“Há uma crença de que mulheres não europeias podem ser tratadas como objetos” - Le Monde Diplomatique

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“Há uma crença de que mulheres não europeias podem ser tratadas como objetos”

por Tatiana Merlino
15 de junho de 2015
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Feminista britânica afirma que a objetificação de mulheres na mídia britânica permite violência de gêneroTatiana Merlino

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Diretora executiva da organização não governamental Object, sediada no Reino Unido, a feminista Roz Hardie estuda e combate a exploração da imagem feminina como objeto na imprensa, publicidade e em publicações pornográficas. “Há muitas publicações especializada em exploração de pessoas negras e latinas”, explicou a ativista.

Em recente visita ao Brasil, Roz participou do I Seminário Internacional Cultura da Violência contra as Mulheres, ocorrido entre 20 e 21 de maio, em São Paulo e organizado pelo Instituto Patrícia Galvão e Instituto Vladimir Herzog.

Durante sua apresentação, a feminista deu exemplos de como a imagem da mulher brasileira é tratada no Reino Unido: “O Brasil não foi nossa colônia, mas há um legado de crenças de que em países que não são da Europa, as pessoas estão disponíveis e podem ser tratadas como objetos. É uma mentalidade racista, sexista e ofensiva para as brasileiras”.

 

Como é a exploração da imagem da mulher brasileira no Reino Unido?

Durante a Copa do Mundo, em 2012, a presidente Dilma reclamou das camisetas da Adidas, que tinham imagens que faziam apologia ao turismo sexual. As pessoas amam o Brasil, a camisa, a imagem, há uma reputação positiva, mas o estereótipo da mulher brasileira é de muito uma mulher quente, disponível, especialmente para turistas que vão ao Brasil. Há a ideia que os homens serão bem vindos sexualmente, quase como uma imagem de prostituição. Os exemplos que eu dei na minha apresentação foram de propagandas contra a objetificação da mulher.

Durante a Copa, muitos de nós ficamos preocupados com os fãs de futebol britânico indo ao Brasil e explorando crianças e prostituição. Até nosso time de futebol mandou uma mensagem aos fãs de futebol recriminando a exploração sexual.

Foi uma mensagem forte sobre crianças e foi correto, creio, mas acho que não deveriam explorar mulheres também. A maioria das mulheres que estão na prostituição hoje começaram quando eram jovens. Então, se uma mulher é explorada aos 12, 13, quando chega aos 18 e não deixa de ser explorada.

No Reino Unido há revista pornô com histórias de praia, corpos, e muitas propagandas de mulheres brasileiras. Ele se encaixa numa mentalidade britânica de colonialismo. O Brasil não foi nossa colônia, mas há um legado de crenças de que em países que não são da Europa, as pessoas estão disponíveis e podem ser tratadas como objetos. É uma mentalidade racista, sexista e ofensiva para brasileiras. Outro exemplo que eu dei sobre a percepção do Brasil é sobre uma revista de pornografia que acabou de ser lançada chamada adolescentes brasileiras gostosas.

Eu dei o exemplo do Brasil, mas há outros estereótipos que são de outras minorias étnicas, há muita pornografia especializada em exploração de pessoas negras e latinas.

Há diferença entre a exploração de mulheres de minorias étnicas, latinas e negras das britânicas e europeias?

Definitivamente, se você é menos poderosa, tem menos direitos, está mais vulnerável para a exploração. Muitos estereótipos do período colonial ainda da estão na mentalidade da América e Europa. Houve muita violência sexual e exploração na era colonial, e muito disso ainda segue no presente, na história dessas mulheres, inclusive por conta de problemas econômicos estruturais, pobreza afetando muitas pessoas. A exploração fica mais fácil quando a mulher é mais vulnerável.

Há abusos de mulheres britânicas também, mas o racismo é muito forte, a indústria é muito forte.

Qual é o limite entre liberdade de expressão e exploração da imagem da mulher.

A liberdade de expressão é um direito humano. Mas quando há outro ser humano que está sendo explorado, torturado, se ultrapassa os limites e há reflexos da escravidão.Há mensagens extremas sobre mulheres, como se elas desejassem ou merecem violência.

Pode falar sobre campanhas da sua organização?

Temos feito campanhas diferentes. Já fomos, por exemplo, de pijamas a um supermercado que vende revistas pornôs. Ás vezes são campanhas curtas, de uma hora no twitter. Ou campanhas para mudar as leis de prostituição. Com mobilização conseguimos mudar a lei que regula os clubes de strip tease. Já conseguimos tirar, em horas, campanhas que geraram indignação. Um deles foi um anúncio publicado em vários veículos durante o julgamento do ex-atleta paralímpico sul-africano Oscar Pistorius, condenado pelo assassinato da namorada, a modelo Reeva Steenkamp, em 2013.

 

Tatiana Merlino é jornalista.



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