Iraque e Síria, os mesmos combates - Le Monde Diplomatique

DESTRUIÇÃO DO ESTADO, VIOLÊNCIA DAS MILÍCIAS

Iraque e Síria, os mesmos combates

por Feurat Alani
3 de fevereiro de 2014
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Como explicar a violência que assola o Iraque? Desde o fim da guerra das milícias, entre 2006 e 2008, e a saída dos norte-americanos, ela não chegava ao nível atual. A crise síria alimenta os antagonismos no vizinho; onde o primeiro-ministro aplica uma política confessional. A extensão da batalha desestabiliza a regiãoFeurat Alani

“Como deter um camicase?” Essa foi a pergunta que o governo de Bagdá fez a si mesmo no dia 30 de novembro de 2013, mais de dez anos após a queda do regime de Saddam Hussein. Diante dos atentados assassinos cotidianos, o aparato de segurança do Iraque organizou um seminário para ajudar os proprietários de bares. Empregar uma guarda privada, reduzir o número de entradas: uma centena de comerciantes de Bagdá ouviu os conselhos pouco convincentes, para não dizer impotentes, oferecidos por policiais. O país inteiro foi atingido por atentados e ataques que custaram a vida de mais de 6 mil pessoas em 2013.

Somos obrigados a constatar que o governo, não conseguindo erradicar a violência, procura aprender a viver com ela. “É sempre a mesma coisa. Quando uma bomba explode num mercado, a polícia e o Exército instauram um toque de recolher no setor, mas sempre chegam depois! O governo banca o bombeiro, apagando o fogo. Mas é preciso deter os incendiários”, exaspera-se Mokhlas al-Jouraisy, jornalista que vive em Bagdá.

Na capital, cada família remói sua própria história trágica, sua amargura e seus mortos. “Depois da ocupação norte-americana, nada mudou. Havia explosões e continua havendo. É a mesma coisa em relação ao desemprego e a outros problemas enfrentados pelos iraquianos. Os norte-americanos nos deixaram a morte como herança. Pelo menos os ingleses construíram pontes e escolas para nós”, afirma um morador de Bagdá, referindo-se à ocupação britânica do país em 1918.

Desconfiança do governo em relação aos sunitas

As razões para a violência são múltiplas. Para compreendê-las, é preciso voltar a 2003, pouco após a queda do regime do Partido Baath, de Saddam Hussein. Paul Bremer, administrador norte-americano encarregado da invasão, tomou a decisão de desmantelar o aparelho de segurança iraquiano e “desbaathificá-lo”. Foi uma política arbitrária e nefasta que colocou no ostracismo quase 1 milhão de homens qualificados e experientes. No espaço de poucos dias, o Iraque passou de um regime ultrassecuritário para um deserto administrativo. Essa depuração política contra todos aqueles que colaboraram com o regime, de perto ou de longe, ajuda a explicar a vulnerabilidade do país.

O enfraquecimento do Estado levou quase naturalmente à exacerbação das tensões confessionais entre sunitas e xiitas, que chegou ao auge após o atentado contra o mausoléu de Samarra, um lugar santo xiita, no dia 21 de fevereiro de 2006. Na época, os xiitas entenderam o episódio como uma declaração de guerra. Apesar dos apelos por calma vindos de todas as autoridades religiosas, militantes xiitas retaliaram atacando mesquitas sunitas. “Foi o nosso 11 de Setembro”, lembra um morador cujo irmão foi assassinado por um miliciano durante essas represálias.

Durante mais de dois anos, as milícias xiitas, principalmente as duas mais famosas – o Exército Mahdi, do movimento sadrista, e a Brigada Badr, do Conselho Supremo Islâmico do Iraque1 –, organizaram emboscadas contra sunitas, que eram capturados e frequentemente torturados e executados. Milícias sunitas revidaram atacando os bairros xiitas de Bagdá com carros-bomba. Todos os dias se encontrava uma centena de mortos nas ruas da cidade ou no Tigre. Ainda que tardiamente, e por razões evidentes de rivalidade política, o primeiro-ministro Nouri al-Maliki lançou, em 24 de março de 2008, uma grande ofensiva a Sadr City, a fim de desarmar o Exército Mahdi de Moqtada al-Sadr. A partir daí a violência campal foi diminuindo gradualmente, mas aumentaram as rivalidades no seio da classe política.

Essa violência agora ocupa a maior parte do discurso de Al-Maliki, que usa um vocabulário simplista e maniqueísta, no qual as palavras “terrorista” e “baathista” são utilizadas para designar os sunitas.

Para explicar a crise de segurança que se estabeleceu desde a saída das tropas norte-americanas, também é preciso recordar o papel dos milicianos da Sahwa – “o despertar”, em árabe. Esses membros de tribos sunitas aliaram-se ao Exército norte-americano para combater a Al-Qaeda na Mesopotâmia. De acordo com a estratégia militar do general norte-americano David H. Petraeus, o surge2 só funcionaria com a colaboração das tribos sunitas, simbolizada pelo carismático Abdul Sattar Abu Risha, morto no dia 13 de setembro de 2007 por um comando da Al-Qaeda.

Composta por 100 mil homens, essa milícia teve importantes êxitos, dominando cidades da Al-Qaeda na Mesopotâmia. Os membros da Sahwa deveriam passar a integrar o Exército regular, mas essa promessa de Al-Maliki nunca foi cumprida. Apenas 20% dos milicianos foram incorporados. Os outros foram negligenciados e estigmatizados por um primeiro-ministro cada vez mais desconfiado dos sunitas.

Hoje, o país mudou. Bagdá não é mais aquela cidade heterogênea, onde todas as províncias estavam representadas. Com raras exceções, os sunitas vivem nos bairros sunitas, e os xiitas, nos bairros xiitas. No resto do Iraque, a “divisão suave” sonhada pelo então senador Joe Biden3 – com um norte curdo, um centro sunita e um sul xiita – já existe de fato.

Apesar desse percurso sinuoso e das promessas não cumpridas, a queda do Iraque poderia ter sido evitada se Al-Maliki tentasse traduzir em realidade seu slogan de campanha: “reconciliação nacional”. Especialmente considerando que, desde sua chegada ao poder, muitos conselhos tribais sunitas prometeram-lhe fidelidade. Mas ele continuou alimentando as oposições entre sunitas e xiitas, bem como entre árabes e curdos, e afastou de maneira agressiva todos aqueles que não estavam satisfeitos com sua política. Seu isolamento começou com a expulsão de Tarek al-Hashemi, vice-presidente sunita, acusado de “terrorismo”. No ano seguinte, foi a vez de outro sunita, Rafi al-Issawi, ministro das Finanças e vice-primeiro-ministro, sob a mesma acusação.

Em 21 de dezembro de 2012, um ano após a retirada norte-americana, uma vasta mobilização popular começou em Fallujah, na estrada principal que leva a Bagdá, chamada “lugar da dignidade”. Ela se espalhou para todo o território sunita. Dali por diante, a aliança outrora possível entre Al-Maliki e as tribos já não o era mais.

Durante essas manifestações, importantes líderes de tribos sunitas, como Doulaimy, Joumaily e Mahamda, pediram a saída do primeiro-ministro. Alguns o chamaram de fantoche do Irã e “safávida”, termo usado pejorativamente para designar os conservadores iranianos. Desde o princípio, esse movimento popular manifestou solidariedade à rebelião síria, comparando Al-Maliki a Bashar al-Assad. No meio da multidão e das bandeiras do Iraque, via-se claramente o símbolo do Exército Livre da Síria. A luta dos sunitas iraquianos transbordou o quadro nacional: o inimigo não era apenas Al-Maliki, mas o eixo xiita Damasco-Bagdá-Teerã.

As conexões entre os sunitas da província sunita de Al-Anbar e a rebelião síria, do outro lado da fronteira, podem ajudar a explicar o aumento da violência no Iraque. Com a luta pelo poder ganhando uma dimensão cada vez mais religiosa, muitos iraquianos imaginaram um cenário ao estilo sírio “para reequilibrar a relação de forças na região”, deseja crer o xeque Rafeh al-Joumaily. Segundo o líder tribal, se o regime de Damasco viesse a cair, Teerã perderia um importante aliado. “Se os sunitas chegarem ao poder na Síria, seremos mais fortes para enfrentar o aumento do xiismo em Bagdá”, avalia.

Rebeldes controlam a fronteira

Pouco mencionado pela mídia, o equivalente iraquiano do Exército Livre da Síria foi criado seis meses antes das manifestações sunitas. Em uma declaração oficial do dia 19 de julho de 2012, o Exército Livre do Iraque afirmou três objetivos: “combater a invasão iraniana no Iraque, apoiar o povo sírio e o Exército Livre da Síria e reunir os combatentes sunitas no Iraque sob uma única e mesma bandeira”.

Quem está por trás dessa nova formação? Tem ela uma real influência? Ainda é muito cedo para dizer. O Exército Livre do Iraque transmitiu pela internet vídeos de seus ataques contra o Exército regular iraquiano, para depois desaparecer progressivamente do radar até a prisão de seu líder – de identidade desconhecida –, em fevereiro de 2013, perto de Kirkuk.

A aliança entre a Al-Qaeda na Mesopotâmia e a Al-Qaeda de Al-Sham (Síria) é mais uma prova das ligações “naturais” entre sunitas sírios e iraquianos. Reunidos sob a bandeira do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL), seus combatentes facilmente atravessam a fronteira entre o Iraque e a Síria, dominada por rebeldes. Formado em 2006 no Iraque, como uma plataforma para os vários grupos jihadistas, o EIIL se tornou um poderoso elemento da terrível guerra que assola a Síria. O grupo não encontra problemas para circular e obter suprimentos. Nessa região de fronteira, as alianças tribais são antigas. É muito fácil para um habitante de Fallujah ou de Al-Qa’im passar para o lado sírio, em Abu Kamal, e ali ser recebido.

O conflito sírio realmente transbordou para o Iraque em março de 2013. Nesse dia, quarenta soldados e funcionários sírios foram mortos no departamento iraquiano de Al-Anbar. Eles estavam refugiados havia alguns dias, protegendo-se de um ataque de rebeldes. Sete soldados iraquianos também foram mortos.

Embora as crises nos dois países tenham nascido de causas diferentes, elas têm em comum seu caráter confessional. A guerra civil síria opõe uma insurreição de tônica sunita a uma coalizão de minorias étnicas e religiosas que apoiam o governo de Al-Assad. No Iraque, o governo de maioria xiita é contestado por sunitas que oscilam entre oposição política e armada.

Provavelmente não é coincidência que os conflitos confessionais tenham se reacendido, no Iraque, no momento em que a guerra civil síria se intensifica. Até a administração norte-americana atribui um papel importante ao Iraque na crise síria. Durante a visita de Al-Maliki a Washington, no final de outubro de 2013, o presidente norte-americano Barack Obama pediu-lhe que usasse suas boas relações com Teerã para solicitar que Al-Assad deixe “suavemente” o poder. O Iraque também está sob crescente pressão do Irã, a principal potência xiita na região, bem como da Arábia Saudita e da Turquia, dois grandes países sunitas, principais patrocinadores da insurgência contra Al-Assad.

Após dez anos de uma violência sem precedentes, o Iraque está preso num turbilhão de lutas pelo poder entre sunitas e xiitas que se alimentam do conflito sírio. O governo de Al-Maliki tenta fazer pouco das novas cartas regionais. A nova lei eleitoral aprovada pelo Parlamento, que fixa as próximas eleições legislativas para o dia 30 de abril de 2014, é vista como piada. A população ri desses deputados, da facilidade com que eles votam leis favorecendo seus interesses pessoais e de sua incapacidade de chegar a um acordo sobre pontos essenciais. O intelectual e sociólogo iraquiano Amir Ahmed inscreve essas eleições no teatro do absurdo. Ele compara a cena política iraquiana à peça Esperando Godot, de Samuel Beckett. “A cada prazo eleitoral, a classe política anuncia a chegada de um homem que promete mudanças. Mas ele nunca vem. Enquanto esperamos, eles nos mantêm ocupados, nos distraem. Os iraquianos estão esperando Godot…”

“A presença iraniana já existente no país aumenta a desconfiança e o medo na região árabe”, continua Ahmed. “É essa mudança brutal na política regional que provoca todas essas tensões. Também não podemos esquecer que o Iraque é um país rico em petróleo, e isso desperta a ganância das forças internacionais. Estas procuram alimentar a violência mais do que estabilizar a situação, uma vez que é mais fácil tirar proveito de um país fraco e instável que de um país forte e equilibrado.” O petróleo: talvez seja essa a verdadeira desgraça do Iraque…

Feurat Alani é jornalista.



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