Jacques Fux: ‘Vejo que a literatura nasce da memória familiar, mas alcança um campo universal’
Em entrevista, autor fala sobre obras recém-publicadas, inteligência artificial e psicanálise
Jaques Fux, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura e duas vezes finalista do Jabuti, é um dos escritores mais versáteis e prolíficos da literatura brasileira contemporânea. Somente em 2025, foram muitos os projetos realizados, com destaque para os recém-lançados Uma impostora em Harvard, Benny, o inventor (ilustrado por Lalan Bessoni), Circenses (escrito em conjunto com Gerson Mazer) e Para que suas lágrimas parem de jorrar (escrito em conjunto com Maria Dutilh e Julie Dutilh), além da tradução que fez, ao lado de Fernanda Ferreira dos Santos, para Bouvard e Pécuchet, de Gustave Flaubert.
Nos últimos anos, ele tem se dedicado a temas como a memória, o silêncio e o trauma transgeracional. Tudo isso vem acompanhado de um constante diálogo com a psicanálise. “Acho que eu não teria me tornado escritor se não tivesse feito análise desde os meus 16 anos. Também sou um leitor interessado e acredito que esse mergulho no ‘eu’ permite elaborar, vasculhar e revelar algumas características importantes e que permite dar mais densidade e profundidade ao literário e ao humano”, disse o autor.
Ao longo da entrevista ao Le Monde Diplomatique Brasil, Jacques Fux também falou sobre as novas obras e sua rotina como escritor.

Confira na íntegra:
De que forma a sua experiência como pesquisador em Harvard, de 2012 a 2014, contribuiu para o seu novo livro Uma impostora em Harvard?
O livro descreve casos e encontros que vivi em Harvard, mas sempre com algum argumento literário, com algum engendramento crítico e teórico. Minha experiência em Harvard foi sensacional, mas, assim como a narradora, me sentia um grande impostor. O livro também conversa com a literatura e a vida (em Harvard) de David Foster Wallace, que morou perto de mim e também passou por alguns apuros. A orelha da Maria Homem descreve bem o que o livro quer passar: “Você, com seu martelo de Nietzsche, não deixou pedra sobre pedra. Você, sempre sagaz e sarcástico, com o humor que te é característico – a você e à longa tradição judaica do chiste, como bem estudou Freud – revelou as entranhas ridículas e tão ternamente infantis de todos nós, sempre desejando cavar um imaginário lugar ao sol no panteão dos pretensos gênios que passam pelos templos sagrados da modernidade, como as academias e institutos, que continuam criando deuses, agora terrenos, que chamam gênios e ganham prêmios nobeis ou ignóbeis. Este livro é a dessacralização crassa da pompa e circunstância da academia. O que eu poderia dizer? Que gostei de ter lido o livro por também ter passado um tempo em Harvard e reconhecido os prédios, as personagens, as emoções? Que me deliciei como uma voyeuse com a saborosa gama de histórias desse microcosmo complexo que você tão bem coletou? Mas isso é pouco e não faz jus a este livro. Nem à impostora nem a Harvard”.
Você também está com um lançamento na literatura infanto-juvenil: Benny, o inventor, com ilustrações de Lalan Bessoni. Como tem sido a experiência de escrever para o público infantil? Acredita que mais adultos também deveriam ler literatura infanto-juvenil? Por quê?
Esse já é o meu nono livro infantil e tem sido uma grande alegria! É um público receptivo para o lúdico, o divertido e o criativo. Mas esse livro é diferente e mais querido em todos os aspectos. Conto a história de um dia do meu irmão Benny, que tem paralisia cerebral. Ao escrever sobre ele, descobri que escrevo também sobre a minha própria vida e as minhas limitações. Vejo que a literatura nasce da memória familiar, mas alcança um campo universal, capaz de questionar os modos de ver e de narrar a diferença. Ao articular texto, imagem e recursos de acessibilidade, Benny, o inventor quer mostrar que a diferença é uma força criadora e dizer que a literatura para crianças – e também para adultos – pode ser ao mesmo tempo lírica, inventiva, inclusiva e universal
Famílias judias aparecem constantemente em sua obra. Em seu livro Circenses, escrito em conjunto com Gerson Mazer, é dito no epílogo que a família retratada na obra pode ser a família de qualquer outro escritor judeu. Quais aproximações e distanciamentos existem nessa família específica em relação à sua?
Circenses deseja contemplar os equilibrismos de todas as famílias diaspóricas, por isso abraça a minha família e também a do Gerson. O circo é metáfora de sobrevivência, de fugas e migrações. Por isso, a arte, as lutas e os traumas aparecem no livro como um espetáculo. O nosso livro oferece não apenas memórias judaicas, narrativas de migrantes ou ecos de artistas circenses, mas também trata das questões humanas, da necessidade de sobreviver em meio a desafios e perseguições, das sortes, acasos e encontros que mudam o destino.
A memória tem sido um tema relevante para você, especialmente nos últimos anos. Para que suas lágrimas parem de jorrar, escrito em conjunto com Maria Dutilh e Julie Dutilh é um exemplo disso, ao acompanhar a saga de uma família que viveu na Europa nos séculos XIX e XX, sofreu os horrores das Guerras e foi capaz de recomeçar a vida no Brasil. Acredita que a memória é um dos grandes temas da literatura?
Para que suas lágrimas parem de jorrar narra uma história que começa numa aldeia pequena na costa da Grécia, continua na Holanda e chega ao Brasil. Três países, diversas diásporas e traumas. O livro que tirar do silêncio uma ferida que precisa ser cicatrizada. Dar vida e voz a segredos, dores e sentimentos que precisam apaziguar. Além disso, o livro contém fotos, documentos e pesquisas. Como diz Susan Sontag (numa das epigrafes): “O que o registro fotográfico confirma e, mais modestamente, que a pessoa existe; por isso eles nunca são demais. A fotografia não se limita a reproduzir o real, recicla-o, o que constitui um processo-chave de uma sociedade moderna”. Sim, a memória é sempre um grande tema e, nesse caso, ela é concebida e engendrada na forma de um romance, com diversas vozes, invenções e descobertas para acessar a “verdade”. Acredito que essa “verdade” só possa ser alcançada num romance literário.
Você também é tradutor, inclusive acaba de traduzir, ao lado de Fernanda Ferreira dos Santos, Bouvard e Pécuchet, de Gustave Flaubert. A obra ainda reúne notas e texto crítico escrito por vocês. Como foi traduzir Flaubert?
Escolhemos fazer uma nova tradução, com extensas notas e textos críticos do clássico de Flaubert, pois (penso) não há livro mais atual que Bouvard e Pécuchet. Nenhum outro vislumbrou com tamanha destreza a idiotice humanaque (atualmente e sempre) domina o mundo! Em tempos de textos, trabalhos e artigos feitos por ChatGPT, de conhecimentos adquiridos por grupos de ódio no Whatsapp e no Telegram, do distanciamento aos livros, da negação à ciência e à história, e do culto às bolhas autoritárias e extremistas, o livro de Flaubert nos apresenta a “bíblia” da idiotice! Um texto satírico e sarcástico que mostra a ignorância humana!
Sua produção literária apresenta um constante diálogo com a psicanálise. Como isso começou? Qual é a importância da psicanálise para o seu processo criativo?
Acho que eu não teria me tornado escritor se não tivesse feito análise desde os meus 16 anos. Também sou um leitor interessado e acredito que esse mergulho no “eu” permite elaborar, vasculhar e revelar algumas características importantes e que permite dar mais densidade e profundidade ao literário e ao humano. Há uma cena que gosto muito no Uma impostora em Harvard na qual o grande Nicolau Svecenko fala exatamente dessa busca (humana e literária) do que é mais precioso e fundamental (e psicanalítico): “Em 2001, o então professor da USP, que se tornaria em 2009 catedrático de Harvard, Nicolau Sevcenko foi inquirido por Antônio Abujamra (meu veterano na Maison Du Brésil), em seu programa ‘Provocações’: “além do suicídio, o que você nos aconselha?” Nicolau,com a leveza deum sábio, a erudição e humildade de um mestre, sorriu “Uau!” e, após uma gargalhada nervosa, nos saudou com um propósito: “Eu espero que não. Espero pelo contrário. Que (continuar) seja um grande gesto de amor à vida, de amor ao ser humano, de tentar lutar contra esses processos que tentam colocar outros princípios e outros valores à frente do ser humano, à frente da natureza e à frente da nossa relação harmoniosa uns com os outros, como irmãos que somos da mesma espécie. Enfim, é para isso que nascemos, para sermos felizes epara vivermos em harmonia com a natureza”. Interrompido e provocado por Abujamra, “Isso é religioso?”, Nicolau continuou: “Não. Eu acho que isso é ético. Que isso é humano. Eu acho que isso é a inspiração que todos nós trazemos do berço.”
Você é um autor que produz bastante, mas sempre com profundidade e qualidade. Como é sua rotina de escrita?
Gosto de escrever bem cedinho, acho que é o único momento que consigo não me distrair com toda essa tecnologia que nos torna cada vez mais ignorantes (Bouvard e Pécuchet teriam se deliciado com essas IAs desnorteadoras e falsárias). Gosto de ler livros engendrados e diferentes, e hoje não tenho mais vergonha de largar um livro quando ele não me prende. E por isso busco com ansiedade e angústia escrever livros que prendam os leitores (e isso é sempre muito difícil).
Bruno Inácio é jornalista, mestre em comunicação e autor de Desprazeres existenciais em colapso (Patuá), Desemprego e outras heresias (Sabiá Livros) e De repente nenhum som (Sabiá Livros). É colaborador do Le Monde Diplomatique Brasil, Jornal Rascunho e São Paulo Review e tem textos publicados em veículos como Rolling Stone Brasil e Estado de Minas.

