GIOVANI CIDREIRA EM DEZ ANOS DE CARREIRA

Nessa memória, uma carta do futuro

Entre o projeto duplo que celebra sua trajetória, a gravação de um disco ao vivo e o desejo de seguir próximo às pessoas, o artista baiano reafirma o movimento constante que marca sua obra

Cantor, compositor, instrumentista e soteropolitano, o artista Giovani Cidreira – ou simplesmente Gio – tem feito de 2025 um terreno de celebração pelos seus dez anos de carreira. Revisitando a repercussão dos seus últimos trabalhos, não parecem faltar motivos: ao longo da década em que vem cedendo a expressividade da voz e o “jeito doido, jeito torto” de se apropriar dos instrumentos a diferentes projetos, construiu uma trajetória reconhecida em todo o país, marcada por um trânsito singular entre o hibridismo e o rompimento e pelo destaque como um dos principais nomes da cena baiana contemporânea.

“Eu não sou um artista do Instagram, então eu preciso estar com as pessoas, preciso estar com quem consome música”, afirma o cantor. É desse impulso que nasce o projeto duplo que marca seus dez anos de carreira – e tem início com a gravação de um disco ao vivo. Registrado em setembro e com lançamento previsto ainda para 2025, o trabalho revela uma faceta inédita na já diversa discografia do artista: entre canções novas e versões repaginadas de faixas conhecidas, Giovani opta pelo formato intimista de voz e violão. As parcerias são o goiano Benke Ferraz (Boogarins), que assina a direção musical do show, e o próprio público que esteve presente naquela noite. Depois do evento, uma pasta online foi disponibilizada para que cada um compartilhasse seus registros, que poderão integrar a montagem final do lançamento.

Explorar territórios novos, como faz agora com a crueza do ao vivo, não é exceção na caminhada de Giovani. Ainda antes da carreira solo, ele já ocupava a cena independente de Salvador como integrante da banda Velotroz – “punk da periferia mesmo”, como definido por ele. Com o fim do grupo, seu primeiro trabalho solo, um EP autointitulado, já anunciava o caminho a seguir: uma estadia insistente na fronteira entre estilos. Vieram então Japanese Food (2017), seu primeiro disco; Nebulosa Baby (2021), que viaja acompanhado de muitos nomes da cena brasileira contemporânea da qual ele já se tornava veterano; e, finalmente, Carnaval eu chego lá (2024), obra em que Gio assume, pela primeira vez em sua discografia, o papel de intérprete para reimaginar algumas das maiores pérolas do samba baiano compostas por Ederaldo Gentil.

Em conversa com o Le Monde Diplomatique Brasil, Giovani Cidreira olha para o presente e o passado em um movimento que se projeta ao futuro – o de fazer música cada vez mais próxima da sua verdade e das pessoas.

Crédito: Gabriel Renne

Recentemente, você gravou um disco ao vivo que, no gancho da celebração dos dez anos de carreira, parece bastante intimista mas, ao mesmo tempo, muito afirmativo. O que é, para você, esse projeto?

Esse projeto sou eu mais uma vez fazendo o que eu mais gosto de fazer, que é me arriscar. Acho que a música, e qualquer arte, quando feita com risco, vale a pena. Até no começo, quando eu fiz meu primeiro disco, o Japanese Food, eu acho que o público me esperava sentado com o violão. Eu quebrei esse violão, peguei uma máquina de SP 404 e comecei a fazer beats. Eu sempre vou indo para um lugar que eu acho que não é esperado nem por mim, gosto mesmo de estar sempre modificando e me colocando em lugares que eu não tenho domínio. Claro, eu tenho domínio daquilo que eu faço, porque faço do meu jeito doido, do meu jeito torto, isso acontece – mas eu achava que nunca gravaria um disco ao vivo, porque é muito arriscado, você está próximo do público e leva em consideração que aquele play é o que é, na verdade. Não há muita manipulação, a gente grava de maneira em que não dá pra ficar mexendo – e também não faz muito sentido você gravar um disco ao vivo e depois picotar ele em estúdio. Acho que, mais uma vez, eu me coloquei num lugar de fogueira. E é também uma volta à canção na sua maneira mais pura, digamos assim, sem muita instrumentação, sem muito arranjamento. Depois de algum tempo gravando com discos, com banda, com grupo, com muita instrumentação, eu achei que devia ter esse salto livre de todas as coisas que uma produção grande envolve. De certa maneira, esse negócio de você perceber que você já tem algum tempo na indústria, perceber que você já sabe também o seu lugar, me fez também voltar para as coisas do começo, o jeito que eu fazia música no começo. Nesse processo, tudo começou, na verdade, com gravações de fita cassete aqui na minha casa. E isso ativou algumas coisas, voltar, lembrar de como tudo aconteceu. Passar por essa reflexão me levou a fazer a música como eu fazia alguns anos atrás, só com violão.

 

Ao longo dos anos, um dos comentários mais comuns sobre o seu trabalho tem sido o quanto a sua música se transforma no ao vivo. Você identifica, na sua performance, qual é o elemento que engata essa transformação?

Eu acho que o palco para mim é um lugar de cartaz, de liberação, de exposição também, dos meus medos e inseguranças – coisas que todo mundo sente junto, sabe? A vida é muito difícil, e tem sido muito difícil continuar a fazer arte, continuar a exercer esse lugar, que é um lugar de trabalho. No palco eu posso realmente sair um pouco de mim e me encontrar com o que há de mais pessoal, mas encontrar o outro também, porque eu vejo as pessoas que vão no meu show e penso que não é possível que elas estejam ali só para dançar. Dançar é muito bom, mas a música é uma ferramenta de modificação das coisas, então eu acho que é também essa vontade de que tudo mude, né? Que o jeito que a gente produz, o jeito que a gente conversa… Essa vontade de que as coisas sejam mais parecidas com o que a gente é. Eu acho que isso, na hora do palco, aflora muito em mim. Os sonhos mais loucos que a gente pode ter, do mundo mais perfeito, e tudo que dá raiva e a gente sente, fica para fora ali, em conjunto com o público. Então acho que eu tenho muita alegria, entendeu? É muito difícil para mim não fazer show, não estar com as pessoas.

Crédito: Gabriel Renne

À época do lançamento de Japanese Food, você disse que escutar o disco era como se olhar no espelho. Agora, nesse marco de dez anos de carreira, revisitar seus trabalhos antigos ainda traz esse mesmo sentimento de reconhecimento ou essa relação muda com o tempo?

O espelho está sempre mudando, né? A gente está sempre mudando também. Na verdade, não gosto das coisas que eu produzo exatamente quando elas acontecem. São poucos os discos que eu falo: “esse aqui está um negócio”. Tenho uma dificuldade, e acho que todo mundo tem. Eu realmente fecho a caixa, levo para a distribuidora, mas sempre ouço com o ouvido do que que poderia… “Essa parte poderia ter sido melhor, essa poderia ter sido mais bem pré-produzida”. Durante muito tempo eu fiquei ouvindo esses discos assim. E, com o passar do tempo, eles vão ganhando um outro significado pelo que as pessoas dão para ele também. Músicas que não tinham um significado tão claro pra mim, como Última vida submarina, uma música super antiga e acabou entrando no disco porque faltou música – hoje, as pessoas gostam muito dela. Então, eu já adoro ela. Eu praticamente não ligava, mas com a quantidade de mensagens, de carinho que eu já recebi a partir dessa música, isso me gerou uma simpatia. E pelo disco também, pelas outras coisas que eu fiz. Com o tempo, a gente acaba olhando com mais carinho mesmo. É um espelho super inovado – um espelho com a moldura que está sempre diferente… Eu gosto cada vez mais das coisas que eu fiz.

 

Você comentou, na nossa conversa, que está sempre “se colocando na fogueira”. Olhando para a sua trajetória, parece mesmo que vem sempre uma virada entre um disco e outro. Isso é uma escolha consciente de se desafiar ou algo que surge naturalmente do seu processo criativo?

Olha, eu sempre quero ter mais tempo pra pensar, colher os frutos das coisas. Existe uma vontade, mas existe também uma demanda de trabalho. Para quem vive da música… você tem que estar apresentando um novo personagem, uma nova coisa, né? Tem gente que lança single toda semana, disco todo ano, uma coisa louca. Eu até demoro a lançar um disco, mas existe um trabalho mesmo – hoje minha vida é basicamente música, não faço outra coisa. Eu sou um compositor, escrevi músicas pra Linn da Quebrada, escrevi o disco de Urias agora. Existe uma rotina de trabalho também, e fazer disco tem a ver com isso. Quando fui gravar o disco de Ederaldo [Carnaval eu chego lá], minha produtora falou: pô, grava o disco das músicas de Ederaldo. E como a gente adora isso, a gente inventa um jeito. Eu lembro quando eu fiz uma música pra Linn, que acabou tocando na novela, eu não pensava em fazer um house, mas era uma demanda de trabalho. E eu vou sempre fazer isso da melhor maneira. Eu sou um artista que já fez trilha sonora, faço outras coisas, então eu consigo ser um pouco dirigido nesse sentido, entendeu? Me coloco num lugar de maravilhamento daquilo para que aconteça da melhor maneira possível, porque sei que eu tenho que fazer isso. Eu preciso fazer minhas coisas, e desse jeito feliz com o que eu faço. Mudar de lugar também tem a ver com trabalho.

 

E falando sobre Carnaval Eu Chego Lá, agora com cerca de um ano do lançamento: como você enxerga esse trabalho hoje? Especialmente considerando o movimento de circulação do nome de Ederaldo Gentil que ele acabou provocando.

Primeiro eu queria que o disco, como todos os outros discos, rodasse muito mais. Eu acho que as pessoas precisavam ouvir mais esse disco, que os donos dos festivais precisavam ouvir esse disco, que todo mundo precisava ouvir esse disco com mais cuidado. Ederaldo é um dos melhores compositores que a gente tem. Na qualidade poética, na filosofia que ele traz na letra – destoante até da época que ele viveu. Então esse disco, pra mim, tem a ver com responsabilidade também. Com a nossa história. A minha história é bem parecida com a de Ederaldo, e a história dele, como várias outras, é uma história que acaba um pouco triste. Ederaldo morreu triste, morreu sem reconhecimento, morreu com essa coisa que persegue a todos nós – ainda mais quando você não tem os mesmos acessos, os mesmos colégios. Quando me vi contando essa história, eu quis contar de uma maneira diferente. Eu quis contar o que age melhor na gente, contar o que é maravilhoso. Para que a gente entenda que esse caminho pode mudar, que o meu caminho, e o da minha mãe, dos meus primos, também muda a partir disso. Não precisa ser aquela coisa, não precisa acabar assim. E eu acho que só eu poderia falar assim por isso, porque eu vim de lá, porque eu reconheço isso naquelas pessoas, essa força maravilhosa. E a partir disso, realmente algumas pessoas começam a conhecer Ederaldo, mas, na verdade, o que eu vejo é que já estava rolando isso. Toda a maravilha, todo o rompimento, toda a coisa propositiva de revolucionar já é da música de Ederaldo Gentil. Ele já está ali, já com ele. Uma coisa que Vandal fala é que é como se a gente estivesse fazendo aqui porque a gente sabe que vai ter alguém fazendo por nós lá. É um lugar também de ancestralidade, a gente entende que é o mesmo povo.

Crédito: Gabriel Renne

Você já comentou que se identifica com o Ederaldo em uma poesia muito comprometida com a verdade. Ao mesmo tempo, a sua música também se alinha a essa experiência do sonho, da fabulação. Como é esse comprometimento com uma verdade que também inclui o que é sonhado, imaginado, inventado?

Quando eu disse dessa relação com a verdade, eu estava falando de postura, mesmo. Como eu estava falando antes, a gente faz a coisa pelo trabalho, mas a verdade está em não fazer concessões, não dar certos tapas nas costas, não participar de certas rodas, não dar risada de todas as piadas que as pessoas fazem. Quando eu faço a minha música, eu estou pensando, por mais bobo que pareça, em uma sala de cinquenta alunos em um colégio público – onde ninguém está ouvindo nada direito, mas alguém ali no fundo daquela sala vai sair com uma percepção completamente diferente. Ele vai levar isso para casa, ele vai mostrar para aquele irmãozinho, ele vai contar o que é aula de teatro. O cara nem sabia, nunca ouviu falar em aula de teatro, mas ele vira psicólogo por causa disso, ele vira uma pessoa por causa disso. Eu faço as minhas coisas querendo, na verdade, fazer show em colégio: já falei isso para todo mundo. Ninguém estava me levando a sério, mas eu quero fazer show em colégio. Não é nem retribuição, porque eu acho que não precisa retribuir nada, é modificação mesmo. É pensar que, quando eu faço a minha música, eu estou fazendo para que ela chegue no lugar de onde eu vim. Muitas pessoas precisam ouvir que elas podem só ser quem elas são e cantar. Eu, sendo um artista preto, poderia falar tantas coisas, mas só quero falar de algumas – e esse lugar também é nosso. A gente precisa é de verdade, mesmo – não de realidade pura, mas de um comprometimento com a vida da gente, com ser de verdade, olhar no olho, finalmente parar com a palhaçada, saber quem é quem na multidão. Já vim de tantas festas, de tanta gente que finge que não conhece os outros. Quando falo da música ser comprometida com a verdade, acho que é não estar comprometida com nada dessa besteira aí. Já falei várias vezes: se não for para o olho no olho, se não for para ouvir realmente que somos pessoas complicadas, que existem muitas questões para as quais a estrutura não está preparada, não me chama. Isso é fazer de verdade.

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