Internet e memória política - Le Monde Diplomatique

ENTREVISTA/RODRIGO SAVAZONI

Internet e memória política

por Mariana Fonseca
11 de agosto de 2010
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Uma das grandes vantagens da internet é sua interatividade: ela pode ser usada como um grande banco de dados aberto para todos os usuários. Mas em que medida os brasileiros têm explorado as possibilidades desse mundo virtual quando se trata de participação política? E os políticos, como eles têm usado as redes sociais?Mariana Fonseca

Conversamos sobre esses e outros temas com o jornalista Rodrigo Savazoni, diretor da Fli Multimídia, que integra a Casa da Cultura Digital. Em entrevista ao Le Monde Diplomatique Brasil, Savazoni apontou que o jovem brasileiro está mais politizado e criticou a maioria dos nossos políticos, que ainda não usa com plenitude as redes sociais: eles optariam por um sistema de broadcasting, ou seja, “eu falo, você escuta”, e não pelas discussões mais horizontais que a rede propicia.

LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL – A internet é uma ferramenta que pode reforçar a memória do eleitor?

RODRIGO SAVAZONI – Cada vez mais temos aplicações desenvolvidas que usam a internet naquilo que ela tem de diferencial, que é ser um amplo banco de dados acessível para todo usuário. Nesse sentido, é possível encontrar informação sobre políticos, governantes que almejem continuidade em um cargo público etc. Mas não é algo intrínseco da internet, isso faz parte de uma noção de uso, ou seja, de uma percepção de como ela pode servir a propósitos culturais, políticos e cidadãos, auxiliando assim a escolha dos eleitores.

Não é diferente do papel que a imprensa e a mídia de massa puderam desempenhar. O que varia é o fato de promover o acesso de acordo com a demanda do usuário, o que antes os outros meios não conseguiam proporcionar. Um exemplo é o site desenvolvido por jornalistas do St. Peterburg Times, o Politic Fact, projeto que ganhou, inclusive, o prêmio Pulitizer. Eles criaram, durante as eleições norte-americanas, uma espécie de “verdadômetro”, avaliando o que os candidatos prometiam, a partir de uma pesquisa e composição de banco de dados. Isso tem até sido copiado no Brasil.

DIPLOMATIQUE – Quais aplicativos brasileiros você destacaria nesse ano eleitoral?

SAVAZONI – Não estou acompanhando tanto as eleições atuais como acompanhei as anteriores, mas vou me arriscar citar alguns bons trabalhos. O que houve foi uma explosão desses aplicativos e iniciativas em várias frentes, numa passagem clara de que a internet começa a ter um peso maior nas eleições hoje do que teve anteriormente. Apesar não ser central, já que a influência da televisão ainda é enorme, temos um deslocamento razoável, que demonstra o papel que ela pode desempenhar.

Eu destacaria alguns trabalhos desenvolvidos pela sociedade civil, como a repercussão da lei Ficha Limpa, que ganhou amplitude com o projeto Excelências, da Transparência Brasil. Outro interessante é o Transparência Hack Day, uma lista de discussões e ações promovidas pela Esfera. Mais um seria o Eleitor 2010, da Globol Voices, entre outros tantos (leia box ao fim da entrevista).

Essas são iniciativas que partem de grupos da sociedade civil operando seu poder de mídia, sua possibilidade de se dispor de um meio de comunicação poderoso, a internet, sem precisar passar por uma mídia de massa tradicional. Claro, que se uma emissora de TV como a Globo decide fazer algo desse tipo, o impacto ainda é maior.

DIPLOMATIQUE – Existe uma sensação de que as pessoas estão podendo discutir mais, participar mais pela internet. Isso é real? Os jovens ligados à internet estão mais politizados?

SAVAZONI – Assistimos há alguns anos a um processo de politização crescente da sociedade brasileira. Alguns dizem que não, mas para mim é um discurso conservador de gerações mais velhas, falando das mudanças no perfil de participação e atuação. Mas, se analisarmos o volume de participação e as diferenças de foco da juventude de forma ampla, observamos um aprofundamento da complexidade da participação política no país e a internet acaba sendo um grande catalisador para esse tipo de ação que, muitas vezes, está atomizada devido à fragilidade das instituições de intermediação. Essas instituições, — escolas, partidos, universidades e imprensa tradicional – que foram muito fortes no século XX, estão enfraquecidas. Continuam tendo poder, mas com menos impacto nos cidadãos que nasceram com a rede. Surgiram novos arranjos de participação. Se isso vai gerar efeitos na prática, ainda temos que observar, mas já vemos uma ânsia de participação que a rede potencializa. O Facebook e o Twitter são exemplos disso.

 

DIPLOMATIQUE – E como foi a apropriação por parte dos políticos dessas ferramentas? Falou-se muito do Barack Obama. Qual foi a grande descoberta dele?

SAVAZONI – A internet é uma ferramenta poderosa, fortalece as condições de conversação, permite diálogos horizontais e o surgimento de coisas que poderiam ficar escondidas por conta da organização do sistema midiático. No caso do Obama, ele veio de oito anos de governo George W. Bush e soube explorar essa ânsia de mudança no país, principalmente no contexto das prévias com a Hillary Clinton. Ele precisou usar das novas tecnologias para criar condições de interlocução igual para ambos, já que nos meios tradicionais não conseguiria. A campanha do Al Gore, feita oito anos antes, também havia usado bastante a internet, que na época já tinha uma difusão nos Estados Unidos igual à que temos atualmente no Brasil. Ele explorou-a tão bem quanto Obama. O diferencial é que houve um amadurecimento social do uso dessas ferramentas e um acordo político para superar os anos Bush. É claro que a internet teve um papel importante, mas você não gera um novo Obama com as ferramentas, existe um contexto político que produz isso.

 

DIPLOMATIQUE – No recente debate dos candidatos à presidência, o Plínio de Arruda Sampaio (PSOL), por exemplo, falou do uso Twitter. Como os políticos brasileiros têm usado as redes sociais?

SAVAZONI – Essa é a primeira eleição no Brasil que ocorre com base em uma lei que permite o uso das novas tecnologias.  Nas eleições anteriores, as mídias sociais estavam vedadas por conta de um marco legal completamente anacrônico. O Brasil superou isso e permitiu que a internet fosseusada em sua plenitude pelos candidatos, inclusive com doações online, que foram importantes no contexto americano e que vão influenciar o cenário brasileiro. Mas eu diria que até agora nenhum candidato se comprometeu de forma significativa com a rede que mereça ser destacado. Não é o caso da Dilma, Serra, Marina e até do Plínio, que recentemente descobriu esse espaço como uma forma de vazar o cerco midiático que ele sofre por ser um candidato que vocaliza certos valores que parecem não interessar às mídias eletrônicas de massa, especificamente a televisão.

O uso das redes sociais é difundido: todos os candidatos têm Twitter, Facebok, Orkut etc. O Mercadante aqui em São Paulo até criou uma rede social específica, organizando sua campanha por meio de uma rede desenvolvida em software livre etc. Mas ninguém se destacou porque as campanhas aparentemente ainda não decolaram.

 

DIPLOMATIQUE – É possível discutir política em 140 caracteres (tamanho máximo de textos postados no Twitter)?

SAVOZONI – Quanto maior a candidatura, menos se discute nas redes sociais. Quanto maior a candidatura, mais forte é a opção por usá-las como meio de broadcasting, “eu falo, você escuta”. O que os candidatos não perceberam ainda é que a internet é um arranjo que permite a conversa de muitos para muitos. Mas quando você vai descendo para candidaturas menores, de deputados federais ou estaduais, esse diálogo já ocorre. A proximidade com os eleitores vai deixando a conversa mais qualificada. Característica comum nas redes sociais, ter muitos seguidores isso é visto como sucesso; mas, por outro lado, quando se tem um universo mais controlado, a qualidade das discussões é maior. Essa é uma contradição, um fato que precisa ser observado.

Uma pesquisadora do Rio Grande do Sul, Raquel Recuero, tem uma visão bem técnica e apresenta vários dados interessantes. As pesquisas que ela tem divulgado e o que temos visto demonstram que a qualidade da conversação aumenta na medida em que se tem maior proximidade entre o candidato e seus potenciais eleitores.

 

DIPLOMATIQUE – Apesar da possibilidade de busca, candidatos com o histórico bastante sujo têm um eleitorado expressivo ou já foram reeleitos. Essa busca chega à maioria da população?

SAVAZONI – Duas coisas importantes. Primeiro a internet hoje já tem uma penetração de 70 milhões de usuários, o que já faz diferença no país em questão de troca de informação e obtenção de informação. Segundo, é fato que a rede potencializa o que as pesquisa já dizem do eleitor, que ele escolhe seus candidatos na troca de informações entra seus pares, familiares, amigos e essa influência na internet fica mais potencializada.

A internet não pode ser encarada como uma panacéia. Peguemos o caso do Joaquim Roriz, no Distrito Federal, por exemplo, que ao que parece será impugnado pelo Tribunal Superior Eleitoral devido à sua ficha suja. Ele criou uma rede social muito mais eficiente que a internet, dando lotes para pessoas da região metropolitana de Brasília e, por isso, lidera as pesquisas de opinião. É um acúmulo gerado ao longo do tempo. Não é uma mobilização social momentânea online que vai inverter esse tipo coronelismo ou populismo. Claro que esse acúmulo vai sofrendo impactos com o passar dos anos e a com a democratização, mas esses acordos políticos que fazem parte da sociedade não serão revertidos de uma hora para outra.

Dito isso, é fato que essas mobilizações em rede podem criar alternativas interessantes e ajudar as pessoas a esclarecerem dúvidas. Como o caso do projeto Politic Facts que gerava uma leitura sobre o que circulava na rede, spams, informações de marqueteiros etc. Fizeram um banco de dados onde eles filtravam as notícias, usando métodos jornalísticos, buscando esclarecimento, tentando dizer se uma coisa procedia ou não. O leitor podia separar o expediente eleitoral da verdade propriamente dita.

Um exemplo brasileiro seria o caso da candidata Dilma Rousseff. Circulou na web que ela era terrorista e tinha assassinado pessoas. Por outro lado, a sua campanha tenta vinculá-la ao Nelson Mandela, pacifista que teve que pegar em armas. São dois extremos que têm uma verdade bem mais complexa. A rede pode cumprir um papel interessante nesse sentido.

 

DIPLOMATIQUE –A internet também é um espaço que facilitou a difamação e a divulgação desses spams. Em quem confiar?

Esse caráter de banco de dados, como falamos no começo da entrevista, é importante: essa memória jamais esteve disponível. Sempre dependemos do que a imprensa publicava ou das campanhas. Essas informações não estavam facilmente disponíveis para o leitor mais crítico. A internet resolve esse problema. Por outro lado, isso passa por um envolvimento com a política menos emocional e mais racional. Hoje você pode recorrer à rede para se informar melhor. E com esse conjunto de informações, o eleitor pode decidir como quer votar, o que é um avanço. Mas isso faz mais parte da relação que as pessoas estabelecem com a política, e não com a internet.

E claro, a natureza e qualidade dessa informação produzida são importantes, a proporção de informação gerada na rede não corresponde em volume à qualidade. Mas esse cenário, comparado a outros que já tivemos, é sem dúvida muito melhor.

Uma das coisas mais interessantes que eu já li até agora na internet sobre as eleições foi do Xico Sá, que tuitou sobre o debate da semana passada. Se você entrar no YouTube e vir as edições produzidas pelos correligionários de Dilma e Serra, verá que eles tentam forçar a interpretação favorável para seu candidato. Posto isso, o Xico disse: “todos nós podemos ser como a TV Globo nas eleições de 1989”. O YouTube nos deu esse direito. A pergunta é: quem é que vai olhar tudo isso com algum distanciamento crítico e tentar esclarecer as pessoas? Boa pergunta.

 

DICAS DO SAVAZONI

Promessas de uma web bacana nas eleições

Destaco alguns trabalhos que vale a pena ficar atento nesta eleição, como forma de visualizar as melhores formas de usar a internet em um processo eleitoral. Na minha lista, só coloquei iniciativas da sociedade civil, porque acredito que é por meio delas que a comunicação efetivamente a serviço do cidadão se desenvolve no mundo das redes.

Eleitor 2010 (Global Voices)

Esse projeto pretende organizar uma cobertura descentralizada e colaborativa em todo o país, para agregar informações sobre as campanhas por meio da ação de cidadãos engajados em produzir informações qualificadas. Muito bacana, mas ainda não decolou.

Esfera e Comunidade do Transparência Hack Day

Ainda não há nenhum aplicativo específico desenvolvido, mas o pessoal tem trabalhado fortemente na organização de ações para unir política e desenvolvimento web com a finalidade de construir governos mais transparentes. Sairá coisa boa daí.

Projeto Excelências (Transparência Brasil)

Banco de dados bem sucedido e consagrado, vencedor do Prêmio Esso, idealizado pelo excelente jornalista Marcelo Soares, o Excelências literalmente dá a ficha dos candidatos para que o eleitor possa escolher melhor.

Na minha opinião, o melhor projeto feito sobre eleições até agora é o PolitiFact, realizado nos Estados Unidos. Escrevi sobre ele um tempo atrás e acho que o que está ali ainda é válido. Não vi ninguém fazer nada parecido por aqui. Algumas iniciativas até começam a copiá-lo, mas não chegam nem perto quando comparamos interface e trabalho de apuração e checagem com o original americano.

Mariana Fonseca é jornalista e editora-assistente de Le Monde Diplomatique Brasil.



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