal-Jihad,1 um grupelho político mas já internacional, Al-Zarqawi decidiu transferir as atividades de seu grupo da Jordânia para o Iraque após a invasão norte-americana de 2003. Ele recebeu o apoio de Bin Laden. Sua veemência antinorte-americana só se iguala à diversidade de suas táticas e sua explosão de violência: às tradicionais técnicas terroristas da Guerra Fria (assassinatos com alvo certo, atentados e carros-bomba), nas quais o grupo era excelente, Al-Zarqawi adicionou métodos espetaculares (dispositivos explosivos improvisados, atentados suicidas e decapitações). Num terrorismo circunscrito, sua organização multiplicava alvos: tropas norte-americanas e seus aliados, embaixada jordaniana, governo iraquiano, poços de petróleo, polícia iraquiana, mesquitas xiitas, líderes políticos, posto de fronteira entre Iraque e Jordânia, reféns civis estrangeiros, multidões em mercados, ONU, Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICR)…

Em 2004, a fidelidade oficial a Bin Laden transformou o grupo em Al-Qaeda no Iraque (AQI), ou mais exatamente em Al-Qaeda para o Jihad no País entre os Dois Rios [o Tigre e o Eufrates], referência à Mesopotâmia; porque, como já demonstrava sua estratégia, Al-Zarqawi não se limitava às fronteiras oriundas da colonização. Ele foi morto pelos norte-americanos em junho de 2006. Quatro meses depois, a organização, muito enfraquecida, tornou-se o Estado Islâmico no Iraque (EII), com um certo Abu Bakr al-Baghdadi no comando. Vamos encontrá-lo ao lado do Fatah al-Islam, que desestabilizava o norte do Líbano em 2007 e cujo chefe teria arquitetado com Al-Zarqawi o assassinato do diplomata norte-americano Laurence Foley em Amã, em 2002.2

 

Califa autoproclamado

A guerra na Síria iria subverter as coisas. Intensamente contestado, o presidente sírio, Bashar al-Assad, libertou centenas de islamitas radicais na primavera árabe de 2011. Muitos entre eles se juntaram às fileiras jihadistas.3 O EII não esperava tanto. Criou-se então a Frente al-Nusra, literalmente “frente da vitória”, o braço sírio consagrado pela Al-Qaeda, reforçando a propaganda de Al-Assad, que denunciava a revolução apresentando-a como obra da rede jihadista.

Al-Baghdadi anunciou em 2013 a fusão, sob sua autoridade, do EII e da Frente al-Nusra. Mas esta última, apoiada pela Al-Qaeda, recusou e provocou a ruptura. O EII buscou a si mesmo, tornou-se Estado Islâmico no Iraque e na Síria, e depois simplesmente Organização do Estado Islâmico (OEI). A afirmação de sua independência, a ação transfronteiriça, os métodos extremamente brutais, o conceito de conquista territorial, tudo convergiu para que o movimento alcançasse sua maturidade. Restava uma coisa, um título, uma assinatura, um símbolo, uma identidade, um objetivo, que mesmo Bin Laden não tinha ousado declarar: o califado. Com o desaparecimento de Bin Laden em maio de 2011, Al-Baghdadi balançou a galáxia jihadista, afirmou sua autoridade e passou, por sua própria iniciativa, de emir a califa. O simples “príncipe” ou “governador” se apresentou então como o chefe supremo da comunidade muçulmana, sucessor do profeta Maomé, investido de um poder ao mesmo tempo espiritual e temporal.

A OEI e a Al-Qaeda têm em comum a fraternidade dos combatentes, um apelo a um jihadismo mundial no qual a oumma, a comunidade muçulmana, transcende qualquer outra estrutura social – Estado, nação, etnia, cultura ou língua. Existem, no entanto, diferenças.

A Al-Qaeda originou-se de uma fraternidade tecida entre mujahedins das montanhas do Indocuche (Afeganistão), do Hadramaute (Iêmen) e dos Adrar des Ifoghas (Mali). Vistos nas redes islâmicas como figuras espirituais autônomas, esses homens são seguidos por certo número de adeptos em comunidades restritas, fechadas e discricionárias, que se comunicam por mensagens sibilinas e simbólicas.

A fraternidade promovida pela OEI não é seletiva, ela é aberta a todos. O movimento deve se estender ao conjunto dos muçulmanos assim como aos não muçulmanos, que vão se converter ou morrer. Ele se baseia numa comunicação extensiva que se dirige à audiência mais ampla possível, por meio de situações de combate trabalhadas sobretudo por meio de trechos de emissões de áudio ou de vídeo amplamente propagados nos meios de comunicação e nas redes sociais, enquanto a Al-Qaeda difundia em conta-gotas vídeos de má qualidade de seus líderes em grutas.

Isso não deixa de estar ligado à estrutura dos dois movimentos. Aquela em rede da Al-Qaeda foi inventada por necessidade, a fim de que o desaparecimento de uma célula clandestina não afetasse o conjunto. O movimento, contudo, é hierarquizado segundo um princípio de dupla autoridade, militar e religiosa. Em decorrência disso, ainda que seus movimentos tenham origens bem diferentes, Abu Musab Abdel Wadoud (Al-Qaeda no Magreb Islâmico, AQMI), Al-Zarqawi (AQI), Anwar al-Awlaki (Al-Qaeda na Península Arábica, AQPA) ou ainda os chefes de movimentos aliados como o mulá Omar (talibãs afegãos) e o somali Ahmed Godane (Al-Shabaab) representam ou representaram quando vivos os comandos regionais de Bin Laden, depois de Ayman al-Zawahiri, figuras tutelares calcadas na imagem do Profeta e de seus companheiros numa projeção escatológica.

A noção de chefe não está ausente da OEI, e Al-Baghdadi chega a ser objeto de redundantes antífonas laudatórias que terminam com o sempiterno Allahu akbar(“Deus é grande”). No entanto, a absolutização idólatra do líder não se sobrepõe tanto quanto na Al-Qaeda. Com sua bandeira, com o símbolo do dedo levantado e com seus combatentes anônimos midiatizados, o que deve sobressair é o movimento em si.

Estranhamente, portanto, a OEI finalmente realizou o desejo de representação contido na própria proposta da Al-Qaeda: “a base”. Base popular, base fundadora, base territorial e base militar, a OEI é tudo isso. E, contrariamente à pulverização das ações pontuais da Al-Qaeda em Nova York, Mumbai, Madri ou Bali, altas ações armadas para a galáxia jihadista, mas tentativas isoladas sem projeto concreto, é a partir dessa base, múltipla, que o califado conta realizar seu objetivo – conquistar o mundo.

 

A reinvenção da violência como princípio

Para fazer isso, a OEI se adaptou. Sua estratégia diverge agora daquela da Al-Qaeda em quatro pontos fundamentais. O primeiro é o de se estabelecer num território permanente a fim de estabilizar geograficamente o movimento. Em segundo lugar, a OEI passou de um esforço de desestabilização para uma busca pela soberania desse território, enquanto a Al-Qaeda visa à desestabilização do território, e não à sua administração direta. Em seguida, a OEI difundiu a ideia de uma conquista impregnada de referências históricas e feita de tomadas de lugares simbólicos (Rakka, Tikrit, Mossul…), destinada a destruir a ordem regional antiga. Enfim, é uma luta local, de proximidade e contínua, com o uso de meios variados que vão do terrorismo às forças convencionais, o que caracteriza a operacionalidade da OEI em relação à da Al-Qaeda, feita de ataques intermitentes aos interesses ou símbolos ocidentais junto a eles ou nos países aliados por redes clandestinas restritas.

A estratégia da OEI tem por finalidade uma dominação clara sobre todos: sunitas moderados, xiitas, alauitas, cristãos, judeus, yezidis e alevitas. O antixiismo, a luta contra os curdos julgados ímpios e a inferioridade das outras crenças constituem fundamento ideológico para a OEI, enquanto a Al-Qaeda se edifica sobre motivações antiocidentais.

A violência desenfreada da OEI exprime um paradigma muito claro: a ausência total de concessões. Enquanto a Al-Qaeda se financia com os resgates de seus reféns libertados, a OEI os executa publicamente. Esse extremo radicalismo serve para atrair adeptos, os que acham que não é mais possível nenhuma coexistência com o resto do mundo. Os membros da Al-Qaeda vivem por vezes clandestinamente no seio das sociedades que condenam. Os membros da OEI os rejeitam e vão viver no califado autoproclamado. É aí que se considera estar o ponto de partida da expansão de um pensamento único, circunscrito, literalista e rigoroso: o salafismo jihadista, ou seja, a reunião de todos os seres humanos num califado austero e a supressão de qualquer traço que não emane do islã sunita tal como ele é interpretado e aplicado com uma violência enquanto princípio.

A ideia não é nova – a Al-Qaeda já era o arauto dela –, mas o terror da OEI é mais intenso, mais violento, mais bem midiatizado, organizado e colocado em prática cotidianamente. Menos que um novo fenômeno, é a reinvenção daquilo com que o mundo aos poucos se acostumara. A Al-Qaeda, apesar do traumatismo provocado por todos os seus ataques, nunca havia reeditado um ato da amplitude de sua entrada na cena midiática, a saber, os atentados de 11 de setembro de 2001. Com o desaparecimento de seu líder, tendo seu centro se deslocado do Afeganistão para o Paquistão, a organização de Bin Laden começou a mostrar sinais de cansaço sob os ataques das operações militares, das eliminações com alvo certo e das perseguições permanentes.

O surgimento da OEI representa uma renovação do jihadismo para populações que com frequência não eram de forma alguma sensíveis ao fenômeno em 2001, como os sunitas do Iraque e da Síria, na linha de frente da sangrenta guerra civil iraquiana que se seguiu à invasão norte-americana de 2003 e à repressão desenfreada operada pelo regime sírio desde 2011.

A maior parte dos estrangeiros que se juntaram à OEI não conhecia realmente a existência da Al-Qaeda até 2001. Quer porque não tivesse idade suficiente – um jovem de 20 anos hoje tinha apenas 7 na época –, quer porque não partilhava ainda desse radicalismo islâmico que se beneficiou de uma comunicação sem equivalente, da parte de seus adeptos, mas também, ironia da história, de seus adversários.

Jovens escandinavos ou chineses não teriam certamente tido a ideia, nos anos 1990, de ir combater ao lado de mujahedins afegãos ou argelinos nem de aceitar a lógica do takfir,4 indo de madraça em madraça para ouvir relatos que passam de doutas reflexões teológicas a uma mobilização ideológica belicosa. Os combatentes estrangeiros que não provêm de países árabes se contam hoje em dia aos milhares no califado.5

De 2001 a 2014, da Al-Qaeda à OEI, a globalização das trocas permitiu a mutação do jihadismo, pelo acesso à informação, à ideologia, às redes e, em última instância, ao combate. A OEI reinventa a Al-Qaeda e convida a virem em seu santuário para experimentar aquilo que é apresentado como a glória escatológica do mártir. A Al-Qaeda faz sua lista: Magreb, Sahel, Chifre da África, Península Arábica, Oriente Médio, Paquistão, Índia, Sudeste Asiático. A OEI agrega e atrai, antes de se estender. Ela é centrípeta, enquanto a Al-Qaeda se mostra centrífuga. Ela mistura assim certas entidades autônomas que sua irmã mais velha criou, ainda que apenas ideologicamente, como tantas novas vilaietes (divisões administrativas) do califado.6

Nascida AQI, a OEI absorveu num primeiro momento grupos combatentes sírios. Os pontos de reunião são hoje em grande número, de Ansar al-Sharia na Líbia7 ao Movimento pela Unicidade e o Jihad no Oeste da África (Mujao). A questão dos pontos de reunião excita e divide também as células essenciais da Al-Qaeda, a exemplo da AQMI, na qual Abu Abdullah Othman al-Assimi, um dos fundadores do Grupo Salafista para a Pregação e o Combate (GSPC), seu ancestral, deixou as fileiras, prestou fidelidade a Al-Baghdadi e criou um novo braço da OEI no Magreb, a Jund al-Khilafa (“Soldados do califado”).8 No Sinai egípcio, Ansar Beit al-Maqdis, principal grupo combatente salafista local, autônomo, uniu-se igualmente à OEI. Mesmo o perturbador do jihadismo, Abubakar Shekau, líder do Boko Haram, soltou um “que Alá o proteja, Abu Bakr al-Baghdadi”.9

No entanto, a questão de saber se a OEI vai levar vantagem sobre a Al-Qaeda só tem uma importância secundária porque, ainda que tenham métodos e alvos diferentes, as duas entidades agem paralelamente rumo a um mesmo propósito.

*Julien Vercueil é professor de Economia do Institut National des Langues et Civilisations Orientales (Inalco), França.



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