“Hoje a tecnologia dita minha música” - Le Monde Diplomatique

Entrevista / Tom Zé

“Hoje a tecnologia dita minha música”

por Maíra Kubík Mano e Silvio Caccia Bava
2 de outubro de 2009
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É impossível entrevistar Tom Zé. Nós, pelo menos, não conseguimos. Entre uma frase e outra, um olhar pela janela e a inquietação evidente, foi o músico quem conduziu a longa e instigante conversa, sem necessariamente responder a todas as perguntas que fizemos

Tom Zé começou falando sobre a relação entre o Languedoc francês e o sertanejo nordestino, passou pela sua obra mais recente e por muito pouco não nos contou seu próximo projeto. “Mulher que fala muito perde logo o seu amor”, disse, justificando o silêncio. Discorreu sobre a música brasileira, as novas tecnologias e sua relação com a Igreja Católica. Por fim, nos levou para conhecer os instrumentos que desenvolveu, como o Buzinório (orquestra de buzinas) e o Enceroscópio (feito de enceradeiras). E, na semana seguinte, ainda nos telefonou para lembrar que fora indicado ao Grammy Latino pelo seu último trabalho. “Achei importante avisá-los, caso queiram colocar na matéria.”

Com 73 anos recém-completados, Tom Zé parece, enfim, satisfeito. Avalia que talvez esteja na melhor fase de sua carreira e continua em sempre busca de novidades, como deixa claro ao longo dessa entrevista exclusiva.


Diplomatique – Qual é o seu olhar, hoje, sobre a sua trajetória e a sua música?


Tom Zé– Tenho um quarto em casa que é chamado “quarto de música”. Quando entro nesse ambiente, não sei no que vou me transformar. O quarto é misteriosamente cheio de versões de espaço, tempo e universo. Se eu chego lá e encontro água, nesse dia eu sou peixe. Se deparo com uma atmosfera habitual, respiro normalmente. Se vejo terra, tenho de ser qualquer coisa como árvore ou petróleo. Se encontro fogo, preciso ser salamandra. Eu não posso fugir do meu quarto. O resultado disso é que acabei sempre fazendo discos que são uma traição a tudo o que fiz antes. São como se eu saísse do zero e não soubesse nada. Como se eu jogasse tudo fora, não por estratégia, mas por não saber ser diferente.

Tudo isso por interesse numa coisa qualquer que passa a ser a minha preocupação. Por exemplo, em 2004 fiz um disco sobre a segregação da mulher. É esse jeito com que convivemos; é uma estratégia terrível e muito semelhante com o que as religiões fazem com a mulher. A mulher, por si só, é uma inimiga basal de toda a religião. É o inferno andando com duas pernas. Se pudessem, as religiões eliminavam do mundo esse mal. O que me matou na minha vida foi que eu tive uma primeira namorada, que, por acaso, gozava. E veja bem, que você não comia namorada naquele tempo.

Depois de muitos anos de intimidade, a gente começava a se tocar de tal maneira que aprendia a provocar essas coisas. E ela gozava. Depois disso, de uma maneira completamente natural, como se as energias corressem dentro dela sem a intervenção da Igreja Católica.

A mulher é uma coisa muito importante na vida. Os psicanalistas que me trataram disseram que eu só me salvei por causa da sensualidade. Há no Brasil uma forma de música, o pagode, que faz muito sucesso e que trata a mulher mal para diabo. Eu, então, peguei o pagode como um elemento a ser utilizado, mas não sabia como fazê-lo. Praticamente tive de jogar fora todo o establishment no qual eu me punha como uma pessoa formada. Quando o disco saiu – eu aproveitei para fazer igual ao Estudando o Samba [indicado ao Grammy Latino de 2009 na categoria cantores-compositores] – em 2005, todo o mundo caiu para trás. “Porra, pagode?”, disseram.

Mas mais radical ainda foi o disco seguinte. Deixe-me explicar: o maestro Júlio Medaglia tinha sido convidado por um rapaz de uma fábrica de som de automóvel para experimentar o equipamento deles. Quando ele sentou dentro do carro e aquela porra tocou, ele descobriu uma coisa que há muito tempo eu sabia: que não escutamos música mais pelo ouvido e pelo cérebro. Agora, ela bate no corpo todo.

Há inclusive um estudo sobre fazer isso intencionalmente e saber, na escala de hertz, qual é a região que bate na barriga, nos órgãos sexuais, no coração etc. Júlio referiu-se àquela experiência como “Mensagem ou massagem sonora?” em uma entrevista à revista Concerto, em 2004. Nesse mesmo ano, Chico Buarque deu uma entrevista dizendo que a canção tinha acabado. Então decidi fazer o disco Danç-Êh-Sá, onde abandonei realmente tudo. Entrei num quarto onde não tinha nada, nem gravidade. Eu tive de inventar os meus termos para a dança dos herdeiros do sacrifício, que no Brasil é coisa ligada ao tempo dos escravos e às revoltas. Na minha maneira de fazer música, cada vez que um ideia acaba de ser escolhida como futuro, eu entro no suicídio e não sei onde vou parar.

Diplomatique – De suicídio em suicídio?


Tom Zé – De suicídio em suicídio.

Diplomatique – Você está praticando um novo suicídio agora?


Tom Zé – Não está escolhido ainda. Na Bahia há um provérbio que diz “mulher que fala muito perde logo o seu amor”. O homem também perde. E isso se estende ao trabalho artístico. Uma ideia precisa de silêncio. Ela só cresce no recolhimento e no segredo. No princípio, não pesa nada, é uma coisa que passa como um raio, você precisa até segurar. E aí ela começa a tomar forma. De repente, depois de uma semana de trabalho, vira uma célula. Se você contar nessa etapa, está ferrado: ela pode se esvair. A ideia não gosta que se fale nela. Aí você toma anotações e depois de umas três semanas, ela começa a ter um lugar no cérebro. A toda hora você quer consultá-la. Então, você começa a fazer correlações com isso e aquilo, e ela vai crescendo, se torna um ser bicelular. Se você continuar trabalhando, ela vai passar de duas células para quatro, de quatro para oito e tal. Esse é o meu método de trabalho. Depois de seis meses, eu converso com Neusa, minha esposa, que já é quase meu alter ego. Aí procuramos um lugar para estudar a ideia e, um dia, ela começa a ser prototexto. Agora eu tenho uma ideia em que estou quase embarcando, mas eu não posso dizer. Dá a maior vontade de falar!

Diplomatique – Essas ideias necessariamente viram músicas? Ou podem se tornar livros e outras criações afins?


Tom Zé – Eu nunca tive vocação para música. O que eu pratico em música poderia fazer em alguma outra coisa como fotografia e literatura. Passei seis anos estudando música erudita na Universidade da Bahia, que era uma escola sofisticadíssima. Saí de lá sabendo o que eu precisava, mas não escrevi muitas músicas. A última foi “porque é made, made, made, made in Brasil” (Parque Industrial). Depois, nunca mais

Diplomatique– Esta é sua melhor fase?


Tom Zé – Sem dúvida! Bom, 73 anos é uma idade muito avançada. Eu tive um golpe de envelhecimento muito interessante agora e percebi que há um limite. O interesse não acaba nunca, mas as ligações entre os neurônicos talvez possam falir antes. Tem aquele provérbio que diz “o lobo perde o pelo, mas não perde o vício”. Isso é sobre os homens que são eternamente mulherengos. E, de certo modo, é semelhante com a pessoa que gosta de trabalhar: ela perde as células, mas não a vontade.

Recentemente lancei Estudando a Bossa, meu último disco e estou uma fase maravilhosa depois dele. Alguns colegas, quando viram o álbum, disseram: “O quê? Tom Zé Estudando a Bossa? Agora ele vai cair do cavalo”. Ou seja, acharam que eu ia me dar mal porque nunca soube fazer Bossa Nova. E saiu um disco maravilhoso, o melhor da minha vida.

Diplomatique – O que você está achando da música brasileira hoje?


Tom Zé – Há muita mudança. E mudança não precisa de opinião de ninguém. Não precisa de nenhum sábio para endossar o cheque. Essa alteração é principalmente de ordem tecnológica. Aliás, as mudanças, toda a vida, foram tecnológicas. Um exemplo: João Gilberto. Ele treinou canto no banheiro da casa dele, lá no norte da Bahia, fronteira com Pernambuco, em Juazeiro. O construtor da sua casa deveria ser o mesmo que fez a de Arquimedes, o homem que saiu do banheiro gritando “Eureka, eureka”. Esse cara deveria receber uma estátua em algum lugar. O fato é que João Gilberto, no banheiro, entendeu o problema da vocalização. Ele conseguiu compreender a questão e fundou algo que o mundo nunca tinha experimentado.

Desde o século XIV a humanidade experimentou a voz preparada, principalmente com os eunucos. Aí, João Gilberto, por conta própria, fez uma nova versão do aparelho vocal que Deus tinha legado para o ser humano. Olha que filho da puta! Dentro do banheiro dele, colocou a voz mais nasal e trouxe sua afinação maravilhosa. “Um cantinho, um violão…” E o que surgiu para fazer parceria com ele?

O microfone dinâmico. Se não fosse isso, João Gilberto não existia. No microfone comum, sua voz nunca seria audível. Segundo McLuhan, se não fosse a televisão, John Kennedy não teria sido presidente. O mesmo ocorreu com João Gilberto.

Diplomatique – Qual é a tecnologia que combina com você?


Tom Zé – No disco Danç-Êh-Sá, cujo subtítulo era “a canção acabou”, eu tentei pegar todas essas coisas colocadas à disposição agora. Mas fui malsucedido nessa parte. Tenho agora uma pessoa que trabalha comigo e alguns parceiros muito jovens, e juntos estamos analisando qual é a tecnologia que vamos precisar e depois a procuraremos. Portanto, eu mudei completamente a estratégia do mecanismo de fazer um disco. A minha tecnologia agora é essa: procurar quem está interessado nesse futuro que acaba de nascer nas grandes fábricas da França, da Noruega e dos Estados Unidos. Vejam como é interessante o trabalho do artista. Eu começo com o quê? Com música? Não. Eu começo por achar a pessoa que possa trazer as novas tecnologias para mim.

Diplomatique – E como você disse, é preciso lembrar que a música agora é ouvida pelo corpo todo.


Tom Zé – É, são muitos detalhes novos. Nós, às vezes, ainda temos o hábito velho, antigo, daquela coisa grega, aristotélica, de ouvir música pelo ouvido e pela mente. Tem um episódio gozadíssimo. Há algum tempo uns repórteres me contaram, indignados, sobre uma moça que entrou em uma loja de discos que tocava Tom Jobim, nosso deus sagrado da música aristotélica, e disse: “Que porcaria é essa?”.

Narraram-me a história como se a frase da moça fosse a maior blasfêmia que uma pessoa pudesse cometer. Não é não. Do ponto de vista dela, isso não é uma blasfêmia, caso esteja acostumada a ouvir música no diafragma, no peito, nas pernas, na bunda, nos órgãos sexuais, no braço etc.

Diplomatique – Será que essa nova música vai juntar todas as partes do corpo separadas pela sociedade?


Tom Zé – Ahá! Realmente, a Igreja Católica está ferrada. Eu me lembro de um filme do Luis Buñuel em que uma senhora jovem, de estirpe refinada, dizia ao padre que o marido queria ir ao seu quarto duas vezes por mês. E o religioso respondia: “O quê? Seu marido pelado? Não é possível! Isso é um exagero! Uma vez por mês já é bastante e nunca por prazer, só para procriar”. Demonstra-se aí como a Igreja Católica separou a mulher da humanidade e de seu corpo. Afinal, o prazer sexual é de ambos, e se o homem vai lá pra gozar, a mulher vai para quê? Para procriar? Que porra de condenação é essa? Agora eles estão ferrados: a tecnologia vai reunir o que a moral separou. A Igreja Católica vai fazer o mesmo papel daquela mocinha que canta “tô ficando atoladinha, tô ficando atoladinha”, que é o maior pronunciamento de liberdade que já aconteceu, mesmo na cultura e na contracultura. Essa música é um marco na camada mais baixa da sociedade. Aliás, esse é um aspecto importante da música brasileira: de repente, os pobres e excluídos dão uma mensagem que nenhuma cabeça foi capaz de pensar, na voz de uma menina cantando “tô ficando atoladinha”. Isso é um metarrefrão microtonal e plurisemiótico. É um negócio dos mais importantes que aconteceram no século XX.

Por que é um metarrefrão? Porque na hora em que você o fala, imediatamente todo o mundo sorri. Por que as pessoas sorriem? Porque convocam todos os refrões do mundo para comparar e descobrem que “tô ficando atoladinha” é melhor.

E por que é microtonal? Porque o papa Gregório I, no princípio do século IX, proibiu a música microtonal, que era cantada nas catacumbas de Roma antes de os católicos serem aceitos pelo Império Romano. Era uma música de meditação. Nos últimos 100 anos duas pessoas desobedeceram ao papa: uma foi um nobre italiano chamado Giacinto Scelsi, que fez música microtonal para orquestra; o outro, um camarada chamado MC Bola de Fogo. É ainda uma metáfora maravilhosa porque na hora em que a vocalista canta o refrão, ninguém pensa que uma pessoa está “ficando atoladinha”, sabem que são os fluidos, os líquidos da vida sexual que estão correndo livres nela. Isso é plurisemiótico. Primeiro, por causa de uma semiótica que começa com uma metonímia. Depois, porque é também um desafio, uma liberdade inesperada de uma mulher no comando de um ato sexual.

Diplomatique – O funk da periferia é novidade então?


Tom Zé – Há vários aspectos. É, por exemplo, nossa resposta à violência do suicídio americano, daquelas famílias que precisam enviar seus filhos para lutar por coisas completamente sem razão de ser como é a guerra no Iraque. Os Estados Unidos declaram uma guerra a cada dia e tornam o mundo violento ao ponto de as pessoas pensarem que suas vidas não valem nada. Elas então fizeram algo também violento, o funk, que é grosseiro e contrário à mulher. O funk da periferia também é uma manifestação da escolaridade daqueles que são alfabetizados pela violência da televisão. É a educação mais comum na vida deles. O curso primário é a televisão, a violência, o crime e a desvalorização da vida.

Quem quer isso? Os Estados Unidos. E talvez, a Grã-Bretanha. O resto do mundo, mesmo provinciano e experimentando o capitalismo selvagem, ainda procura alguma coisa de humano. Você sabe que uma moça, pra entrar num baile funk, tem de assinar um documento dizendo que permitirá que façam com ela qualquer coisa que quiserem – em termos sexuais, naturalmente. Qualquer coisa. Pois foi nesse lugar que apareceu o maior rasgo de defesa da mulher: o foi esse refrão “tô ficando atoladinha”, que é realmente uma coisa linda.


Diplomatique – Você tem trabalhado em parcerias?


Tom Zé – É difícil. No último disco trabalhei com o Arnaldo Antunes porque ele já tinha me procurado. Arnaldo é uma criatura gozada. No meio musical tem duas ou três pessoas com uma ética encantadora e ele é uma delas. Na hora de terminar o disco eu tinha letras que pensei que não ia ter tempo de fazer a música, então pedi a ele. Esse disco tem quatro parcerias. Numa, eu modifiquei tanto, que só deixei um verso dele.

Mas é uma parceria porque ele foi quem deu a ideia de como deveria ser aquilo. E eu não tinha tempo de chamá-lo para modificar. Ele nem ligou, nem se lembra do que tinha feito. Ele trabalha com milhões de pessoas, faz muitas parcerias. E eu também, mas com os moleques que estão interessados em determinado tipo de tecnologia.

Diplomatique – Você deve estar satisfeito com sua trajetória na música.


Tom Zé – É, realmente, estou muito satisfeito. Às vezes fico preocupado. Agora, por exemplo, com essa crise, todo o mundo trabalhou tão pouco… De vez em quando eu falava para a Neusa: “Não é possível. Nós fizemos juntos coisas que nem um batalhão podia fazer. Vamos ter calma. É inacreditável o que conseguimos fazer com os poucos recursos que tínhamos”. E também só é possível fazer com poucos recursos. A eubiose, um ramo do esoterismo, diz que é muito importante ser pobre agora, nesse momento da vida universal. Eles querem dizer que é a única situação em que você tem chance de trabalhar em alguma coisa, que você tem tempo e não tem a preocupação que o rico tem, conseguindo apreciar o que o universo está fazendo.

 

*Maíra Kubík Mano é jornalista, foi editora de Le Monde Diplomatique Brasil e atualmente é docente do Bacharelado em Gênero e Diversidade da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Silvio Caccia Bava é diretor e editor-chefe do Le Monde Diplomatique Brasil.



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