Irã, um futuro incerto - Le Monde Diplomatique

O QUE VIRÁ APÓS O ACORDO NUCLEAR?

Irã, um futuro incerto

por Camelia Entekhabifard
3 de setembro de 2015
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Após o acordo nuclear assinado em julho, a perspectiva de suspender as sanções contra Teerã permitiria a recuperação de uma economia devastada. Mas os dirigentes da República Islâmica terão de decidir a natureza das reformas que farão para apoiar essa retomadaCamelia Entekhabifard

Teerã, noite de 14 de julho. Milhares de pessoas vão às ruas comemorar ruidosamente o acordo assinado em Viena entre o Irã e o grupo P5+1 (China, Estados Unidos, França, Reino Unido, Rússia e Alemanha). Após doze anos de crise e uma maratona diplomática que durou 21 meses, esse primeiro resultado deslumbra uma população fragilizada pelas sanções econômicas impostas ao país. O entusiasmo é tanto que alguns manifestantes, inclusive moças, não hesitam em exibir bandeiras norte-americanas em suas roupas – ousadia impensável há alguns anos.

Menos de um mês depois, sucedem-se delegações de ministros e empresários ocidentais na perspectiva da próxima reabertura do mercado iraniano. Mas permanecem diversas questões, não sem importância, sobre o futuro do país e sobre um acordo cuja principal finalidade era impedir que o Irã tivesse uma bomba atômica, projeto que as autoridades sempre negaram. Ao congelar algumas pesquisas e desmontar instalações, reduzindo o número de suas centrífugas de enriquecimento de urânio e aceitando inspeções, a República Islâmica fez concessões significativas para conseguir a suspensão das sanções.

“Ninguém sabe se esse acordo será aprovado no Irã, e não temos certeza de que será aprovado nos Estados Unidos”, declarou, no dia 18 de agosto, o líder supremo Ali Khamenei, que dá a palavra final no Irã sobre essa questão. Suas palavras ecoam o desejo feroz de republicanos norte-americanos afundarem esse sucesso diplomático. Após a adoção pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas da Resolução n. 2.231 ratificando o acordo, em 20 de julho, o Congresso deve se pronunciar até 20 de setembro sobre a suspensão das sanções impostas pelos Estados Unidos desde 2006. Caso o resultado seja negativo, o presidente Barack Obama já avisou que vai vetar. Então, para ser cancelado, o texto deve ser rejeitado por dois terços dos membros eleitos nas duas câmaras do Congresso, o que atualmente parece pouco provável.

 

Medo da insatisfação popular

As declarações do líder supremo iraniano também ilustram sua vontade de jogar dos dois lados, considerando a oposição das frações do regime contrárias a qualquer forma de normalização com os Estados Unidos. Embora a hipótese de voltar à estaca zero nos próximos meses não possa ser descartada, o otimismo continua vigorando em Teerã – mesmo porque os líderes iranianos estão cientes da importância do acordo de Viena para a própria sobrevivência do regime.

Contudo, eles podem ter esquecido um episódio marcante do último inverno local. De Teerã a Kermanshah, no sul do país, passando por Isfahan, também no sul, enormes multidões, enfrentando o frio glacial, reuniram-se em frente aos supermercados estatais para adquirir, com cupons de alimentos, produtos básicos, como óleo, açúcar, trigo, ovos, chá e carne de frango. Em algumas cidades, homens e mulheres chegaram a disputar agressivamente a “cesta de produtos subsidiados” – um espetáculo dos mais chocantes para quem sabe que o Irã detém, de acordo com o Banco Mundial, a segunda maior reserva de gás natural e a quarta de petróleo do planeta. Muito comentadas nas redes sociais, as cenas mostram a real precarização de boa parte da população, incluindo as classes médias. Elas preocuparam o regime e convenceram muitos líderes políticos e religiosos do risco de uma insurreição popular capaz de abalar o sistema.

Claro que essa não é a única razão pela qual os iranianos levaram a termo as negociações com as grandes potências. Também contaram as turbulências regionais, com o crescente envolvimento do rival saudita nas guerras civis na Síria e no Iêmen, bem como a ascensão do Estado Islâmico. Mas a deterioração da situação econômica foi determinante. Castigado pelo embargo e pelo decréscimo das receitas estrangeiras por causa da queda do preço do petróleo – a perda pode chegar a US$ 40 bilhões em 2015 –, o crescimento do PIB não passará de 1% em 2015, após uma recessão de 6,8% em 2012 e uma modesta recuperação de 1,5% em 2014.

Essa letargia, agravada pela alta inflação (15% em maio de 2015), levou os líderes da República Islâmica a conceder aos negociadores autonomia suficiente para que pudessem cumprir sua missão: conseguir um acordo que permita a suspensão das sanções econômicas, sem que o Irã precise fazer concessões em outras áreas além da questão nuclear. “O líder supremo reagiu rapidamente”, explica um ex-diplomata iraniano que prefere ficar anônimo. “Ele não esperou que milhões de pessoas fossem às ruas mostrar descontentamento. Ele salvou a República e seu legado. O Irã investiu muito na tecnologia nuclear e na formação de técnicos e outros funcionários. O acordo permite manter um regime cuja existência estava ameaçada.”

 

Após o endurecimento representado pela presidência de Mahmoud Ahmadinejad (2005-2013), a própria composição da equipe de negociadores já deixava entrever a vontade iraniana de chegar a um acordo. Eleito em 2013, o presidente Hassan Rohani – conhecido no Ocidente como o principal negociador da questão nuclear entre 2003 e 2005, durante o segundo mandato do reformista Mohammad Khatami (1997-2005) – nomeou como ministro das Relações Estrangeiras Mohammad Javad Zarif, seu principal colaborador durante essas negociações. Ex-embaixador das Nações Unidas, pragmático, ele domina a língua inglesa e conhece bem a cultura anglo-saxã, o que é motivo de orgulho para os iranianos e já lhe rendeu elogios da imprensa, de todas as tendências. Contentes com a celebração do acordo, muitos jornais chegaram a compará-lo a Mohammad Mossadegh (1882-1967), o primeiro chefe de governo eleito democraticamente, que nacionalizou os recursos petrolíferos do país, antes de ser derrubado, em 1953, por um golpe orquestrado pela CIA.

Resta saber se o acordo de 14 de julho trará a melhora econômica esperada pela população. Segundo as projeções da revista semanal especializada Meed, a suspensão das sanções, mesmo progressiva, deverá permitir ao Irã dobrar seu PIB (R$ 1,5 trilhão em 2014) até 2030 e atrair quase R$ 1,2 trilhão em investimentos estrangeiros diretos (IED) até 2020. Para Ali Mashayekhi, especialista financeiro da empresa de investimento Turquoise Partners, que opera no Irã, “a capitalização da Bolsa de Teerã poderia aumentar 400% em cinco anos, atingindo R$ 1,8 trilhão”. O ministro da Indústria, Reza Nematzadeh, acredita que o setor de óleo sozinho seria beneficiado com mais R$ 400 bilhões de IED. Por fim, o Irã também espera recuperar parte de seus bens congelados no exterior. É difícil avaliar o montante exato, mas no Ocidente costuma-se falar em algo entre R$ 350 bilhões e 530 bilhões, enquanto a administração Obama fala em R$ 200 bilhões. O Irã contenta-se, no momento, em sugerir que apenas R$ 100 bilhões poderiam ser recuperados a curto prazo. Essas divergências alimentam as especulações dos iranianos sobre as intenções de seu governo quanto ao uso futuro desses preciosos recursos financeiros.

Além disso, os efeitos positivos da suspensão das sanções não serão imediatos, exceto pelo uso de uma parte do dinheiro recuperado para comprar uma paz social temporária. Um jornalista que escreve para um grande jornal iraniano, mas prefere manter-se anônimo por razões de segurança, acredita que vai demorar pelo menos de dois a três anos para que se possa observar uma recuperação da economia: “O presidente Rohani e sua equipe deveriam ter em conta as aspirações do povo e abordar o tema abertamente, a fim de satisfazer suas expectativas para a economia. A frustração pode manifestar-se de forma rápida nas urnas, na próxima eleição presidencial, se o nível de vida não melhorar”.

A capacidade de o Irã controlar os efeitos da suspensão das sanções também é objeto de reflexão dos especialistas. Qualquer melhoria econômica passará necessariamente por uma reforma do sistema bancário, ineficiente e castigado pela elevada inadimplência (15% dos ativos, mas essa proporção chegou a 50% em algumas instituições públicas). E os bancos estrangeiros hesitarão em se comprometer, já que o acordo de Viena prevê que qualquer falha iraniana poderá ser motivo para um retorno das sanções por um prazo de 65 dias. “O caso do setor bancário é emblemático das escolhas fundamentais que a República Islâmica terá de fazer em termos de política econômica”, avalia Ahcen Mansour, empresário de Dubai. “Seguiremos rumo a uma opção liberal, o que significa o desmonte de alguns bancos? E qual será o novo modelo escolhido para acompanhar a esperada transformação da economia? Por enquanto, nada está claro.”

 

Sinais contraditórios

Essa abertura econômica não será necessariamente acompanhada por uma maior aproximação com os Estados Unidos ou por reformas políticas internas. Em discussões com o P5+1, Khamenei lembrou diversas vezes aos negociadores iranianos que sua autonomia se limitava à questão nuclear e que eles não estavam “autorizados a falar de outros assuntos que os Estados Unidos tentaram abordar, como a situação na Síria e no Iêmen”.1 Quanto a uma mudança de linha interna, ela continua incerta, como mostra o relatório da Anistia Internacional segundo o qual o Irã executou 694 pessoas condenadas à morte entre 1º de janeiro e 15 de julho de 2015.

No entanto, “muitos sinais indicam que o governo de Rohani fez mudanças reais para manter suas promessas eleitorais”, considera o professor Touraj Daryaee, diretor do centro de estudos persas Samuel Jordan, da Universidade da Califórnia. “Seu programa priorizou as questões internacionais e também prometeu, no plano interno, concentrar-se na sociedade civil, reduzir as restrições impostas às mulheres e aos iranianos em geral. Agrade ou não ao governo, a juventude fará as coisas mudarem, e nada poderá deter isso.” Mas o acordo de Viena nunca teria sido possível sem a aprovação do líder supremo e seus apoiadores mais fervorosos. E, se os defensores da corrente mais dura achassem que o governo atual estivesse pronto a fazer transformações radicais, ela não teria permitido a eleição de Rohani.

Portanto, tão contraditórios são os sinais, que fica difícil medir a margem de manobra do presidente para ampliar o espaço das liberdades individuais. Apenas duas semanas depois da assinatura do acordo, o regime destruiu uma mesquita sunita no oeste de Teerã, embora alguns dias antes, durante uma visita ao Curdistão – região de maioria sunita –, Rohani tivesse declarado que o Irã não tem cidadãos de segunda classe e que todos no país são tratados igualmente. A comunidade sunita representa cerca de 10% da população, incluindo 1 milhão de pessoas em Teerã, onde suas mesquitas são proibidas, enquanto a capital se orgulha de ser o centro do mundo islâmico. Essa minoria aparece, na verdade, como colaboradora potencial da Arábia Saudita. Além disso, o governo teme que as orações da sexta-feira deem aos sunitas oportunidade de realizar tentativas de desestabilização do regime.

Por fim, a questão da abertura política também depende dos eventos eleitorais de 25 de fevereiro de 2016. No mesmo dia, os iranianos vão escolher os parlamentares do Majlis, a assembleia consultiva islâmica, e principalmente os dignitários religiosos da Assembleia dos Especialistas. Eleitos a cada oito anos, são estes que designam o líder supremo e supervisionam sua ação. Como Khamenei estará com 76 anos, a eleição dos membros dessa instância pode ser decisiva. Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, um político popular que foi presidente duas vezes entre 1989 e 1997, anunciou sua candidatura; para alguns observadores, isso poderia prenunciar mudanças. O atual presidente do Conselho de Discernimento do Interesse Superior do Regime também encorajou Hassan Khomeini, neto da figura tutelar da Revolução Islâmica e próximo aos reformistas, a se candidatar.

O acordo de Viena não pode fazer esses eventos serem esquecidos. Em um editorial, o jornal Javan, ultraconservador e próximo à Guarda Revolucionária, disse que “o inimigo [os Estados Unidos] tentará usar o período após o acordo nuclear para tirar proveito de duas eleições decisivas, para o Parlamento e a Assembleia dos Especialistas” (18 ago. 2015). É um aviso severo que os defensores da abertura política não podem ignorar. “Tudo vai depender da relação que o governo iraniano atual terá com o povo, que espera pelas mudanças nas quais votou”, avalia, por sua vez, Daryaee. “Ele tem boas chances de vencer, mas muitos oponentes continuam apegados aos ideais conservadores e ao Islã revolucionário. O presidente Rohani não detém todo o poder no Irã. Assim, a batalha promete ser feroz.”

*Camelia Entekhabifard, jornalista, é autora de Save yourself by telling the truth: a memoir of Iran [Salve-se dizendo a verdade: uma autobiografia do Irã], Seven Stories Press, Nova York, 2007.



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