Israel: o exército age para controlar a política - Le Monde Diplomatique

DOSSIÊ ORIENTE MÉDIO

Israel: o exército age para controlar a política

por Amnon Kapeliouk
1 de novembro de 2007
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Beneficiados por orçamentos bilionários e a ajuda militar norte-americana, comprometidos com os negócios obscuros da indústria armamentista, os generais concentram cada vez mais poder. E a derrota frente ao Hizbollah parece tê-los tornado ainda mais agressivosAmnon Kapeliouk

O fiasco da segunda guerra do Líbano (verão de 2006) provocou uma espetacular queda de prestígio para o exército israelense, similar à que fora provocada pela guerra de outubro de 1973. Antes fonte de orgulho nacional, glorificado pelos feitos contra os adversários árabes, o exército tornou-se alvo de todos os críticos. O fracasso no Líbano de soldados considerados invencíveis, perante uns poucos milhares de combatentes irregulares do Hizbollah, provocou uma rejeição popular do alto-comando. Mobilizado com muita freqüência para missões policiais nos territórios palestinos ocupados, o exército não estava preparado para a guerra, e seu comandante-em-chefe, o general Dan Halutz, a quem fora prometido o cargo de primeiro-ministro, teve de renunciar e entregar a demissão.

Decerto, ao lado dos generais e coronéis que conduziram esse conflito improvisado, decidido após duas horas de conversas telefônicas, encontram-se dirigentes civis de alto escalão: o primeiro-ministro Ehud Olmert e o ministro da Defesa Amir Peretz. Mas esses alegaram, diante da comissão de inquérito, a Comissão Vinograd, que as decisões fundamentais haviam sido tomadas pelos generais e que tudo que fizeram foi ratificar sua escolhas.

Durante as três primeiras décadas de existência de Israel, enquanto o poder permaneceu nas mãos do Partido Trabalhista, o alto-comando militar esteve largamente integrado a esse grupo. Após a vitória da direita nacionalista unificada por Menahem Begin, em 1977, generais próximos a essa outra esfera de influência começaram a se instalar nos altos escalões do Exército, ao lado de oficiais oriundos do grupo nacional-religioso. Muito próximas ideologicamente, as duas tendências colaboram de forma concreta para expandir a colonização dos territórios ocupados. A presença progressiva da esfera religiosa no seio do exército não parou de crescer: daí para frente, 40% dos jovens oficiais passaram a usar quipá [1].

A direita encontrou aliados no coração do Estado-Maior e comandantes regionais para a Cisjordânia e Gaza, que gozam de total liberdade em um terreno em que são a autoridade, principalmente no que diz respeito às colônias de ocupação criadas nos territórios palestinos ocupados. Com ou sem o aval do primeiro-ministro, há vários anos, as unidades submetem-se sempre, ou quase, ao ponto de vista dos colonos, em detrimento dos palestinos espoliados.

Nos territórios palestinos invadidos, tropa age
sempre em favor dos colonos, e freqüentemente contra lei

Desse modo, o exército confisca as terras árabes por “razões de segurança” e deixa proliferar as colônias ditas “selvagens”, ou seja, construídas sem “autorização” (aos olhos do direito internacional, são todas ilegais). A cada encontro com líderes estrangeiros, um ministro israelense anuncia que seu país vai reduzir os bloqueios nas estradas. Eles tornaram a vida diária infernal, na Cisjordânia e na região da Grande Jerusalém. Impedem as pessoas de chegar ao trabalho, os estudantes de freqüentar a universidade, os doentes e mulheres grávidas de ser atendidos nos hospitais [2]. Porém, a despeito das promessas, um relatório das Nações Unidas revela que o número de bloqueios chegou a 572, ou seja, registrou um aumento de 52% em relação aos 376 bloqueios existentes em agosto de 2005 [3].

O exército constrói ainda, e por toda parte, estradas de apartheid. E a palavra é usada aqui em seu sentido literal, pois elas são reservadas aos colonos israelenses e proibidas aos palestinos. Quanto ao “muro da separação”, o exército faz pouco das decisões, ainda que muito modestas, da Suprema Corte israelense. Enquanto essa decidia, após longuíssimas deliberações, modificar o traçado do muro ao sul da montanha de Hebron, o exército construía um minimuro suplementar no trajeto original rejeitado pela Suprema Corte. Como explica Haggai Alon, conselheiro do ministro da Defesa para assuntos que afetam a vida cotidiana dos palestinos: “O Tsahal agiu em descompasso com a política do governo e se portou como se ele fosse o exército dos colonos. Foi sempre assim, mesmo quando o general Halutz passou a ocupar o posto de chefe do Estado-Maior” [4].

Independente de serem arqui-nacionalistas ou moderadamente liberais, os generais compartilham um desejo de aumentar os orçamentos que lhes são alocados. Até mesmo o general Ehud Barak, ex-primeiro ministro e atual ministro da Defesa ? que havia se pronunciado, há alguns anos, em favor de um exército “pequeno mas inteligente” ?, preconiza atualmente a formação de duas brigadas suplementares de infantaria. Seu projeto visa atender a um fenômeno que inquieta o Estado-Maior: o número de jovens isentos do serviço militar obrigatório. Segundo as últimas estatísticas, um em cada quatro jovens está nestas condições, sendo que a metade se constitui de religiosos praticantes que preferem a escola rabínica ao Exército. Em breve, explica Barak, o Tsahal não será mais o exército do povo, mas da metade do povo. A criação de brigadas de infantaria corresponde, também, a uma nova análise: as futuras guerras não serão baseadas na tecnologia, mas na presença territorial (o Iraque é um exemplo).

A Comissão Brodet, assim chamada em referência a seu presidente, publicou, em maio de 2007, um relatório criticando os gastos assombrosos das diferentes armas da Defesa Nacional [5]. No entanto, em suas conclusões, ela aprova quase todas as recomendações do Estado-Maior, propondo um aumento de despesas de 13 bilhões de euros ao longo de dez anos. Ao que acrescenta 1,4 bilhão para cobrir as despesas da segunda guerra do Líbano. Enfim, lembremos do aumento da ajuda militar a Israel anunciada pelo presidente Bush no último verão ? cerca de 21 bilhões de euros ao longo de dez anos, destinados diretamente ao orçamento da Defesa.

Uma força que se impõe ao poder civil,
dirigida por falcão que sabota a possível pas com palestinos

Geralmente dirigidas por antigos oficiais, as indústrias de armamento israelenses têm-se constituído, há muito tempo, em um poderoso grupo de pressão, impondo aos políticos estratégias de aliança baseadas nas vendas de armas, do Chile de Augusto Pinochet à Mianmar da ditadura militar. A onda de privatizações, entretanto, enfraqueceu o setor, que vive um dos momentos mais difíceis de sua história, à exceção da indústria aeronáutica, com 80% de sua produção exportada.

Uma das maneiras mais eficazes às quais recorre o establishment militar para impor seu ponto de vista ao poder civil consiste em apresentar “informações secretas”. Foi assim ao impor a ofensiva contra o Líbano no verão de 2006, ou o bombardeio de um alvo na Síria em setembro de 2007. Há quarenta anos, durante a crise de 1967, um golpe esteve bem perto de acontecer, quando o Estado-Maior deu um ultimato ao primeiro-ministro da época, Levi Eshkol, para forçá-lo a empreender uma guerra “preventiva” contra o Egito de Gamal Abdel Nasser [6].

Barak é um exemplo dos inúmeros generais reformados que passaram do exército à política. O “soldado mais condecorado da história de Israel” se opôs, enquanto chefe do Estado-Maior, aos acordos iniciais de Oslo (setembro de 1993). Uma vez ministro do Interior, votou contra os acordos de Oslo II (setembro de 1995), os quais previam a retirada do exército israelense das principais cidades palestinas. Ele fala em paz com os árabes, mas expressa ao mesmo tempo o desprezo que estes lhe inspiram e declara que sua cultura se baseia “na mentira”. Israel, a seus olhos, representa uma “vila ajardinada em meio à selva”.

Barak carrega uma responsabilidade histórica pelo fracasso na cúpula de Camp David (2000) ? a tal ponto que os pacifistas o classificam como um “criminoso de paz”. Sabe-se atualmente que as supostas “proposições gerais” que teria feito a Iasser Arafat, e que este teria rejeitado, nada mais eram que um embuste [7].

Barak é, também, o homem que deu seu aval à visita provocativa de Ariel Sharon à Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém, no fim de setembro de 2000, origem da segunda Intifada. E, a respeito das negociações atuais entre Ehud Olmert e Mahmud Abbas, ele declara que são “inúteis”, que não existe “nenhuma chance de se chegar a um acordo com os palestinos” e que “é impossível saber a diferença entre o Hamas e o Fatah” [8].

Derrotados no Líbano, o exército e seus aliados civis
lançam-se às provocações irresponsáveis

Mas nem todo general é “mal” e nem todo político é “bonzinho”. O almirante reformado Ami Ayalon, um pacifista notório, criou com Sari Nusseibeh, presidente palestino da Universidade Al-Quds, o movimento pela paz Censo Nacional (ou A Voz do Povo), que conclama israelenses e palestinos a compor dois Estados ao longo das fronteiras de 1967. Esse ano, Ayalon candidatou-se à direção do Partido Trabalhista, mas foi derrotado por pouco por Barak, graças ao voto dos militantes árabes. Esses haviam sido alimentados com promessas feitas pelo general Fuad Ben-Eliezer, um judeu iraquiano que fala o árabe e se encarregara de obter para Barak a adesão de aldeias inteiras. E Barak, que se tornou milionário em alguns anos, também “comprou” inúmeros votos dos eleitores árabes [9].

Às vezes, os militares deixam aos civis a responsabilidade de defender posições extremistas. Assim, Ivet Liberman, líder do partido russófono Israel Beteinu e ministro dos Assuntos Estratégicos, que ficou conhecido ao ameaçar bombardear a barragem de Assuan, no Egito, declarou recentemente: “Quando houver o próximo confronto com o Hizbollah, é preciso destruir a Síria, bombardear suas refinarias, sua infra-estrutura, seus aeroportos, o palácio presidencial, os ministérios. É preciso esmigalhar sua vontade de combater, assim como os Esta



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