Leonardo Boff: mudar as mentes, mudar o mundo - Le Monde Diplomatique

ENTREVISTA

Leonardo Boff: mudar as mentes, mudar o mundo

por Silvio Caccia Bava
1 de outubro de 2010
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A questão ambiental vai adquirindo uma prioridade incontornável para a própria sobrevivência do planeta. Boff acredita que superar esse momento significa superar o capitalismo, mas as condições políticas não estão dadas para essas mudanças. Cada um tem suas responsabilidades e cabe às igrejas sensibilizar os fiéisSilvio Caccia Bava

LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL – Como tratar o tema do aquecimento global e dos seus efeitos, especialmente nas cidades brasileiras, olhando para esse modelo de desenvolvimento? 

  

LEONARDO BOFF – Eu creio que o governo do PT deve acumular mais consciência crítica sobre essas questões para poder reformular políticas que sejam adequadas às novas situações da Terra. Nós não estamos apenas dentro de uma crise, nós estamos dentro de uma irreversibilidade, isso é, a Terra mudou, nunca mais será como antes, pouco importa o que façamos. Dentro de alguns anos a Terra vai se aquecer pelo menos em dois graus Celsius, dada a acumulação já existente de dióxido de carbono, de metano e outros gases. E isso vai ter consequências desastrosas para todos os seres vivos que não conseguirem se adaptar, e também para nós, seres humanos, se não conseguirmos estratégias de evitar as consequências prejudiciais.  

  

O que falta é um conceito, é uma visão nova do mundo. Na verdade, o Projeto de Aceleração do Crescimento, o PAC, ele se remete ao século IX, nem entrou no século XX, porque ele trata a natureza como um baú de recursos e uma grande lixeira onde nós jogamos os dejetos. O PAC não estabeleceu uma relação de sinergia, de respeito aos ciclos da natureza, de aplicações de tecnologias adequadas a cada ecossistema. É o mesmo modelo para a Amazônia, para o Pampa, para o Centro-Oeste, para o Nordeste e isso, teoricamente, é um erro fundamental.  

  

Dada a sua dimensão geológica, geoecológica, dada a riqueza dessa natureza brasileira com as grandes florestas úmidas, abundância de água e as maiores terras cultiváveis do mundo, é preciso que esses fatores que são decisivos para que a Terra encontre aqui um novo equilíbrio que seja bom para a vida. E essa visão eu vejo ausente no governo. 

  

DIPLOMATIQUE – Quais são os riscos que nós estamos expostos pela ausência dessa visão? 

  

BOFF – Esses bilhões que estão sendo investidos agora podem ser que, daqui a 15, 20 anos, sejam totalmente perdidos. É que nós teríamos destruído aquelas bases ecológicas, físico-químicas, florestais, que serão fundamentais para a humanidade.  

  

A importância da água doce, a escassez da água potável, talvez seja, no plano imediato, mais grave que o aquecimento. E o Brasil é a potência das águas, 13% de todas as águas doces do mundo fluem aqui no Brasil. O risco é que nós não possamos oferecer mais esse bem da natureza, que é mais do que um recurso que vai para o mercado, é um bem da natureza, um serviço.  

  

Outro risco é se houver um cruzamento entre o aquecimento global e a escassez de água. Poderá haver uma destruição de safras de ordem inimaginável, produzindo então fome, milhões de refugiados climáticos, refugiados por falta de água. Tudo isso o Brasil pode ajudar a equilibrar, mas precisamos de políticas responsáveis, com estratégias visando o futuro e fazendo frente aos cenários dramáticos, nossa atuação é indispensável para o equilíbrio do planeta e para as necessidades da humanidade. 

  

DIPLOMATIQUE – Quais são as políticas que nós teríamos que adotar? 

  

BOFF – A primeira coisa é fazer uma ampla discussão na sociedade brasileira – desde as escolas – sobre o aquecimento global e que tipo de relação nós queremos estabelecer com a Terra. Nós precisamos produzir para atender às demandas humanas, mas também atender às demandas da comunidade de vida, porque não somos os únicos que utilizamos a biosfera e precisamos da biodiversidade para sobreviver. Nós precisamos compreender a Terra como uma grande mãe; ou como a nova astrofísica, a nova biologia, a terra como Gaia, como um superorganismo vivo; e o ser humano como uma parte pensante, a parte inteligente, a parte sensitiva desse fenômeno da Terra.  

  

Não podemos sacrificar para gerações futuras a capacidade de reposição dos recursos que usamos. É preciso que haja um equilíbrio entre as possibilidades e os limites de cada ecossistema, de cada ecorregião, de cada bacia hidrográfica. 

  

DIPLOMATIQUE – Nós temos um país que tem mais cabeças de gado do que brasileiros, como é possível compatibilizar tamanho rebanho, por exemplo, com um projeto sustentável?  

  

BOFF – Não dá para compatibilizar, não há sintonia entre modo de produção capitalista e ecologia, são realidades que se contrapõem. Porque o modo de produção capitalista superexplora o meio ambiente, degrada os ecossistemas, exaure suas capacidades regenerativas em função da acumulação. Ou nós superamos o capitalismo como modo de produção, e a sua versão política que é o neoliberalismo, ou nós podemos levar ao desaparecimento da espécie humana, ao lado de outras tantas espécies.  

  

DIPLOMATIQUE – Você visualiza ainda outras medidas possíveis para se enfrentar a crise ou essa é uma mudança cultural de longo prazo, como sinaliza essa sua resposta? 

  

BOFF – Nós nem temos o tempo suficiente para educar toda a humanidade. Temos que articular todos aqueles ensaios que estão sendo feitos no mundo inteiro, que mostram que podemos produzir sem degradar, que podemos atender às demandas humanas, e da comunidade de vida, de mil maneiras diferentes.  

  

O Fórum Social Mundial é o local onde essas experiências vem à tona. São as trocas de experiências de como guardar a semente, de como produzir de forma cooperativa, de como construir de maneira mais saudável, mil maneiras de produzir. Então o que nos falta é articular esses novos deuses que estão nascendo para que os velhos deuses possam desaparecer e morrer.  

  

Eu acho que devemos aproveitar tudo das experiências humanas, das culturas, aquilo que vem debaixo, da agricultura familiar, das pequenas empresas, dos reservatórios de sementes, formas de preservar mais água etc. Isso é, tudo aquilo que é alternativo. Não podemos fazer mais do mesmo, só que com doses diferentes, seria cair na ilusão de que “limando os dentes do lobo eu tiro a ferocidade dele, a ferocidade não está nos dentes, está no animal”. Esse animal está devorando a humanidade e a vida, ele tem que ser aposentado, e nós devemos buscar outra maneira de habitar o planeta.  

  

Tem uma frase de Hegel que eu gosto de citar nesse contexto todo: aprendemos na História que o ser humano não aprende nada da História, mas aprende tudo com o sofrimento”. Hoje, nós temos já 60 milhões de refugiados climáticos no mundo. Em cinco a sete anos nós vamos ter entre 150 a 200 milhões, isso vai criar um problema político tal que vai desestruturar os limites das nações porque essas pessoas não vão aceitar o veredicto de morte. 

  

DIPLOMATIQUE – Leonardo, você vai participar da abertura da campanha Primavera Para a Vida que a Coordenadoria Ecumênica de Serviços está empreendendo com esse tema da justiça ambiental. Na sua visão, qual é o papel das igrejas cristãs e das religiões nessa mudança de paradigma neste momento que vivemos? 

  

BOFF – Eu acho que as igrejas têm que reconhecer que, se chegamos à situação de hoje, elas são cúmplices e são também culpadas, porque cometeram erros nos seus processos de socialização, de catequização, de formação das consciências religiosas. Essa perspectiva do ser humano como dominador levou à situação de hoje, então a Igreja e as religiões todas têm que fazer essa revisão. Elas não são a solução do problema, elas são parte do problema.  

Em segundo lugar, elas têm uma função pedagógica importante, porque ensinam a reverência, o respeito, a adoração. Essa atitude de respeito, de veneração, tem que ser levada em todas as dimensões, porque é exatamente o respeito que impõe limites para o poder devorador, devastador, e isso as religiões podem fazer.  

  

Essa é a tese do meu último livro A criação, que é uma carta aberta às religiões propondo uma aliança entre as duas grandes forças que são decisivas para a vida: a força da tecnociência, que transforma o mundo, e as forças das religiões, que transformam as mentes.

Silvio Caccia Bava é diretor e editor-chefe do Le Monde Diplomatique Brasil.



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