GRETA THUNBERG

Na nova cartografia das lutas planetárias: chave de leitura para um mundo em ebulição

Estamos diante de uma cartografia viva das lutas sociais, que se multiplicam por todos os continentes e em diversas temáticas, buscando rupturas e transformações em todas as áreas da vida social, ecológica e simbólica. Greta representa a passagem de um ativismo setorial para um ativismo ecossistêmico 

Greta como expressão de um tempo histórico 

A trajetória de Greta Thunberg — da greve escolar solitária na Suécia aos protestos ao lado do povo palestino — não pode ser compreendida como um fenômeno isolado. Trata-se de um caso exemplar de como subjetividades juvenis emergem como expressão e catalisação de uma nova era de mobilizações planetárias. 

Greta simboliza a irrupção de um ecossistema de lutas interconectadas, que florescem em diferentes territórios, com protagonismo juvenil, desafiando paradigmas políticos, culturais e civilizatórios. Sua evolução ecoa e também influencia esse novo mapa vivo de resistências. 

Imagem de Greta Thunberg. Ela está sorrindo, usando uma blusa de manga longa e segurando um microfone
Crédito: Stefan Müller/Pixabay

A nova cartografia das lutas planetárias 

Estamos diante de uma cartografia viva das lutas sociais, que se multiplicam por todos os continentes e em diversas temáticas, buscando rupturas e transformações em todas as áreas da vida social, ecológica e simbólica. Essa cartografia é mais do que um pano de fundo: é sintoma de época e expressão de novas subjetividades políticas. 

Exemplos emblemáticos incluem: 

  • Nos EUA: Acampamentos universitários pró-Palestina em universidades como Columbia e UCLA. 
  • Na França: Revoltas das periferias urbanas contra o racismo e a violência policial (ex. Adama Traoré). 
  • No Chile e na Colômbia: Insurreições protagonizadas por estudantes, povos originários e trabalhadores. 
  • No Sul Global: Protestos no Congo, Nigéria, Sudeste Asiático e Filipinas, contra o extrativismo, a corrupção e o colapso climático. 
  • Em Gaza e na Cisjordânia: Resistência de jovens e comunidades palestinas ao apartheid e ao genocídio em curso. 
  • Na Índia: Marchas por justiça ambiental e contra o nacionalismo excludente. 
  • No Brasil: Lutas indígenas por território, juventudes negras das periferias urbanas contra o racismo, mobilizações feministas contra o feminicídio e manifestações LGBTQIA+ por dignidade, visibilidade e políticas públicas. 

Esses movimentos compartilham traços comuns: 

  • Liderança jovem e protagonismo periférico. 
  • Enraizamento local com projeção global. 
  • Intersecção entre causas (raça, gênero, ecologia, território, anticolonialismo). 
  • Criatividade estratégica: redes digitais, arte, ocupações, desobediência civil. 
  • Capacidade de gerar empatia coletiva e tensionar estruturas institucionais. 

Essa cartografia revela também uma tendência crescente à multiplicação das lutas e dos sujeitos insurgentes, em meio a uma transição civilizatória onde se busca, em escala global, reimaginar modos de vida, estruturas de poder e formas de convivência. 

Mais recentemente, novas expressões dessa cartografia revelam tendências à sua intensificação. No Brasil, manifestações denunciam privilégios dos super-ricos e as resistências por parte do Congresso Nacional, de setores da elite econômica e de seus aliados frente à pressão popular por justiça tributária. Nos Estados Unidos, as medidas anunciadas por Donald Trump — de cortes drásticos em políticas sociais – reacendem indignação e revoltas que evidenciam a insatisfação popular com a lógica neoliberal.  

Todas essas expressões reforçam a vitalidade da cartografia de lutas sociais e sua capacidade de se expandir, cruzar fronteiras e produzir alianças inesperadas. 

A evolução da trajetória de Greta Thunberg 

Greta se destaca não apenas pela contundência de sua presença, mas por sua evolução política. Três etapas principais podem ser identificadas em sua trajetória: 

  • Foco na emergência climática: Com base científica, discursava contra a omissão de governos e mobilizava estudantes. 
  • Transição para a justiça climática: Incluiu a crítica às desigualdades estruturais, ao racismo ambiental e à hegemonia do Norte Global. 
  • Engajamento interseccional: Passou a focar na denúncia ao genocídio em Gaza, no apoio aos povos originários, na crítica à colonialidade e no descuido pela casa comum, dando ênfase aos direitos humanos. 

Essa trajetória reflete, ao mesmo tempo, busca por coerência ética, abertura na escuta das lutas do mundo e capacidade de percepção clara das conexões existentes entre causas aparentemente fragmentadas. Assim, Greta está se tornando uma figura emblemática da transição para um ativismo ecossistêmico. 

A relação dialética com o ecossistema das lutas 

A figura de Greta não se sobrepõe às lutas, mas se entrelaça com elas em uma relação dialética: ela ganha visibilidade no contexto de insurgências contemporâneas, mas também as fortalece com sua voz global. 

Greta aprende com os territórios e ensina, oferecendo inteligibilidade e coerência às demandas em curso. Representa uma nova geração que valoriza a escuta, a empatia e a articulação. 

Um novo grito planetário 

O tempo atual ecoa um novo grito. Se no século XIX Marx proclamou: “Trabalhadores do mundo, uni-vos!”, talvez hoje o grito seja: 

“Jovens do mundo, uni-vos para salvar nossa casa comum!” 

Esse grito nasce das cinzas da Amazônia, das ruínas de Gaza, dos campos de refugiados, das escolas ocupadas e das redes digitais. 

Não se trata de propor uma nova hegemonia, mas uma nova consciência: ética, planetária, relacional. Uma consciência que articula lutas, reconhece diferenças e afirma a interdependência de todos os sistemas vivos. 

Essa consciência supera a ortodoxia da luta de classes como eixo interpretativo único, propondo uma leitura mais ampla da realidade: não se trata apenas da disjuntiva capital x trabalho, mas de uma disjuntiva ainda mais abrangente: capital x vida. 

Greta é uma das vozes mais visíveis desse grito, como jovem branca do Norte que ousa ouvir, reconhecer e somar-se às lutas do Sul e dos marginalizados. 

Como nos alerta Leonardo Boff, vivemos um tempo de lutas antissistêmicas, onde não se contesta apenas uma política ou um governo, mas o próprio modelo de civilização que rompe os laços com a vida, com a Terra e com os saberes ancestrais. Essa leitura aprofunda a proposta aqui defendida e ajuda a compreender o sentido das novas insurgências juvenis planetárias. 

Greta representa a passagem de um ativismo setorial para um ativismo ecossistêmico. Sua participação recente na Flotilha da Liberdade, a ênfase na justiça climática e a crítica ao sistema colonial-capitalista a colocam como figura emblemática de uma transição civilizatória. 

Ela não é exceção. É emergência. Sua trajetória ilumina uma chave interpretativa das lutas em curso: rebeldia criativa, interconexão de causas, potência das juventudes, urgência de reimaginar o agir político. 

Domenico Corcione é ex-professor de filosofia, pedagogia e teologia do ITER, UNIFAFIRE e UNICAP-PE. Foi assessor de Dom Helder Câmara na área de juventudes. É consultor em desenvolvimento social e institucional junto a OSCs e na esfera governamental. Também integra a Equipe Técnica do CAIS (Centro de Assessoria e Apoio a Iniciativas Sociais), focando na formação em incidência política. 

 

Bibliografia essencial 

  • **Boaventura de Sousa Santos** (2019). *A cruel pedagogia do vírus*. Boitempo. 
  • **Ailton Krenak** (2020). *A vida não é útil*. Companhia das Letras. 
  • **Naomi Klein** (2015). *Isso muda tudo: capitalismo vs. clima*. Zahar. 
  • **Paulo Freire** (1996). *Pedagogia da autonomia*. Paz e Terra. 
  • **Leonardo Boff** (2025). *As lutas antissistêmicas e seus vários passos*. Brasil 247. 
  • **Eduardo Gudynas** (2011). *Derechos de la naturaleza*. RedGE. 
  • **Castro-Gómez & Grosfoguel** (2007). *El giro decolonial*. Siglo del Hombre. 
Leia mais sobre o tema: