APAGAR A MEMÓRIA DA ZONA DE CONFINAMENTO DA PROSTITUIÇÃO EM SÃO PAULO

Itaboca, a rua de tristes memórias

A rua Itaboca já não existe mais, teve seu nome alterado para Professor Cesare Lombroso em 02/05/1958, a pedido do vereador Jacob Zveibil, mas, desde 1954, um ano após a extinção da zona de confinamento do baixo meretrício do Bom Retiro, vários políticos tentaram alterar os nomes das ruas Aimorés e Itaboca, ruas que perfaziam entre si um confinamento legalmente estabelecido pelo Interventor Federal em São Paulo, Adhemar de Barros

Quando existia a saudosa Rua Itaboca, eu digo saudosa porque vejo tantos homens lamentando a extinção da zona do meretrício. Quando eu ia lá e via as mulheres mais nojentas e perguntava:

— Onde vocês foram criadas?

— No Abrigo de Menores.

— Vocês sabem ler?

— Não! Por quê? Você é padre?

Eu parava a interrogação. Elas não sabiam ler, nem cuidar de uma casa. A única coisa que elas conhecem minuciosamente e podem lecionar e dar diplomas é pornografia.

(Carolina Maria de Jesus, Quarto de Despejo)

Ainda hoje, para os moradores mais antigos do Bom Retiro, se alguém perguntar onde fica a rua Professor Cesare Lombroso, a maioria vai dizer que não conhece essa rua, mas, se alguém lembrar que é a antiga rua Itaboca que mudou de nome, rapidamente todo mundo sabe muito bem onde fica.

As ruas Itaboca e Aimorés também estiveram presentes nas memórias do ator Lima Duarte, que frequentou a zona em sua juventude e, alguns anos atrás, repetiu estas mesmas lembranças, dizendo que foi à zona, onde conheceu uma judia francesa que o ensinou a fazer o seu primeiro teste na Rádio Tupi de São Paulo. Após muitos anos sem falar no tema, retomou a memória destas ruas em um discurso proferido na entrega do prêmio APCA, em 5 de maio. Ali, Duarte relembrou de forma diversa a presença de mulheres negras na rua Itaboca, enquanto a Aimorés teria em sua zona mulheres brancas.

A rua Itaboca já não existe mais, teve seu nome alterado para Professor Cesare Lombroso em 02/05/1958, a pedido do vereador Jacob Zveibil, mas, desde 1954, um ano após a extinção da zona de confinamento do baixo meretrício do Bom Retiro, vários políticos tentaram alterar os nomes das ruas Aimorés e Itaboca, ruas que perfaziam entre si um confinamento legalmente estabelecido pelo Interventor Federal em São Paulo, Adhemar de Barros. A intenção era clara: apagar a memória da Zona de confinamento da prostituição em São Paulo.

Crédito: Paula Janovitch/Acervo pessoal

Como observa Paul Ricoeur em A história, a memória e o esquecimento, os processos de lembrança e apagamento nunca são neutros, mas atravessados por disputas sobre aquilo que uma sociedade escolhe preservar, silenciar ou deformar. No caso da antiga Itaboca, a alteração do nome da rua aparece como parte de uma tentativa de reorganizar não apenas o espaço urbano, mas também as memórias consideradas indesejáveis sobre a cidade e sobre as mulheres que ali viveram.

Ainda assim, por mais que um nome de rua seja alterado, é impossível apagar completamente a memória de um lugar. As memórias sobrevivem para além da vontade dos governantes e das tentativas oficiais de reorganizar o passado, ainda que um simples nome de rua carregue em si escolhas políticas, sociais, morais e de uma época sobre aquilo que deve ser lembrado ou apagado. A antiga Itaboca demonstra também os limites desse esquecimento imposto: a cidade continua guardando marcas, relatos e experiências que resistem ao desaparecimento.

Difícil de acreditar que a cidade teve durante treze anos um confinamento de trabalhadoras sexuais no Bom Retiro, mas isso de fato ocorreu. Em 1940, Adhemar de Barros, em relatório apresentado ao Presidente da República Getúlio Vargas, anuncia sua decisão de confinar o baixo meretrício da área central, justificando tal atitude na ação preventiva da Delegacia de Costumes, que havia atravessado um período de grande agitação, especialmente no que se referia à localização deste que tendia “a se alastrar com enorme prejuízo para a sociedade.”

A escolha das ruas Aimorés e da antiga Itaboca, no Bom Retiro, como local do confinamento do “mal que se alastrava pela área central”, parece não ter se dado por mero acaso. As duas ruas tomam a forma de uma ferradura que tem o paredão de pedra das linhas de trem das antigas estradas de ferro da Sorocabana e da Santos-Jundiaí como uma barreira física, hoje ainda existente, e que margeia a linha dos trens da CPTM que ainda chegam à Estação da Luz.

O local seria, ao mesmo tempo, uma área distante do centro, mas facilmente acessível para os clientes pela Estação da Luz ou mesmo pela Alameda Nothmann, caminho provável pelo qual as primeiras levas de mais ou menos cinquenta mulheres oriundas da região de Santa Efigênia chegaram nos camburões da polícia de costumes numa noite do início de 1940, na mesma noite em que o clube de futebol amador de várzea, o Anhanguera, comemorava na rua Itaboca a vitória do “Torneio Monstro”, o fino campeonato do futebol amador. Nas memórias do clube Anhanguera, os jogadores valsaram até de madrugada com as “cabrochas nuas” quando foram interrompidos pelas “barcas do desinfectório” e recolhidos por técnicos da saúde por atentado ao pudor.

No início do século XX, o Bom Retiro era um bairro tipicamente operário, como o Brás e a Barra Funda, com forte presença de italianos, portugueses e afrodescendentes. Só se configurou como um bairro judaico no final dos anos 1930, tendo a rua José Paulino como sua vitrine comercial mais importante. Naquele tempo, o comércio, a produção têxtil e a moradia se concentravam num mesmo endereço. As lojas da rua José Paulino davam fundos para a rua Aimorés, onde, a partir de então, funcionaria o que o escritor João Antonio identificou como um “braseiro isolado, mas que não incomodava ninguém fora dali” (João Antonio, Leão de Chácara: Um conto da boca do lixo).

Mas, se para João Antonio o braseiro era isolado, para os moradores do Bom Retiro a presença repentina de uma zona de prostituição circunvizinha às suas casas e comércios causava um desarranjo geral.

Meninas que moravam na rua José Paulino e arredores, ao irem para a escola, eram advertidas pelos pais a não olharem para o lado das ruas Aimorés e Itaboca; já os meninos, com libido à flor da pele, permitiam-se subir em escadas no quintal das casas ou se refugiar nas primeiras portas das acanhadas ruas da zona a fim de observar o desfile das mulheres que faziam ruídos estranhos para chamarem os homens e usavam roupas de dormir em pleno dia.

Para a assistente social Elvira Furlan, ao entrar na zona do meretrício no ano de 1950 a fim de fazer seus registros e observações profissionais, o que chamava a atenção era a ruína moral das mulheres que ali viviam. Em seu levantamento, ela calculava que ali moravam ou trabalhavam entre 1400 e 1500 pessoas. Em seus registros fotográficos, podemos ver dois postos antivenéreos, um particular, outro público, e ainda um posto policial, além de mulheres em situações precárias e trajes diminutos através das janelas ou nas portas das diversas casas da zona.

Elvira Furlan, c. 1950. (Crédito: Paula Janovitch/Acervo pessoal)

Furlan fazia uma estimativa de que havia mais ou menos 140 a 150 pensões noturnas em funcionamento no confinamento, e uma média de dez mulheres habitando cada casa. Os alvarás controlavam o funcionamento das casas, mas eram todos precários, provisórios e de curta duração, o que indicava o quanto do funcionamento das casas passava por negociações paralelas entre proprietários, gerentes e fiscais municipais. Ao entrar nas casas, observava a precariedade interna das pensões. Todos os cômodos viravam quartos, até o vão das escadas se transformava em local de trabalho. Sem cozinha, o quintal, repleto de roupas brancas estendidas no varal, era onde as mulheres tomavam a tradicional média com pão francês. Nos documentos da prefeitura, também se encontram vários pedidos para reformas e ampliação no número de cômodos dos imóveis, alcovas cada vez mais diminutas, sem janelas, insalubres, onde mulheres não só moravam, mas também recebiam os homens que frequentavam a zona.

A Saúde Pública divulgava, em 1947, que 80% das mulheres que trabalhavam na zona do baixo meretrício do Bom Retiro estava contaminadas por sífilis. “Ein crainque” era a forma como as prostitutas de origem judaica, as famosas polacas, avisavam suas companheiras quando um homem aparecia doente. Dizem que esta expressão em ídiche, língua dos judeus do Leste Europeu, deu origem à nossa “encrenca”. Nos beirais das casas da zona também havia os medicamentos caseiros, a planta de guiné, talvez contrapondo-se à presença duvidosa dos postos preventivos e à vigilância sanitária sobre os corpos das mulheres. Já os homens permaneciam livres para ir e vir.

A rua Aimorés era a rua mais valorizada da zona, a das mulheres mais caras. O Salão Azul da rua Aimorés é lembrado no Conto da Boca do Lixo, de João Antonio, como “o endereço de Ivete, francesa, de 31 anos e quinze de putaria, a casa mais cara da zona”. Já a Itaboca era a rua das mulheres mais baratas, como lembrou também Lima Duarte em seu discurso, quando disse que as mulheres da rua Itaboca custavam “três merréis” e eram todas negras, enquanto as mulheres brancas da rua Aimorés custavam “cinco merréis”.

Ao contrário do que o imaginário que se perpetuou sobre a zona do meretrício, a maioria das mulheres que trabalhavam ali não eram estrangeiras, mas sim uma maioria de mulheres brasileiras, e muitas eram negras. Muitas delas mais velhas e gerentes das pensões noturnas. Nuto Santanna, em seu romance Aimorés, registrou também a frequência de travestis dentro da zona, conhecidas à época como “invertidos”.

As casas tinham suas fachadas originais alteradas com venezianas coloridas; através delas, podia-se ver a silhueta das mulheres. As mais doentes, ao contrário do que se possa imaginar, continuavam trabalhando, ficavam na “rótula”, uma espécie de treliça, e para elas as gerentes mandavam os homens mais bêbados, desatentos ou com doenças venéreas.

Elvira Furlan, c. 1950. (Crédito: Paula Janovitch/Acervo pessoal)

Em 1953, o Governador Lucas Nogueira Garcez fechou a Zona; eram tempos de abolicionismo e não ficava bem para o país manter profissionais do sexo em áreas de confinamento. A partir dessa decisão de Garcez, homem não entrava mais lá. Diante do fechamento da Zona, ocorreu uma revolta das meretrizes; duas delas partiram para a rua José Paulino e se atracaram com um comerciante. Paulinho Perna Torta, personagem de João Antonio, observava tudo escondido atrás de uma caixa d’água.

As mulheres se espalharam novamente pelo centro, foram fazer o trottoir, ganhar a vida nas calçadas. A maioria delas se negou a mudar de vida e constituir família, retomaram suas redes de apoio, as negociações com a polícia. A Boca do Lixo e do Luxo formaram os territórios informais da prostituição em São Paulo a partir de então.

A lembrança das ruas Itaboca e Aimorés acabou apagada, permanecendo apenas em discursos daqueles que as frequentaram ou as viram, ainda que, de certa maneira, a memória possa trair esses homens e as frases sobre elas saiam de forma que as mulheres que viveram na Itaboca sejam lembradas de maneira triste, assim como no relato da escritora Carolina Maria de Jesus. Vale lembrar que Lombroso, que hoje dá nome à rua, foi um médico que ajudou a propagar ideias racistas e eugênicas e também foi autor de A mulher delinquente: a prostituta e a mulher normal, reforçando não só a escolha pelo novo nome da rua, mas também o que se pretendia apagar ali.

Rua Professor Cesare Lombroso (Crédito: Lucas Rosin)

Hoje, o que resta da Itaboca são lembranças tristes e apenas uma placa da Memória Paulistana bem na frente da placa com o nome de Cesare Lombroso, que lembra que, ao longo daquele muro, milhares de mulheres viveram, morreram, sorriram e trabalharam.

A lembrança de Carolina Maria de Jesus, assim como a de Lima Duarte ao comentar a presença das mulheres pretas na rua mais barata da Zona, revela o quanto as memórias são frágeis e pouco abordadas ou amplificadas pelos documentos históricos. Estes, infelizmente, silenciam ou oferecem poucos registros sobre a voz de uma maioria de mulheres brasileiras, negras, que apenas surgem nas rememorações duras daqueles tempos.

 

Maíra Cunha Rosin é graduação em História e Licenciatura pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, tem mestrado em História Social pela Universidade de São Paulo (2014), doutorado em Arquitetura e Urbanismo pela USP(2021)  e pós-doutorado na New York University (NYU) (2025). Atualmente é pesquisadora de pós-doutorado na Universidade Federal de São Paulo, onde participa do Grupo CAPPH (Cidade, Arquitetura e Preservação em Perspectiva Histórica)

Paula Ester Janovitche possui graduação e mestrado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1988), tem doutorado em Faculdade de História pela Universidade São Paulo (2004). Tem experiência na área de comunicação, com ênfase em história da imprensa de humor e cultura urbana, atuando principalmente nos seguintes temas: história de são paulo, patrimônio histórico, preservação, restauração, educação, urbanismo, editoração de conteúdo e linguagem humorística.

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