Intrigas palacianas no Paraguai - Le Monde Diplomatique

AMÉRICA LATINA

Intrigas palacianas no Paraguai

por Maurice Lemoine
21 de setembro de 2010
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Um olhar sobre o governo do antigo bispo dos pobres e atual presidente do país, Fernando Lugo, e as disputas de poder internas (entre os partidos) e as relações externas com os vizinhos da América Latina e os Estados UnidosMaurice Lemoine

No dia 25 de dezembro de 2007, ao anunciar sua candidatura para o cargo supremo, o antigo bispo dos pobres, Fernando Lugo, declarou: “Na minha opinião, a sociedade paraguaia está dividida entre os que roubam e os que são vítimas do roubo, entre os que agridem e os que são agredidos”. Graças ao apoio das organizações populares, sindicais e rurais, ele chegou à presidência do Paraguai em 20 de abril 2008, com 42 % dos votos válidos. “Essa mesma semana, contou depois (Pagina 12, Buenos Aires, 20 de agosto de 2010), recebi a visita do embaixador dos Estados Unidos. Ele me deu um envelope para que eu abrisse depois da refeição. Era a lista das pessoas que deveriam entrar no meu governo. Três nomes por ministério!”.

Para alcançar o topo do Estado, Lugo beneficiou-se do apoio de uma plataforma política, a Aliança Patriótica para Mudança (APC), à qual se uniu, por puro oportunismo, o Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA, de direita), incapaz até então de abalar o domínio do Partido Colorado, no poder por 60 anos.

Sem partido, e apesar de não dispor de apoio no Parlamento, Lugo conduziu uma modesta, porém real, política social, ao mesmo tempo em que manteve relações cordiais com os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil), Evo Morales (Bolívia), Rafael Correa (Equador) e Hugo Chávez (Venezuela) – para citar apenas esses. Ainda mais grave (se podemos dizer assim), em agosto de 2009, ele lançou um apelo para aprofundar a democracia e torná-la mais “participativa” – pensando até em consultar a população.

Um outro chefe de Estado havia seguido o mesmo caminho, com as conseqüências que conhecemos: Manuel Zelaya, em Honduras. O golpe de Estado “institucional” que o derrubou no dia 28 de junho de 2009 parece ter dado ideias para a direita paraguaia, que, apoiada pelos meios de comunicação nacionais (a maioria dos quais, entretanto, sustentara sua candidatura), desencadeou uma feroz ofensiva com o fim de destituir Lugo “democraticamente”, por meio de um julgamento político (juicio politico), sob os mais diversos pretextos, entre os quais uma acusação de corrupção (por ter dado terras aos camponeses!).

Encabeçando o PLRA e aliado tanto ao Partido Colorado como a uma divisão desse último, a União Nacional dos Cidadãos Éticos (Unace), dirigida pelo ex-general putschista Lino Oviedo, o vice-presidente Federico Franco comanda essa batalha. Seria ele a ocupar o cargo de Lugo se esse fosse afastado do poder. Toda vez que teve oportunidade, ele se declarou “pronto para governar”.

O anúncio, no início de agosto, da doença do chefe de Estado – um câncer do sistema linfático que o obrigará a se submeter a sessões regulares de quimioterapia, durante três a seis meses – abriu novas perspectivas para a direita e a extrema direita que dominam o Congresso: embora, segundo os médicos, a doença de Lugo seja curável sem afetar sua atividade, a ideia de uma destituição “por motivo de saúde” já progrediu.

Enquanto isso, a oposição adiantou o serviço ao atacar o ministro da defesa, o ex-general Luis Bareiro Spaini. Esse último provocou sua ira quando pediu explicações à embaixatriz dos Estados Unidos, Liliana Ayalde, em uma correspondência de estilo e tom “vigorosos”: durante um almoço organizado pela diplomata americana, ao qual participavam o vice-presidente Franco, o vice-ministro da defesa Cecílio Pérez Bordón, alguns membros da classe política – entre os quais o senador Hugo Estigarribia (Partido Colorado) – e um grupo de generais americanos, a função e a política do presidente Lugo foram denegridas de maneira sarcástica e insultante.

Essa “falta aos usos diplomáticos” – a do ministro, não da embaixatriz – levou a Câmara dos Deputados – seguida pelo Senado – a dar início a um juicio político contra Bareiro Spaini. Somando-se à gravidade da afronta feita à representante dos Estados Unidos, o ministro também foi responsabilizado pelo desaparecimento de… três fuzis, em uma instalação do Estado-Maior do exército.

No dia 19 de agosto, em um comunicado de imprensa nada habitual proveniente de tal instituição, o Ministério da Defesa Nacional acusou: “Nessa montagem psico-política de certos setores da oposição, a pretensão a um julgamento político do ministro Bareiro Spaini só faz antecipar (…) o objetivo estratégico final: o julgamento político do presidente da República Fernando Lugo” e não hesitou em denunciar “interesses estrangeiros e contrários aos do Paraguai”. Em Washington, algumas orelhas irão arder.

Entretanto, no coração da tormenta, Bareiro Spaini entregou no dia 23 de agosto seu pedido de demissão para o chefe de Estado, que foi obrigado a aceitá-la. A oposição deu um grande passo para a frente: com o afastamento desse colaborador leal, ela poderá contar mais facilmente com o apoio do exército no caso em que, se destituído pelo congresso, o presidente Lugo se recusasse a obedecer.

Pode-se observar, contudo, que, contrariamente a Tegucigalpa, Assunção não se encontra no “quintal” imediato dos Estados Unidos. Parceiros do Paraguai no Mercado Comum do Sul (Mercosur), Argentina, Brasil e Uruguai receberiam certamente muito mal um golpe de estado no coração de sua organização regional, ainda que revestido do falso brilho de uma pseudo legalidade. Quanto à União de Nações Sul-Americanas (Unasur), no seio da qual, além das capitais dos países citados acima, Caracas, Quito e La Paz têm um grande peso, lembramos que, em 2008, ela teve um papel importante para impedir a desestabilização da Bolívia.

Feitas essas ressalvas, não se deve, entretanto, esquecer o que Washington obteve para Honduras: o reconhecimento, pelos seus amigos latino-americanos e uma “comunidade internacional” sem muita dor na consciência, de eleições organizadas por um governo definitivamente oriundo de um golpe de estado.

Maurice Lemoine é jornalista e autor de “Cinq Cubains à Miami (Cinco cubanos em Miami)”, Dom Quichotte, Paris , 2010.



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