Ideologia, bases sociais e as perspectivas do bolsonarismo

OS EFEITOS DA PANDEMIA E DA VOLTA DE LULA

Ideologia, bases sociais e as perspectivas do bolsonarismo

por Vinicius do Valle
1 de abril de 2021
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A parcela militante de extrema direita é minoritária socialmente e muito inferior ao total de pessoas que dizem apoiar o governo

Bolsonaro busca estimular o caos social para uma ruptura democrática e conta com a cumplicidade e inação de parte do Congresso

Durante a pandemia, as condições econômicas, políticas e sociais passaram por mudanças importantes. O desemprego cresceu, o auxílio emergencial rendeu popularidade ao presidente, assistimos a conflitos na coalizão bolsonarista, investigações evidenciaram a corrupção no seio familiar presidencial, Trump foi derrotado e, finalmente, Lula teve suas condenações anuladas. Não temos ainda claro o que isso implicará para o bolsonarismo, mas é possível observar padrões e construir alguns cenários

No dia 4 de março, em meio a um evento no estado de Goiás, o presidente Jair Bolsonaro comentou as estratégias de combate à pandemia no país. Sem rodeios e ao seu estilo, vociferou: “Chega de frescura, de mimimi. Vão ficar chorando até quando?”.

Minutos após a declaração, o vídeo da cena ganhava milhares de compartilhamentos nas redes sociais, gerando revolta e indignação. A frase também ganhou repercussão nos principais jornais do mundo. Vale constar que, na véspera do dia em que a frase foi proferida, batíamos o recorde diário de mortes na pandemia até então, com 1.840 óbitos, e os hospitais de várias regiões do país anunciavam a lotação total dos leitos de UTI e o início de uma situação de colapso. Como entender que, no pior momento sanitário, uma declaração como essa fosse proferida?

Argumentei, em outros dois textos publicados pelo Le Monde Diplomatique Brasil no último ano,¹ que as ações de Bolsonaro não são aleatórias e que, apesar de num primeiro olhar não fazerem sentido, trazem em si uma racionalidade – perversa, mas, ainda assim, uma racionalidade. As ações do presidente durante a pandemia não fogem a essa regra e, como confirma uma pesquisa realizada pela ONG Conectas e pelo Centro de Pesquisas e Estudos de Direito Sanitário (Cepedisa), da Faculdade de Saúde Pública da USP, não podemos falar de incompetência na gestão sanitária nacional, e sim de uma estratégia articulada de ação governamental para a disseminação da doença.

Mas qual é a racionalidade por trás de tantos absurdos?

Representando uma política de extrema direita, Bolsonaro se postula a todo momento como antissistema e como agente mobilizador de um movimento que, para seus seguidores, busca resgatar a moral social, salvar o país e exterminar o que seriam os “inimigos da nação”. No bojo de apoiadores mais fiéis cabem o movimento antivacina, o movimento terraplanista, os conspiracionistas do QAnon (uma teoria da conspiração forjada em fóruns da internet) e até certos grupos supremacistas, aos quais o governo e o presidente, a despeito de não incorporarem suas pautas – ao menos de forma explícita –, se preocupam em não desagradar e em se manterem entre eles como uma referência. Já de forma explícita e verbalizada, o governo assume duas teorias conspiratórias, constitutivas da visão difundida pelo escritor Olavo de Carvalho e que muito se relacionam e lhe servem de referência ideológica. A primeira é a teoria da hegemonia esquerdista no mundo, que postula que os valores de esquerda teriam se espalhado pela sociedade e pelas instituições e dominariam o planeta. Entre esses valores estariam o feminismo, a “ideologia de gênero” e os ideais de direitos humanos que inspiram os movimentos antirracistas, indígenas e LGBTQIA+. A segunda teoria é a do globalismo, que denuncia uma elite global que controlaria o mundo com base em seus valores. Essa elite seria composta por grandes corporações, ONGs, universidades, organizações internacionais como a ONU e representantes de governos. Esses grupos globalistas espalhariam a hegemonia esquerdista no mundo e, se pudessem, instalariam uma ditadura mundial. Tais teorias são compartilhadas entre aqueles que integram o que podemos chamar de “grupo militante” da base de apoio do presidente – uma fração ainda difícil de ser quantificada com precisão, mas certamente menor do que os cerca de 40% que ainda dizem apoiar o governo, ou mesmo os 30% que avaliam a gestão federal como boa ou ótima nas pesquisas. Essa porção militante seria o que efetivamente poderíamos chamar de base social da extrema direita no Brasil. Fortemente mobilizada, essa fração toma adversários políticos como inimigos, mostra disposição para o conflito e para a regulação dos corpos e da sexualidade e cultua um líder visto como mito. Essas características nos remetem ao que há de mais sombrio na história – o fascismo. 

Considerando o fascismo um fenômeno não meramente histórico – circunscrito nas décadas de 1930 e 1940 e manifestado em determinados países sob certas condições –, e sim um fenômeno estrutural, definido como um ordenamento do Estado e dos afetos, as aproximações e paralelos com o que vemos no Brasil atual são inevitáveis. Theodor Adorno é um dos autores que, dessa perspectiva, fornece preciosas pistas para o presente. Na obra Estudos sobre a personalidade autoritária, publicada em 1950 por Adorno junto de outros acadêmicos da Faculdade de Berkeley, é proposta a Escala F (de fascismo), baseada em nove indicadores, construídos graças a um extenso questionário que mapeava os valores dos respondentes. Não é preciso muito esforço para constatar que várias das características psíquicas associadas por eles ao fascismo – por exemplo, a agressividade a minorias, a reação contrária ao que remete ao pensamento complexo e às subjetividades e a preocupação com atos sexuais alheios – estão fortemente presentes no ambiente social brasileiro. 

É possível também, de acordo com Adorno, em Teoria freudiana e o modelo fascista de propaganda, ver paralelos na forma como os líderes fascistas do século passado e Bolsonaro constroem sua imagem e veiculam suas ideias para o público. Tal construção ocorre não por meio da identificação racional, mas por meio de um apelo às pulsões psíquicas primitivas. A escassez de ideias é, nesse sentido, parte imprescindível da técnica de identificação que se dá pela reiteração da exposição de um líder que seria, ao mesmo tempo, todo-poderoso e comum. O apelo bolsonarista às armas e aos seus símbolos, às frases de efeito grosseiras, ao deboche, às piadas sobre a virilidade sexual, à estética pitoresca caem aí como uma luva.

Também fazendo uso da teoria psicanalítica freudiana, na obra A dialética do esclarecimento, Adorno e Max Horkheimer retratam, na última seção do livro, o fascismo como uma paranoia, que teria como pano de fundo a rejeição e o desejo de aniquilação da diferença e do diferente. A paranoia é entendida pelos autores com base na conceitualização freudiana, como uma falsa projeção, um delírio que produz uma interpretação do mundo a qual nenhuma prova de realidade, nenhuma evidência empírica ou experiência pode quebrar. Se tal caracterização serve para descrever parte da base bolsonarista, isso significa que as tentativas de diálogo e convencimento racional por parte das camadas progressistas com essa fração são inúteis. 

Expus nos já citados textos anteriores publicados aqui no Le Monde Diplomatique Brasil que Bolsonaro mobiliza essa fração e tenta aumentá-la por meio de uma estratégia de guerra de movimento, com mobilização constante, sobreposição de temas e ataques incessantes a tudo e a todos que correspondem ao seu alvo. Nessa guerra simbólica, criam-se narrativas distintas, em que inimigos poderosos – sempre ligados à esquerda e ao establishment – estariam atacando o Brasil, que, por sua vez, precisaria ser salvo pela força e moral do presidente e de seus apoiadores. Nessa cruzada imaginária, Bolsonaro é retratado como uma ameaça aos interesses de dominação dos poderosos e, dessa forma, sofreria todo tipo de perseguição – principalmente da imprensa e das instituições, tidas como sempre corruptas. A racionalidade, portanto, estaria na lógica bolsonarista de mobilização constante, mantendo um grupo ao redor de si – e, graças a ele, garantindo sua relevância e força. Suas declarações durante a pandemia podem ser vistas com esse fim, e, quanto mais irônicas, mais funcionam, pois, além de gerarem efeito mobilizador para sua base, elas despertam sentimentos repulsivos entre seus detratores, alimentando sistematicamente o conflito. O que o presidente mais quer, nesse sentido, é receber ataques, para poder revidá-los num ciclo contínuo.

(Fábio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil)

Para além dos militantes: a extensão do bolsonarismo

É preciso não perder de vista que a parcela militante de extrema direita é minoritária socialmente e muito inferior ao total de pessoas que, ainda que com reticências, dizem apoiar o governo. Em artigo recente em que analisa a virada à direita no Brasil, o cientista político André Singer, considerando dados de pesquisas eleitorais, argumenta que a sustentação e o voto em Bolsonaro se deram não por um aumento exponencial da extrema direita na última década, mas pelo apoio de quem se autodenomina simplesmente como direita.² Parte desse contingente já havia, inclusive, apoiado o PT nos anos lulistas. Entender essa parcela, os motivos de seu apoio a Bolsonaro e os possíveis efeitos que as mudanças recentes na conjuntura têm gerado a ela pode ser fundamental para uma alteração na configuração política do país.

Nesse sentido, tenho argumentado que o discurso bolsonarista, ainda que de forma dispersa, encontra eco para além da esfera militante. Entre grupos de empresários, ruralistas, madeireiros e mineradores, ele é sustentado pelo desejo de desregulamentações às suas atividades, o que envolveria a supressão de direitos trabalhistas, da legislação ambiental e dos direitos de grupos específicos, como os indígenas. Descendo a pirâmide social, o bolsonarismo também ecoa em pequenos comerciantes afetados pela pandemia, em policiais contrários à pauta de direitos humanos, em evangélicos contrários ao feminismo e aos direitos LGBTQIA+ e em profissionais uberizados – que compartilham a ideologia do progresso como simplesmente ligado ao esforço individual. Temos, dessa forma, um apoio que atravessa diferentes classes sociais, o que dificulta a disputa desse segmento pela dinâmica política e discursiva da esquerda, que tem como base a clivagem entre ricos e pobres e o combate às desigualdades.  

 

Pandemia, volta de Lula e o cenário eleitoral

Durante a pandemia do coronavírus, enquanto o bolsonarismo se radicalizou, as condições econômicas, políticas e sociais passaram por mudanças e reviravoltas importantes. O desemprego cresceu, e o conflito entre saúde e economia se manifestou como uma realidade para os trabalhadores sem condições materiais de realizar o isolamento. Ainda na esfera econômica, houve o auxílio emergencial, que, embora articulado pelo Congresso, rendeu ao presidente um aumento de popularidade. Politicamente, assistimos a conflitos na coalizão bolsonarista, que fizeram antigos aliados, como Sérgio Moro e Luiz Henrique Mandetta, se tornarem inimigos políticos do presidente. Também tivemos avanços nas investigações que evidenciaram práticas de corrupção no seio familiar presidencial. Internacionalmente, Bolsonaro perdeu sua principal referência, com a derrota de Donald Trump nos Estados Unidos. Finalmente, no último mês, em uma reviravolta política e jurídica, Lula teve seus processos na Operação Lava Jato transferidos de Curitiba, o que anulou suas condenações e o tornou elegível. Não temos ainda claro o que toda essa movimentação implicará para o futuro do bolsonarismo, mas é possível observar padrões e construir alguns cenários.

O primeiro elemento a considerar é que todos esses eventos não fizeram que o presidente efetivamente se moderasse. Se houve períodos de trégua no uso do Poder Executivo para o confronto institucional, ensaios de moderação no discurso e tentativas de melhorar o diálogo com o Congresso – com a aproximação ao chamado “Centrão” –, é preciso também reconhecer que esses movimentos se mostraram meramente estratégicos e momentâneos, servindo como espaços de fôlego para novas investidas de enfrentamento por parte do bolsonarismo. 

Já no plano econômico, os sinais são menos inequívocos: ao mesmo tempo que o governo promoveu uma pauta de desregulamentação e tolhimento dos direitos, também instituiu o auxílio emergencial e, por vezes, flertou com a possibilidade da instauração de políticas de cunho desenvolvimentista. Caso optasse por tais políticas, promovendo incentivos estatais para a recuperação econômica e o resgate das camadas vulneráveis, Bolsonaro certamente aumentaria sua popularidade e penetração entre os mais pobres, o que poderia lhe dar melhores condições eleitorais, principalmente contra Lula. No entanto, essa escolha queimaria pontes do bolsonarismo com o mercado, que cobra do governo rigor fiscal e controle nos gastos sociais. Até agora, o presidente vem demonstrando mais inclinação para manter o alinhamento ao mercado e às exigências fiscais do que para reforçar o investimento público e a reação econômica. Para se deslocar do pífio desempenho econômico subsequente, sua estratégia é culpar o isolamento social e os governadores e prefeitos, o que ainda reforça o ambiente de confronto ao qual é tão habituado e tensiona as instituições que tanto busca destruir.

Nessa conjuntura, considerando que as eleições de 2022 aconteçam normalmente, as perspectivas para os progressistas ainda são muito incertas. Em entrevistas realizadas com eleitores bolsonaristas das camadas de renda C e D em 2020, como parte de pesquisas coordenadas pelas pesquisadoras Esther Solano e Camila Rocha, identificamos elementos que indicam tanto um descontentamento com certas práticas do presidente – por exemplo, suas declarações polêmicas e sua gestão da pandemia – quanto ainda um forte antipetismo e rejeição a outras alternativas eleitorais, o que pode dar sobrevida ao bolsonarismo. 

Nesse quadro, a recente reintrodução de Lula no cenário eleitoral, apesar do efeito imediato de geração de esperança entre os progressistas e das reações de preocupação no governo, deve ser vista com cautela. Embora Lula tenha importante penetração em setores populares e uma imensa habilidade para aglutinar diferentes segmentos políticos em torno de seu nome, o antipetismo ainda é uma força que não pode ser ignorada no Brasil e que tende a ser fortalecida com sua presença. Além disso, a figura do ex-presidente traz as condições ideais para o reforço da dinâmica de conflito que alimenta o bolsonarismo. Cabe dizer também que, a despeito de Lula ser o nome de esquerda com maior penetração para além das bolhas progressistas, ainda não sabemos como sua imagem pode ser atingida em um contexto de forte uso da internet para construção de narrativas alternativas e fake news

Por fim, vale dizer que, além das incertezas e da necessidade de cautela relacionada ao quadro eleitoral, o cenário político não permite garantir que as eleições de fato acontecerão – nem sequer que, caso aconteçam, Bolsonaro aceitará o resultado de uma eventual derrota. A esta altura dos acontecimentos, não é exagero nem deve surpreender a constatação de que Bolsonaro busca estimular o caos social para uma ruptura democrática e que, para tal, conta com a cumplicidade e inação de parte do Congresso. Por tal motivo, ao mesmo tempo que se organizam para 2022, inclusive dando a devida importância para a eleição de uma grande bancada democrática, os progressistas não devem deixar de pressionar pelo afastamento do presidente, ou ao menos pela garantia de que as eleições serão justas e válidas. São tarefas difíceis, mas imprescindíveis.

 

*Vinicius do Valle é doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo e autor, entre outros trabalhos, de Entre a religião e o lulismo: um estudo com pentecostais em São Paulo, publicado pela editora Recriar (2019).

 

[1] “Bolsonaro e a estratégia do caos” e “O arsenal bolsonarista: conflito e caos como métodos da ação política”, Le Monde Diplomatique Brasil, 2 e 29 abr. 2020.

[2] André Singer, “A reativação da direita no Brasil”, versão preprint disponível em: http://cenedic.fflch.usp.br.



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