Giovana Madalosso: “percebi que, quando retiramos as emoções da vida, retiramos a própria vida”
O reencontro entre duas mulheres – uma cética e outra profundamente religiosa – sustenta o eixo do novo romance, de Giovana Madalosso, marcado pela tensão entre razão e fé, ciência e espiritualidade, morte e transcendência
Quando comecei a leitura de Batida Só, tive a impressão de que o título remetia a um ritmo, à solidão e ao coração. O novo romance de Giovana Madalosso, publicado pela editora Todavia, em 2025, é uma narrativa mais intimista, voltada para a finitude, a fé e as fragilidades do corpo.

Logo no início da nossa conversa sobre a obra, a autora começou explicando que o título de um livro é muito importante para ela. “Eu acho que um título acaba amarrando toda a ideia do livro. E eu não sei exatamente em que momento surgiu, porque eu fiquei pensando obsessivamente nesse assunto.”
A protagonista, Maria João, é uma jornalista que descobre sofrer de uma arritmia grave. Foi nesse contexto, do diagnóstico de uma cardiopatia, que Giovana pensou em usar a palavra “coração”, bela tanto na escrita quanto no som. Porém, algo a impedia: o uso excessivo e já desgastado dessa palavra na literatura, foi então que pensou no ritmo daquele orgão, surgindo a ideia de “batida”. – “Pensei em várias possibilidades com a palavra ‘batida’, até que surgiu Batida Só. O título me conquistou justamente pela estranheza. Para mim, ele remete a uma batida solitária – não uma taquicardia, não um coração acelerado, mas uma batida única, isolada. Essa solidão da batida, metaforicamente, traduz um coração contido, mas também profundamente só”, explicou a escritora.
A partir do momento em que Maria João descobre que está doente, a protagonista é obrigada a rever toda a sua vida, o que pode ser considerado uma metáfora do ritmo do coração em relação ao ritmo da existência. “Eu comecei a observar o coração porque minha filha passou por um tratamento de saúde – que não tem relação com as histórias do livro –, mas, a partir dele, passei a olhar mais atentamente para o órgão no corpo. Frequentando hospitais e entendendo como funcionam os exames, entre eles o eletrocardiograma, percebi que não se trata apenas de uma metáfora: há uma relação profunda entre nossos batimentos e nossas emoções. Foi dessa observação médica, física, que comecei também a refletir sobre as emoções e sobre o que significa uma vida contida. Para controlar o coração, para manter essa saúde mental tão almejada, talvez fosse preciso deixar de viver certas emoções. Mas, ao pensar nisso, percebi que, quando retiramos as emoções da vida, retiramos a própria vida. Nesse processo, tanto do ponto de vista de paciente quanto de quem observa a medicina, encontrei no coração não apenas uma constatação física, mas também uma metáfora sobre o risco de se proteger demais dos sentimentos.”
Maria decide ir morar na antiga casa dos avós, na cidade onde cresceu. Com a mudança, a jornalista mergulha tanto no passado quanto no interior de si mesma. Após se instalar, reencontra a amiga de infância, Sara, e o filho dela, Nico, que enfrenta uma leucemia terminal. O reencontro entre as duas mulheres – uma cética e outra profundamente religiosa – sustenta o eixo do romance, marcado pela tensão entre razão e fé, ciência e espiritualidade, morte e transcendência.
Há uma forte presença da fé e da espiritualidade depois que a protagonista deixa a capital, mas sempre a partir de um olhar crítico e não dogmático. O que motivou a autora a tratar a fé dessa forma tão plural foi, antes de tudo, seu próprio percurso pessoal. “Sempre fui ateia, mas em alguns momentos senti falta de ter algum tipo de fé e fui em busca dela. Essa busca, no entanto, não deu muito certo: em certos períodos consegui me aproximar um pouco, mas nunca plenamente. Houve um momento em que pensei que talvez a fé também fosse uma espécie de talento. Eu tenho talento para escrever, mas talvez não tenha o talento de acreditar com facilidade. A partir dessa daí, trago a ideia de que algumas pessoas nascem com mais capacidade de exercitá-la, outras com menos. Mesmo sem ter encontrado a fé da maneira como eu a procurava, passei a olhá-la com muito respeito, porque sei o quanto ela faz bem às pessoas. Às vezes até sinto inveja de quem consegue viver a fé com tanta intensidade. No entanto, ao fim desse percurso pessoal e literário, percebi que encontrei um tipo de fé: uma fé muito grande nas pessoas, no seu poder de transformação e, acima de tudo, na própria vida”, afirmou a autora.

Giovana conta que a personagem Maria João surgiu como um pretexto para falar sobre as emoções humanas. A protagonista nasceu, portanto, com a função de encabeçar essa temática das emoções. Ao mesmo tempo, havia outra experiência que ela precisava incluir na narrativa: a dor das mães que acompanham o tratamento de saúde de um filho. Enquanto tratava de sua própria filha, a autora observou mães que lidavam com doenças muito mais graves em seus filhos, o que a comoveu profundamente. A partir disso, decidiu criar a personagem de uma mãe e de um menino doente, a Sara, como forma de dar voz a essa dor: a dor de uma mãe que, apesar de ter energia para enfrentar o mundo, se depara com algo sobre o qual não tem nenhum poder.
“Você pode ser a mãe mais dedicada do mundo, mas não vai conseguir fazer um milagre nesse sentido. Existe a dor daquela mãe cujo corpo é saudável, enquanto o do filho não é. Muitas dizem: ‘Eu daria meu corpo agora para salvar meu filho’, mas sabem que isso é impossível. Esses personagens nasceram justamente da necessidade de depositar, neles, minhas próprias angústias. E, quando o livro começou a ganhar forma e olhei para esses três personagens, percebi algo que me deixou muito feliz: eles também possibilitam a discussão sobre fé e religiosidade. Maria João simboliza o ateísmo, Sara representa a religiosidade e Nico encarna a espiritualidade dentro da narrativa.”
A escrita de Batida Só acompanha o compasso irregular do coração da protagonista. A autora explora o silêncio, o corpo vulnerável e o desejo humano de encontrar sentido diante da iminência da morte.
Para finalizar, perguntei à Giovana se ela considera a leitura do romance ainda um lugar de escuta, ela explica que nunca tinha pensado no romance dessa maneira. Ao refletir mais sobre o assunto, a autora conta que para ela é mais do que um lugar de escuta, o romance é um lugar de troca.
“Ao chegar a um romance, o leitor recebe muita coisa, mas também leva para ele as suas próprias perspectivas. Então, para mim, o romance é um lugar de encontro das necessidades e experiências do leitor com aquilo que o escritor oferece. Hoje, esse espaço de encontro é ainda maior, já que o livro não caminha mais sozinho com o leitor. Clubes de leitura e feiras literárias ampliaram essa dimensão, transformando o romance em um trampolim para a troca – não apenas entre escritor e leitor, mas também entre leitores entre si.”
A obra demonstra maturidade ao assumir o risco de construir uma narrativa sobre aquilo que não tem uma conclusão: a morte, a fé e o amor. É um livro que pulsa devagar, mas de forma firme, convidando o leitor a escutar com atenção o que há por trás de cada batida.
Maíra Oliveira Graça é parte da equipe do Le Monde Diplomatique Brasil.

