Gal Costa: “Gosto de me jogar em abismos e experimentar coisas novas” - Le Monde Diplomatique

ENTREVISTA

Gal Costa: “Gosto de me jogar em abismos e experimentar coisas novas”

por Guilherme Henrique
3 de Janeiro de 2019
Imagem por Bob Wolfenson
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Com timbre soul e dançante, A pele do futuro, novo álbum da baiana de 73 anos, reúne amigos da Tropicália, canções inéditas e influência do filho, Gabriel, de 13 anos

São poucos os artistas que podem se dar ao luxo de ter em um mesmo álbum músicas inéditas de compositores como Gilberto Gil, Djavan, Jorge Mautner e Adriana Calcanhotto. Soma-se a isso uma parceria com Maria Bethânia, além das participações de Erasmo Carlos e Guilherme Arantes.

O novo disco de Gal Costa, o quadragésimo da carreira, reúne em treze faixas os processos criativos dos nomes citados, a produção musical de Pupillo (ex-Nação Zumbi) e a parceria com o diretor artístico Marcus Preto, que também assinou a direção de Estratosférica, lançado em 2015.

A pele do futuro, nome do novo trabalho, não é só a reunião de estrelas e a interpretação já conhecida de Gal Costa. É, sobretudo, o olhar – os desejos – que a baiana de 73 anos teve ao desenvolver o novo projeto. Gal afirma que o artista precisa fazer o que quer, sem se preocupar com as críticas. Por que não fazer um disco com sonoridade soul music, uma pegada anos 1970, em pleno 2018?

A inspiração veio do filho, Gabriel, de 13 anos. O jovem, que segundo ela ainda não manifestou o desejo de seguir a carreira musical, questionou-a sobre a música “I will survive”, lançada no final de 1978 pela norte-americana Gloria Gaynor. A curiosidade do jovem em relação ao clássico fez que Gal quisesse retomar o estilo.

“Sublime”, faixa de abertura do álbum e composta por Dani Black, era originalmente um samba. A mesma coisa ocorreu na balada “Cuidando de longe”, de Marília Mendonça, estrela do sertanejo brasileiro e convidada para cantar a música.

A novidade fez Gal se aproximar de um novo público. A canção é uma das mais conhecidas em seu novo show e também a preferida do filho. As críticas que se seguiram após a convocação da cantora foram motivadas por puro preconceito, aponta Gal. “As pessoas criticaram antes de ouvir”, diz.

Se por um lado o novo disco pode fazer dançar ao melhor estilo baile black noite adentro, ele também sugere reflexões sobre amor, tempo e, por que não?, o mistério.

Companheiro de longa data, Gilberto Gil fez da velhice diálogo constante em sua atual fase produtiva. O tema norteia OK OK OK, seu disco lançado em 2018, e é também o fio condutor de “Viagem passageira”, música feita especialmente para Gal Costa. A canção, aliás, traz o verso que dá nome ao álbum, ao questionar o tempo das coisas: “A pele do futuro finalmente/ Imune ao corte, à lâmina do tempo/ o tempo finalmente estilhaçado/ E a poeira sumindo no horizonte”.

Em “Cabelos e unhas”, de Paulinho Moska e Breno Góes, Gal reitera o tom existencialista: “Cabelos e unhas crescendo/ Lembram que de nada adianta/ Fugir de estar sempre sendo”. “O trabalho que eu faço é também espiritual, porque ele atinge a alma e o sentimento das pessoas”, ressalta a cantora.

Mas, entre todas as participações presentes no disco, nenhuma é mais especial que o dueto formado com Maria Bethânia, em “Minha mãe”, de autoria de Jorge Mautner e César Lacerda. As duas décadas sem que fizessem algo juntas não guardam nenhum mistério ou rompimento. “Desde que iniciei minha carreira, e ela também, dizem que brigamos”, afirma, rindo, ao comentar o caso.

Ao Le Monde Diplomatique Brasil, Gal falou sobre a espiritualidade presente em sua vida, enalteceu a geração tropicalista e criticou a falta de ousadia em artistas contemporâneos. “Gosto de me jogar em abismos, no sentido de experimentar coisas novas. Tem artista que prefere ficar na zona de conforto, não mudar, fazer aquilo que já é conhecido. Prefiro me arriscar e fazer o que nunca fiz”, completa.

LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL – Alguns textos descreveram seu álbum como reflexivo em questões que envolvem o tempo, o amor. Você concorda com isso?

GAL COSTA – Acredito que seja um disco feliz, alegre, para iluminar tempos obscuros. Mas não é só isso. É um álbum bastante diversificado, especialmente em relação ao repertório. Eu transformei algumas canções em dance music, algo que eu sempre quis fazer: “Sublime” [composição de Daniel Black] e a música que fiz em parceria com a Marília Mendonça [“Cuidando de longe”].

 

Sobre esse estilo anos 1970, você gravou a música “Vida que segue” e, recentemente, disse que procurou fazer algo parecido com Tim Maia, mas do seu jeito. Como se deu esse processo?

Essa é uma canção do Hyldon, um compositor da soul music que o Tim Maia costumava gravar. As pessoas que cantam soul gravam muitas coisas do Hyldon. Eu tentei aproximar meu canto do estilo do Tim Maia e do universo desses artistas, da soul music. E busquei isso sem perder minha identidade, de uma maneira muito sutil.

 

Gilberto Gil fez uma música para esse novo álbum, intitulada “Viagem passageira”, que analisa o futuro, o que fica como legado. Você se questiona sobre isso?

Espero deixar um legado grande da minha obra e que eu não seja esquecida pelo tempo que passei aqui na Terra, cumprindo minha missão de cantora. O trabalho que eu faço é também espiritual, porque ele atinge a alma e o sentimento das pessoas. Espero que tudo que fiz seja duradouro.

 

Na música “Cabelos e unhas”, do Paulinho Moska, há um trecho que diz “de nada adianta fugir de estar sempre sendo”. Como essas questões existenciais te afetam?

Muito, porque eu acredito em outras vidas, acredito em Deus como pura energia, acredito que a fé está dentro de nós, creio no crescimento espiritual das pessoas e acredito que tudo é passageiro. Os encontros não são casuais. O Universo é muito grande, vasto. Creio, sim, em outros seres, em planetas habitados, em vida inteligente no Universo. No futuro, o ser humano ainda vai descobrir isso.

 

Como esse lado místico apareceu na sua trajetória desde a década de 1960?

Desde o início isso se fez presente na minha música. Eu sempre soube que ia ser cantora, nunca tive a menor dúvida. Desde que me entendo por gente sabia que faria isso da minha vida, então acho que desde a barriga da minha mãe a música já permeia o meu universo.

 

Caetano Veloso, logo nas primeiras páginas do seu livro [Verdade tropical], diz que tinha um sentimento de grandeza, de mudar o mundo com a música dele. É isso que você está descrevendo?

Exatamente. Tinha essa sensação de grandeza e a certeza de que eu seria uma cantora com um trabalho importante. Eu não sabia detectar exatamente como, mas sabia que teria uma missão na música.

 

Como você tem visto a produção musical da sua geração, com o disco novo de Gilberto Gil e o trabalho familiar de Caetano Veloso?

Minha geração está inteira. Não só os Doces Bárbaros [Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa], mas também o Chico Buarque. Todos estão fazendo suas coisas com qualidade, trabalhando. Essa questão da idade é muito diferente daquilo que ocorria no passado. Uma mulher de 70 anos, hoje, é jovem. No tempo da minha avó, por exemplo, uma mulher de 70 anos era velha, senhora. Atualmente, não. Ela pode trabalhar, fazer suas coisas, assim como eu tenho feito. E é muito importante poder ter liberdade.

 

Você falou sobre idade, e esse novo álbum tem grande influência do seu filho, Gabriel, de 13 anos. Ele já ouviu o álbum ou deu alguma opinião?

Já, ele gosta. Esses dias eu passei pelo quarto dele e percebi que ele estava ouvindo “Cuidando de longe”.

 

Ele conhece outros discos seus, da década de 1970, por exemplo?

Ele está criando essa consciência. Esses dias eu cheguei para ele e falei: “Meu filho, você precisa ir aos shows da mamãe e assistir ao espetáculo inteiro. Além disso, você precisa saber da minha história, o que eu represento”. O que ele gosta de fazer é ficar jogando videogame. Mas depois dessa conversa ele assistiu ao show completo! Ele está começando a se interessar.

 

Alguma chance de ele seguir a carreira musical? Há alguma manifestação nesse caminho?

Não sei. Ele diz que não tem vontade, mesmo sendo muito musical. Mas, até o momento, fala que não quer nada com música.

 

Como foi a parceria com a Marília Mendonça, que vem do sertanejo, para cantar “Cuidando de longe”?

A ideia da parceria com Marília Mendonça veio depois que o Gabriel me mostrou a canção da Gloria Gaynor, “I will survive”, um grande sucesso da disco music. Ele me perguntou se eu conhecia aquela canção, e eu expliquei quem era, o que significava. Ele respondeu: “Como você sabe?”. Mostrei que a Gloria Gaynor canta uma música triste, mas de um jeito dançante, alegre, e eu queria fazer o mesmo nessa canção. Como a Marília Mendonça é a compositora de que mais gosto no sertanejo, porque ela se diferencia dos outros e porque todo mundo canta igual, fiz o convite para ela gravar comigo. Ela se adaptou ao universo que eu criei para a canção dela, que não é o sertanejo. Eu fiz com outro balanço.

Algumas pessoas criticaram porque são preconceituosas. Não se pode ter preconceito com nada, nem mesmo com música. Existe música para todo gosto. Você pode pegar uma canção e torná-la grandiosa. Eu, com toda humildade, com meu cantar sofisticado, torno uma canção simples, boba, uma música bela, imprimindo uma beleza especial.

 

A pele do futuro também traz uma parceria com a Maria Bethânia, depois de mais de vinte anos sem que vocês cantassem juntas.

E foi ótima. Não houve rompimento com a Bethânia, não tenho obrigação de gravar com ela nem ela comigo. Chamei-a para cantar porque veio uma canção que me lembrou a “Oração de Mãe Menininha”, que gravamos juntas em um disco dela e foi um grande sucesso. Achei que parecia com ela, porque fala em Nossa Senhora da Aparecida. Ela topou, gravamos, ficou lindo e pronto. Não tem nenhum problema, mistério. Não significa que no ano que vem eu tenho de chamá-la para gravar comigo de novo. Desde que iniciei minha carreira, e ela também, dizem que brigamos. Portanto, eu já nem ligo mais. São 53 anos de briga, segundo a imprensa.

 

Há alguma chance de os Doces Bárbaros voltarem?

Acho difícil, porque dá muito trabalho. Estão todos com suas tarefas.

 

O que significa quando você diz que todo mundo canta igual?

Todo mundo do sertanejo. As cantoras do sertanejo cantam igual, assim como na axé music, por exemplo. São todos muito parecidos.

 

A Tropicália, movimento do qual você fez parte nos anos 1960, ficou marcada por inovar em uma época sem tantos recursos. Por que isso não acontece hoje, quando há mais tecnologia disponível?

Acredito que tem a ver com o artista. Eu, por exemplo, gosto de me jogar em abismos, no sentido de experimentar coisas novas. Tem artista que prefere ficar na zona de conforto, não mudar, fazer aquilo que já é conhecido. Prefiro o contrário: gosto de arriscar, fazer o que nunca fiz. Não importa que o público mude, e sim a minha satisfação. O artista tem de fazer o que ele quiser.

 

Sobre fazer o que quer, como você acha que A pele do futuro se encaixa na sua discografia recente, com Estratosférica (2015) e Recanto (2011)? Ele é um disco mais aberto ao público?

A pele do futuro é mais normal, comum. Recanto [produzido por Caetano Veloso] é um disco lindo, mas é mais fechado, hermético. Não é um disco fácil de ser comercializado.

 

Como você tem se relacionado com o público e as críticas, sobretudo nas redes sociais?

Eu não ligo, porque, depois que as pessoas veem o resultado do trabalho, aí sim elas podem e devem avaliar. Antes disso, não tem como. As pessoas, no mundo inteiro, têm destilado um ódio, uma raiva na internet… Falam mal, são agressivas. Mas isso é próprio da internet e da intolerância que se tornou comum atualmente.

 

Você enxerga alguma relação nas críticas que a Tropicália sofreu e o que acontece atualmente?

A gente não sabia porque não havia internet [risos]. Provavelmente seria igual ao que acontece hoje. Agora, quando você lança uma música, automaticamente já há como saber a reação das pessoas, porque existe a internet, tudo é divulgado rapidamente. Na época tropicalista não havia isso, não ficávamos sabendo com tanta agilidade.

 

Qual é sua avaliação das críticas que os artistas sofrem sobre a Lei Rouanet, por exemplo, e os incentivos fiscais às artes?

As pessoas não entendem direito como a lei funciona e ficam achando que os artistas “mamam” na Lei Rouanet. Não é isso. A lei favorece os artistas, e é importante que se tenha, porque é difícil montar um espetáculo de teatro ou música. É muito caro, e o que entra de dinheiro na bilheteria não é suficiente para pagar o necessário. A lei precisa existir para manter nossa cultura. Um país sem cultura não sobrevive.

 

Você fez críticas a Jair Bolsonaro antes das eleições, e ele acabou eleito presidente. O que nos espera daqui para a frente?

Serão tempos difíceis. Já estão sendo, na verdade.

*Guilherme Henrique é jornalista.



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