Le Bataclan, 2015; Altamont, 1969. Música e (anti)multiculturalismo - Le Monde Diplomatique

ATENTADOS EM PARIS

Le Bataclan, 2015; Altamont, 1969. Música e (anti)multiculturalismo

por Itamar Alves
16 de novembro de 2015
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Espera-se que o que ocorreu em Paris possa também permitir que as questões que levaram aos horrores da sexta-feira 13 sejam discutidas com a profundidade que merecem. Provavelmente, no curto prazo, não será o caso. A resposta imediata será tão chucra quanto os atentados.Itamar Alves


Rolling Stones, 1966, Altamont (Califórnia) EUA

Na última sexta-feira, ataques terroristas coordenados deixaram mais de 130 mortos em diversos pontos de Paris. Dentre estes, o massacre ocorrido dentro da casa de shows Le Bataclan foi o pior, tanto em números (cerca de 100 mortos), quanto em desespero, já que se tratava de um local fechado.

A banda californiana Eagles of Death Metal estava no meio da canção “Kiss The Devil” quando três homens armados começaram a descarregar seus rifles kalashnikov no meio do público. Chama a atenção nos relatos de sobreviventes a aparente calma dos assassinos, bem como a quase ausência de mensagens ideológicas berradas antes ou durante a ação.

Para além da análise das motivações fundamentalistas e dos significados político, humanitário e estratégico-territorial que a sexta-feira conteve, há um elemento de coincidência em encruzilhada temporal de imaginário popular. Encruzilhada de fins e de afetos/efeitos psicossomáticos relevantes.

Em 1969, os Rolling Stones tocaram em um festival em Altamont, Califórnia. Último dos grandes festivais contra-culturais da segunda metade da década de 1960, Altamont tornou-se o espelho em negativo de Woodstock: atmosfera violenta do início ao fim, a morte de Meredith Hunter por facadas de um Hell’s Angel durante a música “Under My Thumb” entrou para uma certa mitologia como o fim dos festivais paz-e-amor, do sonho hippie e da década do amor livre.

Às relações interessantes: os Stones eram uma banda de blues rock que havia dado guinada, um par de anos antes, para o flerte com um satanismo debochado e ultra-sexualizado; a Eagles of Death Metal (EDM) é uma banda de blues rock que usa desse mesmo artifício, carregando no “debochado” da equação. Hunter levou a facada mortal em 1969 durante “Under My Thumb”, mas a maioria das pessoas associa a morte com “Sympathy For The Devil”, canção-símbolo daquele momento dos Stones, porque os grandes problemas começaram quando tocavam esta; o tiroteio no Bataclan foi detonado quando o EDM executava “Kiss The Devil”. Os Stones são europeus, Altamont fica na Califórnia; a EDM é californiana tocando na Europa. E, principalmente, Altamont foi o fim de uma ideia; talvez seja possível dizer que o que ocorreu no Bataclan também tenha sido.

À crescente polarização hostil entre população europeia e imigrantes quanto à convivência urbana, construiu-se um ideal multiculturalista como saída para a tensão. Há uma enorme literatura disponível sobre o tema; como exemplo prático, pode ser destacado o artigo escrito em novembro de 2012 pelo professor de estudos europeus na Universidade de Oxford Timothy Garton Ash para a revista New York Review of Books¹, no qual ele procura mapear o significado da proposta multicultural dentro de um arcabouço liberal.

O texto de Garton Ash segue a receita básica do conceito (é preciso conviver, já que não há outra forma), enquanto carrega nas tintas ocidentais para que essa fórmula não seja problematizada (funcionará desde que o ideário iluminista-europeu do século xviii seja a baliza-mestra). O multiculturalismo assim proposto é mera hierarquização de blocos de pensamento, do superior ocidental ao inferior seja-lá-de-onde-vier. Aceita-se a diferença e necessidade de dar espaço a todos, mas de modo condicionante à (assim vista) importância atávica de cada estrutura social.

O caso do Bataclan enterra essa visão pseudo-includente e promove necessidade de problematização bem mais complexa da questão de fluxos migratórios e convivência urbana no âmbito da sociedade globalizada. Do mesmo modo, Altamont em 1969 desmontou de maneira bastante radical o que se tinha como possibilidade de sociedade a partir da contra-cultura pós-1965. Aos “locais mágicos” onde se deram os dois eventos, um terreirão em campo aberto na Califórnia; um cerimonial fechado em Paris confluíram energias que empurraram os “despossuídos do sonho” pros eventos centrais: arruaceiros e demais marginalizados em Altamont; terroristas e imigrantes em Paris.

São dois fins que ensejam começos. O sonho hippie esfaqueado em 1969 mutou em contrafluxo reacionário pesado na década seguinte e estigmatização de drogas (aqui começa a política pelo governo dos EUA de internacionalizar — leia-se América Latina — a guerra a entorpecentes) e do sujeito “inadequadamente contra-cultural”. Yuppização e devastação de comunidades carentes pelo vício seguiriam.

Por outro lado, o momento contra-cultural dos 60 abriu portas para discussão do que é ser “adequadamente social” que não puderam ser fechadas. Sexo, drogas e quaisquer formas de chocar a existência — portanto permitindo que experiências, no sentido que Walter Benjamin deu ao termo, pudessem ocorrer — passaram a, cada vez mais, pautar discussões socioculturais.

Espera-se que o que ocorreu em Paris possa também permitir que as questões que levaram aos horrores da sexta-feira 13 sejam discutidas com a profundidade que merecem. Provavelmente, no curto prazo, não será o caso. A resposta imediata será tão chucra quanto os atentados.

Se fizer com que a discussão rasa de multiculturalismo seja derrubada, entretanto, algo de bom já será colhido dentre os efeitos.

Itamar Alves é jornalista.



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