Giovanni Ghilardi aborda cinemas de rua de São Paulo com diferentes narradores
Lançado pela Cachalote editora Projetores Paralelos da autora explora com características próprias o audiovisual
“Ufa, que alívio me sentar aqui. Que alegria: tudo deu certo. Achei que o lanterninha fosse perguntar alguma coisa, mas o velho deve estar nas minhas.”
Poderia fazer um artigo científico sobre o livro de Giovanni, para ser sincera nessa resenha crítica. É romance? Novela? É autoficção na prosa? E o testemunho confluindo com os recursos próprios do audiovisual? A estrutura discursiva, assim sendo, é desafiadora.
Por mais que tenha elementos comuns (tempo, espaço, foco narrativo, personagens), é difícil categorizar o livro de Ghilardi dentro de uma caixinha fechada. Falar bem a verdade, o contemporâneo na literatura carrega esse problema de identificação: enquanto eu, leitora e pesquisadora, posso considerar os diálogos em Projetores Paralelos parecidos com a imagem das falas de uma peça de teatro, não posso deixar de mencionar características específicas da prosa atual: a multiplicidade de vozes, distanciando-se do narrador absoluto, único. O autor cria uma variedade de sujeitos, com seus próprios dilemas; contudo, não são registros autônomos por completo, pois cada capítulo, como mencionado, é destacado pelo número da poltrona e sua letra.
Apesar de não termos conhecimento mais aprofundado de seus nomes, não é difícil os identificar, dado os atributos desenvolvidos ao longo da(s) história(s). Pequenas narrativas fecha

das, enfatizadas em determinados pontos. Na maior parte dos acontecimentos, os espectadores se deparam entre eles, mesmo que contenha o implícito, tal qual um jogo a ser adivinhado. Afinal, o que há de tão interessante na vida dos outros?
Um dos fatores a serem destacados é a temática. Nela, o resgate dos antigos cinemas integra grande parte do “mosaico literário” de Ghilardi, mas diria que Projetores Paralelos está na vida internalizada de cada testemunho, com suas respectivas poltronas. São assuntos da ordem privada em sua maior parte, mas também da diferença entre estratos sociais, em particular na concepção do mesmo filme assistido por todos os narradores. Se na trama de Bentinho temos a relação do marido rico e um workholic com o Linkedin e suas opiniões sobre o filme, por outro lado, o narrador da outra poltrona se refere à sua namorada com frequência, tentando compreender o filme “cult” em meio a gírias em seus pensamentos, no intuito de impressioná-la. No fim, se sente deslocado, sozinho. Em outro momento, temos desdobramentos sobre um dos narradores ajudar um menino semi-inconsciente ao sair da cadeira, transformando-se em alívio cômico da história.
“Wagner. O nome ecoa na minha cabeça. Fico com a sensação dessa letra tão estranha que é o W ser a mais utilizada do idioma chinês. Cada vez que um personagem falava uma palavra com ela, sentia uma alfinetada. Sentia que em breve deveria encarar a realidade. E cá estou eu, fingindo que aprecio os créditos para evitar o resto da minha vida”
A figura do “lanterninha” é outro ponto a ser levantado. Se temos o chamamento de sua imagem, representação, mesmo que de modo indireto, o leitor pode sentir ele como um andante, aquele que perambula em torno das antigas memórias: já viu de tudo, já escreveu de tudo, desde prosa ao verso, já conheceu cada tipo de gente nas salas de cinema.
Por falar em estrutura e gênero na literatura, a interação dos personagens somente ganha um sentido amplo quando percebida dentro do conjunto narrativo que trata Ghilardi, e o “lanterninha” é visto conforme se passam as páginas, entrecortando os capítulos ao demonstrar que está ali, quase que onipresente, “vigiando” seu público.
O “lanterninha” é uma figura tecnicamente extinta, sendo que a obra se passa em um tempo a princípio não muito distante do nosso, logo, passado e presente se fundem quando encaramos o funcionário.
Deixo a quem se interessar esse tecido de um complexo de relatos, testemunhos criados por Ghilardi, para talvez – só talvez- concebermos como um ato aparentemente banal pode ser transformado em uma narrativa criativa, para não dizer nostálgica.
Lorraine Ramos Assis é socióloga e crítica literária. Foi publicada em diversas revistas/jornais nacionais e estrangeiros, tais como Jornal Cândido, Cult revista, Relevo, Granuja (México) e Incomunidade (Portugal). Colabora para São Paulo Review e Revista Caliban, além de integrar o corpo de poetas do portal Faziapoesia. Pesquisa sociologia da literatura e gênero, em particular violência contra a mulher.

