Largue a tela, leia um livro!
Uma vida submetida integralmente à velocidade corre o risco de perder a capacidade de contemplação
Quem ainda senta no silêncio para encarar um Tolstói, um Proust, um Thomas Mann, um Gustave Flaubert, um Euclides da Cunha, um Guimarães Rosa? E quem ainda se atreve a abrir um Dom Quixote, Oblómov, Os Miseráveis, Buddenbrook, Vida e Destino, As Mil e Uma Noites, Os Irmãos Karamazov, O Homem Sem Qualidades, O Tempo e o Vento, Tocaia Grande, Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta? A pergunta parece simples, mas talvez esconda uma das grandes questões culturais do nosso tempo: o que estamos fazendo com a nossa capacidade de ler?
E a literatura exige tempo e estamos perdendo, pouco a pouco, a disposição para permanecer diante de algo que exige tempo. Um romance de seiscentas, oitocentas ou mil páginas, ou mais, não cabe na lógica do imediatismo. Não pode ser consumido enquanto se espera o elevador, entre duas notificações ou durante alguns minutos de intervalo. Um grande romance pede silêncio, concentração, memória. Pede que o leitor aceite não saber imediatamente onde a história vai chegar. Talvez seja justamente isso que esteja em conflito com o espírito do nosso tempo.
Vivemos cercados por telas que disputam permanentemente a nossa atenção. Rolamos páginas, vídeos e imagens em uma sequência praticamente interminável. Um conteúdo substitui o outro antes mesmo que tenhamos tempo de assimilá-lo. A novidade não está mais em descobrir algo, mas em descobrir o próximo.
Com a leitura é diferente, ou seja, funciona de maneira inversa. Ela não nos oferece a próxima coisa. Ela nos convida a permanecer. Há algo de “revolucionário” em desligar o celular, afastar as notificações e permanecer durante uma hora diante de algumas páginas. É um gesto de resistência contra a velocidade. Não porque toda tecnologia seja inimiga da cultura, mas porque uma vida submetida integralmente à velocidade corre o risco de perder a capacidade de contemplação.
Quanto a isso, Zygmunt Bauman chamou atenção para a fluidez das relações e das estruturas da modernidade contemporânea. Tudo parece provisório, substituível, descartável. Até mesmo a atenção humana entrou nessa lógica. Consumimos notícias, opiniões, imagens, vídeos e até ideias como quem percorre uma prateleira de supermercado. A literatura, porém, não funciona assim. Um personagem precisa de tempo para existir. Uma paisagem precisa de tempo para ser percebida. Uma tragédia precisa de tempo para amadurecer. Uma ideia precisa de tempo para incomodar.

Emma Bovary não cabe em um vídeo de quinze segundos. Hans Castorp não pode ser compreendido em um resumo de algumas linhas. Diadorim não é apenas um personagem de uma história sobre o sertão. Fantine não é somente uma mulher pobre de Os Miseráveis. Oblómov não é simplesmente um homem preguiçoso. Quaderna não é apenas um personagem excêntrico em busca de um reino perdido. A literatura não entrega apenas histórias; ela constrói experiências. É por isso que ler um grande romance é também viajar. Viajar sem sair do lugar.
Podemos atravessar os mares com Simbad, perder-nos nas histórias de Sherazade, conversar com Tieta do Agreste, acompanhar Emma Bovary em seus sonhos e frustrações, subir A Montanha Mágica ao lado de Hans Castorp, atravessar o sertão com Diadorim e Riobaldo, caminhar pelas terras do Sul com Ana Terra e Capitão Rodrigo, sentir o sofrimento de Fantine pelas ruas de Paris, acompanhar Maheude e os mineiros de Germinal na luta pela sobrevivência ou entrar no universo delirante de Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna. A cada livro, uma época. A cada personagem, uma possibilidade de existência. A cada página, uma janela.
É justamente aí que reside a força da literatura. O leitor não sai exatamente igual de um grande romance. Pode até fechar o livro sem concordar com o autor, sem gostar dos personagens ou sem encontrar respostas para suas próprias perguntas. Mas alguma coisa se deslocou. A literatura nos obriga a habitar outras consciências. Coloca-nos diante de pessoas que pensam, amam, sofrem e desejam de maneiras diferentes das nossas. E talvez esse seja um dos últimos grandes espaços de encontro em uma sociedade cada vez mais fragmentada.
Quando lemos Tolstói, entramos na Rússia de outro século. Quando lemos Flaubert, encontramos uma sociedade burguesa em transformação. Quando atravessamos as páginas de Euclides da Cunha, somos confrontados com um Brasil profundo, marcado pela violência, pela desigualdade e pelo abandono. Quando lemos Jorge Amado, penetramos no coração que bombeia cultura para Brasil a fora, a Bahia. Quando lemos Guimarães Rosa, descobrimos que o sertão pode ser geografia, linguagem, filosofia e existência ao mesmo tempo. Quando lemos Graciliano Ramos, adentramos num país flagelado pela seca. A literatura amplia o mundo porque amplia aquilo que conseguimos imaginar.
Mas há um paradoxo. Nunca tivemos tanto acesso aos livros e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenha sido tão difícil encontrar tempo para lê-los. Bibliotecas inteiras cabem dentro de um aparelho. Obras que antes eram raras estão disponíveis em poucos cliques. Podemos carregar dezenas de romances no bolso. O que parece faltar não é acesso. É atenção!
Talvez por isso os grandes calhamaços estejam se transformando em objetos de decoração. Livros alinhados nas estantes, fotografados, exibidos, organizados por cor enquanto permanecem intocados. Tornaram-se, em alguns casos, sinais exteriores de cultura, quando sua verdadeira função é outra: serem abertos, riscados, dobrados, emprestados, esquecidos sobre a mesa e retomados no dia seguinte. Um livro não foi feito para combinar com o sofá. Foi feito para interromper a nossa vida. E é precisamente essa interrupção que pode nos salvar da superficialidade.
Não é necessário transformar a leitura em obrigação. Nem estabelecer uma competição sobre quem leu mais clássicos. A literatura não deveria ser um vestibular permanente de erudição. Há livros difíceis, livros divertidos, livros ruins, livros maravilhosos. Há momentos para Dostoiévski e momentos para uma crônica de poucas páginas, como Conto de Natal de Charles Dickens, ou mesmo a história do Analista de Bagé de Luiz Fernando Verissimo, ou ainda Leão de Chácara de João Antônio. O importante é recuperar o prazer de ler. Sentar. Abrir. Começar. E permanecer.
No mundo das telas, de dopamina, o desafio é encontrar leitores. Não milhões. Não multidões. Apenas aqueles que ainda acreditam que algumas histórias merecem ser escritas, contadas e romanceadas; aqueles que aceitam atravessar centenas de páginas para descobrir que, ao final, não encontraram apenas uma história, mas alguma coisa de si mesmos. Porque um livro não precisa ser lido por todos. Precisa encontrar alguém. Alguém disposto a deixar a tela de lado por algumas horas. Alguém disposto a trocar a rolagem infinita por uma página. Alguém disposto a suportar o silêncio.
Então, leitores, fica o convite, quase uma provocação: largue a tela. Pegue um livro. Desligue por um instante o ruído do mundo. Abra Tolstói. Flaubert. Proust. Thomas Mann. Euclides. Guimarães Rosa. Machado de Assis. Lima Barreto. Abra Olhai os Lírios do Campo, O Quinze, Memorias Póstumas de Braz Cuba, Fogo Morto, Boa do Inferno, As Minas de Prata ou qualquer outro livro de sua preferência. Não procure apenas uma história. Procure um mundo. Uma cultura. E, quem sabe, ao terminar a última página, você descubra que o mundo que encontrou dentro do livro também estava, silenciosamente, dentro de você.
Boa leitura!
Juliano Giassi Goularti é doutor pelo Instituto de Economia da UNICAMP.

