Imperialismo francês na conquista da África - Le Monde Diplomatique

Pós-Colonialismo

Imperialismo francês na conquista da África

Edição - 21 | África
por Thomas Deltombe
5 de abril de 2009
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Em 20 anos, o continente africano tornou-se um dos pilares do conglomerado de Vincent Bolloré. Com 19 mil assalariados, 200 agências em 43 países e instalações altamente estratégicas, como portos, transportes e plantações, o empresário francês age como um imperador e conta com o total apoio do governo Sarkozy

“Para nós, as mídias, ele oferece a
imagem perfeita do herói contemporâneo.
Ao se reconciliar com os cavalheiros
da indústria, ele nos fará esquecer a crise.”

Reportagem da TF1 sobre Vincent Bolloré (1986)1.

Durante muito tempo, a mídia francesa se sensibilizou com o rosto infantil de Vincent Bolloré. O “pequeno príncipe do cash flow” encarnava o empresário conciliador da paz social e da rentabilidade financeira. Mas a imagem do golden boy sofreu arranhões. As operações da bolsa nos anos 1990, em particular contra o grupo Bouygues, lhe valeram uma reputação de “canibal” dos negócios. A partir daí, rodeado por suspeitas, traições e conivências, o anjo bilionário tornou-se, para uma parte da imprensa, um demônio2.

Eis que agora vem à tona outra faceta de Vincent Bolloré: as atividades de suas empresas na África. Em 20 anos, o continente africano – que representa um quarto de seu montante de negócios oficial, avaliado em 6,4 milhões de euros em 2007 – tornou-se um dos pilares de um grupo do qual ele foi, por muito tempo, “o lado oculto”. Com 19 mil assalariados, 200 agências divididas em 43 países e instalações altamente estratégicas (portos, transportes, plantações), Bolloré agiu ali como um imperador que conquista com seus jogos de influência, sejam políticos ou midiáticos.

A batalha que mais fez barulho nos meios de comunicação foi a relativa aos portos africanos. O grupo Bolloré é proprietário de várias companhias que fizeram fortuna no período colonial. As duas principais são a Sociedade Comercial de Fretes e de Combustíveis (SCAC), comprada em 1986 e fundida em seguida com outros ramos do grupo, dando origem à SDV Logística Internacional; e a SAGA, comprada em 1997 após uma série de intrigas. Além disso, Bolloré aproveitou a onda de privatizações imposta aos países africanos pelas instituições financeiras internacionais para obter a concessão de infraestruturas estratégicas.

No que diz respeito às instalações portuárias, o empresário francês arrebanhou, em apenas cinco anos, a gestão de vários terminais em concessão: Duala (Camarões), Abidjan (Costa do Marfim), Cotonou (Benin), Tema (Gana), Tincan/Lagos (Nigéria) e, mais recentemente, Pointe-Noire (Congo). Em conexão com 200 agências dispostas em cerca de 40 países africanos, a gestão dos portos garante um perigoso domínio sobre o continente. Sob a marca Bolloré Africa Logistics, criada em setembro de 2008, o grupo tornou-se a “primeira rede logística integrada na África”3. Mas por trás dos comunicados exultantes existe uma verdadeira guerra política e econômica em torno dos portos africanos.

Assim, para ganhar a concessão do porto de Dakar em 2007, Bolloré utilizou-se de todos os seus meios de influência. Além de sua aparição ao lado de Nicolas Sarkozy, mobilizou Alain Madelin e François Léotard para apoiarem seu dossiê, e encarregou Arnaud Lagardère de desencorajar seu principal adversário, a Dubai Ports World (DPW), dos Emirados Árabes Unidos4. Além disso, dedicou ao presidente senegalês um programa especial no canal de televisão de seu grupo, Direct 8, e a primeira página de seus jornais gratuitos, Matin Plus e Direct Soir.

No entanto, em outubro de 2007, a gestão do terminal portuário de Dakar acabou nas mãos da DPW. Embora tenha contestado secretamente essa concessão, Bolloré não deixou de mostrar, diante da imprensa, o sorriso dos bons jogadores. E entoou o refrão liberal: o fracasso senegalês não demonstraria que, longe de fugir, do que sempre fora acusado, seu grupo faz o jogo da concorrência correta? Não seria a prova de que não há, nem no Senegal nem em outros lugares, uma “reserva de caça” para as multinacionais francesas5? “Se ganhamos, ganhamos, se perdemos, perdemos. É a vida dos negócios”, concluiu6, filosoficamente.

O sorriso forçado de Bolloré se explica por outra guerra, mais surda e ainda mais violenta. A que o opõe a outro de seus concorrentes, a Progosa. A briga, fratricida, dura vários anos no campo de redes político-especuladoras. O dono da Progosa, Jaques Dupuydauby, é o antigo dirigente da SCAC e foi afastado quando Bolloré retomou a empresa, em 1986. Após ter passado pela Bouygues, grupo aliado a Bolloré durante certo período, Dupuydauby se opôs novamente ao homem de negócios francês pela gestão dos portos africanos, principalmente no Togo.

Cobiça e disputas

A concorrência aguerrida entre os dois transformou-se rapidamente em guerrilha judiciária, na Europa e na África, antes de tomar ares de conflito entre clãs: enquanto Bolloré é considerado próximo ao presidente Sarkozy, a Progosa seria povoada por amigos de Jacques Chirac7. Eis então que no meio da guerra midiática e da espionagem político-econômica, um antigo policial afirma ter investigado um colaborador de Dupuydauby, a pedido da sociedade de inteligência econômica Geos, dirigida por Bolloré8.

Se os portos africanos são tão cobiçados é porque representam inestimáveis fontes de poder político e econômico. É especialmente graças a eles e, sobretudo, às suas alfândegas, que muitos Estados enchem os caixas. Também é por meio deles que se controlam os fluxos de entrada e saída do continente. “A África é como uma ilha, ligada ao mundo por mares”, explica um antigo membro do grupo Bolloré. “Portanto, quem tem os guindastes, tem o continente9!”, diz. O que está em jogo ganha ainda mais importância diante da chegada de novas potências ao continente, com a China à frente desse processo.

Muito bem estabelecido nos setores de logística, trânsito e transporte de mercadorias, o grupo Bolloré atinge regularmente resultados recordes. “No oeste africano, nossa fatia no mercado de matérias-primas, em especial cacau de algodão, varia entre 50% e 70%”, afirma Dominique Lafont, diretor-geral do grupo no continente. “Já no leste africano, essa variação é de 15% a 30%, mas nós somos os primeiros operadores”, explica ele. O conglomerado multiplicou também os contratos no campo da logística petrolífera, mineral e industrial, fazendo parcerias com a Total em Angola, nos Camarões e no Congo; com a Areva, em busca do urânio do Níger; nas minas de ouro de Burkina Faso e nas centrais elétricas de Gana.

A estratégia de Bolloré é colocar em ação suas redes a fim de ganhar os mercados. “Nós conhecemos todos os ministros”, atesta
o diretor-geral do grupo Gilles Alix. “São amigos. Então, de tempos em tempos, quando não são mais ministros, lhes damos a possibilidade de se tornarem administradores de uma de nossas filiais. É para preservar seu prestígio. Assim, um dia eles podem voltar a ser novamente ministros10”, declara Alix. No Gabão, o grupo, que ambiciona comprar a mina de ferro gigante de Belinga, a ser explorada pelos chineses, colocou a filha do presidente Omar Bongo, Pascaline, à frente da Gabon Mining Logistics, sua filial. Graças a esses vários apoios de poderosos amigos, Bolloré caminha em harmonia, na mais pura tradição da França africana.

O mais conhecido dos influentes franceses recrutados pelo grupo é, sem dúvida, Michel Roussin, um dos “senhores da África” há mais de dez anos. Roussin destacou-se em 1997 com o livro A África, numa coleção dirigida pelo cunhado de Bolloré, o antigo ministro Gérard Longuet11. Mas foi principalmente enquanto antigo alto-funcionário dos serviços secretos franceses, homem de confiança de Jacques Chirac e ex-ministro da cooperação de Edouard Balladur, que Michel Roussin, vice-presidente do Movimento das Empresas da França (Medef), chamou a atenção de Bolloré.

É difícil separar as múltiplas conexões que existem entre o grupo, digno herdeiro dos trustes coloniais e das redes franco-africanas, e os responsáveis políticos franceses. Como outros conglomerados, o grupo de Bolloré se beneficia do apoio dos poderes públicos: o Presidente da República e alguns ministros já foram à África para agir como seus lobistas junto aos homólogos locais. Se as amizades de direita são conhecidas, também é notória a participação do deputado socialista Jean Glavany, ao lado de Alain Minc, no comitê estratégico do grupo.

Além disso, as atividades de Bolloré na África se beneficiam, indiretamente, de certos programas de ajuda pública para o desenvolvimento de infraestrutura e, diretamente, de contratos estatais. Esses últimos referem-se a “somas residuais”, segundo Bolloré, e dizem respeito “unicamente aos setores onde ninguém quer se aventurar, como o transporte, onde somos os únicos. Tudo isso representa algumas dezenas de milhões de euros, isto é, menos de 1% de nosso montante de negócios12”. Ainda que sejam “residuais”, esses contratos públicos dependem, em geral, de interesses estratégicos. Quando a França envia – ou repatria – tropas na África, as filiais tentaculares do grupo Bolloré se mostram, muitas vezes, indispensáveis. “Todas as operações são realizadas com a mais absoluta segurança e sigilo”, lê-se impresso sobre imagens de carros blindados em um prospecto distribuído pelo setor de segurança da SDV13.

Com frequência, a Organização das Nações Unidas também solicita o apoio do grupo, quando envia soldados para algum país africano, como o Chade. No Sudão, país petrolífero destruído por anos de violência, a companhia de Bolloré realizou negócios frutíferos na logística humanitária e no setor petrolífero14.

O aspecto “humanitário” de sua atividade é bastante alardeado, ao contrário de suas ligações. Bolloré manteve excelente relação, por exemplo, com Denis Sassou Nguesso, quando, no final dos anos 1990, este voltou ao poder no Congo por meio de um golpe de Estado e de uma violenta guerra civil15, mas isso não é lembrado. As ligações com Charles Taylor, no mesmo período, também são obscuras. Assim, em 1998, a sociedade belga Socfinal, da qual Bolloré é um dos principais acionistas, obteve a concessão de uma imensa plantação de seringueiras no mesmo momento em que Taylor tomava o poder à força na Libéria.

Taylor se justificava: “Não há privilégios. Acontece simplesmente que os homens de negócios franceses vieram nos ver antes dos outros. Correram riscos. O que explica que eles tenham hoje uma vantagem. Trata-se de ‘business as usual’. No fundo, os homens de negócios não têm nacionalidade. Vindos da França ou de outros lugares, todos se interessam – e é muito normal – pela madeira, pelo minério de ferro, pelo ouro e pelos diamantes da Libéria16”.

A proximidade entre o conglomerado e o regime liberiano ficou novamente em evidência em 2001, quando várias associações acusaram Bolloré de participar do tráfico de madeira que Taylor organizava para financiar a guerra de desestabilização na vizinha Serra Leoa.

Agora, uma nova polêmica envolvendo a República Democrática do Congo (RDC) pode prejudicar um pouco mais a imagem de Vincent Bolloré. A questão se baseia nos relatos de um grupo de especialistas, fornecidos a pedido do Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU), sobre “a exploração ilegal” dos recursos naturais da região. A preocupação é decorrente da ligação entre o comércio de matérias-primas e o tráfico de armas. Trata-se em particular do coltan, utilizado na fabricação de telefones celulares e consoles de videogames. O preço mundial desse mineral estourou no início dos anos 2000.

Denúncias na ONU

Desde o primeiro relatório do Conselho de Segurança, sob o título “Facilitadores ou cúmplices passivos?”, datado de abril de 2001, soube-se que a SDV figura “entre os principais elos dessa rede de exploração e atua para a manutenção do conflito. Milhares de toneladas de colombo-tantalite foram carregadas em Kigali ou transitaram pelo porto no mar de Dar es-Salaam17”. Os especialistas da ONU reiteraram suas acusações em novembro de 2001, antes de um novo relatório, em 2002, colocar a SDV na lista das empresas que “violam os princípios diretores da Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômicos (OCDE) para as empresas multinacionais”, e outro, de 2003, a posiciona entre as que “não deram prosseguimento” às solicitações dos especialistas “enquanto tiveram todo o tempo necessário para se manifestar18”.

Ainda que dois documentários apresentados ao público em geral evocassem de maneira dissimulada as atividades do grupo Bolloré na RDC – “Sangue em nossos celulares?”, exibido pelo Canal Plus em 13 de dezembro de 2007, e “Armas, tráfico e motivos de Estado”, transmitido pela Arte TV em 2 de setembro de 2008 –, foi preciso esperar o final de 2008, no momento em que esses conflitos apareceram novamente na mídia, para ouvirmos os responsáveis do conglomerado sobre esse assunto. Questionados pelo semanário Marianne, eles concordaram em falar e, claro, negaram toda e qualquer acusação.

Aproveitando a apatia da maioria dos jornalistas, o grupo se colocou no campo de batalha da comunicação, onde investe maciçamente desde o início do século XXI. Controlando um arsenal que vai da publicidade (Euro RSCG) à televisão (canal Direct 8), e passando por pesquisas (CSA) e imprensa gratuita (Direct Matin Plus e Direct Soir), Bolloré pôde garantir a difusão de mensagens controladas.

O diretor de programação do canal Direct 8, Yannick, é ninguém menos que o filho de Bolloré. Da mesma forma, os jornais gratuitos – Direct Matin Plus e Direct Soir – e os panfletos que o grupo distribui para milhões de usuários dos transportes coletivos aproveitam a ignorância e o desinteresse pelos países africanos para cuidar da imagem dos chefes de Estado amigos que, na maioria dos casos, não têm legitimidade eleitoral.

Um exemplo é o balanço elogioso apresentado pelo jornal Matin Plus, realizado em parceria com o Le Monde, sobre os 25 anos de reinado do chefe de Estado camaronês Paul Biya. O governo teria se mobilizado para “revalorizar o poder de compra” dos camaroneses e “reforçar as instituições de promoção dos direitos humanos”19. E o periódico não publicou nenhum artigo desmentido seu posicionamento anterior quando, em fevereiro de 2008, as agitações causadas pela fome foram massacradas com violência, fazendo centenas de mortos.

A ligação do grupo Bolloré nesse país não acaba aí. Seis redatores-chefes da imprensa camaronesa foram convidados, em maio de 2007, para uma viagem de uma semana na França, com todas as despesas pagas. Inspirado pela mesma generosidade, Roussin viajou para o Camarões em fevereiro de 2008 para assinar uma parceria com a Fundação Chantal Biya, organização pouco transparente de “luta contra a Aids” que conta com o apoio caridoso da influente esposa do presidente.

Bolloré, numa atitude “político-filantrópica”, coloca frequentemente a mão no bolso para fazer “boas obras”, como a Rede Educação Para Todos, na África (Repta). Além disso, por muito tempo ele manteve a sociedade de capital de riscos com vocação “social” de Michel Rocard, Afrique Initiatives, hoje extinta. A obsessão de Bolloré pela Fundação Nelson Mandela é da mesma natureza. Seus jornais gratuitos já dedicaram quatro primeiras páginas ao herói da luta contra o apartheid. “Bolloré, que procura se desenvolver [economicamente] na África do Sul e no oeste africano, organizou, ele próprio, o evento, e colocou seu avião à disposição”, revela o semanário Télérama. Ao mediar a operação, ele cultiva suas relações africanas e no Eliseu. Afinal, Sarkozy ficou muito feliz em poder dar a mão ao ícone Mandela20.

 

*Thomas Deltombe é jornalista.



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