Liderança indígena denuncia efeitos das mudanças climáticas na Unesco - Le Monde Diplomatique

COP 21 – PARIS

Liderança indígena denuncia efeitos das mudanças climáticas na Unesco

por Marie Sigrist
3 de dezembro de 2015
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Em Paris, cidade-sede da conferência climática da ONU, Txane Bane Huni Kuin, indígena do povo kaxinawá, discursou sobre a contaminação da água que afeta o seu povoMarie Sigrist

Uma semana antes da abertura da COP 21 (21ª Conferência das Partes da Convenção – Quadro das Nações Unidas sobre Mudança de Clima, realizada entre 30 de novembro a 11 de dezembro em Paris), cerca de sessenta lideranças indígenas e pesquisadores do mundo inteiro se reuniram na sede da Unesco, na capital francesa, para a Conferência Mundial “Resiliência em tempos de incerteza: os povos indígenas e as mudanças climáticas”. No encontro, representantes de vários povos autóctones denunciaram os problemas que têm enfrentado em decorrência das mudanças climáticas recentes – povos do Brasil estavam na lista.

Entre as lideranças indígenas brasileiras que estiveram presentes para a reunião, Txane Bane Huni Kuin, xamã do povo kaximawá, viajou do Acre a Paris para relatar o sofrimento do seu povo quanto ao descuido da natureza, causado pelo modo de viver ocidental. Ele tem sido recorrentemente avisado: “Meus ancestrais sabiam que isso aconteceria com o tempo: as mudanças, os desentendimentos entre pessoas, culturas e diversidades. Eles falavam: nós estamos na floresta, mas o nosso mundo vai entrar em desequilíbrio”.

Como parte de um ciclo, o modelo de vida sustentável dos kaxinawá também está sendo ameaçado. “O que você tira da natureza, você tem de devolver”, disse o xamã. Atualmente, os rituais de cantos e danças para os espíritos guardiões da natureza são recorrentes, principalmente os pedidos de chuva. Assim, há todo um esforço ritual para realizar um ciclo de limpeza: a água da chuva limpa a água poluída por produtos tóxicos que vão de sabão a detritos industriais. “A água não é feita pelo homem; ela é feita pela natureza”, afirma. Segundo ele, a água não é utilizada apenas para consumo no dia dia, mas também em rituais médicos. Medidas como infusões ou banhos terapêuticos estão ameaçadas caso a situação na região não seja revertida.

Txane também pontuou o rompimento da barragem que levou toneladas de lama tóxica ao Rio Doce, em Minas Gerais. “É uma tragédia muito forte para o ser humano, para a vida”, afirmou. “Para nós, nativos indígenas, é um dor incurável. E isso vai levar um tempo para curar.”

O curandeiro acredita que tragédias como essas ajudam a conscientizar novas gerações. Trata-se do “Xinã Bena”, um conceito do povo kaximawa que significa “novo tempo”. Segundo Txane, será o momento em que os jovens de todo o mundo aprenderão com a maior fonte de todas: a natureza.

Marie Sigrist é jornalista.



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