Inglaterra em tempos de crise: luta por paz e liberdade - Le Monde Diplomatique

MOBILIZAÇÃO

Inglaterra em tempos de crise: luta por paz e liberdade

por Fabíola Munhoz
23 de janeiro de 2012
compartilhar
visualização

Aproximei-me dos militantes para perguntar se tinham alguma ação direta programada para aquele dia. Em seguida, uma garota alta de cabelos longos me ofereceu uma cadeira ao seu lado e se despiu da máscara para dizer que o único plano concreto do movimento era seguir com a acampadaFabíola Munhoz

(Acampamento dos “Indgnados” em Londres)

Se, por um lado, o que é novo tem a capacidade de reciclar nosso olhar mais puro, por outro, deparar-se com o diferente é também lançar-se à crítica e ao distanciamento. Tive essas percepções quando, em vésperas de natal, pisei pela primeira vez em solo inglês. Ali, conheci uma Londres bonita, limpa e incrivelmente organizada. Em toda sua qualidade de vida avessa ao caos das metrópoles latinoamericanas, com as quais estou acostumada, a cidade me pareceu perfeita demais para ser real. Seus pubs aconchegantes, ônibus em estilo retrô de dois andares, edifícios históricos bem preservados e prédios modernos e climatizados causavam deslumbre sem que eu me sentisse parte de tudo aquilo.

Foi assim, como forasteira cética e ingênua, que perdi boa parcela do dinheiro que havia levado, na conversão de euros para libras esterlinas. O Pound era vendido a 1,33 euros no aeroporto, mais a cobrança de uma taxa pelo serviço de câmbio. Soube depois que, caso tivesse sacado minhas libras diretamente de algum banco, usando um cartão de débito internacional, teria economizado um valor considerável das minhas preciosas divisas.

E, de fato, qualquer moeda de 5 centavos (ou cinco coins) é bem raro para o turista que chega a Londres. O custo de vida na capital inglesa é altíssimo, um dos maiores do mundo. É verdade que os salários locais também são mais altos e, para quem recebe em unidades dessa moeda tão forte, viver ali deve ser como estar em qualquer outro lugar. Mas, tive a impressão de que por essa estabilidade da economia os cidadãos pagam o preço de serem reféns do trabalho. Por metrôs, ruas e lojas, homens e mulheres transpiram pressa por fazer ou consumir algo. Os caixas de supermercado são máquinas de atendimento automático para poupar tempo. E não se manter ao lado direito da escada rolante por distração é emperrar o ritmo frenético da cidade.

Loucuras como essa podem ser sentidas e sofridas em qualquer metrópole moderna, mas soaram piores, naquela ocasião, porque se aproximava o dia 25 de dezembro, com seu apelo comercial transformador de populações em formigueiros desvairados, e também pelo frio que fazia na capital inglesa, para mim motivo de mau humor. A Oxford Street, rua famosa por sua diversidade de lojas, via-se infestada de consumidores e, enquanto caminhei por ali, observando mais os prédios e luzes decorativas que os produtos expostos nas vitrines, recordei a notícia publicada naquele mesmo dia (12/12) pelos principais jornais europeus, de que o primeiro-ministro britânico, David Cameron, não havia concordado em ratificar o último pacto proposto pela União Europeia para recuperação das economias do continente.

O acordo anunciado pelo Parlamento Europeu, em Bruxelas, no dia 9 de dezembro, tinha como meta exigir dos Estados-membros da zona do euro maior disciplina orçamentária, com o objetivo de enfrentar a crise econômica. Essa unidade em política fiscal foi rejeitada por Cameron sob os argumentos de que o pacto não garante proteção aos países e a rejeição da Inglaterra ao seu conteúdo seria uma salvaguarda necessária ao mercado financeiro inglês.

É de se compreender a decisão do primeiro-ministro. Em Londres, não pude observar qualquer sinal de crise financeira ou pobreza, e a moeda circulante, mais forte que o euro, refletia essa preocupação do governo britânico em manter como prioridade a defesa dos interesses internos, independentemente de sua posição ou influência dentro da Europa. Porém, embora formalmente a Inglaterra se resguarde de uma integração mais profunda à zona do euro, na prática, muitos londrinos sabem que a transnacionalização de políticas é inevitável no atual contexto de interdependência econômica que caracteriza o planeta. Inclusive, Londres tem sabido bem como mostrar-se aberta a essa interação com outros países sempre que lhe convém.

A partilha internacional de prejuízos econômicos e ambientais, bem como dos danos decorrentes de guerras lucrativas, realizadas ao redor do mundo, sucede desde que esse país se tornou potência. Sabendo disso, e descontentes com o atual modelo político e econômico adotado por seu país, um grupo de jovens indignados ingleses, acampados desde a manifestação internacional do dia 15 de outubro deste ano, passam o frio cortante do inverno londrino abrigados em tendas de lona instaladas frente à catedral de St. Paul, com o propósito de reivindicar participação política.

No dia 13 de dezembro, fui até o local, onde pude ver dezenas de barracas espalhadas pelo pátio frente à porta principal da igreja. A maioria delas estava decorada com mensagens contra as desigualdades sociais, a fome, a dominação dos mercados sobre os governos e o capitalismo financeiro. Poucos passantes paravam para ler esses reclames, talvez devido ao mau tempo. Com o frio excessivo, a maioria dos manifestantes também estava ausente.

Apenas três tendas centrais maiores tinham a presença de ativistas, uma destinada à informação sobre o movimento, outra onde aconteciam as assembleias gerais e uma terceira, que era cozinha comunitária. Depois de passar por esse último stand, onde jovens comiam pães e bolachas, enquanto um senhor sentado sobre uma cadeira de madeira lia poesias de sua autoria, voltei a caminhar entre as barracas menores. Nesse instante, encontrei um grupo de quatro jovens usando máscaras de anônimos. Um deles era entrevistado por três garotas, que se identificaram como estudantes de Audiovisual da Westminster School, interessadas em fazer um documentário sobre os indignados ingleses.

Aproximei-me dos militantes para perguntar se tinham alguma ação direta programada para aquele dia. Em seguida, uma garota alta de cabelos longos me ofereceu uma cadeira ao seu lado e se despiu da máscara para dizer que o único plano concreto do movimento era seguir com a acampada. “Aqui é território da Igreja, e temos permissão dela para permanecer acampados pelo tempo que a gente quiser. Não temos previsão de partida”.

Nossa conversa foi interrompida por outro ativista que me ofereceu um cobertor, enquanto convidava as estudantes documentaristas para uma conversa que, segundo ele, poderia ser gravada com tranqüilidade e proteção contra o frio num pub próximo dali. Seguimos então até o bar: eu e as três documentaristas, além de três garotas e cinco garotos que usavam máscaras de anônimos mais como identificação de sua militância que para preservar a própria identidade. Num papo regado a grandes canecas de uma cerveja encorpada, um dos indignados criticou o controle de grandes grupos econômicos e instituições financeiras sobre a política mundial, enquanto uma das estudantes, de cabelo negro e curto, dividia a atenção entre a fala do rapaz e os cuidados com o enquadramento da cena. Pouco depois, um militante magro e de movimentos rápidos (o mesmo que havia me oferecido o cobertor na praça da catedral) disse lutar por liberdade e por uma participação política que o permita discordar dos gastos de recursos públicos com a compra de material bélico. “O dinheiro que gastamos com a guerra hoje seria mais que suficiente para acabar com a fome no mundo”, falou antes de pedir licença e se dirigir ao jardim de inverno onde tinha permissão para fumar.

A entrevista durou cerca de uma hora. Depois, as documentaristas agradeceram pela ajuda e se separaram do grupo. Segui com os militantes de volta à Basílica de St. Paul e, durante esse caminho, pude conversar com uma jovem alemã de cabelos vermelhos, que vive em Londres há mais de uma década e não pensa em voltar ao seu país. Ela disse que conheceu o movimento dos indignados ingleses via internet, mas não acredita que as mídias sociais são as responsáveis pela atual onda de acampadas espalhadas por todo o mundo. “Essas ferramentas facilitaram o encontro entre as pessoas, mas a vontade de protestar e de mudar as coisas já existia dentro de cada um de nós”.

De volta ao alojamento, os indignados se separaram para realizar diferentes atividades, e eu me detive um minuto a observar a igreja que acumulava em sua porta principal uma fila gigantesca de turistas e devotos. “O que toda essa gente quer ver aí dentro?” – perguntou-me um rapaz cabeludo. Respondi que tampouco compreendia tanto interesse pelo edifício, já que não me considero devota a nada. Ele sorriu, dizendo que devia ser o Natal despertando a busca pela religião dentro da gente. Depois se apresentou como Willian, DJ, artista de rua e imigrante húngaro. Disse passar todos os dias pelo acampamento por concordar com os motivos da luta, embora não acreditasse muito na eficácia da realização de assembleias gerais. “É muito blá, blá, blá, e pouca ação concreta. Às vezes passam uns filmes interessantes, e eu acho legal a ideia. Mas, só se reunir aqui para falar não vai resolver nada”.

Decidi acompanhar uma dessas reuniões para saber se compartilharia a crítica de Willian. Eram 19h00 do dia 13 de dezembro, e o encontro havia acabado de começar, com um senhor de barba branca falando sobre a necessidade de se expandir o movimento para que cada vez mais pessoas tenham o direito de se expressar. A tenda onde a discussão ocorria foi se enchendo de gente, até o lugar se tornar pequeno. A assembleia, então, transcorreu como um debate sem fim entre idealistas radicais que queriam mudar o mundo e pediam o respeito de todos aos interesses comuns, e manifestantes mais preocupados em reclamar de temas internos, como a dúvida entre chamar ou não a polícia diante de um conflito particular entre acampados.

A discussão foi longa, com muitas interrupções, desrespeito a turno de palavras e um constante embate entre imigrantes e ingleses. Sentia-se também certa segmentação em grupos: negros, brancos, jovens de classe média e menos abastados mantinham relativa distância entre si. Foram tantas as discordâncias, os confrontos interpessoais e os desvios de tema, que nada foi decidido. Tive a impressão de que todos perdiam tempo quando em posse do microfone e poucos apresentavam disposição em ouvir. Um bebê, que permaneceu durante toda a assembleia quieto no colo de seu pai, apesar de gritos dos mais exaltados, mostrava-se o mais civilizado do ambiente. Devidos aos ânimos acirrados, a reunião terminou antes do previsto. Um garoto de gorro e olhos azuis, que se identificou como participante da organização da acampada, percebeu que eu era estrangeira e foi logo se desculpando pelo tumulto. “Nossas assembleias não são sempre assim. Hoje a situação fugiu um pouco do controle”. Nesse instante, o artista de rua húngaro interrompeu a conversa, discordando do jovem inglês, sem disfarçar certa intenção em hostilizá-lo. “Como eu te disse, quem está aqui não sabe muita coisa, eles estão protestando há muito pouco tempo. Você devia mesmo era conhecer aqueles que estão acampados há anos em frente ao Parlamento”, sugeriu Willian.

Por coincidência, eu já havia visitado essa outra acampada. Passando por volta das 14h00 daquele mesmo dia (13/12), frente ao portão principal do Parlamento inglês, onde se encontra o Big Ben, constatei a presença de cerca de quinze barracas instaladas da outra banda da rua. Os cartazes pregados ao lado das tendas indicavam que a luta daquelas pessoas estava diretamente relacionada com sua discordância em relação à participação da Inglaterra em guerras, como as iniciadas pelos países aliados contra o Iraque e o Afeganistão.

Billy, um senhor com cerca de 70 anos de idade, que recolhia assinaturas num abaixo-assinado pelo fim dos gastos do erário inglês em campanhas belicistas, contou-me que aquela acampada, conhecida como Peace Strike Parliamente Square (Greve pela paz da Praça do Parlamento) já existe há dez anos, e essa resistência tem rendido algumas conquistas, como a promessa do governo inglês de que as tropas do país que atualmente se encontram no Afeganistão regressarão a casa a partir de 2014. Essa informação me foi dada com otimismo por Billy, que é escocês e disse ter abandonado a profissão de engenheiro para se dedicar ao ativismo pela paz.

Curiosamente, o militante já foi soldado. Aos 17 anos de idade, quando atuava num embate entre Escócia e Islândia (1950-1960) por uma disputa de território marítimo, foi obrigado a cometer seu primeiro assassinato legalmente justificável. “Eu poderia ter atirado na perna do inimigo quando caiu no chão sem defesa. Mas, não fiz isso. Sem pensar, simplesmente atirei para matar”. Seus olhos se encheram de água à medida que voltou ao passado, revelando uma mescla de culpa e sensibilidade para transformar traumas em ação por mudanças. Faz isso atualmente como diretor da Remind, organização de caridade e apoio a ex-servidores do Exército, com sequelas físicas e psicológicas decorrentes da guerra, e suas famílias.

Billy também é um dos principais incentivadores da acampada pela paz frente ao Parlamento, cuja última ação foi organizar um strike internacional, com o objetivo de chamar a atenção da sociedade mundial para os cortes em educação, saúde, liberdades civis, pensões, emprego, assistência legal e moradia, realizados pelo governo inglês, em consequência dos seus gastos com a guerra contra o Afeganistão. A iniciativa, prevista para durar do dia 30 de novembro a 3 de dezembro de 2011, abrangeu greve trabalhista; boicote a shoppings, supermercados e distribuidoras de petróleo; paralisação de enfermarias, instituições de ensino e sistemas de transporte não essenciais, e o corte de audiência à TV, em protesto contra o sensacionalismo e o retrato da guerra como espetáculo.

Além disso, o foco maior da luta das pessoas que ali se encontram com suas barracas é o risco de que Estados Unidos, Israel e Europa iniciem uma guerra contra o Irã. “Sabemos que esse país é o próximo da lista e que a guerra é lucrativa. Mas não podemos permitir que isso aconteça. O povo não decidiu a favor desses conflitos, foram eles”, disse Billy apontando ao Parlamento.

O movimento, apesar do muito tempo em que se mantém ocupando um passeio público, jamais sofreu repressão policial ou tentativa de desalojo porque sua ação é permitida por lei. Essa liberdade para protestar e a qualidade de vida do cidadão inglês, que, quando desempregado, tem acesso a uma bolsa mensal, contrastam com a torre luxuosa do Parlamento, que parece alcançar o céu enquanto se distancia das pessoas comuns e da realidade das ruas, controlando o tempo a cada badalada do seu imenso relógio. Divago assim até ser acordada por outra fala de Billy, temperada com o senso prático de um verdadeiro escocês: “Embora diferente do seu país, Londres também é realidade”.

Fabíola Munhoz é jornalista.



Artigos Relacionados

ELEIÇÕES 2022

Voto útil: o chamado ao primeiro turno em 2022

Online | Brasil
por Luísa Leite e Alexsandra Cavalcanti
CORTE INTERNACIONAL DE JUSTIÇA

Uma escolha nada difícil

Online | Brasil
por Guilherme Antonio de A. L. Fernandes
CENÁRIO LATINO-AMERICANO

Os desafios da “nova Onda Rosa” na América do Sul

Online | América Latina
por João Estevam dos Santos Filho
AUTOCRATIZAÇÃO

Erosão democrática no Brasil de Bolsonaro

Online | Brasil
por Carolina Azevedo
GUILHOTINA

Guilhotina #185 - José Celso Cardoso Jr. e Monique Florencio de Aguiar

DEMOCRACIA AMEAÇADA

Três dimensões para pensar a eleição mais importante da Nova República

Online | Brasil
por João Rafael Gualberto de Souza Morais
Qual é o plano?

A guerra às drogas precisa parar. Os presidenciáveis estão preparados para essa conversa?

por Juliana Borges
O AGRO NÃO PRODUZ COMIDA, PRODUZ FOME

Cozinhas Populares apontam caminhos para a soberania alimentar

por Campanha Periferia Viva